27 de junho de 2013

Gleason L. Archer - A data do Êxodo

Segundo 1 Reis 6:1, o templo de Salomão foi iniciado no quarto
ano do seu reinado (i.é., 966 ou pouco depois), citado como sendo
o ano 480 depois do Êxodo.  Assim, a data exata do Êxodo seria
1445, no terceiro ano de Amenotepe II (1447-1421). Pode ter sido
uma cifra de alguns anos para mais ou para menos, se apenas 480
deve ser considerado um número arredondado. Isto significaria
que a conquista israelita de Canaã pode ter começado com a des-
truição de Jericó cerca de 1405 (depois dos quarenta anos no
deserto). Esta data tem sido confirmada pelas escavações de John
Garstang no sítio de Jericó, Tell es-Sultan, entre 1930 e 1936. Por 
razões arqueológicas, datou a cidade do nível da Idade de Bronze
(“Cidade D”) em cerca de 1400.

Outra confirmação desta data se acha na declaração de Jefté,
registrada em Juizes 11:26, quando lembra aos invasores amonitas
que os israelitas tinham possuído a terra contestada de Gileade
por um período longo demais para agora serem desafiados pelos
amonitas quanto aos seus direitos legais: “Enquanto Israel habitou

trezentos anos em Hesbom e nas suas vilas, e em Aroer e nas suas
vilas... por que, vós, amonitas, não as recuperastes durante este
tempo?” Visto que o período de Jefté era, segundo se reconhece,
anterior à época do rei Saul (cujo reinado começou cerca de 1.050
a.C.), isto certamente faz a conquista israelita remontar até o ano 400 a.C.
Mais uma confirmação se acha em Atos 13:19,20, no comentá-
rio de Paulo, que, segundo a leitura mais antiga (conservada no
texto de Nestlé) diz: “E depois de (Deus) ter destruído sete nações
na terra de Canaã, deu-lhes sua terra por herança, vencidos cerca
de quatrocentos e cinqüenta anos: depois disto (i.é., depois da di-
visão da terra) lhes deu juizes até o profeta Samuel”. Noutras
palavras, o intervalo inclui a conquista feita pelos israelitas, e a
carreira de Samuel (entre 1405 até a morte de Samuel cerca de
1020). Assim, parece haver 65 anos a mais, mesmo calculando a
data de 1445 para o êxodo; mas aparentemente Paulo tinha em
mente a cifra de 480 de 1 Reis 6:1, da qual tirou 30 anos para
chegar aproximadamente à época de Samuel. Nem precisa ser dito
que uma data muito posterior para o Êxodo seria totalmente irre-
conciliável com Atos 13:19. 

Mas apesar deste testemunho consistente da Escritura à data
de 1445 (ou aproximadamente), o peso da opinião dos estudiosos
de hoje favorece uma data consideravelmente posterior, sendo que
a favorita no momento é 1290 a.C., ou seja, uns dez anos depois
do começo do reinado de Ramsés II. Uma data posterior ainda,
ca. de 1225, é favorecida por um número sempre menor de peritos,
(tal como H. H. Rowley), mas nas primeiras décadas do século
vinte recebeu o apoio até de conservadores como M. G. Kyle em
ISBE (datando o quinto ano de Merneptá em 1.250 a.C.) e J. D.
Davis (que colocou o quinto ano em 1320, no seu Dicionário Bíbli-
co, 4.a edição).

J. Finegan alista  cinco argumentos principais para apoiar a
data de 1290: (1) as discrepâncias entre as Cartas de Amama e o
registro hebraico (em Josué, Juizes, Samuel); (2) a aparente au-
sência duma civilização agrícola em Edom, Moabe e Amom durante
o século 14 a.C.; (3) a impossibilidade de ser reconciliada uma
permanência de 430 anos com uma data hicsa para a carreira de
José; (4) a falta de evidência de que Tutmose III tenha feito cons-
truções na região do Delta; (5) a menção da cidade de Ramessés em
Êxodo 1:11. Os argumentos serão debatidos na sua ordem numérica.
Quanto a (1), Finegan indica que as cartas do rei Abdi-
Hepa da Jerusalém cananita na correspondência de Amarna reve-
lam que sua cidade estava em perigo iminente de ser tomada pelos
Habiru; II Samuel 5:6 e segs. porém, mostra que os israelitas não
capturaram Jerusalém até o reinado de Davi. Os Habiru, portanto,
não podem ter sido os israelitas, mas uma força anterior de inva-
sores não-israelitas. Mas a falácia deste argumento é óbvia. Os
exércitos de Josué de fato ameaçaram Jerusalém, e derrotaram
suas tropas (juntamente com seus aliados de Hebrom, Jarmute,
Laquis e Eglom), na batalha de Gibeom, e seu rei, Adoni-Zede-
que, foi subseqüentemente tirado do seu esconderijo e morto
(Js 10). Mas nem nas cartas de Abdi-Hepa, nem na narrativa he-
braica em Josué, declara-se que a cidade tenha sido capturada ou
destruída. Parece que só depois da morte de Josué é que os exér-
citos de Judá conseguiram atacar Jerusalém e queimá-la (Jz 1:8),
e mesmo assim não deslocaram permanentemente os jebuseus
(Jz 1:21).

