10 de junho de 2013

Landon Jones - Salmo 100 e a Teologia de Culto

Landon Jones
O culto nas igrejas evangélicas é um assunto que é cada vez mais discutido. Neste artigo, o autor oferece uma breve análise exegético-liberária do Salmo 100, visando a uma aplicação à igreja. A linguagem do Salmo indica que o culto em Israel antigo inclui tanto atos como ações. O Salmo implica que o culto em Israel era jubiloso e inclui música e ofertas. Era um ato comunitário e não meramente individual. O autor conclui que estas características podem servir como princípios para a prática do culto da igreja contemporânea.


O ser humano, por natureza, é um ser religioso. O interesse do ser humano nas coisas de Deus é uma prova disso. Uma maneira em que esse interesse se expressa é no culto que ele oferece a Deus. O povo de Israel não era diferente. O que distinguiu o povo de Israel dos demais povos não foi o fato que adorava a Deus, mas as características da sua adoração.
Cultuar ou adorar significa dar honra a Deus. É o ato de reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. É uma expressão externa de uma atitude interna, a convicção de que Deus merece a nossa devoção. Assim, no Antigo Testamento, cultuar é tanto um ato como uma atitude. Esses dois aspectos do culto de Israel são evidentes na linguagem que o Antigo Testamento usa para descrever a adoração. Neste artigo, eu gostaria de examinar a linguagem que se encontra num exemplo de poesia cultural, no Antigo Testamento: o Salmo 100.
O Salmo 100 é reconhecido como um hino de louvor e um convite para adorar a Deus. Este Salmo se destaca tanto pela simplicidade de linguagem como a profundidade das suas expressões teológicas. Comentando sobre o conteúdo deste Salmo, John I
Durham disse que "a combinação de mandamento e testemunho que aparece [neste Salmo] é entre a mais impressionante e notável do saltério.”[1]
Este Salmo se destaca entre todos os salmos porque é um convite para entrar na presença de JAVÉ com a única intenção de adorá-lo. A linguagem conduz os adoradores até os átrios do templo em Jerusalém onde podem contemplar a grandeza de JAVÉ e oferecer uma resposta. É um Salmo que trata tanto das atitudes do adorador como as ações do adorador. Assim, é um Salmo excelente para considerar a teologia de culto no Antigo Testamento.
Uma análise teológica do Salmo 100 deve começar pelo texto.[2] Esta análise visa expor a situação histórica do Salmo e analisar algumas palavras chave que o autor escolheu para comunicar a verdade, bem como a sintaxe das palavras no seu contexto gramatical.
O texto do Salmo Título
De acordo com o título, Salmo 100 é um mizmôr lethôdah, um Salmo de ação de graças. A palavra mizmôr, normalmente traduzida como "Salmo”, vem do verbo zmr que quer dizer "tocar música.” No contexto do Antigo Testamento e especialmente nos salmos, a palavra é usada para descrever o ato de tocar ou cantar música para adorar a Deus.[3]
É difícil determinar somente à luz do título o contexto histórico deste hino. Porque é um Salmo de ação de graças a Deus, provavelmente foi cantado durante um culto que incluiu um sacrifício oferecido a Deus. A palavra lethôdah, traduzida "ação de graças” pela NVI, pode se referir a um sacrifício de ação de graças oferecido no contexto de um culto. Levítico 7.11-15 trata da regulamentação da oferta de comunhão ou pacífica (zebach hashelamim)[4]. Conforme este regulamento, o sacrifício de ofertas pacíficas podia ser oferecido como "oferta de ação de graças”(RA[5]), todâh. Neste caso, é possível que este Salmo seja um dos hinos cantados durante uma procissão religiosa que terminou com um sacrifício no altar do templo em Jerusalém.[6] O uso de imperativos no Salmo
O convite para entrar na presença de JAVÉ e adorá-lo é apresentado pelo uso de imperativos neste Salmo. O uso da segunda pessoa plural indica que o convite é dado à congregação de pessoas reunidas para participar neste culto de ação de graças.
