28 de maio de 2013

Eugene H. Merrill - As Distinções da Teologia Sistemática

Os termos bíblico e teologia evocam uma gama de conotações e associações.
O que, então, dizer da combinação Teologia Bíblica. Não é tautológico o uso em
conjunto? Não é auto-evidente que os adjetivos bíblico e teológico são praticamen-
te sinônimos e que, em todo caso, a teologia é inconcebível sem a Bíblia?
Estas e outras perguntas semelhantes têm surgido desde os tempos do An-
tigo Testamento e ao longo do curso da história da Igreja e exigido novas respos-
tas a cada geração. Hoje, na primeira década do século XXI, mais do que nunca,
isto é verdadeiro, pois as disciplinas gêmeas da teologia e erudição bíblica estão
em tremenda desordem e raramente a Igreja tem estado menos segura sobre as
suas inter-relações. 

As DISTINÇÕES DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA


A interpretação tradicional da Teologia Bíblica manifesta-se em uma de
duas formas: (1) é o corpo da verdade contida na Bíblia, quer esteja ou não
sistematizada em algum ponto; ou (2) é a verdade que se origina na Bíblia,
mas que se expressa em categorias lógicas e filosóficas.  A ultima forma, mais
corretamente definida por Teologia Sistemática, é essencialmente de método e
elaboração dedutivas, ao passo que a primeira forma, Teologia Bíblica no senti-
 do restrito e técnico, é indutiva. Em outras palavras, a Teologia Bíblica procura
encontrar suas categorias e focos teológicos na própria Bíblia e não a partir de
padrões racionais ou clássicos derivados de fora e impostos na Bíblia.
Outra diferença entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática está nos ter-
mos do desenvolvimento e dinamismo, de um lado, e conclusão e estatismo, de
outro. Falando teologicamente, uma é de perspectiva diacrônica e a outra, sin-
crónica.  A Teologia Sistemática interessa-se em ver e articular a verdade bíblica
em termos do testemunho canônico completo, sem preocupação particular pelo
processo desenvolvente em ação para criar a forma final. E a mais sintética das
disciplinas e objetiva um resultado unificado. A Teologia Bíblica interessa-se
em discernir, localizar e descrever o progresso da revelação divina ao longo do
Cânon desde as primeiras até às mais recentes expressões. Precede, logicamente,
a sistemática e é a ponte entre a exegese e a sistemática.

Estas duas abordagens à teologia, se compreendidas e definidas correta-
mente, de modo nenhum são mutuamente exclusivas. Uma Teologia Sistemá-
tica genuinamente cristã encontrará sua doutrina somente na Bíblia e interes-
sar-se-á em limitar as categorias organizacionais às inerentes na Bíblia. Não
obstante, ainda emprega um método essencialmente sintético para avaliar a
matéria-prima teológica com que trabalha. Por exemplo, a Soteriologia, sen-
sível como é às diferenças entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento,
perscrutará a Bíblia do começo ao fim em busca de dados que, juntos, com-
põem as doutrinas da salvação. Por outro lado, a Teologia Bíblica Cristã traçará
a história da salvação, um passo de cada vez, ao longo da Bíblia, permitindo
que a história tome qualquer forma apropriada em qualquer determinada fase
da revelação, reconhecendo como a doutrina desenvolveu-se à medida que a
revelação progredia. Então, e só então, a Teologia Bíblica procurará organizar e
sintetizar os resultados da investigação.

No esforço de distinguir entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática, é
enganador contrapor uma contra a outra, como se ambas estivessem em conflito
mútuo ou uma fosse superior à outra. São dois modos de ver e expressar o mes-
mo corpo de revelação. Muito dano tem sido causado pela inabilidade em per-
ceber as suas respectivas naturezas, prioridades e relações. Os que praticam só a
Teologia Bíblica, às vezes, não entendem a integração apropriada dos campos da
verdade que eles descobrem na indagação longitudinal. Vêem o desenvolvimen-
to da revelação divina, mas não conseguem entender a plenitude para a qual o
processo avança. Terminam muitas vezes com campos paralelos da verdade que
jamais são sistematizados em um padrão coerente. Os teólogos sistemáticos, às
vezes, são culpados de trazer estruturas epistemológicas à revelação bíblica que
são alienígenas ou estranhas a essa revelação. Forçam o material em conformi- 
dade com a grade filosófica própria, sem considerar a possibilidade de que a
verdade de Deus é intratável e tem de produzir as suas próprias categorias. 

Bons teólogos, de ambas as abordagens, reconhecerão a obrigação que de-
vem uns aos outros. Os intérpretes sistemáticos entendem que o material com o
qual trabalham deve ser extraído pelos exegetas e teólogos bíblicos, e os teólogos
bíblicos sabem que o trabalho não está completo se eles meramente localizarem
e delinearem os principais temas teológicos de determinadas porções da Bíblia.
Esses temas devem ser integrados e entretecidos de tal modo a produzir um
arranjo auto-consistente, harmonioso e equilibrado da revelação divina. Esta
tarefa, admitem eles, é do teólogo sistemático.

