10 de junho de 2013

Eugene H. Merril - Uma teologia do Gênesis: O mandato do concerto e a vida de Jesus

O apóstolo Paulo descreveu Jesus como o segundo Adão, um epíteto asso-
ciado com a sua obra salvífica e redentora e com a função de “primeiro homem”
de uma comunidade regenerada. “Porque, assim como todos morrem em Adão,
assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Co 15.22; 15.45; Rm 5.12-
17). Não há como diminuir a imcportância deste aspecto redentor de Jesus como
o segundo Adão. Entretanto, também é instrutivo ver a vida de Jesus como a vida
do segundo Adão, e observar que Jesus veio não só para morrer, mas também para
viver. E a vida que Ele viveu demonstrou, por seu poder e perfeição, tudo o que
Deus criou para que Adão e todos os homens fossem. Em outras palavras, Jesus
cumpriu, em vida, as potencialidades do Adão não-caído, da mesma maneira que
pela morte Ele restabeleceu todo o gênero humano a essas potencialidades.


Alguns exemplos dos Evangelhos têm de bastar. Em certa ocasião, Jesus e
os discípulos estavam cruzando o mar da Galiléia quando uma tempestade vio-
lenta colheu o barco e ameaçou submergi-lo. Jesus, despertado pelos discípulos,
repreendeu os ventos e as ondas. Os resultados foram tão surpreendentes que
os seus amigos perguntaram: “Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe 
obedecem?” (Mt 8.23-27). É possível e conveniente argumentarmos que Jesus
operou este milagre em virtude da sua deidade, mas esta não foi a conclusão
dos que testemunharam o fato. De interesse particular no relato (ver também
Mc 4.36-41; Lc 8.22-25) é o sentimento que os discípulos tiveram acerca da
soberania de Jesus na criação. Jesus falou com os elementos (água e vento) como
Senhor deles e eles lhe obedeceram. Isto não é parecido com o domínio para o
qual Adáo foi designado?

Um incidente similar dá a entender afinidades ainda mais estreitas com a
dominação sobre a criação ordenada pelo concerto adâmico. Mateus 14.22,23
(cf. Mc 6.45-51; Jo 6.16-21) relata a história dos discípulos que novamente
estavam em apuros no mar bravio, quando de repente eles viram Jesus cami-
nhando sobre as águas. Incentivado pelo que via, Pedro pediu que Jesus lhe
permitisse caminhar sobre as ondas. Sendo bem-sucedido no princípio, Pedro
perdeu a confiança e começou a afundar e só foi o braço forte do Senhor que o
preservou.

Certas características se salientam e evidenciam os temas e antecedentes
teológicos que dão a razão para o acontecimento. Primeiro, há o conceito das
águas caóticas que têm de ser dominadas, um conceito também visto na nar-
rativa de Mateus. Aqui, Jesus não falou com as ondas; ao invés disso, ele as
pisou. Isto está de acordo com a ideia fundamental dos verbos hebraicos radah
e kabas em Gênesis 1.28, isto é, pisar ou pisotear. Segundo, o próprio Pedro viu,
no domínio de Jesus sobre os elementos, uma autorização para o seu próprio
domínio. Pois o fato de ele imaginar que podia imitar Jesus como Deus seria
simplesmente blasfêmia. Imitá-Lo, como o segundo Adão, seria o que Deus
queria que Pedro e todos os homens fizessem.

Um terceiro exemplo do domínio de Jesus sobre a criação é a extração do
imposto do Templo da boca de um peixe (Mt 17.27). Quando Pedro indagou
como os discípulos pobres iriam pagar o imposto, Jesus o orientou a pescar um
peixe, em cuja boca estaria a quantia exata necessária para o pagamento. Embo-
ra possamos alegar que se trata de um milagre, isso pode ser tão bem explicado
como a consequência natural do Homem, sem pecado, invocando o privilégio
do concerto da criação original, segundo o qual Ele tinha de ter domínio sobre
os “peixes do mar”.

Um quarto incidente é a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém no primei-
ro dia da semana da Paixão (Mt 21.1-11; Mc 11.1-10; Lc 19.29-38). Devemos
observar que Ele entrou montado em um animal, como Marcos e Lucas tiveram
o cuidado de destacar, “sobre o qual ainda não montou homem algum” (Mc
11.2). Este comentário é em geral negligenciado, mas no contexto do triun-
fo do Senhor, que estava sendo celebrado pelas multidões, é particularmente
significativo que esse triunfo seja especificamente focado no domínio de Jesus
sobre o mundo animal, neste caso, o jumentinho não domado. Jesus entrou em
Jerusalém como Rei, um papel que Ele cumpriu não só como o Senhor Deus,
mas também como o segundo Adão e o Filho de Davi.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.