18 de maio de 2013

Seria Deus um “monstro moral”?


Paul Copan (Ph.D, Marquette University) é professor de Filosofia e Ética na Palm Beach University, na Flórida, EUA. É autor e editor de dezenas de livros na área de apologética cristã e filosofia da religião. Além de diversos artigos publicados em importantes publicações na área de filosofia, como a Philosophia Christi, ele também é membro da Evangelical Society of Philosophy.Is God a Moral Monster? é uma resposta para as diversas acusações contra o caráter de Deus como exposto nas páginas do Antigo Testamento, principalmente da parte dos chamados neoateus. Com a publicação da obra Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (2005), e Letter to a Christian Nation, de Sam Harris (2007), o Antigo Testamento começou a ser visto pelo público secularizado como uma mola propulsora para a violência e a intolerância. Tópicos ali encontrados como homofobia, genocídio, machismo e fundamentalismo religioso são alguns dos motivos – aparentemente verdadeiros – que têm levado muitos a rejeitar qualquer princípio ético das páginas das Escrituras Hebraicas.


Apesar de Copan não ser um especialista em Antigo Testamento (AT) e documentos do Antigo Oriente Médio (AOM), sua obra foi classificada por Richard Davidson, do departamento de AT da Andrews University, em Michigan, EUA, como “a mais poderosa e coerente defesa do caráter de Deus no AT diante dos ataques dos neoateus” (p. ii), e de “a melhor defesa da ética do Antigo Testamento” (p. i), por Gordon Wenham, professor emérito de AT na University of Gloucestershire.
 A obra está dividia em quatro partes. Na primeira (p. 13-24), Copan oferece um breve histórico sobre o movimento conhecido como neoateísmo, bem como suas críticas à religião bíblica. Já na segunda (p. 25-54), são abordados tópicos como a suposta arrogância e o ciúme de Deus em Sua aliança com Israel. Além desses assuntos, Gênesis 22 – um capítulo que tem sido muito utilizado para descrever a “brutalidade” de Yahweh – também foi analisado à luz do contexto do Antigo e do Novo Testamentos.
  
A terceira seção (p. 55-206) é a principal do livro, onde tópicos mais espinhosos são abordados, tais como Heiligkeitsgesetz, o Código de Santidade (Levítico 17-26), no qual, inclusive, encontramos leis relacionadas com práticas homossexuais; as leis que regulamentavam a escravidão em Israel; e a questão da matança dos cananeus. Paul Copan fez um excelente trabalho comparando material bíblico disponível nas páginas do AT com documentos de povos do AOM trazidos à luz pelas descobertas arqueológicas dos últimos 200 anos.
           
Já a quarta e última seção (p. 209-222) lida com o fundamento teísta para a moralidade humana. Além de apresentar a fragilidade de uma noção de certo e errado sem um Ser transcendente, Copan ainda apresenta brevemente como o cristianismo foi responsável por revolucionar o mundo ocidental graças a importantes contribuições humanitárias, filosóficas, literárias, artísticas e até musicais, uma resposta sutil ao subtítulo da obra do ateu Christopher Hitchens, deus não é Grande: Como a Religião Envenena Tudo (2007).

Gostaria de destacar dois pontos que ressaltam a importância da obra de Copan. Primeiro, a constante comparação entre diversas práticas do AT com práticas legais de diversos povos do AOM. Para muitos leitores não treinados nesse ramo de estudo, o trabalho de Copan surge como uma excelente ferramenta para a constatação de uma faceta mais humanitária de Israel em contraste com os povos da Mesopotâmia, Canaã e até o próprio Egito.
           
A título de ilustração, Copan fez amplo uso da literatura conhecida sobre as leis que regulamentavam a escravidão em Israel (Êx 21), e a apresentou nos capítulos 12-14. Desde códigos de leis hititas, passando por documentos cananitas do 2º milênio a.C., até uma análise minuciosa do texto hebraico do AT, percebe-se entre os israelitas um caráter mais humanitário quanto à escravidão. Na lei mosaica, sequestrar alguém para ser vendido como escravo era um crime punido com pena capital (Êx 21:16). Um escravo hebreu deveria trabalhar apenas seis anos para pagar sua dívida, sendo liberto no sétimo ano sem pagar nada (Êx 21:2). Além disso, ele deveria receber do seu proprietário alguns animais e alimentos para começar a vida novamente (Dt 15:13, 14). Durante seu período de serviço, o(a) escravo(a) teria um dia de folga semanal, o sábado (Êx 20:10). Não só isso, mas em Israel, o escravo e seu senhor eram tratados em pé de igualdade (cf. Jó 33:15, 16). Um avanço humanitário significativo e totalmente desconhecido até aquele momento em todo o território do AOM.

Segundo, é a apresentação do ambiente social e religioso de Canaã durante o 2º e o 1º milênio a.C. Práticas como sacrifícios humanos, prostituição, incesto e zoofilia eram ingredientes comuns naquelas culturas. Tais atividades são examinadas com atenção pelo autor e são apresentadas como motivos reais para o “genocídio” cananeu. Digno de nota são suas considerações sobre a “retórica exagerada no Antigo Oriente Médio” (p. 169-185), onde o autor argumenta, citando diversos documentos arqueológicos, que a linguagem de completa destruição (heb. herem) não era tão completa assim.
           
Além de uma bem documentada referência bibliográfica, o livro contém um guia de estudo para cada um dos seus capítulos, tornando-se uma ferramenta útil para grupos de estudo, seminários em igrejas e aulas para alunos do ensino médio.

(Luiz Gustavo Assis é pastor em Porto Alegre, RS)