11 de junho de 2013

Gleason L. Archer - José e os Hicsos

Uma tradição que remonta pelo menos até a época de Josefo
(c. de 90 d.C.) declara que uma dinastia dos Hicsos reinava no Egito
quando José subiu ao poder como primeiro-ministro (ou vizir) na
corte de Faraó. Os Hicsos (corruptela da palavra egípcia heka’u
haswet ou “soberanos de países estrangeiros”) eram uma horda
algo heterogênea de invasores asiáticos, mormente de origem se-
mítica, que paulatinamente começaram por infiltrar o Egito do
norte, e finalmente chegaram ao poder supremo com seu progresso
irresistível que os levou bem para o sul do Egito. Capturando Mên-
fis, fizeram-na sua capital (juntamente com Tânis ou Aváris no
Delta) e estabeleceram as Dinastias XV e XVI. Maneto (ca. 250
a.C.) estimou seu período de domínio em até 500 anos. Mas evidên-
cia mais recente revela que seu reinado somou pouco mais de que
150 anos.  Provavelmente começaram a se infiltrar no Egito cerca
de 1900 a.C., chegando à posição de controle em 1730. 


Segundo a cronologia bíblica (supondo-se que a data de 1445
a. C. é correta para o Êxodo, e acrescentando uma permanência de
430 anos no Egito), a data provável da migração de Jacó para o
Egito durante a primazia de José foi cerca de 1870 a.C. Isto re-
presenta entre 94 e 140 anos antes da ascensão dos Hicsos, e co-
loca José na 12.a Dinastia. É óbvio que estes fatores excluem a
possibilidade da integridade da tradição de Josefo. É perfeitamente
provável que um elo de simpatia tivesse existido entre os Hicsos e
os hebreus por causa da sua língua cananita e da sua origem asiá- 
tica. O nome dum dos seus primeiros soberanos, conforme a história
de Maneto, era Salitis, marcadamente semelhante à palavra semí-
tica shallit (“soberano”). Nomes semíticos foram atribuídos a
um número significante de cidades do norte do Egito, tais como
Sucote (Êx 12:37), Baal-zefom (Êx 14:2), Migdol (Êx 14:2), e
vários outros. (Baal era aparentemente considerado o equivalente
do egípcio Suteque, ou Sete, deus das tempestades, sendo adotado
como deus-patrono das dinastias Hicsas. Daí o topônimo Baal-
zephom, “Senhor do norte”). Apesar disto, há indicações claras
no texto de Gênesis, e também em Êxodo 1, que o Faraó que deu
as boas-vindas a José era um egípcio nativo, e não um estrangeiro
semita.

Em primeiro lugar, é óbvio que o sentimento do governo egíp-
cio na época de José era fortemente adverso aos pastores. Gênesis
46:34 declara: “Porque todo pastor de rebanho é abominação para
os egípcios”. Conquanto isto tenha sido amplamente averiguado
nos monumentos dos egípcios (que freqüentemente gravavam bois
nos seus baixos-relevos, mas nunca ovelhas), dificilmente o mesmo
se poderia dizer dos Hicsos, que os egípcios de épocas posteriores
chamavam de “reis-pastores” (e de fato, é esta a tradução que
Maneto dá ao nome Hicsos, porém erroneamente).  Era, portanto,
uma dinastia nativa que ocupava o trono.  Por isto, era necessá- 
rio aos filhos de Jacó ressaltarem que possuíam gado, deixando de
mencionar os rebanhos de ovelhas, para fazer uma boa impressão
a Faraó (Gn 46:31-34).

Em segundo lugar, conforme indicou John Rea,  o primeiro
capítulo de Êxodo apresenta uma coletânea de dados que quase
impossivelmente se reconciliam com a suposição usual de que o
“novo rei sobre o Egito que não conhecera a José” tivesse sido um
egípcio da 18.a ou 19.a Dinastia. Antes de considerar estas evidên-
cias, seria bom notar que bem no começo da 18.a Dinastia, Ahmose
expulsou toda a população Hicsos do Egito (excetuando-se as pes-
soas que foram mortas a fio de espada), perseguindo-os até sua
fortaleza de Saruem, no sul da Palestina. Se então, os israelitas
tivessem sido amigos e aliados dos Hicsos (conforme comumente
se supõe), é difícil entender por que não foram expulsos juntamente.
Qual a base que os egípcios nacionalistas do rei Ahmose tinham,
para distinguir entre os hicsos e os hebreus? Não é óbvio que os
israelitas eram antagonistas dos hicsos e favoráveis aos egípcios?
Em terceiro lugar, a declaração do Faraó, citada em Êxodo
1:8-10, não teria razão de ser na boca dum egípcio nativo. Teria
sido o mais grosseiro exagero asseverar que os israelitas eram mais
numerosos do que os egípcios, mas é bem possível que fossem mais
numerosos do que a casta guerreira dos próprios hicsos. Quanto à
apreensão do rei de que pudessem fazer causa comum com os ini-
migos do governo em tempos de guerra, é difícil saber quais inimigos
poderiam ter formado uma aliança com eles, sendo que estavam
cercados por egípcios na área isolada de Gósen. Mas se o rei de
que falavam fosse um Hicso, nesse caso haveria o receio de que
fizessem causa comum com os egípcios nativos, que afinal, os tra-
tavam tão cordialmente por causa de José. A probabilidade é que
“o novo rei que não conhecera a José” fosse da dinastia dos Hicsos,
sendo ele o responsável de os hebreus trabalharem como escravos
nos seus projetos de construções. 

