29 de abril de 2013

O Anti-Sobrenaturalismo e a crítica bíblica em face do Antigo Testamento


                                       Por Danilo Moraes

Muitos críticos têm verdadeira aversão ao sobrenatural. Mas se não pudermos aceitar o sobrenatural, não podemos aceitar a revelação da divindade e muito menos a encarnação de Jesus e sua ressurreição. Se o valor histórico das Escrituras é descartado e os milagres são impossíveis nada fica na Bíblia que mereça crédito. Para muitos críticos a simples presença de um elemento sobrenatural no texto, serve de evidência suficiente para que ele rejeite a sua historicidade. Não levam em conta os críticos que a ciência moderna não mais encara a natureza como um sistema fechado, pelo que não se pode mais insistir em que os milagres são impossíveis cientificamente. A religião de Israel é uma religião histórica, e olhar para ela não levando em consideração sua historicidade é um dolo ao povo de Israel.

Resumidamente pode se dizer que dentro de uma história de cosmovisões, temos o teísmo que postula a existência de Deus e sua imanência dentro de um universo aberto; o deísmo crendo em Deus, mas negando sua manifestação no universo; e enfim o naturalismo negando acentuadamente a existência de Deus.
O naturalismo tem como base as seguintes premissas:
A matéria existe eternamente e é tudo o que existe. Deus não existe... O cosmo existe como uma uniformidade de causa e efeito num sistema fechado... Os seres humanos são máquinas complexas... A morte é a extinção da personalidade e da individualidade... A história caminha em linha reta, mas não tem nenhum objetivo predeterminado... O próprio homem produz suas normas éticas. (SIRE, 2001, pp. 66-91).

O naturalismo posto em prática se equivale ao humanismo secular. “Nascido no século XVIII, ele cresceu no século XIX e chegou à maturidade no século XX” (SIRE, 2001, P. 89). Mas felizmente antes do século XX terminar começaram a aparecer rachaduras no edifício naturalista.
Algumas explicações naturais têm sido propostas por alguns críticos e teólogos liberais, e alegam que pelo fato do êxodo ser cercado por eventos miraculosos acreditam ter sido os milagres inserções posteriores para “enfeitar” a passagem para que tivesse maior credibilidade. Esse tipo de raciocínio apenas demonstra a repulsa por milagres. A estudiosa Karen Armstrong faz a seguinte declaração quanto à historicidade do livro de Êxodo “O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica”. (ARMSTRONG, 2007, p. 21). Vale ressaltar que sempre houve períodos na história onde se manifestaram milagres com mais frequência, conforme o contexto e necessidade; e o momento que o povo de Israel passava era um momento de crise em sua história, tendo a necessidade de uma maior intervenção divina.
De forma muito clara se expressa o erudito em Antigo Testamento H. H. Rowley acerca da historicidade do êxodo de Israel do Egito:
É bem improvável que esse relato houvesse sido inventado pelos israelitas. Se o tivessem inventado, seria de esperar que atribuíssem a sua libertação ao Deus a quem até então haviam cultuado. Se a missão de Moisés fosse obra do seu próprio coração e da sua simpatia para com os seus compatrícios maltratados e oprimidos, de esperar seria que ele lhes apresentasse em nome do seu Deus. Em vez disso, dirigiu-se a eles na confiante persuasão de que fora mandado por Iahweh... Povo algum seria capaz de inventar, contra a verdade, uma história de que seus antepassados tinham sido escravos de uma nação estrangeira. Povo algum inventaria a história de que havia sido libertado por um Deus que até então não havia adorado, caso não tivesse sólidos motivos para crer que isso era verdade. E homem algum complicaria desnecessariamente a sua tarefa de libertar um lote de escravos, com uma estranha história de que havia sido enviado por um deus cujo nome eles jamais reconheceriam como o nome de seu deus, a não ser que estivesse profundamente convencido de que isso era verdade... Desconte-se qualquer dos aspectos desse acontecimento, e a narrativa ficará mais inacreditável do que como está na Bíblia. (ROWLEY, 2003, p. 59-61).

P. Volz, publicou em 1907 a primeira edição de sua obra Mose, e nela duvidou que a religião de Israel tivesse sido fundada em acontecimentos históricos. Contudo, na segunda edição em 1932 ele retratou sua opinião:
A religião mosaica e com ela toda a religião veterotestamentária é uma religião histórica, não uma religião natural. Foi fundada em um lugar determinado, numa época determinada, por uma pessoa determinada em uma sociedade determinada. Apoia-se em fatos históricos. (VOLZ apud ROWLEY, 2003, p. 59).

