29 de maio de 2013

Gleason L. Archer - A Arca de Noé e o Dilúvio

Quanto ao Grande Dilúvio de Gênesis caps. 6 — 8, alguma
discussão já foi levantada quanto às bases especiais sobre as quais 
Wellhausen baseou sua dissecação da narrativa em J e P. Nesta
discussão, foi demonstrado que a seção inteira forma uma narra-
tiva bem integrada e homogênea. Mas a comparativa falta de evi-
dências geológicas dum cataclismo de âmbito mundial tem levan-
tado dúvidas quanto à universalidade do Dilúvio. Depósitos do tipo
que um dilúvio deixaria não foram achados de maneira caracterís-
tica ou uniforme nos sítios escavados no Vale da Mesopotâmia. O
estrato grosso deixado por uma inundação, descoberto por Leonard
Wooley em Ur data do quarto milênio (cerca de 3.800 a.C.), mas
apenas um outro estrato de aluvião daquela mesma época tem sido
descoberto até hoje: aquele achado por Stephen Langdon em Quis
(a propósito, um depósito com bem menos profundidade). Os
outros depósitos de inundações, descobertos em Quis, Surupaque,
Uruque e (possivelmente) Lagás, representam uma inundação de
mil anos mais tarde, a julgar pelas remanescências arqueológicas
e pela seqüência estratográfica.  Conquanto as escavações não
tenham penetrado em todos os casos até o nível que seria o equi-

valente de 3.800 a.C., nalgumas das cidades supracitadas, pelo me-
nos em Quis desceram até ao solo virgem, imediatamente abaixo
do nível de 2.800 a.C.

Naturalmente é verdade que estas poucas escavações profundas
não são suficientes para deduzir conclusões sólidas. Mas leva-
ram a maioria dos arqueólogos a duvidar duma inundação geral
sobre mais do que uma área local — pelo menos dentro do período
investigado nas próprias escavações — e mesmo os apologistas
conservadores firmes alistados por Ramm (CVSS 238-247) têm de-
fendido a teoria dum Dilúvio limitado ao berço da raça humana
na Mesopotâmia (ou possivelmente estendendo-se até à bacia do
Cáspio). George F. Wright  parece inclinado à possibilidade que
possa ter sido limitado ao vale do Eufrates, entendendo־se que a
raça humana tivesse sido restrita a esta área naquela época, sendo
pois, totalmente destruída. Faz, porém, referências às evidências
geológicas do Dilúvio no Egito, na Palestina, na Sicília, na França
e na Inglaterra (possivelmente também na América do Norte, cf.
826a). O Comentário de Jamieson, Fausset e Brown (Vol. I, p. 98)
menciona que o texto hebraico não indica necessariamente um
dilúvio universal.  L. M. Davies  também concedeu que o Dilúvio
não tivesse sido necessariamente universal, mas mesmo assim, in-
dicou fenômenos tão distantes como os mamutes congelados da
Sibéria como sendo evidências em prol duma inundação muito
extensiva e súbita. (Infelizmente, porém, para esta correlação, o
último dos mamutes siberianos é datado pelos paleontologistas em
30.000 a.C. ou antes). J. W. Dawson  nega que o autor hebreu tinha
em mente um Dilúvio literalmente universal.

