22 de maio de 2013

Por que é poderoso o caminho dos malvados? Análise Exegética de Jr 12, 1-6


Sue Hellen Monteiro de Matos 

Resumo

As confissões de Jeremias estão espalhadas entre os capítulos 11 e 20 do livro de Jeremias. Através delas podemos compreender o relacionamento entre o profeta e Javé. A pesquisa, em geral, tem abordado essas confissões como uma lamentação existencial do profeta. Nesse sentido, a análise exegética de Jr 12,1-6 busca mostrar que as confissões de Jeremias vão além da crise interior. São confissões que abrangem a lamentação da comunidade, em especial o texto analisado.

Introdução 

As confissões de Jeremias (11, 18-23; 12,1-6; 15, 10-21; 17, 14-18; 18, 16-23; 20, 7¬18) são parte central de qualquer interpretação do profeta. É preciso compreendê-las como documentos de um evento que foi extraordinário e marcou a relação entre Javé e o profeta.
A pesquisa bíblica tem visto essas confissões com um olhar romancista, isto é, confissões que refletem a crise existencial do profeta. Entretanto, os críticos das formas e da história das tradições são contrários a essa visão. Afirmam que a linguagem do profeta é uma linguagem típica de lamentação e, portanto, o “eu” do profeta funciona como porta-voz para a desolação e alienação de seu povo. Certamente que há elementos de tormenta individual queo  não podem ser eliminados.


Portanto, este artigo, através de uma análise exegética de Jr 12, 1-6, visa mostrar que as confissões de Jeremias são de caráter político e social, em especial o texto analisado.

2. Características formais

Nesta etapa exegética é preciso observar as características formais do texto. Aqui, abordaremos os seguintes pontos: delimitação, coesão interna, estilo e gênero.

2.1 Delimitação 

Muito se discute na pesquisa bíblica sobre a delimitação desta perícope . A meu ver, sua delimitação está clara. De 11,18-23 há o relato de Javé sobre as “maquinações” dos homens de Anatot contra Jeremias, seguido de um oráculo de julgamento contra esses homens. A partir de 12,1, ocorre uma mudança. A expressão “justo és tu Javé” indica o início da perícope. É o início da fala de Jeremias. Tem-se uma declaração a respeito de Javé, que se segue com uma chamada de atenção, expressada pela interjeição “eis” (ki) para depois seguir com os questionamentos. De 1b-4, não trata dos homens de Anatot, mas do “caminho dos malvados”, dos “desleais de deslealdade”, da “maldade dos que sentam”. A perícope se encerra com a resposta para essa fala de Jeremias (v.5 e 6). No v. 7 há uma mudança de conteúdo. Não se fala mais dos “malvados”. O tema agora é a rejeição da casa e da herança. Assunto que permeia até o v. 13.

2.2 Coesão Interna

O texto apresenta coesão interna. O início da perícope consiste na afirmação de que Javé é justo (v.1a). Em seguida vem a queixa do progresso dos malvados (v. 1b). No v.3 há outra menção a Javé. Aqui ele aparece como aquele que conhece, vê e examina (yd‘, r’h, bhn). Semelhante ao v.1, no v. 3 essa referência a Javé está antes do questionamento.

No v. 2 esses malvados são “plantados” e não apenas plantados, mas “criaram raízes”, “aderem” e “fazem frutos”, e em continuidade disso, no v. 3b há o pedido para que “aparte eles como ovelhas para matadouro” e “consagre eles para o dia da matança”.


O verso 4, segundo o aparato crítico e alguns pesquisadores , seria um acréscimo. Entretanto, é possível identificar alguns elementos que permitem propor que esse versículo faça parte da perícope. Há um campo semântico no v.4 que faz parte dos versos anteriores. O uso da erva de todo campo (sadeh) remete ao verbo plantar (nt’) do v.2. A palavra “terra” (’eres) é repetida no v. 5. No v. 4 aparece maldade (ra‘ah). A maldade, nada mais é do que o resultado da ação dos malvados. Outra evidência é que no v. 1 aparece o verbo “ser poderoso” (slh) e no v. 4 temos o verbo particípio “os que sentam” (yxb). Ora, aquele que senta é o que  detém o poder, ainda mais que este termo pode ser traduzido por governante.  Portanto, considero que o v. 4 faça parte da perícope. E, assim, o v. 4 retoma o questionamento feito no v. 1b.

