7 de junho de 2013

Landon Jones - Introduzindo o Antigo Testamento

Por Landon Jones

Definição

O que é o Antigo Testamento? Quando eu faço esta pergunta numa sala de aula, as respostas são variadas. Alguns dizem que o Antigo Testamento é o “complemento do Novo Testamento” ou “a promessa de Deus de enviar o Messias.” Outros destacam o aspecto histórico, dizendo que o Antigo Testamento é “a revelação progressiva de Deus para o povo hebraico”. Estas respostas mostram, em termos gerais, como o leitor ocasional ou até freqüente do Antigo Testamento pensa do seu conteúdo. Estas respostas são corretas? Na realidade, em todas essas respostas, podemos encontrar alguns aspectos da natureza do AT. A questão que ainda permanece é a seguinte: Será possível definir em poucas palavras um corpo de literatura que levou mais que mil anos para se escrever e transmitir? É possível reduzir tudo que se encontra no AT a uma só frase? Certamente, definir do Antigo Testamento não é fácil, principalmente por causa da natureza desta literatura. A resposta inclui vários aspectos importantes. Vamos esboçar alguns:


Primeiro, o Antigo Testamento pode ser chamado uma coletânea de literatura hebraica. Esta literatura foi escrita principalmente em hebraico e contem narrativas, poesias, profecias, e a sabedoria da antiga cultura hebraica até o período da restauração depois do exílio babilônico. O seu conteúdo reflete a história e a cultura da antiga nação de Israel bem como as normas e convenções da literatura do Oriente Médio em geral e do povo hebraico em particular. Por isso, a leitura e interpretação do Antigo Testamento devem levar em conta as suas características históricas, culturais e literárias.

Segundo, uma outra maneira de pensar do Antigo Testamento é como os livros sagrados da comunidade judaica. São estes livros que formam a Bíblia Hebraica, o Tanak. Estes livros preservam as tradições religiosas antigas dos judeus e são usados por esta comunidade, ao lado das suas próprias tradições, na observância dos rituais da sua religião. A influência judaica mais óbvia pode ser vista na divisão e ordem dos livros da Tanak. Este se divide em três partes: a Tora, os Nevi’im (os profetas), e os Ketuvim (os escritos). Falaremos mais sobre este aspecto do Antigo Testamento.

Terceiro, o Antigo Testamento é a primeira parte da Bíblia cristã. Como parte desta, é aceito pela igreja como escritura ao lado do Novo Testamento. Assim, a igreja deve ler o Antigo Testamento com seriedade porque é considerado inspirado por Deus. O Antigo Testamento ainda fala à igreja e deve ser usado na elaboração da doutrina e prática juntamente com o Novo Testamento.

Finalmente, o Antigo Testamento é o primeiro testamento das atividades de Deus na história da sua auto-revelação para o ser humano.  Como o primeiro “testamento”, o Antigo Testamento fala de Deus, seus atos e sua natureza no contexto da sua auto-manifestação ao povo hebraico. Também, trata da resposta que o ser humano deu a esta revelação, tanto para o bem como o mal. Para a igreja, é uma fonte confiável de conhecimento verdadeiro de Deus e é indispensável na formulação da teologia bíblica e sistemática.

As questões básicas

A questão da definição do Antigo Testamento nos leva a considerar como devemos estudá-lo. Quando abrimos o Antigo Testamento para ler ou estudar o seu conteúdo, algumas questões básicas nos enfrentam. O estudante sério do texto bíblico tem que lidar ou mais cedo ou mais tarde com estas questões.

A questão do texto

A primeira é a questão da natureza do próprio texto. O Antigo Testamento foi escrito principalmente em hebraico, com alguns trechos em aramaico. São línguas desconhecidas pela maioria dos leitores bíblicos modernos. Mesmo com traduções contemporâneas modernas, nem sempre o sentido de uma palavra ou expressão é claro. Felizmente, uma leitura comparativa das traduções modernas pode ajudar o leitor entender melhor o sentido original das palavras e expressões bíblicas. Mas, para o estudante sério das escrituras, um conhecimento básico das línguas bíblicas é de valor imenso na leitura e interpretação do Antigo Testamento.

