3 de junho de 2013

Gleason L. Archer - A Tabela das Nações em Gênesis 10

Do ponto de vista dos relacionamentos linguísticos, parece
haver uma discrepância marcante entre as afinidades históricas
entre as nações do Oriente Próximo e as que são indicadas nas
tabelas genealógicas de Gênesis 10. Por exemplo, declara-se que
Canaã é descendente de Cão (v. 6), mas os canaanitas de 2.000 a.C.
estavam falando um dialeto semítico ocidental (do qual a própria
língua hebraica é uma subdivisão). Deve ser levado em conta,
porém, que a linguagem não é fator decisivo em relacionamentos
étnicos, pois os Visigodos germânicos acabaram falando espanhol
na Espanha, os Ostrogodos, italiano na Itália, os Francos germâ-
nicos adotaram o francês na França, e os Normandos de língua
francesa acabaram adotando o inglês na Inglaterra. Correspon-
dentemente, as tribos camiticas que conquistaram a Palestina no
terceiro milênio a.C., podem ter sucumbido à influência dos vizi-
nhos de fala semítica, qualquer que tenha sido sua língua original.
Outro problema é apresentado pelo aparecimento de Seba como
sendo descendente tanto de Cão (v. 7) e de Sem (v. 28). Com toda
a probabilidade, os sabeus eram originalmente camiticos, mas seu
continuado inter-relacionamento com vizinhos semíticos na Arábia

do sul finalmente alterou sua compleixão étnica ao ponto de che-
garem a ser predominantemente semíticos. Neste caso, tanto o
relacionamento do v. 7 como o do v. 28 seriam corretos.

Quanto a Cuxe, os versículos 8-10 indicam que foi o pai de
Ninrode da Babilônia, mas seu nome veio a se associar com a
Etiópia (cf. Is 11:11; Ez 30:4 etc.), um país que os egípcios conhe-
ciam pelo nome K;sh (que pode ter sido vocalizado Küsh). O v. 6 o
define como sendo um filho de Cão, que, é claro, concorda com uma
localização na África. Do outro lado, a tribo Al Amran da Arábia
chama a região de Zebide no Iemen pelo nome Kush (Cuxe). Havia
também uma cidade importante perto de Babilônia chamada Kisb
(Quis), de onde pode ter surgido Ninrode. Somando todas estas 
evidências, Unger (AOT 83) sugere que a habitação original dos
cuxitas camíticos tenha sido na Mesopotâmia Inferior, onde Nin-
rode os ergueu a uma posição de grande poder. De lá, os cuxitas
podem muito bem ter expandido seu poderio até a região iemenita
da Arábia, e depois ter atravessado o Mar Vermelho para invadir
a Etiopia (a moderna República do Sudão), impondo seu nome no
distrito inteiro. Isto não seria mais improvável do que a coloni-
zação de Cartagínia pelos fenícios, ou a conquista da Normândia
francesa, a Inglaterra saxônica e a Sicília muçulmana pelos Nor-
mandos da Noruega. Exemplos anteriores seriam a povoação e colo-
nização da Sicília e da Itália do sul pelos gregos no sétimo e sexto
séculos a.C. Algumas autoridades incluíram no debate a pouco
conhecida tribo dos Kushu, mencionada nas inscrições egípcias do
Reino Médio como habitando as fronteiras da Síria e da Palestina.
Mas não é claro como poderiam ter surgido daí todas as nações
de Gênesis 10:7 (a maioria das quais habitava a Península da Ará-
bia) , e nem como teria sido o pano de fundo de Ninrode, a não ser
que estas tribos tenham sido povoações dos cuxitas originais da
Babilônia Inferior.

Tendo em vista o exposto, parece que A. H. Sayce   foi apres-
sado em negar a exatidão genética de Gênesis 10, interpretando-o
como sendo uma mera descrição de relacionamentos geográficos
em cuja época Canaã estava sob o domínio do Egito (e assim
seria considerado camítico, sendo que o Egito, ou Mizraim, era
descendente de Cão). Até G. E. Wright (no Westminster Atlas) con-
cede que esta lista “deve seu arranjo, de modo geral, a um ponto de
vista racial” (p. 26).

