5 de novembro de 2012

Naum - Questões Introdutórias


AUTORIA

A informação existente sobre Naum, o profeta, é muito limitada. Seu nome hebraico נָחוּם (nāḥûm) significa “consolado” e bem pode ser que haja uma ligação proposital entre esse nome e o consolo derivado de sua mensagem de castigo completo contra a feroz inimiga de Israel, Nínive. Naum era natural de Elcós, uma vila que ainda não foi identificada e que os estudiosos têm colocado em lugares variados como o Negebe (a moderna Bir el-kaus) e o rio Tigre (esta opinião se deve ao conhecimento acurado de Naum quanto à topografia de Nínive, e a existência atual de uma vila chamada Alkush). Outros candidatos são a moderna El Kauze e a bíblica Cafarnaum, ambas na Galiléia. A verdade é que Elcós não pode ser identificada com certeza.


Naum parece ter sido um homem de profundos sentimentos e grande intensidade, a julgar pelo seu estilo vigoroso e vívidas metáforas. Sua autoria exclusiva do livro nunca foi questionada até o final do século 19, quando estudiosos tentaram atribuir o primeiro capítulo a um autor diferente. Hermann Gunkel tentou identificar um poema em forma de acróstico no capítulo 1, mas suas repetidas tentativas de reproduzir tal poema falharam, exceto por um acréscimo radical ao texto.

DATA

A data da profecia de Naum é bem fácil de se estabelecer. O profeta menciona a queda de Tebas (3.8), a cidade egípcia também denominada de Nô-Amon, conquistada por Assurbanipal em 663 a.C., que seria o terminus a quo da profecia de Naum. Uma vez que o assunto principal da profecia − a queda de Nínive − ainda era futuro, o terminus ad quem deve ser 612 a.C., colocando assim o profeta no período geral dos reinos de Manassés, Amom e Josias.

Já que a referência à queda de Tebas certamente perderia o significado e impacto com o passar do tempo, é mais provável que o livro tenha sido escrito logo após este acontecimento. Além disso, há indícios no texto (1.13-15; 2.1-3) de que o poder assírio ainda não havia se enfraquecido e Judá continuava sob governo assírio, o que se encaixa melhor no reino de Manassés em vez de no reino de Josias, quando a Assíria estava em decadência e já perdera seu domínio sobre Judá. O argumento histórico definitivo para datar Naum em meados do século 7 é a reconstrução de Tebas por volta de 654 a.C. A pergunta retórica do versículo 3.8 ficaria sem sentido se a cidade já tivesse sido reconstruída.

Argumento básico

O tema básico de Naum é a destruição de Nínive como justa retribuição de Yahweh pela longa história de maldade vinda da capital assíria.

Ao desenvolver esse tema para seus leitores judaicos, Naum primeiro apresenta um quadro veemente de Yahweh como o Deus cujo caráter combina a severidade e a misericórdia perfeitamente, para consolo dos que nEle confiam. Segue-se a isso uma descrição detalhada do ataque a Nínive e a queda da poderosa cidade. A parte final enfatiza a inevitabilidade da destruição de Nínive devida ao mal que ela trouxera a todas as nações circunvizinhas.

O livro é apresentado como um מַָשּׂא (maśśāʾ), oráculo ou fardo, uma mensagem de maldição. Como tal, ela é paralela à pregação de Jonas, exceto que um século antes a possibilidade de arrependimento ainda estava aberta. A pouca duração da contrição de Nínive tornara seu julgamento inevitável.

O capítulo 1 apresenta um dos quadros mais tocantes de Deus no Antigo Testamento. Seu caráter zeloso (קַנּוֹא [qannôʾ]) e Sua ira (נֹקֵם [nōqēm] e נוֹטֵר [nôṭēr])1 são magistralmente associados com a Sua longanimidade (אֶרֶךְ אַפַּיִם [ʾereḵ ʾap̄payim])2 e seu poder, de modo a demonstrar sua natureza complementar, em vez de contraditória (1.2,3).