Se dos v. 1-4 temos a fala de Jeremias, nos v. 5 e 6 temos a resposta divina de um modo não explícito, isto é, sem a fórmula “Assim disse Javé” ou “Dito de Javé”. Porém, nitidamente observamos que é uma resposta para as questões de Jeremias, pois os verbos estão em 2a pessoa do singular “correste”, “cansaste”, “competirás”, “farás”, “não acredites”.

Entretanto, o v. 6, assim como o v. 4, é desconsiderado por alguns exegetas . Contudo, este versículo se enquadra em nossa perícope. Faz parte da resposta divina ao lamento. Encerra-se a fala de Javé para os questionamentos do profeta.

2.3 Estilo

Claramente se observa que esta perícope é uma poesia, visto que há repetições de frases. Por exemplo, no v. 2, “plantaste-os, também criaram raízes”, “aderiram, também fizeram fruto”. 

Dividimos nosso texto em quatro estrofes (v. 1-2; 3-4; 5; 6), sendo duas estrofes (v. 1-2; 3-4) para a fala de Jeremias, e duas estrofes (v. 5; 6) para a resposta divina.

As estruturas das estrofes da fala de Jeremias são similares. A primeira estrofe (v. 1¬2) possui 7 frases. Na primeira frase temos a introdução para o lamento. Antes de lamentar, o profeta se dirige a Javé “Justo (sadiq) és tu Javé. Eis, disputarei para ti, certamente direitos falarei a ti”. As seis frases seguintes estão em repetição duplamente: “Plantaste-os...” e “aderiram...”; “próximo tu (estás) em lábios...” e distante dos rins...”.

A segunda estrofe (v. 3-4) é semelhante a essa. A primeira frase (v.3a) é uma referência a Javé. É como se novamente o profeta chamasse a atenção de Javé. Esse chamar atenção de Javé está na utilização do “Eis” (ki), no caso do v.1a. No caso do v. 3a, não há a presença dessa interjeição, porém quando se diz “E tu Javé me conheces, me vês e examinas” denota essa chamada de atenção. Após essa chamada de atenção, o profeta traz o seu lamento. Os versos seguintes seguem em repetições duplas: “aparte eles como ovelhas...” e “consagre eles...”; “até quando lamentará a terra” e “erva de todo campo se secará”. A última frase foge um pouco da estrutura das frases poéticas anteriores, pois aqui temos uma frase longa no estilo poético jereminiânico, a qual faz o “nó” da lamentação do profeta.

As estrofes seguintes (v. 5; 6) são referentes à resposta divina ao lamento. Ambas se iniciam com a expressão “Eis” (ki). A terceira estrofe (v.5), possui quatro frases que se complementam duplamente, em uma frase se tem a afirmação no outra a pergunta. A quarta estrofe (v.6) também possui quatro frases que não está na mesma estrutura pergunta e resposta da estrofe anterior. Aqui, na primeira frase “Eis, também teus irmãos e a casa de teu pai” introduz o assunto ao qual segue as outras 3 frases: “também eles foram desleais”, “também eles berraram atrás de ti” e “não acredites neles quando falarem para ti bondade”. Embora a primeira frase não possua verbo, é uma frase que está complementando as duas frases seguintes pela repetição da conjunção “também” (gam).

Essa divisão em estrofes e frases de nossa perícope é fundamental para auxiliar na compreensão do conteúdo, o qual será analisado posteriormente.

2.4 Gênero

Identificado o estilo (poesia) e suas estrofes, passo a especificar o gênero.

Trata-se aqui de uma lamentação de Jeremias. Segundo Holladay , as confissões de Jeremias fazem uso do gênero do lamento individual. Isso é observado em algumas características encontradas tanto nas confissões de Jeremias quanto na lamentação individual, como: endereçamento a Javé, expressões de confiança nele, palavras dos oponentes do lamentador, a negligência de Javé, o pedido de vingança e destruição dos oponentes.