A mola propulsora desta nova exegese é a impossibilidade de acontecimentos sobrenaturais. Milagres não são possíveis. Portanto, se houve milagres, os respectivos textos devem ser entendidos como lendas, mitos[1] e sagas. A principal razão, pela qual os naturalistas não creem em milagres é porque a sua visão de mundo os impede de crer.
Wilhelm Möller diz:
Não acho que se pode tornar plausível que, em qualquer raça, as fábulas e os mitos viessem, no decorrer do tempo, a serem aceitos cada vez mais como fatos reais, de modo que devêssemos agora, quiçá, estar dispostos a aceitar como fatos históricos as lendas do Poema dos Nibelungos ou do Chapeuzinho Vermelho. Mas isto, segundo os críticos, deve ter acontecido com Israel.[2]

Segundo os críticos da Hipótese Documental, alusões proféticas em textos do Antigo Testamento devem ser consideradas uma vaticinium ex eventu, ou seja, uma profecia posterior ao evento profetizado. Mas, somente mentes que não consideram possíveis eventos sobrenaturais nos textos bíblicos podem supor tal argumento.

Para Andrew E. Hill “a questão da confiabilidade histórica das narrativas do Pentateuco (e de outras do AT) depende, pois, das pressuposições referentes à natureza do texto bíblico.” (HILL, 2006, p. 65). Em suma os críticos negam a origem divina das Escrituras e o sobrenatural das narrativas bíblicas, sob o pressuposto de que a Bíblia é um documento meramente humano pré-científico. Também buscam recriar a história de Israel través de achados arqueológicos, dados literários e modelos contemporâneos sociopolíticos.
A razão que leva os críticos a negar a historicidade de algumas narrativas do Antigo Testamento é que essas narrativas, algumas vezes não estão em conformidade com os padrões da escrita da história moderna. A historiografia moderna enfatiza a sequência cronológica rígida e clara, seleção equilibrada do material, citações textuais, e assim por diante. Mas ocorre que os escritores bíblicos não tinham o objetivo de escrever um tratado de história; mas o que observamos nos escritores bíblicos na maioria das vezes são propósitos e perspectivas teológicas, o que vem justificar as discrepâncias com a historiografia moderna. (KAISER, 2002, p. 99-102).
Assim dentro do propósito e alcance dos escritores bíblicos, eles apresentaram os dados históricos da melhor maneira possível. “A preocupação do texto não é comprovar a história, mas antes impressionar o leitor com a significação teológica desses atos. História e teologia estão estreitamente conectadas no texto bíblico.” (DILLARD, 2006, p. 20). Sem dúvida a metodologia literária que determinado pesquisador adote, afetara a resposta que se dá à questão histórica.
Quando os críticos negam a intervenção sobrenatural de Deus, eles negam baseados em suas pressuposições filosóficas e não devido análise das evidências históricas dos textos bíblicos. Para garantirmos a veracidade de um acontecimento precisamos investigar se realmente ele aconteceu, e não simplesmente nega-los mediante especulações filosóficas. Suas conclusões são determinadas por uma metafísica anti-sobrenatural. Todo o conteúdo da história de Israel deve ser naturalizado segundo suas pressuposições. Para os críticos mais radicais toda a história da origem de Israel esta envolta em mitos e lendas, e personagens como Abraão e Moisés são tidos como figuras não históricas. Alguns chegam à conclusão de que teria havido um clã com o nome de Moisés, e o mesmo passava de uma figura não histórica, tal qual a dos patriarcas.
Segundo os pressupostos da Hipótese Documental e alguns críticos, seria mais fácil dizer que, a história da travessia do mar vermelho (ou de juncos/bambuzal) pode ser interpretada corretamente sem referencia à sua verdade histórica. Ocorre que esta maneira de interpretar esta passagem em questão, e outras semelhantes atrai muitas pessoas principalmente porque possibilita aqueles que negam a crença no sobrenatural, mas desejam continuar sendo identificados como cristãos, encontrarem uma solução para seu dilema.
A aceitação dos eventos sobrenaturais dependera dos pressupostos que o intérprete tenha, se ele vê a Bíblia como qualquer outra literatura em uma perspectiva humana, ele evidentemente negará qualquer fator sobrenatural e considerará as Escrituras como uma “antologia religiosa”, porém, se o intérprete admita a realidade de Deus, e que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, não terá a mínima dificuldade em aceitar o sobrenatural.
“E verdade que nenhum cristão que acredite que a Bíblia possa conter erros fará dela sua única regra de fé e prática. Ele terá também de se apegar a alguma outra autoridade ou critério. Essa autoridade... é sua mente, sua habilidade pessoal de raciocinar.” (GEISLER, 2003, p. 135). Com isso vemos que o cânone da razão é imposto sobre o estudo das Escrituras. Definitivamente o anti-sobrenaturalismo dos críticos não passa de uma tese filosófica naturalística.
No método da Hipótese Documentária, reina uma incerteza geral - como a pomba depois do dilúvio, não encontramos chão firme onde pousar o pé. A teoria Documental tem sido caracterizada por uma espécie sutil de raciocínio em círculos; tende a postular sua conclusão “a Bíblia não é uma revelação sobrenatural” como sua premissa básica “não pode existir algo chamado revelação sobrenatural”. Esta premissa é claro, era um artigo de fé para toda a liderança intelectual na época do iluminismo do século dezoito.
Ficam implícitas que as razões pelas quais os críticos questionam a veracidade das histórias bíblicas são suas pressuposições anti-sobrenaturais, pois acreditar nestas histórias bíblicas implica em aceitar a intervenção sobrenatural de Deus, pois não se tratava de um vento qualquer, mas de um vento soprado pelo poder de Deus no evento do mar vermelho. Não se pode descartar a hipótese de que Deus utilizou-se de eventos naturais para conduzir seu povo ao outro lado do mar vermelho. Mas mesmo admitindo esta hipótese, ela não deixa de ser “sobrenatural”, pois se admite que foi Deus o agente da travessia.
Para um teólogo afirmar que o conhecimento científico torna a crença em milagres uma irresponsabilidade intelectual, equivale a dizer que o conhecimento científico confere-nos o conhecimento de limites dentro dos quais opera sempre a vontade divina. (MCDOWELL, 1997, p. 36).