Yahweh é retratado como o Grande Vingador, capaz de subverter toda a terra em favor daqueles com quem Ele estabelece Seu pacto (1.4-8). Com eles, Ele é terno e bom, envolvendo-se pessoalmente (יָדַע, yāḏaʿ) com suas vidas (1.7).

O texto diz que a Assíria receberá a ira irreversível de Deus, e seu pesado jugo de impostos e opressão militar contra Judá será removido de uma vez por todas (1.9-14). Portanto, a profecia de Naum é de boas novas para Judá (1.15) e faz eco à promessa de libertação descrita em Isaías (cf. Is 40.9; 52.7).3 Judá seria liberta e depois deveria renovar seu compromisso com Yahweh (cf. Lv 23).4

O capítulo 2 contém a descrição do ataque contra Nínive. Os exércitos combinados de Ciáxares, da Média, e Nabopolassar, da Babilônia, cercaram Nínive em 615 a.C. e mantiveram o cerco por 3 anos. Naum oferece uma rápida descrição dos horrores, selvageria, saque indiscriminado e destruição generalizada dos últimos dias da grande cidade.

Nos versículos 1 e 2, a promessa da destruição de Nínive está mais uma vez ligada à restauração de Israel; neste sentido o versículo 2 tem implicações históricas (literais) e escatológicas (arquetípicas ou simbólicas). A seguir, Naum descreve o caos social e militar no qual Nínive estará imersa por ocasião do cerco final (2.3-10). Historiadores seculares (A Crônica de Babilônia e, bem mais tarde, Diodorus Siculus) mencionam batalhas ferozes, uma autoconfiança inicial por parte dos assírios, e posterior deserção e insubordinação agravadas por enchentes generalizadas devidas a causas naturais e técnicas de cerco.

A crescente pressão dos exércitos combinados de três nações invasoras acabou por minar a confiança inicial dos defensores. Os assírios ferozes e arrogantes de outrora acabaram por ser reduzidos a um punhado de fracotes (v. 10).

O final do capítulo 2 apresenta um quadro familiar, o do leão e sua família (também usada por Isaías para descrever a Assíria), para demonstrar o trágico final da dinastia assíria. A ferocidade com que a Assíria impôs seu domínio sobre o Oriente Médio e a obsessão que seus reis tiveram pela caça ao leão tornam esse quadro da desgraça de Nínive ao mesmo tempo agudo e irônico.

O capítulo 3 revela algumas das causas para a destruição final de Nínive. Violência indiscriminada (v. 1) e devassidão espiritual e política (v. 4) haviam marcado a história da Assíria desde o início (cf. Gn 10.8-12).5 A mais absoluta vergonha da destruição é descrita em termos de nudez e desdém público (3.5-7).

Em seguida, Naum ataca a arrogância auto-suficiente de Nínive. Seus muros magníficos não impediriam a destruição por vir; Tebas, tão bem protegida, havia sido conquistada e destruída pelos próprios assírios, e Nínive cairia da mesma forma. Quando o Senhor declara: הִנְנִי אֵלַיִךְ (hinnî ʾēlayiḵ) “Eis que estou contra ti” (2.13; 3.5), não há escape possível.

As metáforas multiplicam-se em um esforço para comunicar a absoluta inabilidade de Nínive escapar. Bebedeira e fragilidade feminina comunicam a inabilidade das tropas em manejar bem suas armas (3.11,13). Uma figueira com frutos maduros anuncia que a hora do julgamento divino se aproxima (3.12). As preparações frenéticas para repelir o cerco são descritas e declaradas inúteis, pois o coração de seu povo e de seus líderes estava lento e desorientado, (3.18) e incapaz de enfrentar a situação. O epitáfio vergonhoso de Nínive é de que sua queda seria saudada com alegria por todas as nações.