Explicando-se esta asseveração, precisa ser esclarecido que a
palavra hebraica ’ereç, traduzida consistentemente por “terra” em
nossas Bíblias, também indica “país” ou “região” (e.g. “a terra de 
Israel”, “a terra do Egito”). Há outro termo, têbhêl, que indica a
expansão total da Terra, o mundo como um todo. Em nenhuma
parte desta narrativa surge a palavra têbhêl, mas só ’erec, em todas
as declarações que parecem ser tão universais em nossas Bíblias
(e.g. 7:4,10,17,18,19). Assim, pode ser entendido que “tudo o que
estiver na região morrerá” — seja qual for a região geográfica en-
volvida no contexto e na situação de Gênesis 6:17. Se esta inter-
pretação for permitida, então as montanhas cujos cumes foram sub-
mergidos pelo Dilúvio seriam as montanhas relativamente mais
baixas da região ao redor da Mesopotâmia e não seriam incluídos
os Himalaias altivos (tais como o Monte Everest com quase nove
quilômetros de altura). Correspondentemente, a palavra ’adhãmâ,
também traduzida “terra” em Gn 7:4, pode ser entendida como sen-
do a superfície do solo da mesma área indicada pela palavra ,ereç
dos outros versículos. Mas a frase “todos os altos montes que havia
debaixo do céu” em Gn 7:19 não pode ser assim tão facilmente ex-
plicada. Duvida-se que em qualquer outro trecho das Escrituras
hebraicas esta expressão “debaixo do céu” possa ser interpretada
como sendo a descrição duma mera região geográfica. Por este
motivo, muitos exegetas cuidadosos, como Franz Delitzsch no sé-
culo passado  e mais recentemente H. C. Leupold,  não têm conce-
dido a possibilidade exegética de interpretar Gênesis 7 como sendo
a descrição duma inundação meramente local.

Problemas científicos formidáveis são levantados pelo conceito
dum Dilúvio universal, segundo o resumo de Ramm (CVSS 244-
246). 1. Segundo as melhores estimativas, um nível de água para
cobrir os Himalaias exigiria oito vezes mais água do que o total
atualmente existente no nosso planeta. 2. A posterior retirada de
tão grande quantidade de água constitui problema quase insuperá-
vel, porque não há lugar para onde as águas poderiam ser drenadas.
(É assim que Ramm interpreta o verbo shãkak de Gn 8:1 — mas
os dicionários traduzem “diminuir”, “abaixar” e não “drenar”).

A mecânica desta diminuição do nível da água seria deveras di-
fícil, pois a atmosfera não poderia conter aquele tanto de água em
forma evaporada, e duvida-se que quaisquer cavidades subterrâneas
pudessem receber mais do que uma pequena fração deste volume
adicional de água. 3. Quase nenhuma vida vegetal poderia ter
sobrevivido à submersão na água salgada durante mais de um
ano, e a mistura da água do oceano com a chuva deve ter pro-
duzido uma concentração salina mortífera, mesmo que tenha sido 
uma mistura consideravelmente diluída. Praticamente toda a vida
marítima teria perecido, excetuando-se aqueles organismos, com-
parativamente poucos, que podem agüentar tremendas pressões,
sendo que 90% da vida marítima hoje existente acha-se nas
primeiras cinqüenta braças de profundidade, e muitas destas es-
pécies não podem viver numa grande distância dos seus sítios na-
tivos onde se alimentam. Presume-se que as espécies de peixes de
água doce tivessem morrido, mesmo se tivesse havido uma sufi-
ciência de salinidade para sustentar os peixes de água salgada.

4. Certas áreas da superfície terrestre demonstram clara evidência
de não terem sofrido nenhuma submersão. Por exemplo, em Au-
vergne (França), há, segundo relatórios, cones de escórias e cinzas
soltas, provindas de vulcões de milhares de anos antes do Dilúvio,
sem, porém, mostrar o mínimo sinal de terem sido perturbadas ou
arrastadas por águas de inundação.

Talvez seja possível esclarecer as dificuldades (1) e (3) postu-
lando atos especiais de criação ou recriação da parte de Deus.
(Mas, por que haveria tanta preocupação em conservar os animais
terrestres na arca, se a recriação era tão facilmente disponível?
Mas (2) exigiria muita aniquilação de matéria aquosa — o que
parece ser altamente improvável. A dificuldade (4) parece desafiar
qualquer explanação, a não ser que os vulcões envolvidos tivessem
sido de origem posterior à época de Noé, e que os métodos de da-
tá-los tivessem sido errôneos. Ou talvez seja o caso de as escórias
não serem tão facilmente perturbáveis pela ação da água como o
argumento supõe.