Em nossa perícope observamos essas características. O endereçamento a Javé está presente no v. 1a. A confiança em Javé é expressa em dois momentos, primeiramente no início do v.1a com a expressão “Justo (sadiq) és tu Javé” e posteriormente no v. 3a ao afirmar que Javé conhece, vê e examina o coração do profeta. As palavras dos oponentes do profeta aparecem diretamente no final do v.4 “Eis, dizem: Não verão nosso fim”. A negligência de Javé, neste caso, me parece implícita no questionamento do v. 1b, e no início do v. 2 a. com a utilização do verbo em 2a pessoa singular “plantaste” (nt’).  O pedido de vingança e destruição de seus oponentes está evidente no v. 3b “aparte eles como ovelhas para matadouro e consagre eles para dia da matança.” Essa lamentação apresenta um desdobramento, isto é, não fica apenas no lamento, mas tem a resposta divina para ele. Essa questão de lamento e resposta divina será vista em mais detalhes quando discutirmos o lugar vivencial.

3. Época e ambiente vivencial

Um dos aspectos importantes para identificarmos o lugar vivencial de nossa perícope, é o gênero do texto. Trata-se, como já dito, de uma lamentação. De um modo geral,

as situações de grave perigo é que provocam as orações de lamento. Segundo Gerstenberger , os israelitas, vivenciando as angústias de uma situação extrema, seja doença, marginalização social ou qualquer perigo letal, se veem necessitados para procurar as causas de sua miséria. Assim, procuravam sacerdotes ou profetas que ouviam o lamento, conduzia a investigação da queixa e transmitiam a resposta de Deus. Essa procura poderia ser no templo, ou também com os “homens de Deus” itinerantes. Gerstenberger  defende que os sacerdotes pré-exílicos dos santuários locais ou os “homens de Deus” itinerantes possuíam os conhecimentos e meios rituais para tratarem desses casos.

Dito isto, penso que nossa perícope se encontra nesse ambiente de lamento, visto que, possivelmente, Jeremias estava correndo perigo. Esse perigo é decorrente de uma marginalização social, visto que o lamento é de cunho político. Duas expressões evidenciam esse caráter político do lamento: “caminho dos malvados é poderoso” (v.1b) e “de maldade dos que sentam” (v.4b). Dessa forma, questionar o progresso do caminho dos malvados e denunciar o sofrimento do campo pela maldade dos que sentam, implica em não fazer parte da elite dominante, consequentemente, levando à margem aqueles que não se encaixam nos padrões de quem está no poder.

Além disso, é preciso lembrar que Jeremias é benjaminita, dos sacerdotes residentes em Anatot, e por isso está próximo as tribos do Norte e tem acesso a cultura sacerdotal de sua

família. Portanto, Jeremias estaria acostumado com esse procedimento. O mais provável é que o profeta tenha encontrado com um desses “homens de Deus” itinerantes, visto que o profeta não é muito favorável ao Templo, pois profetiza contra o mesmo (cf. cap. 7).

Outro aspecto importante a ser considerado é quanto a data deste texto. Holladay situa essa perícope, bem como o material das confissões de Jeremias em 594 a.C após a morte de Ananias. Entretanto, a meu ver, se essa fosse a data, Jerusalém já estaria sob o domínio babilónico, já teria ocorrido a primeira deportação, e não teria o “por quê” do questionamento sobre o “caminho dos malvados é poderoso” (v.1b) e nem teria sentido a frase dos opositores “Não verão nosso fim” (v. 4c). Prefiro, compreender que esse material faz parte de um bloco maior (caps. 7 a 20) que são do período do reinado de Jeoaquim (608 a 597 a.C) , e assim, proponho que nosso texto esteja entre 608 e 605 a.C.

