13 de junho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis: O pecado e a interrupção do propósito do concerto

A origem do pecado é um mistério que permanece fechado na revelação
bíblica. O que está claro é que o pecado é uma realidade e que acompanhou
duramente a criação do homem e o seu concerto entre Deus e os homens, e
entre eles e todas as outras criaturas. O restante da história bíblica é o plano de
Deus por meio do qual essa alienação pode ser vencida e os propósitos originais
divinos ao homem — que ele tenha domínio sobre todas as coisas — sejam
restabelecidos.

A natureza da relação entre Deus e os homens era soberano-vassalo. Deus
criara o homem para o propósito expresso de transmitir a ele a condição e a fun-
ção da imagem, quer dizer, o homem tinha de representar Deus no seu domínio
sobre toda a criação. Tal privilégio também acarretava responsabilidades, a prin-

cipal das quais era lealdade e obediência absolutas. Em um mundo sem pecado é
impossível testar e autenticar a obediência, pois em um mundo sem pecado o ho-
mem não tem opções. Isto talvez explique a existência de Satanás, que surge como
antagonista e acusador, aquele que oferece ao homem uma escolha de soberanos
e cursos de ação.25 O seu papel como senhor alternativo já está pressuposto pela
limitação colocada sobre o homem no jardim: “De toda árvore do jardim comerás
livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque,
no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Esta proibição é o lado inverso da declaração de propósito do concerto.
Positivamente, o homem tinha de frutificar, multiplicar-se, encher a terra e su-
jeitá-la (Gn 1.28). Negativamente, tinha de conter-se de uma parte dessa cria-
ção: a árvore do conhecimento do bem e do mal (ARA). Seja o que for que essa
árvore transmitia pelo fruto, ela simbolizava o princípio de que no cumprimen-
to do concerto há “não farás” como também “farás”. Ter domínio sobre todas
as coisas não é um endosso geral para o homem fazer o que quiser. O domínio
humano tem de ser exercido dentro da estrutura das permissões e proibições do
Rei de quem o homem é só a imagem.

A árvore serve como o ponto de prova para a fidelidade do homem ao
concerto. Comer do seu fruto é demonstrar falso domínio, um excesso de
segurança no qual o homem se tornou, em certo sentido, misterioso como
Deus. “O homem”, diz Deus, “é como um de nós, sabendo o bem e o mal”
(Gn 3.22). Tentando inverter os papéis e afirmar a sua independência das
limitações, o homem se tornou uma imagem desfigurada e defeituosa, uma
que já não representava o seu soberano de modo desimpedido e perfeito. O
pecado introduzira uma alienação que afetou a relação entre Deus e o homem,
tornando-o uma criatura mortal, que jamais cumpriria o mandato do concer-
to enquanto permanecesse nessa condição.

A alienação também se estendeu em direção horizontal: o homem se alie-
nou da mulher e vice-versa. A declaração do concerto determinara: “E criou
Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os
criou” (Gn 1.27). O gênero humano é composto de macho e fêmea e ambos são
a imagem de Deus. Tanto os homens quanto as mulheres representam Deus na
terra e são os agentes por meio de quem Ele exerce domínio. 

Esta declaração de propósito do concerto está qualificada pela função do
concerto narrada em Gênesis 2, que delineia ainda mais a relação macho-fêmea.
O próprio Senhor observou: “Não é bom que o homem esteja só”, assim Ele de-
terminou: “Far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele” (v. 18). Logo
em seguida, ocorre a “fabricação” de uma mulher retirada da costela do lado do
homem e o trocadilho neste sentido é que ela é mulher (:issah), pelo fato de ter
sido tirada do homem (’is) (v. 23).

Não encontramos aqui a ideia de superioridade/inferioridade com respeito
aos sexos. A retirada da mulher do homem não insinua a inferioridade da mulher
ao homem assim como a tomada do homem da terra (’adam de ’adamah) não
indica a inferioridade do homem à terra. Nem o termo “adjutora” conota subor-
dinação. Este fato está claro pelo contexto no qual a necessidade é para o homem,
como os animais, ter uma companheira, uma parceira que o complementasse ou
correspondesse. O homem (gênero masculino) é só a metade do que Deus quer
que ele seja como a imagem de Deus. Além do mais, é importante observar que
o termo hebraico ‘ezer (“adjutora”) é usado muitas vezes concernente ao Senhor
ser o ajudador do homem (Dt 33.7; SI 33.20; 115.9-11; 146.5; Os 13.9). Um
ajudador, então, não é necessariamente dominante ou subordinado, mas alguém
que satisfaz a necessidade na vida e experiência de outra pessoa. 

O pecado, entretanto, alterou radicalmente a relação entre homem e mu-
lher da mesma maneira que alterou a relação entre Deus e a sua criação. A mu-
lher, tendo sido tentada por Satanás, rendeu-se e encorajou o marido a unir-se
com ela na violação da proibição do concerto. Em consequência disso, Satanás,
a mulher e o homem caíram sob a condenação divina e tornaram-se sujeitos a
um concerto que agora incorporava estipulações apropriadas a um universo já
não em complacência desejosa ao seu Soberano. A antiga exigência “frutificai, e
multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a” ainda estava em vigor, mas a partir
de agora só seria cumprida parcialmente pela humanidade não-remida e imper-
feitamente até mesmo por aqueles que Deus restabeleceria para si na graça sal-
vadora. O pecado e a história têm de correr o seu curso antes que as condições
perfeitas do cumprimento do concerto possam acontecer.