Para o teólogo bíblico Geerhardus Vos, “O histórico pode ser sobrenatural, o sobrenatural pode entrar na História e, assim, tornar-se uma peça daquilo que é histórico em sua forma mais elevada.” (VOS, 2010, p. 370). Ainda, segundo Canon Dyson Hague (apud TORREY, 2005, p. 18) “A descrença antecedeu a crítica, não foi consequência dela”.
Samuel J. Schultz esclarece como devemos lidar com o Antigo Testamento ao relacioná-lo com o natural e o sobrenatural: “O Antigo Testamento só pode ser entendido em seu sentido mais amplo como história sagrada. Para que se tenha uma compreensão total de seu conteúdo, é necessário reconhecer que os fatores naturais e os sobrenaturais são essenciais em toda a Bíblia.” (SCHULTZ, 1995, p. 5).
Uma vez aceita a realidade da existência de Deus, automaticamente deve-se aceitar a existência do sobrenatural. Nada além da vontade de Deus pode impedir a manifestação do sobrenatural.

Bibliografia:
SIRE, James W. O Universo ao Lado. São Paulo : Editorial Press. 2001.
ARMSTRONG, Karen. A Bíblia uma biografia. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2007.
ROWLEY, H. H. A Fé em Israel: Aspectos do pensamento do Antigo Testamento. São Paulo : Teológica, 2003.
KAISER, Walter.; MOISÉS, Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
DILLARD, Raymond B; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo : Vida Nova, 2006.
GEISLER, Norman L (Org). A Inerrância da Bíblia. São Paulo : Vida, 2003.
MCDOWELL, Josh. Evidência que Exige um Veredito. São Paulo : Candeia, 1997. (v. 1 e 2).
VOS, Geerhardus. Teologia Bíblia, Antigo e Novo Testamento. São Paulo : Cultura Cristã, 2010.
TORREY, R. A. (ed.), Os Fundamentos: A famosa coletânea de textos das verdades bíblicas fundamentais. São Paulo : Hagnos, 2005.
SCHULTZ, Samuel J. A História de Israel no Antigo Testamento. São Paulo : Vida Nova, 1995.



[1] Estes “mitos” segundo alguns críticos teriam sido herdados da Babilônia e em parte no exílio. Adão, Eva, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, não seriam pessoas reais, mas simplesmente nomes que representavam classes ou tribos pré-diluvianas, ou ainda personificações de deuses e deusas do sol e heróis e heroínas lunares além de personificação de deuses locais.
[2] The International Standard Bible Encyclopaedia [A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional], editada por J. Orr, 1960, Vol. II, p. 1209.