27 de maio de 2013

Gleason L. Archer - A Historicidade de Adão e a Queda

Quanto ao relacionamento entre Gênesis 2 e Gênesis 1, já foi
indicado que o emprego dos nomes divinos (Elohim e Javé) pode
ser reconciliado perfeitamente com a unidade de autoria. Sendo
que Elohim (“Deus’) era o nome apropriado para contextos fora
da Aliança, Moisés (supondo-se que foi ele o autor do Livro inteiro),
pode muito bem ter empregado este nome exclusivamente para o
relato da criação no capítulo 1, empregando o nome Javé para a
maior parte do capítulo 2, ao tratar da Aliança de obras estabe-
lecida entre Deus e Adão.

Questões têm sido levantadas quanto à seriedade de se aceitar
a narrativa inteira sobre Adão e Eva (e a serpente no Jardim do
Éden) como história literal. Muitos preferem considerá-la um sim-
ples mito ou fábula (“supra-história”, segundo o termo neo-orto-
doxo) no qual o colapso moral do homem se descreve através dum
episódio fictício escrito como ilustração do mesmo. (Mas, sendo
que, de fato, o homem é um ser caído, um agente moral com um

senso íntimo de culpa, o mito reflete uma verdade sublime, apesar
de nunca ter acontecido um episódio isolado deste tipo). Nenhuma 
objeção decisiva, porém, tem sido levantada contra a historicidade
de Adão e Eva, em bases históricas, científicas ou filosóficas. O pro-
testo tem sido baseado essencialmente em conceitos subjetivos de
improbabilidade.

Do ponto de vista da lógica, é praticamente impossível aceitar
a autoridade de Romanos 5 (“Por um só homem entrou o pecado
no mundo Pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a
morte.... Pela desobediência de um só homem muitos se tornaram
pecadores”) sem aceitar a inferência que a raça humana inteira
advém dum único progenitor. Em Romanos 5 há um contraste
entre Adão e Cristo. Se, portanto, Cristo era um indivíduo históri-
co, Adão também o era (senão, o Apóstolo inspirado estava errado).

Semelhantemente, Paulo aceita os detalhes de Gênesis 2, e os da
tentação e da queda em Gênesis 3, como sendo história literal.
Em 1 Timóteo 2:13 e 14 diz: “Porque primeiro foi formado Adão,
depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada,
caiu em transgressão”. Não há nenhuma dúvida que os autores do
Novo Testamento aceitaram a historicidade literal de Adão e Eva.

A origem da raça humana é necessariamente assunto de revelação
da parte de Deus, visto que nenhum registro escrito poderia re-
montar a uma época anterior à invenção da escrita. É conce-
bível que o verdadeiro relatório da origem do homem pudesse ter
sido transmitido pela tradição oral (e talvez existisse esta tradição
até a época de Moisés). Mas, fora da Revelação, registrada por
escrito como Escritura inspirada, não poderia haver qualquer certe-
za quanto à variedade estonteante de lendas da origem do homem
conhecidas entre as muitas diferentes culturas da terra, no sen-
tido de saber qual era o relato verdadeiro e digno de confiança. 
Aqui, o registro inspirado fala dum Adão e duma Eva literais, e não
dá a mínima impressão que a narrativa seja mitológica na sua
intenção,  Certamente Cristo e os Apóstolos receberam-na como
sendo história verdadeira.

Alguns escritores modernos, tais como Alan Richardson, com-
pararam a matéria narrativa de Gênesis caps. 1-11 às parábolas
do Novo Testamento. “Uma parábola é uma estória que pode ser
ou não ser verdadeira, literalmente falando (ninguém pergunta se
literalmente “aconteceu” o incidente do Bom Samaritano); mas é
certo que transmite um sentido além de si mesma. Implica em que,
além das palavras da estória que nossos ouvidos físicos captam, há
um sentido compreensível somente à nossa audição espiritual” (A.
Richardson, “Gênesis I-IX” SCM, 1953, p. 28). Mas esta comparação
com as parábolas do Novo Testamento envolve a pressuposição que
o autor de Gênesis tinha a intenção de que a narrativa dos capítulos
1— 11 tenha sido mera analogia ou comparação, para ilustrar algu-
ma verdade teológica, sem desejar que seus leitores tivessem a im-
pressão que estes episódios narrados tivessem acontecido na histó-
ria real. A introdução característica às parábolas de Jesus era: “O
reino de Deus é como..Sempre há algum ensinamento da dou-
trina ou da ética que está sendo explicada ao ouvinte, e apela-se
a uma ilustração para dar clareza ao ponto. Mas não há nenhuma
estrutura deste tipo nas narrativas e listas genealógicas de Gênesis
1-11. Em nenhum trecho se declara que a origem do mundo ou da
raça humana seja como algo análogo. Uma parábola nunca é ex-
plicada em termos de si própria; sempre envolve uma analogia
tirada de outra coisa semelhante. Assim como nunca teria sido
escrito: “O reino de Deus é como o reino de Deus”, assim também
não pode ter havido a intenção de implicar que “A origem da raça
humana é como a origem da raça humana”, ou “O Dilúvivo uni-
versal é como o Dilúvio universal”. Vê-se, portanto, que aqui falta
o elemento parabólico, tornando insustentável a interpretação de
Richardson.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.