O primeiro imperativo convidou a congregação para oferecer uma saudação a JAVÉ em voz alta. A tradução do verbo hariu, "celebrai com júbilo”, sugerida pela RA não comunica completamente o sentido de saudar JAVÉ com a voz. Em contexto de guerra, este verbo quer dizer "gritar”.[7] Por isso, a tradução "aclamar” sugerida pela NVI e pela BJ[8] talvez seja melhor. Aclamar o JAVÉ é levantar a voz a ele no contexto de adoração e louvor. O imperativo “aclamar” é dirigido para "todos os habitantes da terra”, kal-ha’aretz, literalmente, "todas as terras.” O salmista entendeu o convite para adorar a JAVÉ como um convite universal.
Segundo, os adoradores foram convidados para “servir” a JAVÉ. O verbo ‘abad, literalmente “trabalhar” ou “lavrar”, neste contexto provavelmente quer dizer “cultuar” ou “louvar”. Por isso, a NVI traduziu o imperativo “prestem culto”. Assim, o “serviço” prestado a JAVÉ é o próprio culto de adoração. Porque o verbo é a raiz da palavra “servo” ou “escravo,” uma das implicações é que o adorador, no ato de cultuar, se submeteu a JAVÉ, reconhecendo a sua soberania na vida dele. J. Clinton McCann explicou que servir neste contexto “significa orientar a vida e existência completamente a um mestre soberano.”[9]
Terceiro, os adoradores foram convidados para entrarem na presença de JAVÉ. (vv. 2, 4) De acordo com Deuteronômio 12, JAVÉ escolheria somente um lugar para a adoração do seu nome. A cidade de Jerusalém foi reconhecida como este lugar onde o culto de JAVÉ seria realizado. Depois da conquista da cidade de Jerusalém, Davi levou a arca da aliança para dentro da cidade. Assim, Davi fortaleceu o papel de Jerusalém não somente como o centro político de Israel, mas, também, como o centro religioso. Quando Salomão construiu o templo em Jerusalém, o templo se tornou o centro religioso absoluto de Israel até depois da queda do reino do norte.[10] Assim, entrar na cidade e, especificamente, nos átrios do templo, era entrar na presença de JAVÉ. Provavelmente, o ato de entrar na presença de JAVÉ foi dramatizado por meio de uma procissão que entrava pelas portas do pátio interno do templo.
Quarto, os adoradores foram convidados para reconhecer quem é Deus no mundo. O verbo traduzido pela RA “saiba” é yada', conhecer. O verbo trata do conhecimento que vem principalmente por meio de experiência pessoal. Por isso, a NVI traduziu o verbo “reconhecer”, que comunica melhor o sentido da expressão. No contexto, o salmista chamou o povo de JAVÉ para reconhecer que somente JAVÉ é Deus e que ele é o dono do seu povo. Além de falar de JAVÉ como o dono do seu povo, o salmista descreveu também o relacionamento entre JAVÉ e seu povo como um pastor e seu rebanho, uma imagem reconhecida nos salmos.[11]
Finalmente, o salmista convidou seus ouvintes para dar graças ao nome de JAVÉ e bendizer seu nome. O verbo “dar-lhe graças” , yadah, comunica a idéia de louvar ou levantar a voz em louvor. Pelo menos uma vez, o verbo quer dizer “confessar pecado.”[12] Neste Salmo, o objeto do louvor é o nome JAVÉ. No Antigo Testamento, o nome de JAVÉ é sinônimo do próprio JAVÉ. Por isso, o nome de JAVÉ deve ser respeitado e reverenciado.[13]
O motivo do louvor neste Salmo é a bondade de Deus. O salmista disse que JAVÉ é “bom” (tôv), que a sua “benignidade” (hesed) e a sua “fidelidade” (emeth) duram para sempre. A bondade (tôv) de JAVÉ é entendida aqui em termos do seu hesed, o seu “amor leal” (NVI). Não há tempo aqui para explicar todas as implicações da palavra hesed. No Antigo Testamento, o hesed de JAVÉ é o amor que serviu como a base da aliança com Israel. JAVÉ se tornou o Deus de Israel para todo sempre e seu hesed é a garantia que cumpriria sua promessa. A permanência do amor de JAVÉ com Israel é ainda mais fortalecida pela palavra ‘emeth, traduzida pela RA e NVI como fidelidade.
