4 de junho de 2013

Roland de Vaux - Constituição das tribos

A tribo é um grupo autônomo de famílias que se consideram descendenes de um mesmo antepassado. Ela é denominada segundo o nome ou o sobre¬nome de seu antepassado, precedido ou não de “filhos de". Os exemplos árabes são inumeráveis. Na Bíblia, o grupo dos descendentes de Amaleque, de Edom, de Moabe, são chamados Amaleque, Edom, Moabe sem a adição de “filhos de”. Contudo, se diz “Israel” ou “filhos de Israel”, “Judá” ou “filhos de Judá” etc., e sempre “filhos de Amom”, exceto dois casos, dos quais um é textualmente incerto. No lugar de “filhos”, pode-se dizer “casa” (no senti¬do de família, descendência): “a casa de Israel”, sobretudo, “a casa de José”. Os textos assírios seguem o mesmo costume para designar os grupos aramaicos que viviam em condições análogas às dos primeiros israelitas: bit (casa de) Yakin e mar (filho de) Yakin, ou bit Adini e marAdini. Inclusive, a propósito dos israelitas sedentários do Reino do Norte depois de Omri, dizem: bit Humri e mar Humri.

O que une então os membros de uma mesma tribo é o vínculo de sangue, real ou suposto: todos são considerados “irmãos”, em um sentido amplo. Abimeleque diz a todo o clã de sua mãe: “Lembrai-vos de que sou vosso osso e carne” Jz 9.2. Todos os membros do clã de Davi são para ele “irmãos”, I Sm 20.29, e a todos os Anciãos de Judá ele diz: “Vós sois meus irmãos, meu osso e minha carne”, 2 Sm 19.13. Cada tribo possui tradições próprias sobre o antepassado do qual pretende descender. Essas tradições não são sempre verí¬dicas, mas, independentemente de seu valor, o importante é que o nômade pense que é do mesmo sangue que os outros membros da tribo e que as rela¬ções entre as diferentes tribos se expressem também como relações de paren¬tesco. Segundo isto, toda a organização social do deserto se resume em uma árvore genealógica.
Essa idéia dirigiu, no princípio do Islão, a composição das grandes genealogias, cujo material foi reunido por Wüstenfeld. Cada tribo se reporta a um antepassado único, e duas tribos aliadas se reportam a dois antepassados que eram irmãos em sentido próprio. Essas genealogias, que podem ser exatas quando se trata de um pequeno grupo, resultam inevitavelmente arbitrárias e artificiais quando se quer estendê-las no espaço e no tempo. Na região do médio Eufrates há um conjunto de pequenas tribos, dedicadas à criação de ovelhas, que se chamam os agêdâí, isto é, os “confederados”. O nome expres¬sa muito bem o modo como se formou o agrupamento; contudo, essa união política e econômica é expressa em um quadro genealógico. Esse procedi¬mento conduziu à invenção de antepassados epônimos. Há uma tribo chamada Khoza‘ar os “separados”, porque se separaram dos Azd no momento da gran¬de dispersão iemenita: os genealogistas lhe deram um antepassado individual, que denominam Khoza ‘a. Da mesma forma, os Kholodj, isto é, os “transporta¬dos”, assim chamados porque Omar I os transferiu dos ‘Adwân aos Al-Harit; mas, segundo os genealogistas, Kholodi é um sobrenome de Qais, o filho de Al-Harit.
De fato, além da descendência de sangue, muitos outros elementos podem intervir na constituição de uma tribo. A comunidade de moradia conduz à fusão de grupos familiares. Elementos fracos são absorvidos por um ambiente mais forte, ou muitos grupos fracos se juntam para formar uma unidade capaz de permanecer autônoma, ou seja, capaz de resistir aos diversos ataques. Com relação aos indivíduos, sua incorporação a uma tribo pode realizar-se por ado¬ção em uma família - é um caso freqüente para os escravos que obtiveram a liberdade - ou por aceitação do sheikh ou dos Anciãos.
Contudo, o princípio é mantido, pois o recém-chegado é ligado “por nome e sangue” à tribo, ou seja, reconhece o antepassado da tribo como seu próprio antepassado, se casará dentro da tribo e fundará uma descendência. Os árabes dizem que foi “genealogizado” (raiz nasaba). Quando se trata de todo um clã, a fusão é mais lenta, mas se chega ao mesmo resultado, e os estrangeiros são finalmente considerados como sendo do mesmo sangue. Um texto de Al-Bakri o expressa muito bem: “E Nahd ben Zaid se uniram aos Bene al-Harít, se confederaram e se juntaram com eles totalmente; e os Djarm ben Rabbân se uniram com os Bene Zubaid, juntando-se e vivendo com eles, e toda a tribo, com seus confederados, foi ligada ao mesmo antepassado (nusibat).”
As tribos israelitas não escaparam a essas vicissitudes e também tiveram que absorver grupos de origem diferente. Assim, a tribo de Judá acabou aco¬lhendo os remanescentes da tribo de Simeão, e também incorporou gru¬pos estrangeiros, os calebitas, os jerameelitas etc. O processo seguido é clara¬mente indicado na Bíblia a respeito dos calebitas: eles eram originariamente alheios à confederação israelita, pois Calebe era filho de Jefoné, o quenezeu (Nn 32.12; Js 14.6,14; comparar com Gn 15.19; 36.11), mas relacionaram-se com Israel desde a estada em Cades, onde Calebe foi designado representante de Judá para a exploração de Canaã (Nm 13.6); sua integração a esta tribo vem indicada em Js 15.13; cf. Js 14.6-15. Finalmente, Calebe é ligado genealo- gicamente a Judá: o filho de Jefoné torna-se filho de Esrom, filho de Perez, filho de Judá, I Cr 2,9,18,24, e irmão de Jerameel, I Cr 2.42, outro grupo estrangeiro, I Sm 27.10, também unido ao tronco de Judá, I Cr 2.9. Sem dúvi¬da fusões semelhantes aconteceram com freqüência, especialmente no princí¬pio, e há uma parte de sistematização na concepção das “doze tribos”, sem que se possa dizer exatamente até que ponto esse sistema é artificial. Em todo caso, o número e a ordem das tribos, e às vezes seus nomes, variam segundo os textos, e essas variações provam que não se chegou de uma só vez ao siste¬ma que prevaleceu.