Não é possível, contudo, sustentar que mesmo uma inundação
local seja uma explicação que solucione estas dificuldades cien-
tíficas. Gênesis 7:19 declara muito explicitamente que o nível da
água cobriu todos os altos montes que havia debaixo do céu. En-
tendendo-se que as montanhas em questão fossem meramente as
daquela região (uma interpretação que o texto dificilmente com-
portaria), no mínimo a água deve ter coberto os picos do Monte
Ararate, visto que a arca foi encalhar no pico mais alto (além
de 5.000 metros de altura). A inferência inevitável é que o nível
da água tenha subido até mais do que 5.000 metros acima do atual
nivel do mar. Isto cria para a teoria do âmbito restrito do Dilúvio
dificuldades quase tão graves como aquelas que a teoria procura
evitar. Como é que o nível poderia ter chegado ao cume do Ara-
rate sem ter subido à mesma altura no mundo inteiro? Só du-
rante um surto temporário, como no caso da pororoca, é que a
água não conserva um nível igual. Admitir que a Armênia tivesse 
recebido 5.000 metros de água sem ter havido nenhuma inundação
em Auvergne na França, é propor um milagre mais incrível do que
qualquer coisa implicada pela maneira tradicional de crer num
Dilúvio universal.

A única solução possível, aparentemente, achar-se-ia na suposi-
ção de que o Monte Ararate estivera a um nível muito mais baixo
do que atualmente. É muito difícil definir a data dum movimento
para cima da crosta terrestre, do tipo que produz montanhas, e
isto deixa a possibilidade de as grandes serras montanhosas terem
atingido níveis muito mais altos do que na época de Noé, mesmo
no decurso dos poucos milênios que decorreram desde então. Mas
tal suposição seria aplicável não somente às montanhas da serra
de Ararate, mas também ao Himalaia e às Cordilheiras, aliviando
uma boa parte do problema da quantidde de água necessária para
um Dilúvio universal.

Uma linha muito interessante de evidência tem sido fornecida
por alguns expoentes do diluvianismo, no que diz respeito às fis-
suras ósseas descobertas em localidades separadas por grandes
distâncias, em ambos os hemisférios. A. M. Rehwinkel, por exemplo,
no seu livro The Flood — “O Dilúvio” (1951), descreve estas gran-
des fissuras, algumas delas em colinas de considerável altura, e
tendo entre 40 e 100 metros de profundidade, contendo os restos
de mamíferos dos mais heterogêneos. Sendo que nenhum esque-
leto é completo, a inferência é que nenhum animal caiu vivo nestas
fissuras. Não há nenhuma evidência de os ossos terem sido expos-
tos abertamente aos elementos, nem de terem sido rolados por
riachos. É certo que foram depositados ali debaixo de água, pois
foram cimentados juntamente com calcita. Notavelmente, num
depósito deste tipo no Vale do Saar, foram achados os restos de
ursos, lobos, bois e de muitos animais de pequeno porte. Outros
foram localizados na Ilha de Cerigo ou Kythera (afastada do extre-
mo sudeste do Peloponeso), na Rocha de Gibraltar, e perto de Odes-
sa no Mar Negro. Este local nomeado por último foi escavado em
1847 e produziu cerca de 4.500 ossos de ursos, hienas, cavalos, java-
lis, mamutes, rinocerontes, bisões, veados, e muitas criaturas pe-
quenas. Em Malta, foi descoberta uma fissura na qual, juntamente
com os restos heterogêneos, foram descobertos enormes blocos de
pedra que só poderiam ter sido levados para lá pela atuação violenta
de água. Em Agate Springs, Nebraska, foi feita uma descoberta se-
melhante em 1876. Numa área de 10 acres, havia os restos de pelo
menos mil animais, que aparentemente tinham morrido instanta-
neamente em grandes números.

Todas estas descobertas indicam uma catástrofe súbita, en-
volvendo a ruptura da superfície da terra em fendas enormes, nas
quais foram derramados os corpos de enormes números de animais
que de súbito tinham sido acometidos por uma inundação. Se
as datas obtidas pelo flúor e pelos testes do carbono 14 indicariam
uma data suficientemente recente para identificar esta catástrofe
com o Dilúvio de Noé já é outra questão. No caso de espécies ex-
tintas tais como o mamute, o assunto da data verdadeira da sua
extinção é de importância crucial. Seria necessário um fundamento
científico para fixar este evento mais perto da nossa época antes de
associar estes dados (coligidos por George McCready Price e ci-
tados por Rehwinkel) com o episódio bíblico. Possivelmente, pres-
suposições quanto à uniformidade dos testes de flúor e de carbono
14 chegarão um dia a ser invalidadas pela descoberta de novas
evidências. 