O uso da preposição be
A preposição be se encontra quatro vezes neste Salmo e merece atenção. A NVI e a RA traduzem a preposição pela palavra "com” - "com alegria” (v. 2a), "com cânticos” (v. 2b), "com ações de graças” (v. 4a), e "com louvor” (v. 4b). Existem pelo menos dezesseis maneiras de interpretar o uso dessa preposição.[14] Dessas dezesseis sugestões, vamos considerar somente três.
O sentido locativo talvez seja a interpretação mais comum dessa preposição. O sentido locativo indica posição espacial ou geográfica. É usada para indicar a posição de um objeto ou pessoa. Neste sentido a tradução mais aceita seria "em” ou "no”, como, por exemplo, em Êx. 24.18 lemos que "Moisés esteve no monte quarenta dias e quarenta noites.” No contexto de Salmo 100, o sentido locativo não faz sentido porque este sentido não é utilizado para descrever situações não espaciais.
O segundo sentido possível é o instrumental. Neste sentido a preposição indica o meio pelo qual algo é feito ou a agência pela qual uma ação é executada. Um exemplo do uso instrumental se encontra em Êx. 5.3: "com pragas ou com a espada.”(NVI[15]) No livro de Salmos encontramos be neste sentido em Sl. 102.8(9H): "os que me insultam usem o meu nome para lançar maldições.” No contexto de Sl. 100, o sentido instrumental pode ser uma opção viável. Interpretada assim, gratidão e alegria se tornam o meio pelo qual JAVÉ é louvado. Mas é o sentido normativo que oferece a melhor opção de interpretação. É o sentido que Carlos Pinto chamou "modal”[16], isto é, o sentido relativo ao modo de executar uma ação. O sentido normativo ou modal expressa o estado ou a condição em que algo é executado ou feito. Descreve a condição ou estado normativo em que uma ação deve acontecer.[17] Neste sentido, a preposição pode descrever a atitude de uma pessoa, como no caso de Abraão em Gn. 15.15: "Tu, porém, irás em paz”. No contexto de Sl. 100, o sentido normativo descreve a condição ou a atitude pela qual o adorador deve cultuar a JAVÉ. Assim, a norma de adoração é de alegria e gratidão. Na minha opinião, este é o sentido em que a preposição be é usada neste Salmo.
A teologia do Salmo 100 e o convite universal para louvar
A tarefa exegética deve nos levar a considerar o que este Salmo diz sobre Deus e o relacionamento que existe entre o adorador e JAVÉ. Porque o Salmo é um convite dirigido ao povo para cultuar a JAVÉ, a teologia do Salmo por necessidade se desenvolve no "eixo” JAVÉ e a resposta do povo.[18] Neste Salmo, vamos destacar os seguintes elementos teológicos: o convite universal para louvar, adoração e serviço, a participação ativa do adorador e o motivo de adoração.
O salmista entendeu que a adoração de JAVÉ é uma atividade apropriada para o mundo inteiro. Este tema universal de adoração se repete em outros salmos também. O Salmo 66.1 faz o seguinte apelo: "Louvai a Deus com brados de júbilo, todas as terras.” Salmo 96 começa assim:
Cantai ao Senhor um cântico novo,
Cantai ao Senhor, todos os moradores da terra.[19]
Em Salmo 98.4 o apelo é idêntico ao de Salmo 100: "Celebrai com júbilo, todos os habitantes da terra.” Estes convites refletem o tema ainda mais amplo, especialmente nos salmos chamados "reais”, que JAVÉ é soberano sobre toda a terra. O salmista proclamou em Salmo 99.1:
O Senhor reina, tremam os povos;
Ele está entronizado sobre os querubins, estremeça a terra.
