8 de outubro de 2012

Jonas - Questoes Introdutórias


DATA

Jonas, de forma distinta de alguns profetas, não se encontra em um vácuo histórico. Seu tempo de vida e ministério estão marcadamente determinados por uma menção específica em 2 Reis 14.25, “Foi ele que restabeleceu os termos de Israel, desde a entrada de Hamate até o mar da Arabá, conforme a palavra que o Senhor, Deus de Israel, falara por intermédio de seu servo Jonas, filho do profeta Amitai, de Gate-Hefer”, o que posiciona sua vida e seu ministério no reinado de Jeroboão II (793–753 a.C.). Isto o torna contemporâneo de Oséias e Amós.

Seu nome hebraico, יוֹנָה (yônâ), significa “pomba”, e ele era nativo de Gate-Hefer, um vilarejo na tribo de Zebulom, atual Galiléia. O nome de seu pai era Amitai, que significa “[meu] verdadeiro”.


Jonas profetizou a recuperação política e econômica do reino do Norte, provavelmente nos primeiros anos de Jeroboão II. Uma profecia tão patriótica que se coloca em tremendo contraste à missão gentílica a ele designada, da qual tentou escapar sem sucesso.

Embora situar o profeta na história seja bastante fácil, a data da profecia em si é motivo de controvérsia. Os muitos aspectos sobrenaturais do livro fizeram dele um alvo preferido dos críticos liberais, que descartam não só a realidade histórica da narrativa, mas também Jonas como seu autor.

Para tais pessoas, Jonas deveria ser datado por volta da metade do século 5 a.C. Seu propósito teria sido quebrar o agudo nacionalismo de Esdras e Neemias, um problema que a narrativa alegórica sobre um profeta famoso do passado poderia facilmente corrigir. Embora tais propostas sejam consideradas na página seguinte, no item Autoria, é bom enumerar alguns motivos históricos e contextuais por que uma autoria no século 8 a.C. não só é plausível, mas realmente preferível.

Em primeiro lugar, o ambiente político e religioso nos dois primeiros quartos do século 8 a.C. favoreceu o tipo de ministério exercido por Jonas em Nívine. Uma série de catástrofes naturais e uma guinada governamental em direção à monolatria poderiam ter proporcionado os meios pelos quais o arrependimento dado por Deus teria afetado profunda e amplamente a cidade.

Em segundo lugar, a suposta alegoria sucumbe diante de um exame minucioso. Se o grande peixe significa Babilônia, o que Nínive representaria? Além disso, parece não haver qualquer relação lógica entre os três dias passados por Jonas na barriga do peixe e os 70 anos de cativeiro de Israel na Babilônia.

Finalmente, a suposta motivação por trás de tal “alegoria” simplesmente não existe. Embora alguns judeus, mesmo alguns cidadãos proeminentes, na época de Neemias, tivessem profundo interesse pelos gentios a sua volta, sua motivação nada tinha de religiosa ou missionária.

Melhor seria, portanto, situar a profecia dentro dos limites do ministério de Jonas, relacionando os incidentes históricos ao reino de Assur-Dan III (771-754 a.C.), quando a Assíria representava um papel menor na política do Oriente Médio, e o recém-encontrado orgulho nacional de Israel necessitava de perspectiva apropriada quanto à vida piedosa. O ministério de Jonas teria servido como um realce ou contraponto para o de Oséias e Amós. Ensinaria que o arrependimento traz preservação e bênção, enquanto a obstinação traz severa disciplina.

Vale a pena observar que o Senhor Jesus Cristo considerou Jonas uma pessoa histórica e viu seu ministério como realidade histórica, e não como alegoria fantasiosa (cf. Mt 12.40,41).

AUTORIA

Mesmo que se aceite a historicidade do livro, algumas pessoas se mantêm céticas quanto a sua autoria. Será que Jonas seria capaz de escrever tal livro?