Neste ponto devemos mencionar a questão levantada por al-
guns autores, de se realmente o Dilúvio tenha resultado na des-
truição de toda raça humana (excetuando-se a família de Noé).
As listas genealógicas de Cão, Sem e Jafet em Gênesis 10 não per-
mite uma identificação fácil com as raças mais remotas que viviam
 nos confins mais remotos da África, do Extremo Oriente, da Aus-
trália e das Américas. Especialmente no caso da Austrália, com sua
fauna peculiar, indicando um longo período de separação do con-
tinente Eurasiano, a dificuldade de achar a conexão entre a po-
pulação humana ou animal com os passageiros da arca tem sido
reconhecida como sendo aguda. Talvez, pois, conforme alguns es-
tudiosos sugeriram, devemos ver, na família de Noé, apenas os an-
cestrais das nações que tinham a mais estreita vizinhança com a
Terra Santa, isto é, os povos do Oriente Próximo e Médio, e das
costas do Mediterrâneo.

Esta sugestão entra em choque com, pelo menos, três dificulda-
des formidáveis, à luz da evidência bíblica. A primeira é que o pro-
pósito divino, segundo a narrativa do Dilúvio, era destruir a raça
humana inteira. Assim, em Gênesis 6:7, lemos: “Disse o SENHOR:
Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o
animal, os répteis, e as aves dos céus, porque me arrependo de os
haver feito”. Assim também no v. 17: “Porque estou para der-
ramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne
em que há fôlego de vida debaixo dos céus: tudo o que há na terra
perecerá”. “O homem” aqui é hã’ãdhãm, e “terra” é ,ereç, e mesmo
sem levantar a questão de traduzir “terra”, “mundo”, ou “região”,
“país”, parece bem evidente que se trata duma destruição total da
raça humana.

Em segundo lugar, a narrativa de Gênesis esclarece com toda a
segurança que o motivo de ter havido o Dilúvio foi a condição peca-
minosa da raça humana. Gênesis 6:5 declara: “Viu o SENHOR que
a maldade do homem se havia multiplicado na terra, e que era
continuamente mau todo desígnio do seu coração”. Do mesmo
modo, no v. 11: “A terra estava corrompida (wattishshãhêt) à
vista de Deus, e cheia de violência (hãmãs — maldade injuriosa)”.
Parece pouco provável que os ancestrais australianos e dos povos do
Extremo Oriente tenham contrastado tão dramaticamente no as-
sunto de moral, com as nações do Oriente Médio, ao ponto de Deus
considerar isentos do castigo do Dilúvio. A Escritura claramente in-
clui toda a raça humana no veredito de “culpado” (e.g. Rm 3:19:
“.. .para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável [“res-
ponsável”] perante Deus”). Esta é uma premissa básica do Evan-
gelho neotestamentário. Não há bases para se diferenciar entre as
nações mais próximas da Palestina e as que ficavam mais remotas.
Em terceiro lugar, temos a corroboração inequívoca do Novo
Testamento, que a destruição da raça humana na época do Dilúvio 
era total e universal. Em II Pedro 3:6 lemos: “.. .veio a perecer o
mundo daquele tempo, afogado em água”. Compare-se II Pedro
2:5: Deus “não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pre-
gador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre
o mundo de ímpios”. O próprio Cristo disse, segundo Mateus
24:38,39, sobre os dias de Noé: “Porquanto, assim como nos dias
anteriores ao dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam-se em
casamento, até ao dia em que Noé entrou na Arca, e não o perce-
beram, senão quando veio o dilúvio, e os levou a todos (hapantas),
assim será também a vinda do Filho do homem”. Embora a pa-
lavra “todos” não seja sempre aplicada a um sentido completa-
mente universal nas Escrituras, é consistentemente empregada
para abranger o número total de indivíduos envolvidos numa dada
situação. Certamente que todos os homens desde Adão têm sido
pecadores; portanto, mesmo nos dias de Noé todos devem ter sido
incluídos na destruição causada pelo grande dilúvio. 