O Senhor é grande em Sião, e exaltado acima de todos os povos.”
Apesar dos debates históricos quanto a natureza do monoteísmo em Israel,[20]não há dúvida quanto a posição dos escritores do Antigo Testamento. Desde o início, esses escritores reconheceram que JAVÉ foi não somente o Deus de Israel, mas, também, o Deus de todas as nações. Mesmo reconhecendo a existência de outros "deuses”, ao ler o Antigo Testamento, concluímos que somente JAVÉ é Deus.[21] O salmista concluiu que, diante de um Deus soberano, a única resposta adequada para o mundo inteiro, é adorar JAVÉ.
O elemento de serviço a JAVÉ faz parte necessária da adoração de JAVÉ. No sentido mais específico, o próprio culto é "serviço” prestado a JAVÉ. O adorador prestativo deve estar pronto a dedicar-se a JAVÉ e uma forma de demonstrar a sua dedicação é por meio da sua adoração.
McCann vinculou o serviço que o adorador deve a JAVÉ ao serviço que o escravo deve prestar ao rei. Ele disse que não é por acaso que o imperativo "servi” em Salmo 100 segue imediatamente depois de Salmos 93-99. Nestes Salmos JAVÉ é exaltado como o Rei majestoso do universo. Salmo 100 chama o mundo que JAVÉ criou para adorar seu Rei.[22]
O culto em Israel foi um culto de participação. Os dias de festa, as procissões e os sacrifícios exigiam o envolvimento pessoal por parte do adorador. Os imperativos deste Salmo deixam isso muito claro.
Três atividades por parte do adorador se destacam neste Salmo:
A primeira é o uso da voz. Na primeira linha do Salmo, o salmista convidou os adoradores para levantar a voz em adoração a JAVÉ. Mais tarde, ele pediu que o povo entrasse na presença de JAVÉ com cânticos e louvores. A implicação destes convites é que o culto no Templo foi acompanhado por música. É impossível ler os salmos e deixar de notar a presença de música. Ronald B. Allen declarou: “Os salmos são música”[23].
A segunda, o salmista convidou os adoradores para entrar na presença de JAVÉ. Lugar e culto são vinculados no Antigo Testamento. Desde os dias dos patriarcas, altares para cultuar foram erguidos nos lugares onde JAVÉ se manifestou porque os hebreus associavam o culto de JAVÉ com o lugar onde JAVÉ apareceu.[24] No Êxodo, JAVÉ convidou Moisés e o povo para cultuar no Monte Sinai.[25] O próprio JAVÉ escolheu um lugar específico para o seu nome “residir” e aonde o povo ia para prestar culto a ele.[26] Jerusalém se tornou o ponto mais importante para o culto. Após a construção do Templo em Jerusalém, entrar na presença de JAVÉ significava ir a Jerusalém e participar no culto que estava sendo realizado no Templo. O elemento participativo dos cultos é claro pela linguagem de sacrifícios, também. Os verbos que descrevem os atos de sacrificar e ofertar são sempre verbos de ação. Quando o indivíduo ofereceu um sacrifício a JAVÉ, ele trouxe o sacrifício ao sacerdote e impôs suas mãos na cabeça do animal.[27] Um exemplo de um ato de culto que envolveu uma oferta encontra-se em Deuteronômio 26 que descreve a oferta das primícias da terra. Nesta ocasião, o ofertante preparava um cesto dos frutos da terra e traria ao sacerdote. Depois de deixar o cesto nas mãos do sacerdote, o ofertante recitava uma breve história dos atos de JAVÉ em favor de Israel. A lei que regulamentou a observância das festas religiosas exigiu que os homens aparecessem três vezes por ano perante JAVÉ com as suas ofertas.[28] Para o hebreu, cultuar foi participar ativamente na adoração de JAVÉ.
A terceira, o salmista convidou o adorador para contemplar a natureza de JAVÉ. Participar no culto de JAVÉ exigia a participação da mente, também. O salmista convidou os adoradores para reconhecerem que somente JAVÉ é Deus. O reconhecimento que JAVÉ é Deus é fundamental no culto hebraico. O shema' relembra-nos que
JAVÉ é teu Deus, JAVÉ somente.