Nesse ínterim, é importante explorar a relação homem e mulher e a relação
Deus e homem nos aspectos funcionais em consequência da alienação causada pelo pecado. A declaração do concerto relativa a estas questões é precedida pela
gloriosa promessa de redenção que, embora o descendente de Satanás ferisse o
calcanhar do Descendente da mulher, o Descendente por sua vez esmagaria a
cabeça da linhagem má (Gn 3.15). O caráter messiânico desta promessa é re-
conhecido quase universalmente, embora, claro, a especificação do descendente
da mulher não possa ser estabelecida apenas por este texto.

A referência a seguir, pertinente à questão da relação macho-fêmea no con-
texto do cumprimento do concerto em um mundo caído, é Gênesis 3.16. À
mulher é atribuída a maldição da gravidez dolorosa, e também a assertiva: “O
teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. O cenário desta declaração
é a sociedade humana em um mundo caído. Seja qual for a maldição que esteja
envolvida, não é pertinente ao estado original do homem e da mulher, nem
inerente à sua criação como co-regentes dos domínios do Senhor. Nem perma-
necerá além dos confins da história, pois o fim dos tempos é a restauração de
todas as coisas como eram e como foram planejadas para que fossem.
A frase problemática é esta que ao homem é dito para sair do papel de
co-regente com a sua esposa e passa a dominar sobre ela. O ensino apostólico
sobre o assunto é claro em dizer que isto não é apenas preditivo do que acon-
teceria futuramente, mas também prescritivo da relação funcional homem e
mulher daquele momento em diante. Só para citar um ou dois textos, Paulo
proibiu as mulheres de falarem nas igrejas, porque elas têm de “[estar] sujeitas,
como também ordena a lei” (1 Co 14.34). Para a mesma igreja, ele ressaltou
que “Cristo é a cabeça de todo varão, e o varão, a cabeça da mulher; e Deus, a
cabeça de Cristo” (1 Co 11.3; cf. Ef 5.23,24; Tt 2.5; 1 Pe 3.1; etc.). Obviamen-
te, não deduzimos disto que Deus (Pai) é superior, em essência, a Cristo, mas
só em função. Semelhantemente, tudo o que o apóstolo está declarando é que
o homem é superior à mulher em sentido funcional, no papel de homem na
estrutura hierárquica da dominação do reino. 

Mais difícil ainda é a frase: “O teu desejo será para o teu marido” (Gn
3.16). A construção hebraica do versículo reflete o paralelismo poético no qual a
primeira linha da parelha de versos transmite o mesmo significado que a segun-
da. A segunda (“e ele te dominará”) requer que o “desejo” da mulher para o seu
marido também transmita a ideia de dominação. A palavra hebraica tesuqah,
traduzida por “desejo”, também ocorre em Gênesis 4.7, que diz: “para ti [Caim]
será o seu desejo [do pecado], e sobre ele dominarás”. De forma interessante,
o mesmo verbo hebraico masal ocorre nos dois textos: “dominará” (Gn 3.16) e
"dominarás” (Gn 4.7). Isto dá a entender que a mulher se volta ao homem para
o domínio dela e que ocorre o domínio dele sobre a vontade dela.  Por via de regra, a chefia do homem será o padrão enquanto permanecer o mundo caído da história.

A alienação ocasionada pelo pecado afetou não somente a relação Deus e
homem e a relação homem e mulher. Ela também rompeu a harmonia entre o
homem e a criação. Podemos descrever estas três relações como relação vertical
para cima, relação horizontal e relação vertical para baixo, respectivamente. O
homem foi criado subordinado a Deus, igualado à mulher e dominante sobre
todas as outras criaturas. Ele recebera a tarefa de “lavrar” a terra, ou seja, traba-
lhar (Gn 2.15), colocando-a e todas as outras coisas em seu serviço e sob o seu
domínio como o vice-regente de Deus.

Contudo, agora o pecado se intrometeu, e o homem caído perdeu o do-
mínio livre e desimpedido sobre o ambiente. Ele dera ouvidos à esposa, sub-
metendo-se à autoridade dela, por isso a terra que foi criada para ele trabalhar
seria resistente à sua agricultura. O labor agora seria doloroso, a terra produziria
espinhos e cardos inúteis e irritantes, e a terra da qual ele fora tirado e sobre a
qual ele fora colocado o conquistaria, quando ele fosse posto debaixo da terra
na morte (Gn 3.19).

A repercussão imediata foi o exílio permanente do homem e da mulher do
jardim, um exílio que lhes simbolizava o estado caído e a exclusão dos privilégios
das estipulações do concerto para as quais eles tinham sido criados. A vida fora do
jardim falava da vida sem a intimidade da relação com Deus, uns com os outros e
com a ordem criada. Desta maneira, um exílio era um repúdio de todos os propó-
sitos de Deus para a criação, no entanto, era um meio de desfazer a maldição do
pecado e, no final das contas, a sua própria existência tinha de ser posta em ação.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.