31 de maio de 2013

Eugene H. Merril - Uma Teologia do Pentateuco (Introdução)

Uma teologia da Bíblia ou de suas partes tem de examinar cuidadosamente
o cenário da composição original — a época, o lugar, a situação e o autor — e
a questão da forma e função canônica final.  Isto é particularmente verdadeiro
acerca de uma teologia do Pentateuco, pois as tradições judaica e cristã o consi-
deram universalmente fundamental ao que quer que o Antigo e o Novo Testa-
mento digam teologicamente. É de extrema importância que demos atenção ao
pano de fundo do Pentateuco, no qual são tratados tais elementos do cenário.
A posição do Pentateuco no começo de toda organização conhecida do
Cânon bíblico já é uma confirmação da premissa de que estes cinco livros são
o manancial da inquirição teológica.  A própria ordem dos livros — Gêne-
sis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio — é, de acordo com todas as
tradições, intrínseca à composição mosaica original como também à forma
canônica final.


Uma teologia do Pentateuco tem de tomar conhecimento das circunstân-
cias históricas nas quais foi criado e, mais importante, dos interesses teológicos
que motivaram a sua origem divina e humana, além de sua forma e função
precisas. Até que entendamos tais princípios básicos, é impossível entender e
corretamente articular a mensagem teológica dos escritos de Moisés.

PANO DE FUNDO HISTÓRICO

A Bíblia afirma (cf. Êx 17.14; 24.4; Nm 33.1,2; Dt 31.9; Js 1.8; 2 Rs
21.8) que o Pentateuco foi criação de Moisés, o grande libertador no Exodo
que comunicou aos israelitas a revelação de Deus concernente a si mesmo e aos
propósitos para o povo recentemente resgatado. Isto aconteceu nas planícies de
Moabe, quarenta anos depois do Êxodo, na época em que Israel estava prestes
a conquistar Canaã e estabelecer-se como entidade nacional em cumprimento
das promessas feitas aos ancestrais patriarcais.  Embora não haja dúvida de que
houvera uma tradição oral (e talvez escrita) contínua acerca das suas origens,
história e propósito, foi Moisés que reuniu estas tradições e as integrou ao cor-
po conhecido por Torá, desta forma surgindo uma síntese abrangente e oficial.
Ficou clara a significação do Êxodo e do concerto sinaítico levando em conta
as antigas promessas patriarcais. Além disso, o papel de Israel diante do pano
de fundo da criação e das nações do mundo inteiro ganhou significado. Em
suma, o cenário do Pentateuco era teológico tanto quanto geográfico e históri-
co. Tornou-se a expressão escrita da vontade de Deus para Israel em termos dos
propósitos divinos mais amplos na criação e redenção.

O PENTATEUCO COMO LITERATURA

O nome Pentateuco reflete o tamanho da composição, visto que consiste
em cinco rolos. A própria tradição judaica usa um termo mais preciso e in-
formativo, a saber, Torá, que quer dizer “instrução”. Este nome sugere que o
propósito dos escritos mosaicos era educar Israel acerca do significado geral da
criação e da história, e acerca da função específica destas dentro dessa estrutura
cósmica.  De onde se originou o povo? Por que ele foi chamado pelo Senhor?
Qual era o significado da aliança? Quais eram as exigências de Deus para o seu
povo redimido nos regulamentos civis, morais e relativos ao culto? Quais eram
(e são) os propósitos divinos para o povo no futuro no que tange às nações da
terra?

A tradução da palavra hebraica tôrah por “lei” é inadequada, porque dá a
impressão de que os escritos mosaicos são textos essencialmente legais. Identi-
ficamos muito bem tais documentos no corpo do texto, mas de modo nenhum
são predominantes. Gênesis, na maior parte, é história e genealogia. O trecho
de Êxodo 1 a 19 é essencialmente narrativo, com o restante do livro se dividindo
entre prescrição “legal” e sua implementação. Levítico é basicamente instrução
relativa ao culto, legal no sentido de prescrever regulamentos para a adoração.
Números é de gênero misturado, na maior parte claramente narrativa com pou-
cos capítulos dedicados à lei. Deuteronômio começa na forma de grandes pales-
tras mosaicas entregues a Israel, como um discurso de despedida, pouco antes
de Moisés morrer e Israel conquistar Canaã. Criticamente, vemos a forma de
Deuteronômio como um longo texto do concerto incluindo comentários paren-
téticos sobre vários elementos dos seus documentos constituintes.  A “lei” em
Deuteronômio é, então, a seção estipuladora de um texto de tratado que regula
o comportamento do Israel vassalo para com o Senhor soberano.

O Pentateuco é uma coletânea de escritos diversos. Mas isto não enfra-
quece a compreensão tradicional da coletânea como Torá ou instrução. Através
de história, poema, genealogia, narrativa, prescrição e exortação, a mensagem
teológica é comunicada com um objetivo único: que Israel seja instruído quanto
ao significado e propósito. A forma literária, por mais útil que seja em certas
ocasiões específicas, tem pouco a dizer sobre o caráter fundamental do Penta-
teuco como literatura teológica.

PRESSUPOSTOS EM UMA TEOLOGIA DO PENTATEUCO

Embora desejemos fazer uma abordagem totalmente objetiva e não-prede-
terminada para a Teologia Bíblica, esta é uma impossibilidade, como admitem
francamente todos os teólogos.  Ninguém pode realizar essa tarefa sem precon-
ceitos quanto à forma e conclusões do que se faz. Até agora a meta é engajar-se
em um estudo indutivo da literatura, de modo a produzir categorias e resultados
próprios. Mesmo reconhecendo que isto é um princípio metodológico indis-
pensável, ainda temos de fazer certos pressupostos sobre o material sob exame
e a postura da qual o examinaremos. Os pressupostos apresentados a seguir
reforçam esta abordagem que fazemos à teologia do Pentateuco.