Amarás, pois, a JAVÉ teu Deus De todo o teu coração,
De toda a tua vida,
E de todas as tuas forças.[29]
Reconhecer que JAVÉ é Deus exige, não somente uma ação de adoração mas, uma atitude de adoração. A adoração de JAVÉ no Antigo Testamento envolveu todos os aspectos do ser humano.
Salmo 100 tem uma função didática, também.[30] O salmista ensinou os adoradores os motivos do culto. Para este salmista, o culto de JAVÉ não é simplesmente uma atividade que ocupou espaço no calendário cultual, mas a verdadeira adoração de Deus deve ensinar algo sobre a sua natureza.
Primeiro, o Salmo ensinou a necessidade de conhecer JAVÉ pessoalmente e contemplar o relacionamento que existe entre JAVÉ e o adorador. Além de reconhecer que
JAVÉ é Elohim, o adorador deve reconhecer que ele pertence a JAVÉ. O adorador pertence a JAVÉ pelo direito de criação, que é um tema que se repete em outros salmos e nos profetas.[31] Além do relacionamento Criador-criação, o Salmo 100 fala, também, do relacionamento em termos de pastor e ovelhas, que comunica não somente soberania e controle, mas também amor e cuidado. O salmista ensinou que, quando o adorador entra na presença de JAVÉ, está entrando na presença não somente do seu Rei e Soberano, mas também do Pastor da sua alma.
No versículo cinco do Salmo, o salmista comunicou especificamente os motivos do culto. O motivo principal é a bondade de JAVÉ. Esta bondade se expressa pelo seu hesed e ‘emeth, a sua misericórdia e fidelidade. O salmista certamente conheceu a história do seu povo e como JAVÉ agiu na história de Israel para beneficiar seu povo. O hesed de JAVÉ serviu como a "garantia” da sua fidelidade de geração a geração.
Cultuar JAVÉ por causa da sua bondade é um tema que se encontra freqüentemente nos salmos.[32] O calendário cultual regulamentava os dias de festa quando Israel aparecia diante de JAVÉ para cultos formais. Mas, os escritores do Antigo Testamento certamente entenderam que o culto de JAVÉ não foi limitado aos dias de festa.[33] De acordo com McCann, para Israel, a vida de Israel foi caracterizada pela "ação de graças” e "louvor”. Ele disse: "Viver é louvar a Deus, e louvar a Deus é viver.”[34]
O que é que Salmo 100 pode oferecer à igreja do Novo Testamento quanto a questão de culto? Antes de começar, devemos reconhecer que nem este Salmo nem os demais salmos nos oferecem uma "ordem de culto” específica para o culto de Israel. Só encontramos no Antigo Testamento alusões e referências esporádicas a algumas práticas cultuais em Israel. Não existem informações suficientemente detalhadas que nos permitem elaborar precisamente como os hebreus cultuavam a JAVÉ. Mas, apesar dessa falta de informações específicas, podemos tirar algumas conclusões à luz do conteúdo dos salmos quanto a natureza do culto em Israel.
O culto em Israel espelhado no Salmo 100 pode ser resumido em duas palavras chave—atos e atitudes. Os atos de adoração se encontram principalmente nos verbos que o salmista escolheu para apresentar seu convite. Ele convidou o adorador a levantar a sua voz a JAVÉ em adoração jubilosa. O convite de cultuar a JAVÉ é, também, uma convocação para servir JAVÉ por meio da sua adoração. Os adoradores foram solicitados a entrarem na presença de JAVÉ a fim de realizarem a sua adoração. Provavelmente, o culto foi acompanhado pela oferta de sacrifícios de ação de graças.