Aqui se alistam algumas das correspondências mais interes-
santes entre os nomes deste capítulo e as formas que assumem
nas inscrições acadianas. Dos descendentes de Jafé, Gômer se
identifica com os gimirriya ou gimirrai (que os gregos chamavam
cimerianos), que, descendo das montanhas do Cáucaso invadiram
a Ásia Menor, povoando a Capadócia. Madai era ancestral dos
medos, e Javan o era dos gregos (o nome parece ter sido conser-
vado nos jônios). Os descedentes de Tubal eram os Tabali, que
lutaram contra Tiglate-Pileser I cerca de 1.100 a.C., e a raça de
Meseque eram os musques que guerreavam contra Salmaneser III
no nono século. Ambos habitavam a Ásia Menor. Não sobreviveu
nenhum registro quanto aos descendentes de Magogue. Quanto 
a Tiras, parece ter sido o progenitor dos tursenoi ou tirrenos,uma
raça pelásgia que originalmente habitava a região do Egeu.

Asquenaz, da linhagem de Gômer, se identifica com os Ascuz
ou Citas, que invadiram o Oriente vindos do Norte (atravessando as
montanhas do Cáucaso) e eram antagonistas formidáveis dos assí-
rios, persas, e gregos. Pouca coisa se conhece de Rifá, e tentativa-
mente, Togarma se identifica com Tegarama no sudoeste da Ar-
mênia. Elisá, da linhagem de Javã, é Alashia, que agora usual-
mente é identificado com Chipre (cf. o Westminster Atlas), como
também o é Quitim (nome preservado na cidade de Cítio, na costa
sul da ilha). Társis tem sido associada com localidades em Sar-
denha (onde o nome tem sido descoberto em inscrições) e também
com a Espanha. Dodanim deve talvez ser vinculado aos Dardania-
nos da região ao redor de Tróia, no noroeste da Ásia Menor; os
dardana são a mesma raça, porém a maioria dos estudiosos prefere
a grafia Rodanim que aparece na passagem paralela de I Crônicas
1:7, que se refere aparentemente aos habitantes da ilha de Rodes.

Cuxe já foi mencionado. Mizraim (“Dois Distritos”) se refere
ao Egito; Pute se identifica com Puta (mencionado por Dario I),
na Cirenaica.  Deve ser feita uma distinção entre Ludim (v. 13),
ancestral dos líbios (se a leitura original é Lubim, conforme a opi-
nião de Albright) e Lude (v. 22), progenitor dos Lídios da Ásia Me-
nor. A classificação de Elão como sendo semítico (v. 22), tem sido
desafiada do ponto de vista da lingüística, visto que o elamita ou
susiana era uma língua de caráter não-semítico. Mas como esclare-
cemos, a língua não é nenhuma indicação infalível de relaciona-
mento étnico, e além disto, havia desde a antiguidade uma pene-
tração de conquistadores de fala semítica em Elão, na época da
ascendência de Sargom de Agade (ca. de 2.200 a.C.).

Quanto aos descendentes de Sem, Unger (AOT 97-99) alista
todas as informações disponíveis, que infelizmente são bastante res-
tritas. Mas quanto aos descendentes tribais de Arã e Joctã (na
Arábia), Albright  faz este comentário interessante: “O que há de
significante nos nomes dos descendentes tribais de Arã e Joctã é
que quase todos os nomes são arcaicos, não tendo sido descobertos
nas inscrições do primeiro milênio, da Assíria e da Arábia do sul.
Além disto, vários destes nomes são do tipo de nomes pessoais que
 só ocorriam no começo do segundo milênio, embora possam ter
continuado como nomes tribais durante muitos séculos depois”.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.