18 de junho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis: O propósito do concerto e a soteriologia

A maldição da alienação requer um ato de reconciliação. E este ato, tanto
como evento, quanto como processo, que é a definição de salvação.  A Soterio-
logia é obviamente um tema importante da Teologia Bíblica, embora seja claro
que não é o motivo central. Isto é evidente em que salvação envolve libertação
de algo para algo e, portanto, é um conceito funcional em vez de ser um con-
ceito teleológico. Em outras palavras, a salvação conduz a um propósito que foi
frustrado ou interrompido e não é, em si mesmo, um propósito.

Os esforços de muitos estudiosos em ver a salvação como tema central,
até mesmo na narrativa da criação não são convincentes, porque tais esforços
baseiam-se em grande parte na mitologia pagã, na qual a criação ocorre como
um resultado da subjugação das águas caóticas primitivas pelos deuses.  Não há o indício de tal coisa no Antigo Testamento, exceto em passagens em que tais

temas míticos são usados como ilustração poética da vitória do Senhor sobre os
inimigos, que são comparados a inundações caóticas e destrutivas.

A referência mais antiga da salvação identifica-se obviamente com a sua ne-
cessidade mais antiga, ou seja, em reação ao rompimento do propósito do concerto
ocasionado pela rebelião pecadora do homem contra o seu Deus. Gênesis 3.15 des-
creve a última vitória da semente da mulher sobre o mal. Também relevante, como
tem sido observado ao longo da história da interpretação, é a roupa do homem e
da mulher com peles de animais fornecidos graciosamente pelo Senhor. Embora
tenhamos de ser cautelosos quanto a conclusões teológicas indesejáveis baseadas
em tal texto lacônico, não há dúvida de que a cobertura da nudez, percebida pela
primeira vez depois do pecado do homem, não pode ser conseguida pelas folhas de
figueira em confecção própria (3.7), mas requer iniciativa divina (3.21).

A necessidade de salvação é um tema persistente da história bíblica, pois
essa história é de deserção espiritual e moral contínua e crescente. Pois para
cada ato da graça divina há o contra-ato humano do pecado. Seguindo a cada
expressão dos propósitos do concerto de Deus, há uma palavra e ação humanas
de rebelião contra. Criado para ser a imagem de Deus e, assim, manifestar a
soberania de Deus em todas as áreas da vida, o homem tornou-se um vestígio
arruinado e disforme da imagem que, sem a intervenção da graça redentora e
reconciliadora, não pode servir os propósitos para os quais ele foi criado.

É o que vemos em exemplos como o assassinato de Abel pelo seu irmão
Caim (Gn 4.1-15), um ato de brutalidade seguido pela ostentação vingativa
de Lameque, o descendente de Caim, que quem tentasse vingar Caim seria ele
mesmo vingado muitas vezes mais (w. 23,24). Esta narrativa mostra não só a
alienação horizontal contínua do homem pelo homem, mas a afirmação orgu-
lhosa de Lameque em expor que a preservação de Caim oferecida pelo Senhor
v. 15) é inadequada e que essa inadequação percebida tem de ser remediada
pela intervenção humana.

Semelhantemente, o casamento misto dos filhos de Deus com as filhas
dos homens indica uma perversidade que instigou o Senhor a comentar que
a maldade do homem era grande e que “toda imaginação dos pensamentos de
seu coração era só má continuamente” (Gn 6.5). Contextualmente, parece que
esse casamento misto fala de um relacionamento entre seres angelicais e seres
humanos, um cruzamento ilegítimo de ordens da criação divinamente segrega-
das que produziram os monstruosos “gigantes” (“Nefilins”), “os valentes que
houve na antiguidade, os varões de fama” (Gn 6.4).  Mais uma vez o homem, imagem de Deus que foi comissionada para dominar sobre todas as coisas,
colocou-se em sujeição aos poderes demoníacos sobre os quais ele deveria ter
sido o dominador.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.