16 de outubro de 2012

Miquéias - Questões Introdutórias


DATA

O título do livro indica que Miquéias profetizou durante os reinos de Jotão, Acaz e Ezequias. Isto abrange um período de uns quarenta anos, aproximadamente entre 740 e 700 a.C. (cf. Eugene H. Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 455, que ressalta a escassez de informação histórica no texto de Miquéias, em contraste com Isaías, seu contemporâneo).

Os versículos 2 a 9 do capítulo 1 indicam que parte da profecia foi composta antes de 722 a.C., quando Samaria foi destruída pelos assírios. Jeremias 26.17-19 confirma a extensão do ministério de Miquéias até o reinado de Ezequias. Até que ponto deste reinado ninguém pode indicar com precisão, embora seja improvável que sua predição do juízo de Judá se refira à invasão por Senaqueribe em 701 a.C. (cf. 1.10-16).


A referência a sacrifícios humanos em 6.7 não aponta necessariamente para o reinado de Manassés, visto que a passagem é de natureza hiperbólica. Mesmo que se insista em interpretá-la literalmente, sacrifícios tão cruéis foram praticados durante o perverso reinado de Acaz (cf. 2 Rs 16.3), bem dentro do âmbito da profecia de Miquéias.

A ameaça de juízo contra o reino do Norte e contra Judá sugere que a maior parte da profecia cai dentro do período de co-regência entre Jotão e Acaz (740 a.C.) e a invasão de Senaqueribe (701 a.C.), com uma possibilidade razoável de que o profeta se dirigia à crise que resultou do confronto siro-efraimita.

AUTORIA

Como alguns outros profetas, Miquéias é praticamente desconhecido, exceto por pequenos detalhes dados pela própria profecia. Seu nome hebraico מִיכָה mîḵî é uma versão abreviada de מִיכָיְהוּ mîḵāyehû) , “Quem é como Yahweh?”, um nome dado também a um profeta não-escritor do século 9 a.C. (cf. 2 Cr 18.1-27).

Sua cidade natal era Moresete, uns quarenta quilômetros a sudoeste de Jerusalém, nas colinas próximas a Laquis e Gate. Como o nome de seu pai não é mencionado, parece razoável concluir que ele era um homem de origem humilde (W. S. LaSor, D. A. Hubbard, e F. W. Bush, Introdução ao Antigo Testamento, p. 293, sugerem que Miquéias não era profeta por “profissão”, e que talvez fosse um camponês ou pequeno proprietário); isto de certo modo transpira em sua preocupação pela plebe muito explorada de Israel, sujeita a grande miséria por uma nobreza sem escrúpulos.

Apesar de sua origem humilde, Miquéias certamente influenciou sua sociedade, como Jeremias 26.17-19 deixa claro, creditando-o com pelo menos parte da responsabilidade pelo reavivamento que aconteceu no reinado de Ezequias.

UNIDADE

Conquanto a maioria dos estudiosos atribua os capítulos 1 a 3 ao profeta de Moresete, igual número deles lhe nega a autoria dos capítulos 4 a 7.

Especialmente intragável para alguns é a profecia de 4.6-13 sobre Babilônia como o lugar para onde Israel seria levado cativo e de onde seria trazido de volta. Sem desprezar o elemento preditivo na profecia, poder-se-ia dizer que Miquéias era capaz de ler os sinais dos tempos, pois este discurso combina bem com as duras predições de Isaías sobre o cativeiro, motivado pelas aberturas precipitadas de Ezequias para as propostas de aliança da Babilônia contra a Assíria (por volta de 713 a.C.; cf. Is 39).

Parece ser perfeitamente plausível que um profeta fale de juízo e restauração, visto que tais elementos eram parte integrante do modelo de aliança sob o qual Israel vivia. É preciso ser muito preconceituoso para não dar a Miquéias (e seus companheiros de profecia do século 8 a.C. – Isaías e Oséias) pelo menos o benefício da dúvida quanto aos oráculos que misturam severidade e misericórdia, aquela combinação que Paulo identificou como uma característica predominante do trato de Deus com o homem (cf. Rm 11.22).