Porque nós não temos os manuscritos originais do Antigo Testamento, o nosso conhecimento do conteúdo vem por meio das copias e versões antigas que foram preservadas. Existem vários manuscritos antigos ao nosso dispor para o estudo do texto e transmissão do Antigo Testamento. O mais importante dos manuscritos hebraicos é o Texto Masorético, um texto “padrão” produzido pelos masoretas, escribas judaicos encarregados pela tarefa de copiar e preservar o texto hebraico. Este “texto padrão” apareceu acerca de 500 dC e foi baseado em textos mais antigos. Um dos manuscritos masoréticos mais importantes é o Códice de Leningrado B19, escrito acerca de 1008 dC e que forma a base da Bíblia Hebraica Stuttgartencia (BHS), uma das edições mais recentes da Bíblia Hebraica.

Além do manuscrito masoréitco, uma outra fonte importante de informações sobre o conteúdo do texto do Antigo Testamento são os rolos do Mar Morto. Entre os rolos, temos exemplos dos manuscritos hebraicos mais antigos que existem. Os textos do Mar Morto representam uma tradição textual não-masorético, isto é, um manuscrito que não foi utilizado pelos masoretas na produção do texto padrão. Os textos do Mar Morto mais antigos foram escritos acerca de 200 aC por membros de um grupo de indivíduos conhecidos como os essênios, uma seita judaica que se separou do judaísmo da Palestina e se estabeleceu na beira do Mar Morto para esperar a vinda do “Mestre de Justiça.” Enquanto o grupo esperava, passava o tempo estudando as escrituras, praticando os seus rituais religiosos e fazendo cópias e comentários dos textos do Antigos Testamento. Algumas desses manuscritos foram preservados no deserto até a descoberta em 1948.

Versões são outros exemplos de textos do Antigo Testamento. Uma versão é um manuscrito não-hebraico, isto é, uma tradução antiga do Antigo Testamento. A versão mais importante é a Septuaginta (LXX), uma tradução grega do texto. A história da tradução desta versão não é totalmente conhecida, mas, sabemos que provavelmente foi produzida no terceiro século aC de um manuscrito hebraico desconhecido. A LXX foi usada, primeiro pelos judeus e depois, pelos cristãos. Quando autores do Novo Testamento precisavam citar o Antigo Testamento, a LXX foi o manuscrito normalmente usado. Além disso, é usado pelos tradutores contemporâneos do Antigo Testamento como fonte de leituras comparativas quando o texto hebraico é difícil, corrupto ou ambíguo.

A questão das fontes

Uma segunda questão é a questão das fontes do Antigo Testamento.[1] De onde veio o texto do Antigo Testamento? Como chegou até nós?  Infelizmente, a história da produção e transmissão do texto hebraico não é conhecida completamente e o próprio texto nos dá poucas informações específicas. O texto indica que, desde as épocas remotas dos antepassados de Israel até o fim da época do Antigo Testamento, Deus comunicou-se com seus servos. A natureza desta comunicação nem sempre é conhecida. Uma das frases mais comuns no Antigo Testamento é “e Deus disse . . .”  Os autores originais não explicaram como Deus falou. Muitos especialistas acreditam que estas revelações foram transmitidas oralmente de geração a geração antes de serem escritas. A única coisa que podemos afirmar é que foram aceitas como comunicações diretas e legítimas de Deus para seus servos.

Aos poucos, as falas de Deus, as narrativas da história do povo de Israel, as falas dos profetas e as suas poesias foram preservados por escrito, criando um corpo literário. O texto bíblico nos dá algumas indicações deste processo. Em Êx. 17.14, lemos que Deus ordenou que Moisés escrevesse o relato na batalha entre os israelitas e os amalequitas. Outros exemplos podem ser encontrados em Êx. 24.4; 34.27; Nu. 33.2; Dt. 31.9, 19. Os livros de Reis e Crônicas registram a existência de fontes escritas que foram utilizados na compilação das narrativas do reino, como os “registros históricos do vidente Samuel, do profeta Natã e do vidente Gade” (1Cr. 29.29), “os registros históricos de Salomão” (1Rs. 11.41) e “os registros dos reis de Judá e de Israel” (2Cr. 25.26). Além destas fontes “oficiais”, proclamações e cartas foram incluídas (Es. 1.2-4; 7.12-26) e citações de livros desconhecidos, como, por exemplo, o “Livro das Guerras do SENHOR” (Nu. 21.14, 15) e o “Livro de Jasar” (Js. 10.12, 13).

