12 de maio de 2013

O misterioso sinal de Caim


“Gênesis 4.15 diz que Deus pôs ‘um sinal em Caim para que não o ferisse qualquer que o achasse’. Que sinal é esse?”

Caim, esse enigmático! Os mistérios rondam a figura controversa do personagem. Por que o sacrifício oferecido não agradou a Javé? Qual o sinal de Caim? Afinal, quem era a mulher com que se casou?

Da exegese histórico-crítica à fundamentalista, todos tentam decifrar sem sucesso os segredos que pairam sobre sua figura cripta. Até mesmo Saramago, ganhador de vários prêmios literários, entre eles, o Nobel de Literatura (1998), ensaiou uma resposta mordaz ao dilema cainita no livro “Caim”. É impossível ler Gênesis 4 e ficar indiferente às nuanças do relato.


Apesar da dificuldade em responder objetivamente a pergunta-chave, é possível uma aproximação com os elementos fundantes do texto? Acredito que sim, embora a resposta talvez não dilua todas as incertezas.
Suponho que o leitor já conheça a narrativa bíblica a respeito do fratricídio e sabe que o “sinal” foi para proteger Caim em vez de condená-lo (v.15). O sinal, no hebraico ’ôth (semeion na lxx), é usado no Antigo Testamento mais frequentemente como um termo teológico para descrever “sinais pactuais”, como os concertos noético (Gn 9.12-17) e abraâmico (Gn 17.11), ou “sinais milagrosos”, como as pragas (Êx 4.8). 
Nalgumas vezes possui sentido comum (Gn 1.14; Nm 2.2), mas seu uso predominante é teológico.

O “sinal de proteção” continuará como tema recorrente na Escritura, como por exemplo, (a) o sangue nos umbrais das portas (Êx 12.13); (b) à marca na testa (Ez 9.4); e (c) o selo na testa dos 144.000 (Ap 7.3). Na Antiguidade o sinal/selo sobre alguém ou objeto designava a coisa selada como propriedade de alguém e, portanto, intocável por outros (Ct 4.12; 8.6; Dn 6.18; 12.4; Ef 1.13). Assim, o sinal de Javé expressa propriedade, proteção e segurança contra assassinato.

Assente o conceito teológico de ’ôth, sinal, passemos para sua interpretação concreta. O que era o sinal? Na história da interpretação da perícope, diversas posições foram adotadas.

Comecemos pelo livro apócrifo “O Primeiro Livro de Adão e Eva”. No capítulo 79.18-25 diz que o sinal era tremer e sacudir ininterruptamente. Em suma, outras posições adotadas por diversas escolas foram: cor negra, tatuagem e alguma forma de sinal sobre Caim.

Não é necessário perder tempo com a primeira posição, visto que a origem da cor negra segundo o literato estaria ligada aos descendentes de Noé. A segunda seria um tipo de marca na testa de Caim que o identificaria como protegido por Javé e ao mesmo tempo traria sobre si a ignomínia e a culpa de seu pecado.

A Bíblia nunca disse que o sinal estava sobre a testa de Caim, mas pelo fato de a marca aparecer noutros contextos na fronte dos protegidos de Javé, imediatamente relacionaram o sinal cainita a esta parte. O terceiro procede de uma possível releitura do v. 15. Enquanto as versões costumam traduzir “e pôs...um sinal” esta escola traduz “apontou...um sinal” e outra “estabeleceu...um sinal”. O sinal não estaria em Caim, mas sobre ele, como no caso do arco-íris em 9.12. Deus apontou alguma espécie de sinal para Caim em vez de marcá-lo. A pergunta ainda continua aberta!

Publicado no Jornal Mensageiro da Paz, edição de dezembro.