Outra linha importante de evidência deve ser ainda mencio-
nada,, e esta é a prevalência marcante de tradições escritas e orais
acerca do Dilúvio que têm persistido entre os povos mais diver-
sos da terra. Os sumerianos, os babilônios e os assírios da Meso-
potâmia, é natural que conservassem cuidadosamente tradições se-
melhantes às dos hebreus, visto que habitavam tão perto do pre-
sumido centro da civilização antediluviana. Possivelmente, a lenda
egípcia, narrada por Platão em Timeu, e a versão de Maneto (na
qual apenas Tote se salvou do Dilúvio), poderiam ser explicadas por
sua proximidade geográfica ao Crescente Fértil. A tradição grega
de Deucalião e Pirra (narrada de maneira tão encantadora por
Ovídio, em Metamorfoses) pode ter sido um empréstimo do Oriente
Próximo. O mesmo se poderia dizer da tradição de Noé em Apamea
(Ásia Menor) que inspirou a representação da arca nalgumas das
suas moedas.

Mas que se pode dizer da lenda de Manu preservada entre
os hindus (segundo a qual Manu e sete outros foram salvos num
navio duma inundação de alcance mundial); ou a de Fah-he entre
os chineses (foi ele o único sobrevivente, com sua esposa, três filhos
e três filhas); ou a de Nu-u entre os havaianos; ou a de Tezpi entre
os índios do México; ou a de Manabozo entre os algonquins? Todas
estas concordam em declarar que a raça humana tenha sido inteira- 
mente destruída por um grande dilúvio (usualmente descrito como
tendo sido de alcance mundial), como resultado do desgosto divino
perante o pecado humano, e que um único homem, com sua fa-
mília e pouquíssimos amigos, tenha sobrevivido à catástrofe por
meio dum navio, duma balsa e duma canoa grande, dalgum tipo.

Não são todas as tradições primitivas que incluem uma arca
como meio da salvação. Entre certos povos, como os aborígines
das Ilhas Andamã da Baía de Bengala, e os bataques da Sumatra,
foi um pico montanhoso muito alto que ofereceu o refúgio vital ao
único sobrevivente. Mas fora deste detalhe, as linhas básicas da
lenda seguem a estrutura básica da narrativa de Gênesis. Os Quur-
nai (tribo de aborígenes da Austrália); os habitantes das Ilhas de
Fiji, os nativos da Polinésia, Micronésia, Nova Guiné, Nova Zelân-
dia, Novas Hébridas, os antigos célticos do País de Gales, os tri-
bais do Lago Caudie no Sudão, os hotentotes, os habitantes da
Groenlândia — todos têm suas tradições dum dilúvio, de destruição
universal, que eliminou toda a raça humana a não ser um ou dois
sobreviventes. A coleção mais completa destas lendas de dilúvios
de todas as partes do mundo se acha na obra alemã de Richard
Andree, Die Flutsagen — “As Lendas do Dilúvio” (1891). Em Inglês,
o relatório mais compreensivo acha-se talvez no livro de James
Frazer, Folklore in the Old Testament (Vol. I, 1918). Se a preva-
lência mundial destas tradições pode ser reconciliada ou não com
uma teoria dum dilúvio local, pelo menos enfatiza a inclusão de
todas as raças humanas entre os descendentes de Noé, sem exce-
tuar algumas das populações da África, da índia, da China e das
Américas (conforme o que Ramm parece indicar em CVSS 239-240).
Freqüentemente a narrativa de Gênesis tem sido criticada como
sendo não plausível por causa da capacidade insuficiente da arca
segundo as dimensões registradas. Mas na base de um côvado de
52 cm (podia também ter sido um côvado de 46 cm), a arca teria
183 m de comprimento, 30,5 de largura, e 18,3 m de profundidade.
Entendendo que a construção tenha tido a forma duma caixa
(arca) — altamente provável em vista de seu propósito peculiar
sua capacidade seria perto de 102.000 m3, espaço suficiente para
2.000 caminhões de gado (cada um contendo 18 a 20 vacas, ou 60
a 80 porcos, ou 80 a 100 ovelhas). Atualmente, só existem 290
tipos de animais terrestres maiores do que a ovelha; há 757 espé-
cies entre o tamanho da ovelha e o do rato, e 1.359 menores do
que ratos. Dois exemplares de cada uma destas espécies se aco-
modariam confortavelmente na capacidade cúbica da Arca, sobran- 
do espaço para sua forragem. Evidentemente, há numerosos pro-
blemas vinculados com o sustento dum número tão grande de
animais no decurso de tantos meses (especialmente se cada um
tivesse que conservar seus hábitos de alimentação), mas nenhum
deles é insuperável. Talvez possa ser mencionado aqui que uma
mera inundação local, apenas coextensiva com a raça humana nas
depressões da Mesopotâmia ou do Cáspio, é difícil de ser reconcilia-
da com a insistência divina (cf. Gn 6:19,20) e ainda conservar todas
as várias espécies de animal. Há pouquíssimas espécies hoje que se
confinam especificamente àquela região e há, portanto, dificuldade
em se compreender porque os animais das regiões ao redor, que não
sofreram a inundação, não pudessem ter repovoado a região devas-
tada sem empecilho, depois do recuo das águas. Daí, não haveria
finalidade alguma em incluí-los na Arca.

