21 de junho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis: Noé, um segundo Adão

O pecado do homem nos dias de Noé era atroz e doloroso ao Senhor, que
se arrependeu de ter criado o homem. Ele determinou enterrar o homem sob as
águas do mar da mesma maneira que enterrara Adão sob a superfície da terra.
As águas caóticas, que se submeteram obedientemente à mão do Criador para
que a terra seca aparecesse, agora seriam soltas pelo Criador como instrumen-
to da ira vingativa divina. Mas mesmo assim os propósitos criativos originais
não seriam frustrados e reduzidos, porque Deus começaria novamente com ou-
tro Adão, outra imagem que manteria o mandato da soberania. Claro que este
“Adão” era nada mais nada menos que Noé.


Noé, embora justo e inocente, foi escolhido não por causa da sua condição
reta, mas como objeto da graça eletiva de Deus (Gn 6.8). Essa eleição tinha
óbvias implicações salvíficas — ele foi salvo do Dilúvio —, mas, além disso, e
mais fundamentalmente, era a escolha pelo ajuste do concerto para o qual Adão
fora criado. Noé tinha de ser o começo de um novo empreendimento de com-
promisso do concerto, um novo vice-regente por meio de quem os propósitos
soberanos de Deus se tornar-se-iam realidade.

Este é, sem dúvida, o significado de Gênesis 6.18: “Mas contigo estabele-
cerei o meu pacto”. “Meu pacto” só pode se referir a algo antecedente e o único
possível antecedente é o concerto implícito por Gênesis 1.26-28.  O antigo
concerto adâmico seria estabelecido (heqim) com Noé, e tudo que o Senhor
confiara e exigira de Adão seria transferido a Noé e seus descendentes.

Quando finalmente o julgamento por água terminou, o Senhor pronunciou
a significação e especificações dos termos do concerto. Esta declaração foi pre-
faciada pela promessa solene do Senhor de nunca mais “amaldiçoar a terra” por
causa do homem, nem ele destruiria todas as criaturas vivas enquanto a história
humana mantivesse o seu curso (Gn 8.21,22). A Bíblia prossegue atestando a des-
truição e renovação última da terra por fogo, uma destruição que marcará o fim
do tempo e o começo do eterno e não-amaldiçoado reino de Deus (2 Pe 3.3-7).
O próprio texto do concerto é explicado em Gênesis 9.1-7, uma unidade
posta entre parêntesis pela declaração familiar do concerto adâmico: “Frutificai,
e multiplicai-vos, e enchei a terra” (Gn 9.1,7). A próxima parte do mandamento
para Adão: “sujeitai-a [a terra]” e “dominai sobre os peixes do mar” e assim por
diante (Gn 1.28), é radicalmente diferente na forma noéica, porque agora a terra
foi amaldiçoada e a alienação fraturara as estruturas harmoniosas da soberania
que ajudavam a criação antes da Queda. “Sujeitar” e “dominar” agora vieram a ser
expressas assim: “E será o vosso temor e o vosso pavor sobre todo animal da terra e sobre toda ave dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do
mar na vossa mão são entregues” (Gn 9.2). A dominação por Adão (exemplificada
por Jesus) que era efetuada apenas pela palavra falada agora tinha de ser obrigada
pelas faculdades intelectuais e racionais superiores do homem. A subserviência
voluntária no mundo animal foi substituída por coerção, e homens e animais vi-
vem em coexistência intranquila. A bifurcação é tão violenta e os efeitos da Queda
tão drásticos, que os animais não só têm de submeter-se, à força, ao domínio do
homem, mas podem ser mortos por ele para prover-lhe a nutrição (v. 3). 
Temos de traçar a linha novamente a nível horizontal, pois agora, sob o
concerto noéico, homem não pode tirar a vida do companheiro, exatamente
como antes, no concerto adâmico, também não podia. A razão é declarada com
toda clareza: “Porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gn 9.6).
Esse fato fundamental nunca mudou, a despeito do pecado da queda. Atacar e
matar o homem é equivalente a atacar e tentar matar o próprio Soberano, de
quem o homem caído é a imagem.

Imediatamente após o texto do concerto noéico, consta a promessa do Se-
nhor que a terra nunca mais será destruída por dilúvio (Gn 9.9-11) e a garantia
dessa promessa: o arco-íris. O arco-íris tornou-se o sinal do próprio concerto,
um sinal que de longe transcende em significação a promessa de preservação do
dilúvio e que fala da intactilidade do mandato do domínio entregue ao gênero
humano desde o princípio.  Quando vemos o arco-íris podemos descansar se-
guros de que os propósitos de Deus para a criação estão em pleno efeito e que
haverá o dia em que alcançará a plena realização predestinada.

Podemos tracejar a história da transmissão do concerto depois de Noé
através das genealogias de Gênesis. O propósito das genealogias é descobrir o
foco cada vez mais estreito do desenvolvimento do concerto até achar o centro
em Abraão e seus descendentes.  Como Adão, Noé teve três filhos, só um dos
quais era o agente do descendente do concerto. Sete, o terceiro filho de Adão,
era o progenitor de Noé, um “segundo Adão”. Sem, o terceiro filho de Noé,
foi igualmente escolhido para ser o herdeiro da promessa do concerto. Em sua
genealogia (Gn 10.21-31; 11.10-26) havia Eber, o sobrenome do povo hebreu,
e Pelegue, em cujos dias a terra foi dividida (Gn 10.25), e culminou em Abrão,
o mais novo dos três filhos de Terá.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.