Quanto a (2), Finegan refere-se às pesquisas de Nelson Glueck
na região da Transjordânia, que não descobriram nenhuma evi-
dência de civilização urbana ou de fortalezas entre 1900 e 1300 a.C.
Isto significaria que não havia nenhum reino edomita bastante
forte para se opor ao avanço dos israelitas ao longo do lado oriental
do Mar Morto (cf. Nm 20:14-21) no ano 1405 a.C. Do mesmo modo,
não haveria qualquer coalisão moabita e midianita a ser enfren-
tada sob o rei Balaque (Nm 22-25), nem qualquer exército de Siom
e de Ogue para derrotar (Nm 21). Mas as investigações de Glueck
eram uma pesquisa de superfície, e dificilmente poderiam ser con-
sideradas completas. Além disto, mais recentemente surgiu à lume
uma nova linha de evidência que parece desmentir suas deduções.
No Biblical Archaeologist de fevereiro, 1953, G. Lankester Harding
relatou a descoberta de um túmulo antigo em Amã, contendo nu-
merosos artefatos (louça preta alfinetada, vasos com base de botão,
frascos de azeite, camafeus e broches em alfinete) datando de
cerca de 1600 a.C. Harding, em Antiquities of the Jordan (1959, p.
32) também menciona louça e outros objetos, típicos da Idade
Média de Bronze, achados em Naur e no Monte Nebo. Outras esca-
vações decerto descobrirão outros produtos deste período interme-
diário, demonstrando mais uma vez a estultícia de se tirar conclu-
sões apressadas de investigações superficiais.

Quanto a (3), a dificuldade de reconciliar a época de José
como vizir e o período Hicso no Egito (sendo que a carreira de
José deve ter sido na primeira metade do século 19 a.C. segundo
a teoria da data anterior, e visto que o reinado dos hicsos só co-
meçou cerca de 1730 a.C.), reconhece-se a discrepância. Mas, con-
forme já foi indicado, a evidência interna de Êxodo 1 indica que
foi a dinastia dos hicsos que produziu o “rei que não conhecera a
José”, e que foi a 12.a Dinastia o tempo provável da carreira de
José.  Esta objeção, com a qual se concorda, não levanta nenhuma
dificuldade quanto a uma data de 1445 para o Êxodo, e só pode ser
um empecilho para a data de 1290 (que colocaria José bem no
meio do período Hicso):

Quanto a (4), a falta de evidência das atividades de constru-
ção no Vale do Delta durante o reinado de Tutmose III (1501-1447)
é confrontada pelas indicações significantes positivas de descober-
tas arqueológicas. Sabe-se muito bem que Tutmose III erigiu dois
obeliscos de granito vermelho em frente ao templo de Ra’ em He- 
Uópolis (situada na base do Delta), um dos quais fica atualmente
em Londres, e o outro na cidade de Nova Iorque. Sendo que o mesmo
se intitula “Senhor de Heliópolis”, seria justo postular que de fato,
dirigia ele operação de construções naquela cidade. Além disto, um
escaravelho da 18.a Dinastia se refere ao nascimento de Amenotepe
II (o filho de Tutmose), como tendo ocorrido em Mênfis (23 milhas
abaixo de Heliópolis). Isto levanta uma forte suposição que Tut-
mose tinha seu quartel-general ali ocasionalmente, e que prova-
velmente o fazia a fim de firmar suas fortalezas e fazer seus prepa-
rativos para suas numerosas campanhas na Ásia. É inconcebível
que pudesse ter feito quatorze campanhas ou mais na Síria sem ter
construído quartéis, depósitos e outras estruturas em grande es-
cala, para acomodar suas tropas. A terra de Gósen com sua grande
reserva de mão-de-obra deve ter sido freqüentemente rebuscada
para estes projetos de construção. Mesmo em Tebas, bem no sul,
o túmulo do vizir Rekmire tem gravuras mostrando escravos se-
mitas trabalhando na manufatura e no transporte de tijolos.