Nesse período, os judaítas vivenciam tempos difíceis. Estavam no meio de duas grandes potências (Egito e Babilónia). A sociedade estava centrada no poder político do rei e de sua elite. Para sustentar o Estado, houve um aumento na arrecadação de tributos . Ora, assim que Jeoaquim foi colocado no poder pelo Faraó Neco, instituiu tributos sobre o povo para pagar as taxas impostas por Neco, que eram de 100 talentos de prata e 1 de ouro (cf. 2Rs 23, 33-35). Com isso, percebemos que o poder político estava centralizado. Essa centralização do poder político é evidenciada em nosso texto, principalmente pelo no v. 4b “de maldade dos que sentam”.

Após esse panorama histórico, político e vivencial de nosso texto, passemos para a análise de conteúdo.

4. Análise de conteúdo: Por que é poderoso o caminho dos malvados?

Nosso texto não se refere a uma lamentação que expressa uma angústia interior, ou a um problema restrito da vida de Jeremias. Pelo contrário, seu lamento reflete a uma situação concreta que estava afetando a comunidade judaíta. Especialmente, porque na linguagem da lamentação nos Salmos, o lamento do indivíduo reflete o lamento da comunidade. Assim, o Jeremias teria se apropriado dessa linguagem, e, portanto, a lamentação dos v. 1-4 é a lamentação do povo.  Passemos, portanto, a observar o conteúdo desta lamentação.

Como já observado no estilo, nossa perícope possuiu quatro estrofes, sendo duas para o lamento e duas para a resposta divina.

As duas estrofes do lamento (v. 1-2; 3-4) iniciam com a fala a respeito de Javé. Primeiramente, Javé é chamado de “Justo” (sadiq) (v. 1a) e depois, Javé conhece, vê e examina o coração do profeta (v. 3a). São duas fórmulas introdutórias para o lamento.

O adjetivo sadiq é utilizado para o comportamento entre pessoas com os mesmos

direitos e designa na comunidade local um cuidado íntegro. Nesse sentido, Javé é justo porque acolhe a lamentação do profeta. E, nesse relacionamento entre Javé e Jeremias se tem o cuidado divino. Por isso, o profeta sabe a quem dirigir seu lamento. Dessa forma, chamar Javé de Justo (sadiq) significa que Javé segue outorgando cada dia o direito (mixpat) e que assiste o indivíduo piedoso a fim de sustentá-lo. Esse indivíduo piedoso, não é simplesmente o que possuiu uma devoção religiosa, mas o que sofre com os sofrimentos dos outros. Portanto, em nosso texto, Javé é justo porque acolhe a lamentação do profeta que traz consigo os sofrimentos da comunidade. Javé não é justo conforme a justiça humana. E, para isso, é preciso compreender que a justiça (sedaqah) divina, trata-se da ação salvífica de Javé. É, portanto, a justiça que salva, resgata. Deste modo, Javé é justo porque, apesar de não merecer, apesar do coração do profeta estar conturbado, Javé o acolhe, e por seguir outorgando o seu direito a cada dia, é que Jeremias falará “direitos” (mixpatim) para Javé (v. 1a), pois sabe que sua justiça é salvífica.

Na primeira introdução para o lamento do profeta, temos o uso da interjeição “Eis” (ki)  que denota a chamada de atenção do profeta para Javé, para que este escute o que ele irá dizer. Essa chamada de atenção para Javé é retomada no início da segunda estrofe (v. 3a), de uma forma mais branda, ou seja, sem uso da interjeição.

No v. 3a, afirmar que Javé conhece (yd‘), vê (r’h) e examina (bhn) o coração do profeta, indica que Javé, por conhecer o coração do profeta, o qual está conturbado diante da maldade dos que sentam, pode atender o pedido e responder o lamento que segue nos v. 3b-4. O uso de “coração” (leb) no Antigo Testamento, em sua grande maioria indica a funções atribuídas ao cérebro: faculdade cognitiva, a razão, a compreensão, o entendimento, a consciência, a memória, o saber, a reflexão, o julgamento, a orientação, o juízo.  A mente do profeta, portanto, está conturbada com o sucesso do caminho dos malvados, e, assim, o profeta se coloca diante de Javé, aquele que conhece (yd’), vê (r’h) e examina (bhn) a sua mente.