Em quarto lugar, em conexão com este último detalhe, temos
a evidência da cidade de Ramessés, mencionada em Êxodo 1:11.
Conforme a maneira de o texto hebraico narrar o assunto, estas
serviços forçados em Ramessés (previamente conhecida como Tânis
ou Zoan) foram feitos antes do nascimento de Moisés, que só é
mencionado no capítulo seguinte. Mas se o Êxodo ocorreu cerca
de 1290 (conforme a maioria de estudiosos modernos supõe), e se
Moisés tinha oitenta anos na época, então nasceu em 1370, uns bons
sessenta anos antes de qualquer Ramessés da 19.a Dinastia subir
ao trono do Egito. Não poderia, portanto, ter sido uma cidade
nomeada segundo Ramessés II (1299-1232 a.C.) onde os israelitas
trabalharam. Além disto, duvida-se que a cidade de Tânis (ou Zoã
ou Aváris, conforme é chamada também), pudesse ter sido edi-
ficada na 18.a Dinastia. G. E. Wright declara positivamente no
seu relatório no livro Biblical Archaeology (1957, p. 60): “Depois
de muitas escavações feitas em Tânis pelos arqueólogos Marriette,
Petrie e Montet, nenhum objeto sequer da 18.a Dinastia tem sido
achado ali. A cidade foi destruída pelo Faraó Amóse I (1570-1546),
e provavelmente não foi reocupada até ao século 14 a.C.”. Wright
entende que esta evidência indique uma data do século treze para
a cidade-armazém de Ramessés, mas isto parece ser impossibilitado
pelo fato de ter acontecido antes do nascimento de Moisés, talvez
muito tempo antes. A única possibilidade que permanece (acei-
tando-se a exatidão do registro hebraico) é que os hicsos foram
os soberanos que obrigaram os israelitas a fazerem trabalhos for-
çados em Pitom e Ramessés, e não os monarcas da 18.a Dinastia.
Naturalmente, isto levanta a dúvida: como é que Tânis chegou
a receber o nome de Ramessés, dois ou três séculos antes da ascen-
são do próprio Ramessés? Mas há motivos para se crer que Rames-
sés (ou Ramsés) é um nome que pode ter estado em voga anterior-
mente, no período dos hicsos. É altamente significativo que Seti I,
pai de Ramessés II, tenha recebido seu nome de Sete, deus-patrono
das dinastias Hicsas, o deus que era tão odiado pela 18.a Dinastia
egípcia. Albright chegou à seguinte conclusão:  “A casa dos Ra-
messés na realidade remontava até um rei hicso, cuja época se fixou
em 400 anos antes da data comemorada na ‘Festa dos 400 anos’
de Tânis. O bisavô de Ramessés II pertencia, segundo parece, a
uma antiga família de Tânis, muito possivelmente de origem hic-
sa, sendo que seu nome era Seto (Suta) ... Ramessés II estabe-
leceu sua capital e residência em Tânis, que nomeou ‘Casa de 
Ramessés’, e onde edificou um grande templo ao antigo deus de
Tânis, Sete (pronunciado na época Sütekh), que posteriormente ti-
nha sido o deus dos hicsos”. Conforme Rea indica,21 “Se a dinastia
ramessídia remonta até os soberanos hicsos, se o nome dinástico
Seti ou Seto é um nome hicso, então é igualmente provável que
o nome Ramsés ou Ramessés tenha sido um nome hicso, ou que
pelo menos tenha sido por eles empregado no Egito Inferior, onde
poucas inscrições daquele período têm sido descobertas”. Pode ser
acrescentado que o nome Ramessés (Egípcio Ra’־messu ou Ra’-
mesesu) quer dizer literalmente “gerado de Ra’ ”. O deus-sol Ra’
ou Re’ (conforme as variações vocálicas) era grandemente honrado
pelos hicsos assim como pelos próprios egípcios, pois muitos dos seus nomes reais contêm esse nome. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.