A questão do cânon

Tudo isso mostra que a produção do texto do Antigo Testamento foi um processo histórico dinâmico, envolvendo pessoas e fontes conhecidas e desconhecidas. Gradualmente, as várias coleções foram juntadas para criar um corpo de literatura “autorizada.” O processo de aceitação da literatura como literatura autorizada é chamado canonização. A divisão dos livros da Bíblia Hebraica em Lei (Torá), Profetas (Nevi’im), e Escritos (Ketuvim) provavelmente reflete a ordem em que os livros foram aceitos como escritura. Certamente a autoridade da Torá, os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, foi aceita logo por causa do seu vínculo com Moisés e pelo fato de conter as leis da aliança do Sinai. Partes desta literatura foram lidas em várias ocasiões históricas de Israel, mostrando o seu valor intrínseco. Na ocasião da formação da aliança no Sinai, o “livro da aliança” foi lido, concluindo a cerimônia da confirmação da aliança. (Êx. 24.7) Mais tarde, na ocasião da renovação da aliança nos dias do Rei Josias, o “livro da lei” foi lido ao rei e depois ao povo. (2 Rs. 22.10, 11; 23.2) A leitura pública do livro da lei durante a restauração nos dias de Esdras e Neemias foi instrumental na reconstrução da sociedade pós-exílica. (Ne. 8.3, 5-8) Nesta ocasião, o povo ficou em pé para ouvir a leitura, demonstrando o reconhecimento do valor já atribuído a esta literatura.

Todavia, até o fim do período do Antigo Testamento, é impossível falar de uma “Bíblia Hebraica” ou o “Antigo Testamento” como nós temos hoje. Não se sabe a data precisa quando os livros proféticos, poéticos e sapienciais foram aceitos como escritura autorizada pela comunidade judaica. No prólogo do livro de Eclesiástico, escrito no segundo século aC, o autor fez menção das “grandes lições” que são disponíveis por meio da “lei, os profetas e os outros escritores,” (Eclo. 1.1,2) mostrando o conhecimento de livros “canônicos” nesta época. Mais tarde, Jesus demonstrou conhecimento de “livros autorizados” quando ele falou das coisas escritas sobre ele “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” (Lc. 24.44) Além disso, as citações da LXX no NT mostram que a comunidade cristã do primeiro século dC já reconheceu o valor desta coletânea para a proclamação de Jesus como o Messias. Assim, é bem provável que o conteúdo do cânon do Antigo Testamento já foi determinado, pelo menos em termos práticos, a partir do segundo século aC. A determinação do cânon “oficial” provavelmente demorou até o fim do primeiro século dC.

O evento que motivou a finalização do processo “oficial” de canonização entre os judeus provavelmente foi a destruição do Templo pelos romanos em 70 dC. Até a destruição do Templo, a cidade de Jerusalém foi o centro de atividade religiosa judaica na Palestina. Depois da invasão dos romanos e a destruição do Templo, o centro se mudou para a cidade de Jâmnia (ou Jabneh). A tradição indica que, num concílio rabínico, a questão do conteúdo “oficial” das escrituras entre os judeus foi discutida e finalmente resolvida, mas, não há consenso sobre o valor deste “concilio de Jâmnia” nem dos seus propósitos. A conclusão mais provável é que até o fim do século um dC, tanto a comunidade judaica como a cristã reconheceram a autoridade dos livros que compõe a Bíblia Hebraica hoje.[2]

A questão do cânon do Antigo Testamento não foi resolvida totalmente pelo estabelecimento de um texto “padrão.” Ainda existem diferenças entre os “cânones” usadas várias comunidades religiosas.  A tabela seguinte mostra a situação que existe hoje entre as três grandes comunidades que usam o Antigo Testamento como escritura.

A questão de autoridade

Finalmente, temos que considerar a questão da autoridade do Antigo Testamento para a igreja. A questão da autoridade do Antigo Testamento para a igreja é vinculada à canonização e à inspiração do conteúdo do Antigo Testamento. O processo de canonização, que estabeleceu a autoridade do Antigo Testamento tanto para a comunidade judaica quando a comunidade cristã foi fruto da inspiração dos textos.  No processo da canonização, vários critérios foram usados, como, por exemplo, a questão de autoria. Mas, o critério fundamental foi o da inspiração.  Os judeus e os cristãos aceitam o valor intrínseco dos livros do Antigo Testamento porque estas comunidades acreditam que quando estes livros são lidos, eles “ouviram a voz de Deus.”