Lógica e metodologicamente, tem de haver um empreendimento coope-
rativo em fazer teologia que honre a Deus. Os teólogos bíblicos têm de abrir
caminho através de testes bíblicos, descobrindo indutiva e progressivamente a
verdade teológica. Nesse processo, podem ou não discernir padrões e paradig-
mas importantes, mas têm de fazer o esforço de extrair princípios que forneçam
os dados concretos para a síntese. Quer dizer, eles tem de ser diacrônicos e
sensíveis à revelação gradual, mas progressiva da disposição de Deus em revelar
informações sobre si mesmo. Os teólogos sistemáticos têm de fornecer o ponto
crucial do empreendimento teológico. Idealmente, recusam ler no determinado
texto o que não está ali, extraem os princípios pelos quais os teólogos bíblicos
trabalham (que não seja o seu produto) e negam-se a confeccionar uma cami-
sa-de-força filosófica na qual os dados indutivamente derivados tenham de ser
comprimidos.

SUA APLICAÇÃO NESTES VOLUMES

As contribuições literárias para estes volumes  são, deliberada e autocons-
cientemente, limitadas à Teologia Bíblica no sentido no qual acabamos de des-
crever. São o esforço de inspecionar a Bíblia como um todo a partir de uma
posição analítica e indutiva para extrair dela esses temas e interesses que lhe
são inerentes e que ocorrem periodicamente com tal regularidade e em tais pa-
drões evidentes a ponto de gerar a própria rubrica teológica. Não há a pretensão
de fazer uma sistematização completamente integrada e inclusiva da doutrina
bíblica. Esta é a tarefa dos teólogos sistemáticos que, esperamos, usarão estes
e outros estudos semelhantes no empreendimento do seu trabalho. Nem há
uniformidade total de ponto de vista dentro desses capítulos, pois cada estu- 
dioso da Bíblia chega ao texto bíblico com certas inclinações e normalmente as
interpreta dentro e fora do texto. Os melhores esforços na objetividade dificil-
mente são bem-sucedidos. A Bíblia em si não é uniforme na apresentação da
revelação de Deus. Quer dizer, pela própria natureza da revelação progressiva
e pela multiformidade da literatura e gêneros literários, há a sujeição a temas e
focos diferentes. Não é provável que os principais conceitos teológicos de Josué,
por exemplo, sejam os mesmos de Romanos. A Teologia Bíblica que emerge
destes respectivos livros está propensa a ser diferente em termos de conteúdo e
expressão.

Ao mesmo tempo, esperaríamos idealmente que estes diferentes aspectos
e fases fossem harmoniosos e complementares (certamente não contraditórios).
Além disso, eles deveriam ter o potencial ao menos para contribuir com um
núcleo ou centro teológico comum, que seja suficientemente minucioso para
servir como declaração única da intenção divina e, suficientemente amplo, para
abranger a grande variedade de sua declaração na Bíblia. Se em sua totalidade
a Bíblia é a Palavra de Deus, um reflexo da mente e propósito divino, é razo-
ável esperarmos que esteja organizada em torno de um tema central, pouco
importando quão esquiva essa verdade esteja em certas partes da Bíblia e como
diversificada esteja em outras partes.  Os trabalhos apresentados a seguir foram
escritos com esta convicção em mente e isso é mais do que evidente que um
consenso geral apareça apesar da ausência do editor teológico. O que é este
núcleo e como se manifesta ao longo do Cânon, ficará claro ao leitor cuidadoso
destes volumes.

O DESENVOLVIMENTO NOS ÚLTIMOS SÉCULOS

Embora as distinções entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática devam es-
tar claras agora, é importante lembrar que esta distinção é de época bastante recen-
te.  Até há uns duzentos anos, teologia era teologia, isto é, o estudo de Deus, seus
atributos e o meio em que Ele atua no mundo. O adjetivo bíblico era considerado
supérfluo, pois obviamente a teologia era derivada da Bíblia e tinha conteúdo bíbli-
co como o próprio objeto de estudo. Em tempos mais antigos, inclusive na era dos
escritos do Novo Testamento, a teologia nem mesmo era sistematizada. Consistia
apenas na apropriação da verdade do Antigo Testamento como fundamentação e
apoio para a revelação de Deus em Jesus Cristo. Em certo sentido, era verdadeiro
ao conceito e princípios da Teologia Bíblica, porque o judaísmo ou o cristianismo 
primitivo não faziam esforços para criar rubricas lógicas e mutuamente exclusivas
de acordo com as quais a revelação bíblica (ou seja, o Antigo Testamento) fosse
entendida. Por outro lado, tal empenho teológico não era teologia verdadeiramente
bíblica no sentido atual, pois nem o Novo Testamento nem outro antigo escrito
judaico e cristão empreendeu o tipo de investigação analítica e sintética do registro
bíblico como estes volumes estão fazendo. A teologia, como entendemos o termo no
século XXI, era uma noção estranha em tempos mais antigos.