Argumento básico

O livro de Miquéias contém três mensagens ou oráculos. Estas três mensagens alternam os fios de esperança e juiço com os quais a aliança de Deus com Israel fora tecida.

A primeira mensagem de Miquéias (1.2–2.13) apresenta o juízo vindouro de Deus sobre Israel e Judá. A causa central para a ruína da Samaria fora sua idolatria (v. 7), um pecado que transbordou para Judá (v. 9), e o qual estenderia para lá a destruição a ser provocada contra Samaria.

A sucessão das cidades mencionada em 1.8-16 muito se assemelha à rota empregada por exércitos invasores futuros, chegando a Jerusalém pelo sudoeste, através da região montanhosa até à capital. Essa seção revela tanto o tenro coração de Miquéias para com seu povo (v. 1.8) quanto seu senso de humor (usando uma série de trocadilhos envolvendo o nome das cidades e seus destinos durante a futura invasão; cf. 1.10-12,14,15).

A segunda parte da primeira mensagem dá uma lista dos muitos motivos pelos quais o reino de Judá seria punido. Havia claras violações das estipulações da aliança mosaica. Os primeiros cinco versículos denunciam ganância nacional, um espírito de perverso materialismo que levou os poucos que possuíam terras a usar de astúcia e dolo para acrescentar ainda mais à riqueza mal adquirida. A punição para isso seria a divisão de seu patrimônio entre invasores estrangeiros zombadores.

Miquéias, começando com o versículo 6, denuncia a nação por sua má vontade em ouvir os verdadeiros profetas e sua avidez em seguir aqueles cuja motivação eram as bebidas inebriantes, em vez do Espírito divino. Mesmo esse duro retrato de uma nação que se engana e destrói a si mesma, porém, contém um raio de esperança no qual o Senhor promete uma restauração completa tanto do povo quanto da terra sob a liderança do הַפֹּרֵץ (hap̄pōrēṣ) “aquele que abre o caminho”, uma figura para o Messias que é novamente usada pelo profeta no capítulo 5.

A segunda mensagem (3.1–5.15) também tece os fios de juízo e livramento. O capítulo 3 contém uma cáustica denúncia contra a ganância nacional, na qual cidadãos que subiam socialmente são igualados a carniceiros em sua cruel e sistemática exploração da classe plebéia. Especialmente destacados por seus oportunismo e uso mercenário de seu cargo são os profetas, que tiravam vantagem do seu papel para lucrar fraudulentamente, ajustando suas mensagens de bênção ou maldição à quantidade de dinheiro a ser derivada delas (3.5-7). A nota pessoal em Miquéias 3.8 sugere que ele também sofria oposição da organização religiosa de Israel.

Aos líderes hipócritas que pervertiam a justiça na esperança de que o templo faria Sião inexpugnável (3.9-11), Miquéias prometeu a total destruição tanto da cidade quanto do templo (3.12), assim como Jeremias faria um século depois.

O fio de livramento aparece no capítulo 4, em uma passagem muito debatida que se encontra quase palavra por palavra em Isaías 2.2-4. Visto que os dois profetas são praticamente contemporâneos, é difícil decidir quem citou quem. É bastante concebível que ambos se referiam a material profético existente, fundamentado nos chamados “cânticos de Sião”, como os salmos 46, 48 e 76.

O triste retrato de uma Sião devastada dá espaço a uma visão do reino Messiânico, em que Sião é o centro da vida política e religiosa para uma humanidade renovada, que não conhece a ameaça de guerra e cujos plebeus podem pacificamente desfrutar sua terra e seus frutos (4.1-4). Esse primeiro parágrafo termina com uma aplicação de tal esperança para os tempos do próprio Miquéias: Judá andará (ou precisará andar) com o Senhor seu Deus.

