26 de junho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis - A torre de babel

A importância da torre de Babel está na interrupção do cumprimento do
mandato do concerto, uma característica compartilhada em comum com o casamento misto entre anjos e homens relatada em Gênesis 6.1-4. Esse ato de rebe-
lião resultou na catástrofe do Dilúvio, depois do qual a descendência de Noé “se
[espalhou] pela terra” (Gn 8.17, NVI). Semelhantemente, em consequência de o
Senhor apropriar-se da construção da torre, Ele “os espalhou [...] sobre a face de
toda a terra” (Gn 11.9). A linguagem usada é muito formulista e exata para ser
considerada coincidente. As duas histórias devem estar tratando de temas e inte-
resses comuns além da ideia geral de desobediência ao concerto adâmico. 

O que está fundamentalmente em açáo na história dos anjos e homens é
a tentativa demoníaca de frustrar o propósito de Deus de o homem frutificar e
multiplicar-se (Gn 1.28), pois a narrativa começa observando que o casamento
misto começou exatamente quando “os homens começaram a multiplicar-se”
(Gn 6.1). Seja o que for que signifique os “filhos de Deus” e as “filhas dos ho-
mens”, a relação ilícita resultou na debilitação deste aspecto do mandato. Talvez
tivessem começado a gerar uma raça de monstros geneticamente incapazes de
reprodução, levando assim ao fim da humanidade.
A história da torre de Babel revela de maneira inequívoca que os cons-
trutores da torre tinham um objetivo em mente: “Façamo-nos um nome, para
que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 11.4). Quer dizer,
recusaram-se a obedecer ao segundo elemento do mandato adâmico: “Enchei
a terra, e sujeitai-a” (Gn 1.28). Os dois episódios então associados apresentam
um retrato completo da desobediência ao concerto.
Não sem importância, porque é comum as duas histórias, é a referência aos
“valentes que houve na antiguidade, os varões de fama” (Gn 6.4) e a Ninrode
que “começou a ser poderoso na terra” (Gênesis 10.8). A conexão entre Ninrode
e a torre de Babel é evidente pela prioridade cronológica de Gênesis 11 a Gê-
nesis 10 e pelo fato de que um dos centros do reino de Ninrode era a Babilônia
(ou seja, Babel). Muito provavelmente o próprio Ninrode era um dos constru-
tores da torre. Em todo caso, a sua descrição como “poderoso” está baseada
no hebraico gibbôr, a mesma palavra traduzida por “valentes” em Gênesis 6.4.
Estes valentes eram “varões de renome” ou, literalmente, “homens do nome”.
E digno de nota que um dos desejos dos construtores da torre de Babel era que
eles fizessem para si “um nome”.
Está claro que estas duas histórias de violação do concerto apontam para o
mesmo problema de origem. O homem, encarregado como a imagem de Deus
para ser o vice-regente na terra, estava insatisfeito com essa chamada suprema e
santa e rebelou-se contra o soberano com o intuito de suplantar-lhe o domínio
e tomá-lo para si. Quis ser como Deus ou, usando a terminologia bíblica: “O
homem é como um de nós” (Gn 3.22) e “não haverá restrição para tudo o que
eles intentarem fazer” (Gn 11.6).
A resposta divina para esta desobediência tomou a forma de julgamento (o
Dilúvio e a dispersão) e de renovação do concerto (com Noé e com Abraão).

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.