Mas, esses atos de adoração tinham que ser acompanhados por atitudes corretas de adoração por parte do adorador. O Salmo é um Salmo de ação de graças. O adorador entrava na presença de JAVÉ oferecendo um sacrifício que simbolizava a sua gratidão a JAVÉ. Ele entrava na presença de JAVÉ com cânticos alegres e com louvores. No ato de cultuar, o adorador deu graças a JAVÉ e bendisse seu nome. Tudo isso reflete uma atitude de adoração e gratidão por parte do adorador.
À luz dos elementos teológicos e práticos deste Salmo, podemos oferecer as seguintes sugestões à igreja quanto a sua prática de adoração. Primeira, o culto é uma atividade comunitária. O Antigo Testamento reconhece o aspecto dinâmico do culto que deve ser oferecido a Deus. Adoração bíblica não é principalmente uma atividade individual, mas, por necessidade, envolve a comunidade dos fiéis. O aspecto comunitário do culto é facilitado pelo calendário. Mesmo reconhecendo que a adoração que a igreja oferece a Deus não é limitada a datas e lugares específicos, a prática de se reunir em lugares e horários específicos facilita a adoração da igreja, um fato que foi reconhecido pelo autor da carta aos Hebreus.[36]
Segunda, a participação ativa do adorador deve ser uma participação alegre e jubilosa. Este espírito jubiloso de culto foi facilitado pela música que acompanhou o culto. A música tinha um papel chave na adoração de Israel e é uma parte integral do culto cristão desde o início.[37] Sabemos que a música cantada pela igreja do Novo Testamento foi variada e incluiu "salmos, hinos e cânticos espirituais.”[38] Hoje, mas que nunca, podemos ver uma grande variedade de estilos musicais apresentados nas igrejas, desde o estilo mais formal até os estilos mais livres.[39]
Terceira, mais do que qualquer outra coisa, o culto no Antigo Testamento foi um encontro com JAVÉ, o Deus Vivo. Assim, os elementos do culto e os estilos de louvor adotados pela igreja para adorar, devem conduzir o adorador a um conhecimento mais profundo de Deus. Neste Salmo, podemos notar que todas as atividades são voltadas a um só objetivo, a adoração de JAVÉ. O conhecimento de JAVÉ é o "centro” do Salmo e a natureza de JAVÉ os motivos pelo culto. [40] A intenção do culto oferecido a JAVÉ é providenciar uma oportunidade de ter esse encontro. E todos os elementos do culto devem ser voltados a esta finalidade. A finalidade do culto deve ser um convite para o adorador verdadeiro a se submeter a JAVÉ, conhecendo a sua soberania sobre a sua vida.
O Salmo 100 apresenta-nos uma oportunidade de pensar sobre a teologia e a prática de adoração. Nos cinco versículos deste hino, encontramos uma breve mas, poderosa expressão de adoração aceitável ao Senhor. Nos versos que o salmista apresentou nestas poucas palavras líricas podemos ver um modelo de culto que une alguns dos atos e atitudes mais importantes de adoração bíblica. Durham resumiu o conteúdo deste Salmo assim:
De maneira simples e viva este Salmo diz para nós, Deus é Deus, somos dEle. Ele é eternamente bom; adoremo-lO e louvemo-lO. É linguagem que qualquer um pode entender, e linguagem a que todos devem obedecer.[41]



[1] John I Durham, “Psalms”, The Broadman Bible Commentary, vol. 4 (Nashville: Broadman Press, 1971), p.373.
[2]  "Nós só podemos conhecer a verdade de Deus pela exegese correta da Escritura.” Veja Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation (GrandRapids: Baker Books, 1970), p. 168.
[3] Veja, por exemplo, Ju. 5.3; Sl. 101.1; 105.2.
[4] A palavra zebach é uma palavra "genérica” que se refere a um sacrifício de animais. No contexto de Lev. 7.11­15, este sacrifício foi feito junto com uma oferta de "bolos sem fermento e amassados com óleo, e pão finos sem fermento untados com óleo, e bolos da melhor farinha bem amassados e misturados com óleo.” (Lv.7.12 NVI)
[5] RA - Tradução da Bíblia Revista e Atualizada no Brasil
[6]  O léxico Brown, Driver e Briggs traduz a palavra todâh no título do Salmo "oferecer uma oferta de ação de graças.” Veja A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Oxford: Clarendon Press,1979), pp.392,393, citado daqui para frente como BDB.