Alguns argumentam que um contemporâneo jamais se referiria ao rei da Assíria como “o rei de Nínive”, sendo esta uma prova segura de autoria posterior. No entanto, outros exemplos são encontrados na Escritura indicando como prática normal referir-se ao rei da nação como “rei da capital” (cf. 1 Rs 21.1; 2 Cr 24.23).

Da mesma forma, o uso do passado do verbo hebraico הָיָה (hāyâ) supostamente indica uma época posterior, quando Nínive já não existia. Essa teoria, apesar de gramaticalmente possível, é, do ponto de vista contextual, desnecessária, pois o que o autor deseja destacar não é a existência da cidade, mas seu papel crucial no plano soberano de Deus naquele momento da História, o que explica o uso do tempo perfeito no hebraico.

Um terceiro argumento para a autoria posterior é o de que Jonas é sempre mencionado na terceira pessoa (exceto no capítulo 2). É quase desnecessário refutar tal argumento, pois tanto autores bíblicos [Moisés] quanto extra bíblicos [Xenofonte; Júlio César] empregam a mesma técnica.

Um argumento final contra a autoria de Jonas é o tamanho aparentemente fabuloso atribuído a Nínive, em Jonas 3.3,4. Aqueles que assim argumentam, mais uma vez, interpretam mal o profeta, que não está afirmando o diâmetro de Nínive (מַהֲלַךְ שְׁלֹשֶׁת יָמִים [mahălak̄ šelōseṯ yāmîm], “de 3 dias de jornada”, cerca de noventa quilômetros segundo essa teoria), mas o tempo exigido para levar sua mensagem de maldição a cada parte da cidade. Descobertas arqueológicas atribuem a Nínive um tamanho compatível, sob todos os aspectos, com a população mencionada em Jonas 4.11.

A TEOLOGIA DE JONAS

Por conter muito mais narrativa do que exortação ou predição profética, Jonas se ajusta bem às considerações teológicas que pontilharam os livros históricos neste trabalho.

É fácil perceber a permissão do mal na vida de Jonas à medida que se desenrola sua interação com os marinheiros no capítulo 1. A flagrante desobediência, até mesmo o cinismo calejado de Jonas – que prefere morrer a obedecer – servem para ressaltar perante os olhos atônitos dos marinheiros a realidade que o tal Deus que abarcava sob seu domínio o céu, o mar e a terra seca, não era uma divindade que pudesse ser ignorada (muito menos desobedecida sem as mais severas conseqüências).

O decreto de julgar o mal se antevê na mensagem original confiada a Jonas – “Clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim” (Jn 1.2), bem como na mensagem transmitida aos ninivitas − “Ainda 40 dias, e Nínive será subvertida” (3.4). Embutida nessa última declaração, há tanto a certeza de que finalmente o juízo cairá como a possibilidade de que aquela geração escape ao julgamento decretado.

O relato da resposta divina ao avivamento provocado pela pregação de Jonas é um dos pontos teológicos mais discutidos do Antigo Testamento desde sua primeira menção em Gênesis 6. O uso do verbo נִחַם (וָיִּנָּחֶם, wayyinnāḥem, “arrependeu-se”) no grau nifal tem sido apontado por muitos, mais recentemente por defensores do chamado teísmo aberto, como uma indicação de que Deus é sujeito a emoções, ou desconhece o futuro, ou é dependente em alguma medida das ações e reações de Suas criaturas, ou todas as anteriores.

Em resposta a isso, teólogos teístas tradicionais têm afirmado que a mensagem trazia em si uma condição latente, e que o uso do verbo נִהַם obedece a uma característica da mentalidade hebraica de antropomorfizar suas descrições de Deus de modo a tornar mais compreensível aos mortais a interação de um Deus, que é descrito como perfeitamente soberano, com criaturas que desfrutam genuína liberdade (mas não absoluta autonomia).