ESBOÇO SINTÉTICO

Mensagem

A violenta derrota de Nínive e a restauração misericordiosa de Judá revelam a soberania de Deus na História e Sua retidão em julgar, razões para a esperança daqueles que nEle confiam.
SOBRESCRITO (1.1)
 I. A derrota de Nínive e o livramento de Judá são resultado da justiça de Yahweh e da benevolência pactual (1.2-15).
 A. A justiça e o amor fiel de Yahweh garantem Sua intervenção contra os inimigos em favor dos que Lhe pertencem (1.2-8).
 1. O caráter de Deus é um misto de misericórdia paciente e de justa ira contra Seus inimigos (1.2,3a).
 2. As ações de Deus na História revelam Seu maravilhoso poder e a inabilidade do homem para suportar Sua ira (1.3b-6).
 3. O caráter de Deus capacita a recompensar com justiça tanto os que Nele confiam quanto os que a Ele se opõem (1.7,8).
 B. A trama de Nínive contra a soberania de Yahweh não impedirá Sua ordem para destruí-la e trazer paz ao oprimido Judá (1.9-15).
 1. Tanto planos contra o Senhor como aqueles que os imaginam serão completamente frustrados (1.9,10).
 2. A promessa divina para Judá é de que o rei cruel que governa sobre ele será eliminado e Judá será livre (1.11-13).
 3. A destruição da Assíria é decretada por Deus e Judá pode se regozijar e voltar à sua vida religiosa normal (1.14,15).
 II. A derrota de Nínive vem por meio de um violento ataque que os assírios não serão capazes de enfrentar, pois ele é ordenado por Yahweh (2.1-13).
 A. Nínive é prevenida da iminente destruição que (implicitamente) não será seguida de restauração, em contraste com Israel assolado pela Assíria (2.1,2).
 B. A queda de Nínive será uma cena de desesperada loucura e inevitável destruição (2.3-10).
 1. As hordas inimigas avançam sem piedade contra os trôpegos defensores de Nínive (2.3-6).
 2. O povo de Nínive é levado embora como escravo (2.7).
 3. Os tesouros acumulados de Nínive são pilhados enquanto seu povo cambaleia aterrorizado (2.8-10).
 C. A ruína militar e política é inevitável, apesar de sua história de poder e glória, devido à declarada inimizade de Yahweh contra ela (2.11-13).
 1. A majestade e força de Nínive, comparadas às dos leões, de nada valerão agora (2.11,12).
 2. A inimizade de Yahweh contra Nínive destruirá seu poder militar e político (2.13).
 III. A derrota de Nínive é inevitável e inescapável devido à corrupção interna do império assírio (3.1-19).
 A. Nínive foi condenada à absoluta humilhação pela exploração e violência feitas contra as outras nações (3.1-7).
 1. Violência e falsidade condenam a Nínive sanguinária (3.1).
 2. Desumanidade e crueldade condenam Nínive (3.3).
 3. Prostituição espiritual e opressão política condenam Nínive (3.4).
 4. Nínive será destinada a absoluta humilhação diante dos olhos do mundo sem ajuda possível (3.5-7).
 B. O poder e as forças armadas de Nínive não lhe valerão nada, assim como aconteceu a Tebas (3.8-10).
 C. As preparações de Nínive para resistência são inúteis, pois os vizinhos a quem ela aterrorizava certamente se regozijarão diante da retribuição divina pela sua violência (3.11-19).
 1. As preparações de Nínive são fúteis, pois seu povo não tem força moral no dia da sua perdição (3.11-17).
 2. As preparações de Nínive são inúteis, pois falta coragem moral a seus líderes para incentivar o povo a lutar até o fim (3.18).
 3. Todas as nações aterrorizadas pela Assíria se regozijarão diante de sua queda irrecuperável (3.19).

Fonte: PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo : Hagnos, 2008.