[7] Veja Js. 6.5 e 1Sm. 17.52.
[8] BJ - T radução da Bíblia - Bíblia de Jerusalém.
[9] A Theological Introduction to the Book of Psalms (Nashville: Abringdon Press, 1993), p. 65.
[10] Roland de Vaux, Ancient Israel, vol. 2 (New York: Magraw-Hill, 1965), p.325.
[11] Veja Sl. 23.1; 28.9; 78.52; 80.1.
[12] Pr. 28.13
[13] Veja Ex. 20.7; 22.28; Lv. 18.21; 19.12; 22.2.
[14]  Ronald J. Williams, Hebrew Sintaxe: An outline, 2nd ed. (Toronto: University of Toronto Press, 1976), pp. 44­46. Carlos Pinto reduziu as dezesseis classificações de Williams para treze. Veja Fundamentos para exegese do Antigo Testamento: Manual de sintaxe hebraica (São Paulo: Edições Vida Nova, 1998), pp. 117-120.
[15] NVI - Tradução da Bíblia Nova Versão Internacional
[16] Pinto, p. 119.
[17] BDB, p. 88
[18]  Claus Westermann desenvolveu esta idéia de forma mais ampla. Ele escreveu: “A reação do homem é simplesmente o objetivo do falar e do agir de Deus. . . O homem reage normal e espontaneamente por exclamações de louvor, de agradecimento, por votos, por orações litúrgicas no templo (Saltério).” Veja Teologia do Antigo Testamento, tradução de Frederico Dattler (São Paulo: Paulinas, 1987), pp. 24, 25.
[19]  Russell Shedd considerou este Salmo um modelo de adoração. Comentando sobre o aspecto universal do convite para adorar, ele disse: "Enquanto existir um povo ou mesmo um único homem que não reconheça que Deus é digno de receber toda a gloria, o culto será incompleto.” Veja Adoração bíblica (São Paulo: Vida Nova, 1987), p. 113.
[20] Veja, por exemplo, o artigo por H. H. Rowley, "Moisés e o monoteísmo,” em Deus no Antigo Testamento (São Paulo: ASTE, 1981), pp.103-131.
[21] Veja, por exemplo, Êx. 20.3; Dt. 4.35; 2Rs. 5.15; Is. 44.6-8; Jer. 10.1-16.
[22] McCann, p. 65.
And I will Praise Him (Grand Rapids: Kregel, 1992), p. 22
[24]  Veja Gn. 12.7; Gn. 28.18-22;
[25]  Êx. 3.12, 18.
[26]  Dt. 12.5,6.
[27]  Lv. 1.4; 3.2.
[28] Dt. 16.16
[29]  Dt. 6.4, 5. A tradução é do autor.
Veja a obra de McCann que entendeu os salmos principalmente como “torah”, instrução.
[31]  Veja Sl. 8.6; 95.6; 149.2; Is. 44.2, 21; 54.11
[32]  Veja Sl. 106.1; 119.68; 136.1-26.
[33]  Sl. 63.4; 104.33; 145.2; 146.2
[34]  McCann, p. 67.
Para ver uma comparação da adoração de Israel no Antigo Testamento e a igreja, veja Shedd, pp. 136-163.
[36]  10.25
[37] Mc. 14.26; Ef. 5.19; Cl. 3.16.
[38] Cl. 3.16
[39] Veja Paul Basden, Estilos de louvor, tradução de Emirson Justino (São Paulo: Mundo Cristão, 2000)
[40]  McCann, pp. 66, 67, chamou a nossa atenção ao fato de que o nome pessoal de Deus, JAVÉ, aparece quatro vezes e que os pronomes do v. 3 do Salmo se encontram numa forma de quiasmo: "ele . . . nos . . .(nós) somos . . . dele.”
[41] Durham, p. 373.