A promessa de bênção é estendida àqueles que os homens consideram impróprios para a sociedade e cuja dignidade e alegria serão restauradas com as fortunas de Jerusalém (4.6-8).

O fio de condenação reaparece em uma predição do cativeiro babilônico (4.9,10), mas o livramento segue atrás rapidamente, pois o profeta prediz também a restauração sob Ciro. O contraponto profético continua com a predição de uma futura união de exércitos gentios contra Jerusalém. Isto pode ser uma referência a um evento contemporâneo (a invasão de Senaqueribe?), ou a um cerco histórico futuro (Babilônia; veja a referência ao golpe contra o juiz de Judá, possivelmente Zedequias, em 5.1), ou a uma invasão escatológica (como é sugerido pelo papel destrutivo de Judá depois de tal invasão, cf. 4.13). É mais provável que todos os três pontos de vista estejam contidos na profecia, de acordo com a maneira costumeira dos profetas condensarem os eventos futuros.

O contraste entre condenação e livramento está presente nas referências ao juiz (שׁפֵט, šōp̄ēṭ), vindo de Jerusalém (5.1 [Hb 4.12]), e ao Governante (מוֹשֵׁל, môšēl), que sairá de Belém (5.2 [Hb 5.1]) e reunirá Israel depois de seu longo período de dispersão nacional.

O reinado desse Governante será marcado pelo livramento definitivo de Israel de seu inimigo arquetípico (aqui representado pela Assíria, 5.4-6 [Hb 5.3-5]), pelo papel de bênção atribuído a Israel entre as nações (5.7-9 [Hb 5.6-8]) e pela eliminação de todas as outras fontes de confiança e segurança para Israel, a saber, seus exércitos, suas alianças e seus ídolos (5.10-15 [Hb 5.9-14]).

A terceira mensagem de Miquéias começa com o fio da condenação (e uma exortação comum a todas as três seções de condenação - a ordem para ouvir (cf. 1.2 e 3.1)). A disputa judicial de Deus com Seu povo é testemunhada pelos elementos da criação: ao lembrar Israel de Sua proteção e bondade no passado, o Senhor acentua a infidelidade da nação (6.1-15). O profeta responde pela nação, perguntando se a religião ritualista exagerada desta bastaria para expiar seus pecados diante de Deus, para o qual a resposta óbvia é: “NÃO”. Deus exige nada menos do que conversão nacional a uma vida de conformidade interna a Sua santidade, justiça e amor (e fé expressa por meio de sacrifício [6.6-8]).

Continuando Sua disputa, Deus mais uma vez focaliza os pecados específicos de ganância, desonestidade e violência (típicos de Acabe e sua dinastia, e agora encontrados em Judá; cf. 6.9-12,16), que seriam punidos com fome, destruição e humilhação (6.13-16).

A resposta da nação pelos lábios do profeta é de profunda contrição e confissão. Ele lamenta a falta de piedade e a corrupção generalizada (7.1-3) e deplora a falta de solidariedade familiar e social (7.4-6). Contudo, em meio a total escuridão, uma luz de esperança brilha, a própria pessoa de Yahweh, o Deus de Israel, que disciplinará, mas também restaurará, a nação, mesmo em seu estado mais miserável (7.7-10).

O último fio, que amarra toda a profecia, é novamente o fio de livramento, que aqui descreve como Israel será reunido dos seus lugares de exílio (7.11-13). Arrebatado pela visão, o profeta ora pela intervenção pastoral de Deus (7.14) e prevê o papel glorioso do Israel perdoado e restaurado sob o governo de seu Deus perdoador e gracioso, que fará valer Suas promessas verdadeiras aos patriarcas (7.15-20).