Quanto a Amenotepe II, descobertas em Bubastis (o Pi-besete
de Ez 30:17) feitas por Naville em 1887-1889, incluem uma placa
de granito vermelho, representando Amenotepe, adorando perante
Amon-Ra’, “aquele que habita em Perunefer”. Isto nos faz pensar
no relacionamento entre Amenotepe e as docas navais de Perunefer
perto de Mênfis, sobre as quais seu pai o colocara como coman-
dante na sua mocidade. W. C. Hayes   conclui que mantinha gran-
des fazendas em Perunefer, residindo ali durante longos períodos.

Numa inscrição (ANET 244) menciona ter cavalgado dos estábulos
reais em Mênfis para visitar a Esfinge de Gizé. Tudo isto indica
que, durante o reinado de Tutmose (o Faraó da Opressão), e de
Amenotepe (o Faraó do Êxodo) — segundo a teoria da data ante-
rior — os Faraós freqüentemente tenham residido no Delta.
Quanto a (5), o apelo à cidade-tesouraria de Ramessés em
Êxodo 1:11, conforme já temos visto,  não há nenhuma possibili-
dade de se reconciliar a narrativa mosaica, conforme consta agora,
com uma data de 1290. Este trabalho na cidade de Ramessés deve
ter sido feito antes do nascimento de Moisés, a não ser que a nar-
rativa esteja fora da seqüência cronológica, e que o nome Ramessés
seja um anacronismo (e a força do argumento inteiro é que não
foi um anacronismo). Entretanto, entre 1300, data aproximada da 
acessão de Ramessés II ao trono, e 1290, não há espaço para os
oitenta anos da vida de Moisés, anterior ao acontecimento do
Êxodo. Por este motivo, não se pode levar a sério a data de 1290,
como sendo uma teoria que se possa reconciliar com a exatidão da
narrativa hebraica. Atualmente, os principais defensores deste
ponto de vista geralmente não aceitam a integridade da narrativa
mosaica, e negam (como é o caso de Meek e Albright) que as tribos
de José (Efraim e Manassés) tenham habitado no Egito, mas só
os levitas, ou talvez também a tribo de Judá. 

Pela evidência da Estela Israel de Merneptá, os aderentes da
data de 1290 insistem, com razão, que os israelitas já deveriam ter
colonizado a Palestina pelo menos até 1229 a.C., e isto dificulta
a aceitação da teoria anterior, que Merneptá (1234-1225) fosse o
Faraó do Êxodo. É uma inferência necessária que se tira da Estela
de Merneptá, de que Israel já estivesse na Palestina, habitando entre
os heteus, em Asquelom, em Gézer e entre os horeus (11.26 e segs.).
A sugestão de Kyle (no artigo sobre o Êxodo em ISBE) que “Israel
está devastado, sua descendência já não existe” se refira ao pro-
grama de oitenta anos antes, de assassinar as crianças do sexo mas-
culino, enquanto o povo estava escravizado no Egito, merece pouca
consideração.

A presença da nação hebréia na Palestina até 1229 (ou o
quinto ano de Merneptá) traz consigo certas conseqüências signi-
ficantes. Se o relatório das Escrituras de quarenta anos de peregri-
nações no deserto é correto, então os israelitas não podem ter dei-
xado o Egito depois de 1269 a.C., ou, aproximadamente, no trigé-
simo ano de Ramessés II. O texto hebraico dá a entender que Moisés
estava ausente em Midiã e Horebe pelo menos durante trinta anos,
mais provavelmente quarenta. Compare-se Êxodo 7:7, que de 
clara ter ele oitenta anos na época do Êxodo, e Atos 7:23, que
tinha mais ou menos quarenta anos quando matou o egípcio.