Mas, a capacidade de “ouvir a voz de Deus” nos livros do Antigo Testamento não resolve completamente a questão da autoridade do Antigo Testamento. A questão tem um aspecto altamente prático. Devemos ou não guardar tudo que se encontra no Antigo Testamento? O que é que a igreja deve fazer com as leis e histórias que freqüentemente criam problemas para os leitores? Para muitos leitores do Antigo Testamento, a resposta é relativamente fácil: com a chegada de Jesus e o Novo Testamento, a igreja deve guardar tudo aquilo que combina com o Novo Testamento e os ensinamentos de Jesus e o resto é praticamente dispensável.

Mas, esta atitude é contrária à orientação que encontramos no próprio Novo Testamento. O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo, dizendo que “toda escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino.” (itálico meu) O apóstolo reconheceu que o valor do Antigo Testamento é devido principalmente à sua origem divina. O problema baseia-se principalmente na questão histórica do Antigo Testamento. Com a vinda de Jesus e o estabelecimento da igreja, muitos rituais, cerimônias e leis do Antigo Testamento parecem ultrapassados. O motivo oferecido pela igreja para o não cumprimento destas leis é que, com a vinda de Jesus, não há necessidade de cumprir tudo que se encontra no Antigo Testamento porque Jesus cumpriu a lei por nós. Certamente este é um dos princípios mais importantes do Novo Testamento e a igreja não deve abandonar esta posição. Mas, dizer que em Cristo a lei se cumpriu não é dizer, ao mesmo tempo, que estas passagens perderam o seu valor teológico para a igreja. Cabe à igreja descobrir como resgatar o sentido teológico destas passagens.

Uma solução foi proposta por John Bright.[3] Bright apelou à teologia do Antigo Testamento como uma maneira de resolver o problema. Uma das tarefas da teologia bíblica é identificar as normas teológicas de que o texto fala e ajudar o leitor a separar estas normas teológicas das formas históricas de Israel. São estas normas teológicas que servem para a igreja aproveitar o conteúdo do Antigo Testamento e não os aspectos especificamente históricos de Israel. Como Bright disse: “no Antigo Testamento, o que é normativa para nós como cristãos, reside precisamente na sua teologia—não nos detalhes da história de Israel ou na formas historicamente condicionadas no qual a fé de Israel se expressou.”[4] Bright continuou dizendo que o estudo da história de Israel deve fazer parte da tarefa teológica. Aliás, é o estudo desta histórica que dá à teologia uma base para extrair uma norma teológica que ultrapassa a particularidade histórica. Mas, é a teologia e não a história de Israel que serve como norma para a igreja.

O presente autor concorda com a posição de Bright, mesmo consciente dos problemas que esta metodologia apresenta. Nem sempre é possível identificar facilmente a norma teológica embutida na forma histórica e, mesmo identificando, nem sempre é uma tarefa fácil aplicar a norma à vida da igreja. Mas, às luz das outras possibilidades (a alegoria, por exemplo) a sugestão de Bright merece a nossa consideração. A tarefa de descobrir o sentido do Antigo Testamento e aplicar os seus ensinamentos na vida da igreja é uma tarefa que não somente vale a pena fazer, mas, é essencial se a igreja contemporânea vai ficar fiel à sua missão de proclamar a verdade sobre Deus a um mundo que necessita conhecer a verdade.

[1] A questão das fontes do Antigo Testamento é extremamente complicada quando se trata das várias hipóteses documentarias históricas. Nesta apresentação, não há espaço para um tratamento completo da questão. Para uma discussão detalhada da questão das fontes do ponto de vista crítica, veja, por exemplo, Rolf Rendtorff, A formação do Antigo Testamento, 3a ed., São Leopoldo: Sinodal, 1983 e Hans Walter Wolff, Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo São Paulo: Paulinas, 1978.

[2] Para uma discussão mais ampla da questão da canonização do Antigo Testamento, veja LaSor, William,Sanford et. Al., Introdução ao Antigo Testamento, tradução de Luci Yamakami (São Paulo: Vida Nova, 1999), pp.651-659.

[3] The Authority of the Old Testament. (Baker: Grand Rapids, 1975).

[4] Ibid., p. 147.