Na lamentação da primeira estrofe (v. 1b - 2) é preciso observar a relação dos versos com suas respectivas repetições. Sendo assim, a primeira questão levantada para Javé é “Por que o caminho dos malvados é poderoso” que se complementa com “tem paz todos os que são desleais de deslealdade”. A quem o profeta estaria referindo? Só teremos resposta na segunda estrofe, no v. 4b. “maldade dos que sentam”. Mas antes temos a descrição de quem seria esses malvados.

Então, o que sabemos desses malvados?

Na primeira estrofe (v. 1-2), o texto nos diz que seu caminho é poderoso (v.1b), são desleais de deslealdade (v.1b), foram plantados por Javé, criaram raízes e fizeram frutos (v.2a).

O questionamento de Jeremias está no sucesso do caminho dos malvados, no “por quê” de seu caminho ser poderoso e terem paz, tranquilidade, mesmo sendo “desleais de deslealdade”, isto é, eles procedem caluniosamente, enganam e mesmo assim seus caminhos são poderosos. Aqui, se compreendermos juntamente com o contexto histórico de nosso texto, o aumento de tributo como forma de espoliação do povo para que a corte pudesse pagar impostos ao Egito, é um dos meios de enganação. A venda de “bens religiosos” era um dos meios enganadores de arrecadação de tributos, o que se tornou ideologia do estado.

A queixa do profeta se intensifica ao dizer que quem plantou os malvados foi Javé (v.2a). Utilizar o verbo “plantar” (nt’) está relacionado com “caminho”, o que nos remete ao Sl 1, em que o justo é comparado a árvore plantada junto a correntes de águas e que no seu devido tempo dá fruto . Entretanto, aqui os que são plantados, criam raízes e produzem frutos, são os “malvados” (raxaim), e não o justo (sadiq). Sendo assim, os malvados foram plantados por Javé, porém eles criaram raízes, aderiram e fizeram fruto, isto é, foram colocados no governo e lá ficaram, e ainda, reproduziram o sistema de governo opressor.

A denúncia contra os malvados continua. No v. 2b encontramos a acusação de que Javé está próximo aos lábios deles e distante dos rins. Os rins em hebraico indicam a parte mais íntima do ser humano.  Em maior frequência, os rins são a sede da consciência, a qual tem a ver com os procedimentos éticos do ser humano.  Portanto, os malvados utilizam o nome de Javé para legitimar suas ações estatais, mas a sua consciência está distante de Javé, e assim não procedem com ética, por isso são “desleais de deslealdade”, enganam o povo.
Como já dito, o v. 3 a introduz a segunda estrofe, a segunda queixa. Mas, antes da lamentação propriamente dita desta estrofe (v. 4a), há o pedido de vingança e destruição dos malvados (v. 3b) “aparte eles como ovelhas para matadouro e consagre eles para dia da matança”. Ora, se Javé os plantou (v.2a), ele mesmo deve arrancá-los, ou melhor apartá-los e separá-los para o dia da matança (v.3b), pelo menos este é o pedido do profeta. Interessante notar que o verbo “consagrar” (qdx) no Hifil em Jeremias, aparece somente em 1,5 “te consagrei e te constituí profeta às nações”. Possivelmente, segundo Holladay , Jeremias estaria dizendo que Javé o havia consagrado quando o vocacionou, mas agora estaria o tratando como cordeiro para o matadouro, e, portanto, Javé deveria exercer o seu poder de consagração sobre seus oponentes. Assim, as duas frases do v. 3b que se complementam, nos demonstram a urgência do pedido de Jeremias. O desejo do profeta é que Javé os tire logo do poder.

Após o pedido de vingança, vem a lamentação: “Até quando lamentará a terra e erva de todo campo se secará?” (v.4a). O questionamento do profeta demonstra que a terra e as plantações estavam sofrendo por conta dos malvados. A política de governo centralizada e a alta arrecadação de tributos levaram a um desgaste do campo. Os animais e até os pássaros perecem (v.4b). Tudo isso acontece por conta da maldade dos que sentam. Eis aí o nosso nó da lamentação que se encerra com as palavras dos oponentes do profeta, os malvados: “Não verão nosso fim”. Ou seja, os governantes pensavam e diziam que não aconteceria nada a eles. Isso aproxima esta perícope do sermão contra o templo proferido por Jeremias no capítulo 7.