Noutras palavras, dificilmente Ramessés II poderia ter subido ao
trono quando ocorreu este incidente, provocando a fuga de Moisés
do Egito; mais provavelmente teria ocorrido antes da acessão de
Ramessés. Mas a implicação clara de Êxodo 4:19 (“Vai, torna para
o Egito, porque são mortos todos os que procuravam tirar-te a
vida”) é que o rei que procurava matar Moisés tinha morrido re-
centemente. O teor total de Êxodo 2 nos leva a pensar que seria
o Faraó de 1:22 quem morreu em 2:23, “depois de muitos dias”.

Seja qual for o caso, é muito improvável que a invasão de Memeptá
tivesse tido sucesso contra os triunfantes israelitas sob o General
Josué em 1229, pouco depois de entrarem na Terra Prometida. É
muito mais provável que a expedição egípcia tivesse ocorrido depois
de ter-se passado a fase inicial da Conquista. Isto faria o êxodo
remontar até a data de 1290, no mínimo, sendo, pois, absolutamente
impossível que Ramessés II pudesse ter sido o “Faraó da Opressão”.
Moisés não pode ter passado quarenta anos de exílio durante os
dez anos entre 1300 e 1290; porém era evidente que o rei que pro-
curava matar Moisés, foi aquele que morreu “depois de muitos dias”.
Não há nenhum outro Faraó que preenche os requisitos senão
Tutmose III. Só ele, além de Ramessés II, estava no trono por
tempo suficiente (54 anos, incluindo-se os 21 anos da regência de
Hatsepsute) para ser rei na época da fuga de Moisés para Midiã,
e para morrer pouco antes da chamada de Moisés ao lado da sarça
ardente, trinta ou quarenta anos mais tarde. Em caráter, era ambi-
cioso e enérgico, lançando nada menos do que dezessete campanhas
militares em dezenove anos, ocupando-se em numerosos projetos
de construção, nos quais empregava uma grande força de escravos
para mão-de-obra. Seu filho, Amenotepe II, que decerto quis imi-
tar as proezas militares do seu pai, parece que sofreu algum revés
nas suas táticas militares, porque não conseguiu levar avante qual-
quer invasão ou operação militar extensiva depois do seu quinto
ano (1445 a.C.) até a modesta campanha do seu nono ano (segundo
a Estela de Merneptá, pelo menos — a cronologia deste reinado é
um pouco confusa10). Esta fraqueza relativa do seu esforço bélico
(comparado com o do seu pai) concordaria bem com a perda do
melhor dos seus carros de batalha nas águas do Mar Vermelho
durante a desastrosa caçada aos israelitas fugitivos. 

Mais uma confirmação de Amenotepe II como sendo o “Faraó
do Êxodo”, é percebida na “Estela do Sonho” de Tutmose IV
(1421-1412), seu filho e sucessor. Apesar de Adolf Erman ter de-
monstrado de maneira convincente que a inscrição propriamente
dita seja dum período posterior (Sitzungsberichte der königlichen
preussischen Akademie der Wissenschaften, 1904), não pode haver
dúvida quanto ao representar fielmente a substância, e muitas das
palavras originais, duma inscrição autêntica erigida pelo próprio
Tutmose no século 15 a.C. Aparentemente, a esteia original sofreu
dano, de maneira séria, e foi copiada, (tanto quanto sua condição
permitia) num século posterior quando, mais uma vez, foi removida
a areia da Esfinge em Gizé. Neste texto, o deus Har-em-akht (“Horo
no horizonte”), em cuja honra, pensa-se que a Esfinge foi erigida
aparece a Tutmose num sonho quando este era mero príncipe
no lar do seu pai. Ele lhe promete o trono do Egito mediante a
condição implícita de que ele remova a areia da Esfinge.  É óbvio
que se Tutmose IV tivesse sido o filho mais velho de seu pai,
Amenotepe II, não haveria nenhum propósito numa promessa di-
vina de que um dia ele viria a ser rei. Sobrevivendo a seu pai,
teria sucedido naturalmente no trono. É uma inferência neces-
sária, portanto, de que o filho mais velho de Amenotepe tenha
morrido antes do seu pai, deixando a sucessão aberta ao seu irmão
mais jovem. Isto harmoniza bem com o registro de Êxodo 12:29
que o filho mais velho do Faraó tivesse morrido na época da dé-
cima praga.