Outra abordagem é dizer que tal interação é descrita do ponto de vista meramente humano, como uma espécie de refração ótico-espiritual, por meio da qual a intervenção divina parece desviar-se do rumo proposto, ao entrar em contato com o meio terrestre em que se fará sentir, simplesmente porque os que a percebem ignoram a totalidade dos desígnios aos quais a prometida intervenção pertence e entre os quais se efetua.

A libertação dos eleitos surge no capítulo 2, quando em meio a algas e águas revoltas, Jonas percebe ao que equivalia sua rebeldia profética. A sua referência aos חַבְלֵי שָׁוְא (ḥaḇle šāwʾ , literalmente “vaidades de vazio”) pode indicar sua percepção de que sua rebeldia era semelhante à confiança em ídolos inúteis (cf. Sl 31.7 e 1 Sm 15.23). Imerecida e inesperadamente, a intervenção salvadora de Yahweh preserva o profeta escolhido para que ele cumpra sua missão.

Essa libertação atinge também os ninivitas por meio da pregação de Jonas. As dimensões dessa libertação são muito discutidas – teriam sido elas meramente temporais ou de natureza eterna? Basta aqui dizer que a libertação foi real, a despeito de sua natureza última. As palavras do Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 12.41) sugerem que a misericórdia divina, tão criativamente demonstrada a Jonas no capítulo 4, garantiu a dimensão eterna dessa salvação.

A bênção para os eleitos é limitada à preservação daquela geração de ninivitas, que escapou a um juízo que finalmente viria a cair sobre uma cidade que esqueceu seu quebrantamento perante Yahweh e retornou a seus caminhos idólatras e desumanos. É digno de consideração o fato de que aquela geração foi preservada para que mais tarde a Assíria fosse usada como a “vara da ira” de Yahweh contra o pecado obstinado de Israel.

Argumento básico

Jonas é singular no aspecto de que a mensagem de Deus a Israel não é transmitida por uma exortação profética, mas pelas aventuras (ou desventuras) pessoais do profeta. A mensagem está implícita na narrativa, em vez de explícita em uma exortação.

O profeta é encarregado de proclamar uma mensagem específica de Deus contra Nínive (וּקְרָא עָלֶיהָ, [ûqerāʾ ʿāleyhā], “e clama contra ela”, 1.2). Em vez de ir e enfrentar a vergonha devida ao não-cumprimento de suas predições catastróficas (que ele tinha como certo, conforme ’explica‘ em 4.2), Jonas foge para Társis, desencadeando assim o plano soberano de Deus para levar Seu conhecimento aos ninivitas pagãos.
A soberania de Deus em conceder salvação é vista primeiro na experiência dos marinheiros. Apesar da atitude cínica demonstrada por Jonas quanto ao seu Deus e sua missão (מִלִּפְנֵי יהוה הוּא בֹרֵחַ כִּי הִגִּיד לָהֶם (millip̄nê yhwh hûʾ ḇōrēăḥ kî hiḡgîḏ lāhem), “[pois sabiam os homens que Jonas] fugia da presença do Senhor, porque ele lhes contara”, 1.10), os marinheiros passam a temer Yahweh quando Jonas é lançado ao mar, fazendo cessar a grande tempestade. Apesar de o livro não apresentar informação detalhada a respeito de sua fé, ele deixa claro que os marinheiros reconhecem Yahweh como o verdadeiro Deus e lhe oferecem alguma forma de sacrifício (1.16).

O curso de soberania dado por Deus prossegue com a lição pessoal dada a Jonas. Jogado ao mar, ele ora por livramento e louva a Deus quando este chega inesperadamente na forma de um grande peixe, designado por Yahweh para a tarefa.1 Preso dentro do peixe, Jonas percebe que a salvação pertence a Yahweh (יְשׁוּעָתָה לַיהוה, yešûʿāṯâ layhwh, 2.9). Com a teoria básica aprendida, Jonas recebe outro chamado para ir a Nínive e obedece.