O surgimento da Teologia Sistemática, às vezes conhecida por Teologia
Dogmática, acompanhou o surgimento dos estudos neoclássicos na igreja oci-
dental, especialmente o estudo da filosofia platônica e aristotélica. Isto ocorreu
de dois modos: (1) como resposta e discussão contra o paganismo associado
a tal pensamento filosófico e (2) pela apropriação de argumentos metafísicos
e epistemológicos empregados por esses filósofos. Havia aspectos negativos e
positivos do uso cristão da filosofia clássica.

Infelizmente não demorou muito para que a natureza formal da análise
e reconstrução filosófica fosse confundida com a sua natureza material. Quer
dizer, a teologia, no empenho de sistematizar, começou a absorver as categorias
filosóficas de organização e os conteúdos extrabíblicos e até antibíblicos deri-
vados do racionalismo filosófico. O resultado foi a imposição de estruturas e
pensamentos extrabíblicos nos dados teológicos da Bíblia. Foi em reação a isto
que nasceu o movimento da Teologia Bíblica em meados do século XVIII. O
brado tornou-se “de volta à Bíblia” em prol da substância da teologia e também
da metodologia a ser empregada na averiguação dessa substância. A reação foi
tão forte que os próprios conceitos da Teologia Sistemática ou Dogmática esta-
vam ameaçados, até que se percebeu que as duas, longe de serem inerentemente
antitéticas, eram complementares e que ambas as disciplinas eram necessárias.
A Teologia Bíblica assumiu o seu lugar legítimo como depósito do qual a Teolo-
gia Sistemática retirava seus recursos e a Teologia Sistemática reconheceu que só
podia falar com autoridade bíblica quando derivava suas categorias e substância
da Bíblia mediada pela Teologia Bíblica.

A análise precedente espelha principalmente o trabalho e atitude dos teó-
logos tradicionais e ortodoxos. Mas com o surgimento da moderna alta crítica,
aproximadamente contemporânea com esta nova distinção entre Teologia Bíblica
e Teologia Sistemática, desenvolveu-se um racionalismo cético para com a Bíblia
que a eviscerou da autoridade científica, histórica e teológica. O resultado foi que
a Teologia Bíblica do Antigo Testamento tornou-se nada mais, nada menos que a
historia da religião de Israel, ao passo que a Teologia Sistemática tornou-se urna
tentativa objetiva e não mais normativa de organizar o conteúdo de urna Biblia
desacreditada. A troca da Biblia como base e foco da teologia resultou em novas
abordagens, como a Teologia Filosófica ou a historia da doutrina.

As implicações avassaladoras disto para a vida e sobrevivencia da Igreja
ficaram claras para muitos pensadores cristãos de dentro e de fora da comuni-
dade evangélica. Foi assim que ocorreram os primeiros sinais do movimento da 
“Nova Teologia Bíblica” imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, um
movimento que acentuava a centralidade da Bíblia para o recurso teológico à
parte ou mesmo apesar das suas deficiências conforme sáo definidas pela crítica
histórica. Este foi o esforço empreendido principalmente pelos estudiosos com-
prometidos com o atual método crítico. Os proponentes de uma crença orto-
doxa nunca abandonaram uma Teologia Bíblica ou uma Teologia Sistemática
apropriada, embora a primeira fosse lamentavelmente negligenciada como um
método a favor da última.

Hoje, o movimento da “Nova Teologia Bíblica” envelheceu, mas nem por
isso o interesse das pessoas diminuiu. Estudiosos católicos, protestantes e ju-
deus estão ativamente ocupados em muitas formas de abordagens ao tema, que
variam de uma teologia como declaração da revelação de Deus em uma Bíblia
atemporal e inerrante para uma teologia como prisma pelo qual podemos en-
tender o antigo Israel como um fenômeno religioso e sociológico. É impossível
prever se o impulso do movimento, com todas essas características modernas e
criativas, conseguirão se sustentar por mais tempo. 

Estes dois volumes atestam a significação da Teologia Bíblica na percep-
ção da maioria da comunidade evangélica. Nos últimos cinquenta anos foram
feitos excelentes trabalhos,  mas este é talvez o primeiro deste tipo, um esforço
colaborador feito por uma equipe comprometida, com uma visão sublime da
autoridade da Bíblia e com a proposição de que a Teologia Sistemática sadia
tem de encontrar raízes e substância em uma Teologia Bíblica corretamente
empreendida. Os autores colaboradores são os primeiros a reconhecer o caráter
experimental do que fizeram. Entretanto, estão convencidos de que tal passo,
por mais preliminar que seja, é necessário para que o evangelicalismo faça uma
contribuição digna de confiança à teologia contemporânea.

EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.