Mais conclusivo do que isto, é a situação de Gósen durante o
reinado de Tutmose III comparada com a situação sob Ramessés II.
Na época de Ramessés, muitas das suas atividades de construção
estavam sendo feitas bem na região de Uádi Tumilate, ou Gósen, 
e isto significa que os egípcios já estavam morando ao redor da
região, e no seu meio também. Mas os detalhes das descrições das
pragas das moscas e do granizo (Êx 8:22; 9:25,26) informam com
clareza que na época do Êxodo, Gósen era habitada quase que ex-
clusivamente pelos hebreus, e as pragas que caíram sobre o restante
do Egito não afetaram Gósen. Pelo que podemos perceber da evi-
dência arqueológica atualmente disponível, não havia egípcios ha-
bitando ali na época de Tutmose.

Chegamos agora a uma consideração quanto à data da des-
truição da cidade de Jericó do período cananita ou da Idade de
Bronze Posterior (a Cidade D da pesquisa de Garstang). John
Garstang, que fez a escavação mais extensa deste sítio célebre,
chegou à conclusão que esta destruição ocorreu cerca de 1400 a.C.
Nos cemitérios pertencentes a este nível, Garstang achou numero-
sos escaravelhos, mas nenhum deles posterior aos dois de Ameno-
tepe III (1412-1376). De mais do que 150.000 fragmentos de louça
achados dentro da própria cidade, só foi descoberto um pedaço do
tipo miceniano.  Mas as louças micenianas começaram a ser im-
portadas para a Palestina em quantidades sempre mais abundantes
desde 1.400 em diante. Os critérios arqueológicos do reinado do
sucessor de Amenotepe III, Amenotepe IV ou Aquenatão (1380-
1362), são distintos, abundantes e bem estabelecidos; mas a evi-
dência de Jericó não incluía um único fragmento sequer do seu
reinado.

Garstang também descreveu os muros exteriores desta cidade
como sendo construídos de pedras grandes e pesadas, e notou que
caíram para fora (p. 249) como por um terremoto violento .3 Há
porém, considerável dúvida sobre se as muralhas pertenciam a
esta cidade do período de Bronze Posterior, ou a uma cidade ante-
rior, pois escavações mais recentes por Kathleen Kenyon  indicam
a presença de fragmentos da Idade Média de Bronze na terra que
preenche o espaço entre as duas camadas da fortificação.

Embora muitos tenham levantado objeções quanto à data re-
cuada que Garstang atribuiu à destruição de Jericó, suas objeções
têm sido grandemente influenciadas pela preferência subjetiva por
data mais avançada (parcialmente baseada na destruição de Laquis,
Betel e Debir no século treze). Respondendo a tais críticas, Gars-
tang escreveu no prefácio do seu livro Story of Jericho: “Sabemos 
que várias opiniões têm sido publicadas que entram em conflito
com nossa interpretação da data da queda de Jericó, cerca de 1.400
a. C. Poucas destas opiniões se baseiam em conhecimentos de pri-
meira mão dos resultados científicos das nossas escavações; e muitas
delas estão destituídas de raciocínios lógicos, ou se baseiam em pre-
conceitos quanto à data do Êxodo. Nenhum comentarista tem pu-
blicado até agora quaisquer evidências da existência de Cidade IV
depois do reinado de Amenotepe III, tiradas dos resultados das
nossas escavações, amplamente divulgados nos Anais de Arqueologia
de Liverpool... Não percebemos, portanto, qualquer necessidade
de se debater a data como se estivesse aberta à discussão”.

Uma objeção especiosa que às vezes é levantada contra a data
de 1.400 para a queda de Jericó, deriva-se da menção de ferramen-
tas de ferro que nela havia, segundo Josué 6:24. O argumento é o
seguinte: 1.400 cai dentro da Idade de Bronze Posterior; sendo que
o ferro era empregado em Jericó, sua queda deve ter ocorrido du-
rante a Idade do Ferro (que começou durante o século treze). Mas
isto não quer dizer necessariamente que o ferro fosse desconhecido
durante a Idade de Bronze Posterior; pode ser simplesmente que
existia em quantidades tão pequenas que a maioria das pessoas na
maioria dos lugares tinha que usar o bronze. Isto é sustentado pelo
fato que Josué 6:24 menciona o ferro juntamente com artigos de
ouro e de prata, dando a entender que o ferro deve ter sido pouco
e caro. Na verdade, sabemos que o ferro era bem conhecido já na
civilização sumeriana, e a palavra semítica para “ferro” (hebraico
barzel, acadiano parzzllu) pode até ter tido uma origem sumeriana,
pois a ortografia sumeriana da palavra é naAN.BAR.  Isto indica
que o ferro era conhecido no Vale da Mesopotâmia já no século vin-
te a.C. Além disto, artigos de ferro já têm sido achados em Tell
Asmar datando de cerca de 2.500 a.C.,  e também em Dará no
nordeste da Turquia, foi descoberta uma espada com lâmina de
ferro e alça de obsidiano, do mesmo período!