Aqui caberiam algumas considerações quanto à narrativa ba-
bilônica do Dilúvio. Segundo a epopéia de Gilgamés, depois de ter
havido uma assembléia de deuses que decretou o Dilúvio, o deus Ea
revelou o plano a um homem chamado Utnapistim de Surupaque
(uma cidade no Eufrates). Inventando uma mentira (segundo a
sugestão de Ea), para não causar alarme ao restante da população,
Utnapistim formou sua arca desajeitada, de forma cúbica (120 côva-
dos em cada dimensão), e recebendo um sinal (combinado com o
deus-sol Chamach) fechou a porta atrás de si, com sua família, seu
piloto Puzur-Amurri, e os animais nos seis conveses do navio, e
então veio o Dilúvio. Durou duas semanas (contrastando-se com
o ano e dezessete dias da narrativa de Gênesis), e era de tal vio-
lência em chuvas e ventos que até os deuses tremiam de medo (a
deusa Istar até verteu lágrimas de arrependimento pela destruição
da raça humana). Depois de aterrisar no Monte Nisir (na cadeia
de Zagros, ao nordeste da Babilônia), a arca segurou firme, e
Utnapistim enviou (a) uma pomba, (b) uma andorinha, e (c) um
corvo, o último dos quais não voltou. Depois, saiu para fazer um
sacrifício aos deuses, que até então estavam tão famintos por falta
de ofertas que desceram como enxame de moscas esfomeadas (placa
XI, 1.161). Enlil (ou Bei) surgiu depois, muito zangado por Utna-
pistim ter escapado da morte, mas Ea fez tão grande apelo ao seu
senso de justiça, que reconciliou Enlil àquilo que tinha acontecido.

Tiniu promoveu Utnapistim e sua esposa à imortalidade divina.
As semelhanças com a narrativa de Gênesis são tais, que sugerem
uma, origem comum da antiga tradição oral, mas as diferenças
são grandes demais para permitirem a teoria de que uma possa ter 
emprestado da outra. O contraste marcante entre os deuses do
panteão da Babilónia, com suas paixões, brigas e gula, e a san-
tidade majestosa de Jeová é dramático e significante. Semelhante-
mente a inviabilidade duma arca em forma de cubo, e a inunda-
ção do mundo por apenas quatorze dias de chuva, se contrastam
com as dimensões navegáveis e o lento desaparecimento das águas
segundo o registro bíblico.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.