Pressupostos sobre Deus. Deus existe e é unificado, auto-consistente e orde-
nado. E claramente impossível fazer qualquer coisa que não seja uma “história
da religião de Israel”, ou “teologia descritiva”, a menos que admitamos a exis-
tência de Deus. Temos também de admitir que os propósitos de Deus são não-
contraditórios e compreensíveis a certo nível da compreensão humana. 

Deus se revelou na Bíblia. Esta revelação é unificada, consistente com Ele
e sistemática. Para fazermos teologia, temos de fazê-la com dados revelados por
Deus a fim de reivindicarmos autenticidade e autoridade. A auto-revelação de
Deus foi apresentada em termos humanos, quer dizer, foi comunicada de tal
modo a conformar-se com processos de pensamento e formulações verbais hu-
manas.

Deus tem um propósito para tudo o que faz e esse propósito, admitindo a
origem divina, tem de ser não-contraditório, auto-consistente, sistemático e re-
conhecível. Isto não quer dizer que todos os propósitos de Deus são inteligíveis
aos seres humanos ou que lhes sejam comunicados, mas que esses propósitos
lhes são incumbência obrigatória.

Pressupostos sobre a revelação. A finalidade da revelação é apresentar Deus
e os seus propósitos. A necessidade ou desejo de comunicar, obviamente pressu-
põe o mecanismo para comunicar o que for pertinente aos objetivos de Deus. É
inconcebível que Deus tenha exigências para a criação sem revelá-las em termos
significativos.

A revelação tem de expressar o propósito de Deus proposicionalmente. Se
tudo o que está em vista é o substantivo (ou seja, Deus), pode ser que respigue-
mos algo apenas por revelação geral, pois “os céus manifestam a glória de Deus e
o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (SI 19.1; Rm 1.18-23). Se, porém,
os verbos (ou seja, os propósitos de Deus) têm de ser revelados, eles devem ser
esclarecidos em declarações verbais, pois meros atos e eventos isolados — ou
até padrões de eventos em uma sequência contínua histórica — são, na pior das
hipóteses, sem sentido e, na melhor, ambíguas. O “evento” tem de estar acom-
panhado e ser interpretado por “palavra” para que seja revelador.

Podemos derivar a revelação do propósito indutivamente do texto (por
abstração de um princípio ou tema) ou dedutivamente (de uma declaração de
propósito) ou de ambos os modos. Os dois são mutuamente informativos e de-
vem ser mantidos permanentemente em equilíbrio. A declaração de propósito
que não se sustenta levando em conta o testemunho bíblico total é obviamente
um ponto de partida teológico inválido.

Pressupostos sobre o propósito. Desde o início temos de admitir a criação
como integral aos propósitos de Deus, pois ainda que Ele pudesse ter existido
independentemente e com propósito, a criação aconteceu e, junto com ela, veio
um propósito incluso. Se o propósito está associado à criação (ou vice-versa), a
declaração (ou declarações) de propósito da criação tem de estar em proximida-
de cronológica e canônica ao próprio evento da criação. Isto nos leva natural-
mente ao Pentateuco e especificamente à porção mais antiga de Gênesis.

A declaração (ou declarações) de propósito tem de ser tamanha a ponto
de ser validada por revelação subsequente como um todo, ser adequada para
acomodar a variedade da revelação bíblica e ser específica ou suficientemente
restrita para fazer uma declaração significativa sobre Deus (sujeito) e os seus
propósitos (predicado).

A declaração (ou declarações) de propósito tem de ajustar-se à estrutura
canônica da Bíblia inteira. Independente da nossa visão de inspiração e revela-
ção, a atual forma canônica da Bíblia reflete a postura teológica das comunida-
des que a receberam e moldaram sob a direção do Espírito de Deus.5 Repetindo,
em virtude de estar no princípio e ser a fonte da tradição canônica, esperamos
que Gênesis tenha declarações de propósitos fundamentais.

Pressupostos sobre o método teológico. Dentro do atual Cânon, cujo arranjo
reflete métodos e interesses teológicos amplos (isto é, a Torá, os Profetas, os
Históricos e o Novo Testamento), temos de descobrir a ordem cronológica de
modo a percebermos o progresso da revelação e a colocarmos a serviço de in-
teresses teológicos mais estreitos. No caso do Pentateuco, esta é uma questão
fácil, porque a tradição universal atesta a prioridade do Pentateuco e a forma
canônica coloca Gênesis em primeiro lugar.

Assim que determinamos a declaração de propósito (também agora a ser
interpretada como o centro), temos de ler a revelação bíblica sob essa luz, uma
leitura baseada na devida atenção (1) aos princípios de hermenêutica bem es-
tabelecidos, (2) à crítica literária/retórica, (3) à crítica da forma, (4) ao pano de
fundo histórico/cultural e (5) à exegese detalhada.

Temos de reavaliar a declaração de propósito para ver se ainda satisfaz os
critérios alistados na seção de propósito (acima).

O método apropriado para o cristão exige que vejamos o Novo Testamen-
to em continuidade com o Antigo Testamento e que vejamos ambos os Testa-
mentos como mutuamente informativos. Isto não significa que podemos ler o
Novo Testamento envolvendo-nos no Antigo, mas que temos de reconhecer
que os dois Testamentos são partes indivisíveis da mesma revelação do Deus
único e que nada no Antigo Testamento pode contradizer, de qualquer forma,

a revelação do Novo.


EUGENE H. MERRILL 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.