Talvez a maior dificuldade encontrada com a teoria de 1.445
se observe nas datas que atualmente são atribuídas à destruição
de algumas das outras cidades, as quais, segundo se declara, tam-
bém foram capturadas pelas forças de Josué, tais como Laquis 
(Js 10:32) e Debir (Js 10:38). Em Laquis, (Tell ed-Duweir), a
cidade da Idade de Bronze Posterior parece ter sido arrasada du-
rante o reinado de Merneptá (1234-1225), pois ali se achou não
somente um escaravelho de Ramessés II, mas também alguns cacos
de barro com a anotação, “Ano quarto”. O estilo da escrita, se-
gundo se crê, é característico da época de Merneptá, e isto talvez
indique a data de 1230 a.C.

Quanto a Debir, ou Quiriate-Séfer, identificada com Tell Beit
Mirsim, um escaravelho foi achado de Amenotepe III (1412-1376).
Finegan (LAP 140) pode citar qualquer outra evidência além desta,
para sua suposição que a camada de cinzas no nível da Idade de
Bronze Posterior represente uma destruição pouco antes de 1200
a. C. Quanto à destruição de Ai, descrita em Josué 8, isto é explicado
comumente como tendo sido uma confusão com Betel, visto que,
por razões arqueológicas, o sítio de Ai (Et-Tell) é considerado como
não habitado por humanos entre 2.200 a.C. e uma pequena povoa-
ção que havia ali entre 1.200 e 1.000 a.C. (Finegan LAP 136,
137). Mas Betel, uns dois quilômetros de lá, foi destruída por uma
tremenda conflagração durante o século treze, e o fato de Josué
não mencionar a captura de Betel dá vazão à crença que tinha sido
confundida com Ai.

Há várias observações que podem ser levantadas quanto a
estes três sítios. Em primeiro lugar, Josué 10:32 nada fala acerca
da destruição física da cidade de Laquis; só menciona extermínio
dos seus habitantes. A devastação de 1230 a.C. pode descrever um
assalto à cidade numa época posterior, a dos Juizes, depois da
cidade despovoada ter sido reocupada com a retirada das tropas de
Josué. A mesma observação se aplica também à destruição de
Debir; Josué 10:38 não declara nada quanto a arrasar os muros ou
incendiar a cidade. Além disto, a evidência citada por Finegan
parece confirmar a teoria da data recuada tanto como uma data
de 1290, visto que Amenotepe III estava no trono quando, em 1400,
os israelitas entravam em Canaã. Quanto à questão de Ai, a iden-
tificação com Betel parece ser muito tênue, sabendo-se que Betel
tinha sido um centro religioso de sagrada memória e bem conhe-
cido dos hebreus desde a época de Jacó em diante, sendo muito
duvidosa a possibilidade de vir a ser confundida com Ai. De fato,
esta teoria revela-se totalmente insustentável pelo fato de Josué 7:2:
declarar explicitamente que Ai ficava do lado oriental de Betel. Os:
historiadores antigos dificilmente teriam confundido Betel com Ai
especialmente sabendo-se que Ai nem sequer existiu como sítio 
habitado nos séculos 14 e 13. Se “Ai” era realmente Betel, então
por que “Betel” é mencionada em Josué 7:2? É mais razoável a su-
posição de que Et-Tell não seja o sítio verdadeiro de Ai; são ne-
cessárias mais explorações para a descoberta da localidade verda-
deira.  A data da destruição de Betei é, portanto, totalmente
estranha à data de Êxodo.

Um problema final, na data recuada do Êxodo, diz respeito ao
total silêncio de Juizes quanto às expedições de Seti I e de Ramessés
II na Palestina. Se estas invasões realmente ocorreram, e se o
território de Canaã foi realmente sujeitado ao poderio egípcio de-
pois da Conquista israelita, por que não se mencionam os egípcios
no meio de tais opressores? Se potências menores, tais como moa-
bitas, amonitas, cananitas do norte e filisteus foram mencionadas,
por que foi omitida a menção dos egípcios entre 1370 e 1050 (o
princípio do reinado de Saul)? Mas se o êxodo na realidade ocor-
reu em 1290, e a Conquista em 1250, não haveria a necessidade
de se esclarecer silêncio algum, pois os israelitas não teriam entra-
do no cenário até a conclusão das conquistas de Ramessés, desde
que o ano 1279 marca a assinatura do seu famoso pacto de não-
agressão com os heteus.