Portanto, concluímos que a lamentação não se refere a vida íntima, aos sentimentos existenciais de Jeremias, mas a um fato político social que afetava não só a ele, mas toda a comunidade, principalmente a comunidade campesina, já que a erva de todo campo tem secado e os animais perecidos.

Como já discutimos o local vivencial para esta lamentação, a procura pelo “homem de Deus” itinerante, temos então, nos v. 5 e 6 a resposta divina. São duas estrofes para responder os questionamentos do profeta. Ambas são enfáticas, pois iniciam com a interjeição “Eis” (ki).

No v. 5, a resposta divina vem em forma de pergunta retórica. Isto é, a pergunta não tem por objetivo ser respondida, nem por Javé e nem por Jeremias, mas busca provocar um efeito no destinatário do discurso divino, no caso, o profeta. São, portanto, duas perguntas retóricas com entonação irônica em que Javé questiona o profeta com situações que no momento estão bem, mas que irá piorar no futuro.
Sendo assim, a primeira pergunta (v.5a) faz uma referência a atividade profética de Jeremias, uma vez que o verbo “correr” (rvt) é utilizado como símbolo para atividade e

comportamento profético. E, se ele se cansa correndo, pior será quando vierem os cavalos. Ou seja, se nesse momento de sua atividade profética ele está cansado, pior será quando as coisas se intensificarem. A segunda pergunta (v. 5b) faz referência a “altura do Jordão”, que é uma metáfora para designar perigo, pois é uma região de mata quase impenetrável,

geralmente associada com leões (49, 19; 50, 44) . Deste modo, a pergunta reflexiva leva a um contraste entre a terra de paz em que Jeremias está seguro, e a altura do Jordão. Em outros termos, a questão é o que Jeremias fará quando estiver numa terra insegura. Seria aqui, uma possível alusão ao exílio no Egito? O texto não nos responde. Apenas faz referência a uma terra insegura.

No v. 6 temos o encerramento da resposta divina e o encerramento da perícope. Não é somente com os malvados que são desleais que Jeremias deve se preocupar, mas também com “teus irmãos e a casa de teu pai” (v. 6a), porque estes “foram desleais contigo”, “também eles berraram atrás de ti”. Ou seja, eles mentiram, agiram com calúnia, e também provocaram grandes discussões. Isso pode ser explicado pela datação de nossa perícope (608 - 605 a.C), data próxima ao sermão do templo do capítulo 7. Assim, por Jeremias ser de família sacerdotal e profetizar contra o templo, pode ter gerado essa situação. Então, Javé alerta o profeta para o que “teus irmãos e a casa de teu pai” tem feito contra ele.

O encerramento da fala divina é “Não acredites neles quando falarem para ti bondade”. É um alerta para o profeta. É preciso ter cautela para “não cair na conversa fiada” dos parentes. Mas, ao mesmo tempo em que é encerramento da fala divina, é o encerramento da perícope, portanto, a meu ver, não se deve acreditar no que falam os parentes e nem no que dizem os malvados que sentam, pois o “neles” se refere tanto aos “teus irmãos e a casa de teu pai” quanto aos malvados que se sentam. Então, é preciso que o profeta esteja atento para não acreditar quando falarem “bondade”.

Conclusão

A partir dessa análise exegética de Jr 12,1-6, observa-se que as confissões de Jeremias, em especial esta perícope, não são confissões da crise existencial do profeta. Pelo contrário, são confissões de caráter comunitário. É a lamentação de uma comunidade que sofre pela maldade dos que sentam, ou seja, pela maldade dos que estão no poder que espoliam o povo fazendo perecer o campo e os animais.
Este artigo, portanto, propõe esse novo olhar sobre as confissões de Jeremias. É preciso enxergar a comunidade que está por trás da lamentação. Fato este que enriquece ainda mais a teologia jereminiânica.


Revista Theos - Revista de Reflexão Teológica da Faculdade Teológica Batista de Campinas. Campinas: 7a Edição, V.6 - N° 02 - Dezembro de 2011. ISSN: 1980-0215.


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