ESBOÇO SINTÉTICO

Mensagem

O juízo divino contra a opressão e a idolatria nutridas por falsos líderes será contrabalançado pela manifestação do Messias como Líder e Pastor de Israel, bem como Juiz e Benfeitor das nações.
SOBRESCRITO (1.1)

 I. O juízo contra Israel é certo em virtude de suas violações da aliança (1.2–2.13).
 A. O juízo virá contra Israel por sua idolatria e rebeldia arrogante (1.2-16).
 1. Samaria, o foco da rebeldia de Israel, será totalmente destruída (1.2-7).
 2. Jerusalém, o foco da rebeldia de Judá, será submetida à humilhação e exílio (1.8-16).
 • O pecado e suas conseqüências alcançarão Judá (1.8,9).
 • A marcha dos exércitos inimigos através de Judá marcará a destruição (1.10-16).
 B. A rebeldia de Judá é descrita em termos de seus desprezíveis efeitos sociais, a punição da qual assombrará a nação até que o Messias restaure Seu povo (2.1-13).
 1. Abandonar a aliança de Deus levou a profunda ganância que será punida com devastação (2.1-5).
 2. Abandonar a aliança de Deus levou a surdez espiritual e total carência do amor que Deus exigia de Seu povo (2.6-11).
 3. A rebeldia de Judá apenas aumentará quando o Messias, o Pastor, vier para congregar suas ovelhas dispersas (2.12,13).
 II. Juízo nacional será seguido por plena restauração nacional e bênção mundial sob o reinado do Messias, o verdadeiro pastor de Israel (3.1–5.15).
 A. A maldade generalizada de Judá certamente trará o juízo de Yahweh apesar das falsas esperanças baseadas em sua religião hipócrita (3.1-12).
 1. A nobreza de Judá é comparada a carniceiros em sua gananciosa exploração dos pobres (3.1-4).
 2. Os falsos profetas de Judá são condenados por sua ganância e mau uso de seu cargo, ao contrário de um verdadeiro profeta de Deus, que deve ser um denunciador do mal (3.5-8).
 3. Os líderes políticos são denunciados por sua corrupção e opressão que indicam sua falsa idéia de que Sião está acima da punição divina (3.9-12).
 B. O reinado vindouro do Messias, o verdadeiro Pastor de Israel, trará restauração nacional e bênção ao mundo depois de Israel ser castigado (4.1–5.15).
 1. O reino messiânico estenderá justiça e paz por todo o mundo (4.1-8).
 2. A disciplina de Israel precederá o papel de poder e paz de Sião entre as nações (4.9–5.1).
 3. O reinado do grande Governante-Pastor de Israel significará livramento, honra e bênção espiritual para a nação e o mundo (5.2-15).
 III. O juízo foi causado pela falta de conformidade interior aos padrões que Deus exigia como condições para bênçãos milagrosas que Ele se encarregará de dar no futuro, segundo Suas promessas (6.1–7.20).
 A. O juízo foi causado por falta de conformidade aos padrões que Deus exigia como condições para a bênção (6.1–7.7)
 1. As fidelidade e bondade de Yahweh no passado são uma acusação contra a infidelidade de Israel (6.1-5).
 2. A religião ritualista superficial não pode cobrir a quebra da aliança da parte de Israel (6.6-8).
 3. Os pecados de ganância e opressão de Israel serão punidos com fome, destruição e humilhação (6.9-16).
 4. A lamentação de Miquéias sobre os pecados de Israel realça o violento egoísmo e a vergonhosa corrupção da nação (7.1-6).
 B. A intervenção pastoral de Deus assegurará definitivamente, para o Israel renovado, as bênçãos da aliança patriarcal (7.7-20).
 1. A esperança para o remanescente fiel de Israel se encontra na restauração divina depois da disciplina (7.7-10).
 2. Israel será restaurado dos lugares de seu exílio à sua terra (7.11-13).
 3. A intervenção de Deus é requisitada pelo profeta (7.14).
 4. Israel será o objeto da admiração do mundo pelos favores que receberá de Deus (7.15-17).
 5. O caráter singular de Yahweh e Suas obras de amor leal para com Seu povo são o motivo do louvor dos fiéis (7.18-20).

Fonte: Fonte: PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo : Hagnos, 2008.