Respondendo a este argumento persuasivo, deve ser mencio-
nado que nem a data de 1290 nem a de 1230 esclarece o motivo de
Juizes não mencionar a invasão de Merneptá supracitada (vd p.
254). O mesmo pode ter dito das expedições de Ramessés III (1204-
1172) na Palestina. Mas este notável monarca da 20.a Dinastia
jacta-se nas suas inscrições de ter reduzido a cinzas tanto os
Tjeker (palestinos) como os filisteus (ANET 262), e seus baixos-
relevos os mostram no seu vitorioso progresso até Djahi (na costa
fenícia) para praticar mais façanhas. Monumentos do seu reinado
foram descobertos na escavação de Bete-seã, no limite oriental da
Planície de Esdrelom. Como se explica este silêncio total acerca
de Ramessés III? Certamente não pela teoria duma data avançada
de Êxodo; pois mesmo segundo aquela maneira de dedução, o rei-
nado de Ramessés III teria ocorrido na época dos Juizes. A única 
possível inferência é que a narrativa hebraica não achou por bem
citar estas invasões egípcias ocorridas depois da Conquista. Mas
se este fosse o caso indisputável das incursões de dois dos Faraós
(Merneptá e Ramessés III), por que não poderia também ter sido
o caso dos outros dois (Seti I e Ramessés II) ? Também há a pos-
sibilidade de que os hebreus não tenham mencionado os egípcios,
pelo fato de não ter havido contacto entre os dois povos. Os egípcios
eram mais ativos ao longo da planície da costa do Mediterrâneo,
onde os hebreus raras vezes chegaram a possuir algum trecho. Pri-
mariamente, os hebreus ocupavam as colinas da Judéia, da Samaría
e da Galiléia.

Em segundo lugar, é possível calcular um sincronismo bastante
satisfatório entre a história egípcia da 19.a Dinastia e o primeiro
período dos Juizes. Garstang propôs a teoria interessante de que os
períodos de “descanso” mencionados no livro dos Juizes fossem
períodos de ascendência egípcia, mas que o historiador hebreu
deliberadamente tivesse evitado a citação nominal dos egípcios por
causa duma grande antipatia contra a nação que tão cruelmente
oprimira seus antepassados em Gósen. Os períodos da opressão,
portanto, chegavam quando a influência egípcia em Canaã estava
fraca, e as tribos da área se levantavam para oprimir Israel.
Segundo este ponto de vista (essencialmente adotado por Unger
e Payne), a opressão sob Cusã-Risataim de Arã-dos-dois-rios repre-
sentava um avanço dos heteus (que já tinham subjugado o norte da
Mesopotâmia até aquela época), que aconteceu durante o reinado
de Tutancamem (segundo Unger) ou Amenotepe III (segundo
Payne). A paz de oitenta anos que seguiu ao assassinato de Eglom
por Eúde (Jz 3:12-30) coincidiu parcialmente com a pacificação
da terra por Seti I em 1318, depois do longo reinado de Ramessés I. O período de descanso que se seguia à vitória de Baraque sobre
Sisera (ca. de 1223-1183 segundo Payne) pode ter sido facilitado
pelo reinado forte de Ramessés III (1204-1172). Garstang sugere
que a “vespa” que haveria de derrotar os cananitas perante os
hebreus (segundo Êx 23:28; Dt 7:20; Js 24:12) fosse uma referên-
cia crítica ao poderio egípcio, sendo que a abelha ou a vespa eram
o símbolo do Faraó como rei do Egito Inferior, segundo a forma
hieroglífica de se escrever aquele título (egípcio b’ty). Isto é um
pouco duvidoso, porém, por motivos exegéticos. Mas permanece o
fato de que a teoria da data mais recuada não se presta facilmente
ao sincronismo entre os períodos em Juizes e a conhecida seqüência
dos acontecimentos na história do Egito. (A teoria da data mais
 avançada, porém, transforma em absurdo a totalidade da crono-
logia do Livro de Juizes). Um fator adicional que favorece o Êxodo
de 1445 acha-se nas Cartas de Amarna. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.