A terceira demonstração da soberania de Deus na salvação acontece quando a pregação de Jonas provoca um arrependimento generalizado (ויָּאֲמִינוּ אַנְשֵׁי נִנְוֶה בֵּאלֹהִיםַ, wayyāʾămînû ʾanše ninweh bēʾlōhîm, “os homens de Nínive creram em Deus”, 3.5), à luz da ameaça de uma intervenção divina destruidora contra a cidade (עוֹד אַרְבָּעִים יוֹם וְנִנְוֶה נֶהְפָּכֶת, ʿôḏ ʾarbāʿîm yôm weninweh nehpāḵeṯ , “ainda 40 dias, e Níneve será subvertida”,2 3.4).

Frustrado com os resultados surpreendentes de sua pregação, Jonas protesta contra eles justificando a si mesmo (4.2) e por meio da autocomiseração (4.3-9). A última lição divina sobre soberania vem quando Deus provê uma planta3 que alivia o desconforto de Jonas, pois o profeta, ainda desafiando a decisão divina de não destruir Nínive, faz uma greve de protesto nos arredores da cidade (4.5). Essa planta incomum cresce da noite para o dia e oferece alívio para o insuportável calor da região. No entanto, um verme designado por Yaweh (novamente surge o verbo hebraico מָנָה [mānâ], que é uma chave no livro; cf. 1.17; 4.6; 4.7; 4.8) destrói a planta, e um vento divinamente enviado causa desconforto ainda maior.4

Yahweh está ensinando a Jonas que sua frustração por coisas que ele não criou e pelas quais não era responsável deveria fazê-lo cônscio da terna misericórdia de Deus por Suas criaturas (4.11) e torná-lo submisso ao soberano plano divino de estender salvação àqueles a quem Ele escolheu demonstrar misericórdia.

Essa mensagem implícita, dirigida ao profeta, tinha em vista um público mais amplo − o povo de Israel no século 8 a.C. − que era cínico e espiritualmente insensível. Yahweh é soberano para salvar aqueles que se arrependem, sejam eles israelitas sejam ninivitas; a inferência é que aqueles que recusam arrepender-se terão de enfrentar a ira de Deus. Nesse sentido, Jonas de fato oferece um contraponto ou um realce a seus contemporâneos Oséias e Amós.

ESBOÇO SINTÉTICO

Mensagem
A soberania de Yahweh em conceder salvação, apesar da atitude de Seu servo, deve motivar obediência humilde e interesse amoroso pela humanidade.
 I. A soberania exercida por Yahweh na salvação é insinuada pela fuga de Jonas e sua consagração renovada (1.1 − 2.10).
 A. Jonas é encarregado de pregar contra Nínive (1.1,2).
 B. Jonas se rebela contra a ordem soberana de Deus (1.3).
 C. A desobediência de Jonas transforma-se no modo soberano de Deus trazer salvação a marinheiros pagãos (1.4-16).
 1. A disciplina de Deus começa com uma forte tempestade (1.4).
 2. A disciplina de Deus proporciona interação entre Jonas e os marinheiros (1.5-7).
 3. A soberania de Deus permite que Jonas dê testemunho Dele diante dos marinheiros (1.8-12).
 4. O modo maravilhoso de Deus lidar com os marinheiros leva-os a crer nEle e temê-lO (1.13-16).
 D. A disciplina de Jonas os leva a perceber a soberania de Deus em dispensar salvação (1.17 [Hb 2.1] − 2.10).
 1. Deus designa um peixe enorme para libertar Jonas do seu auto-imposto fim (1.17).
 2. Jonas ora por libertação e louva a Deus por preservar sua vida (2.1-9).
 • A situação desesperadora em que o profeta se encontra é reconhecida como uma ação direta de Yahweh (2.2-6a).
 • A inesperada libertação da morte certa é entendida como uma ação direta de Yahweh (2.6b,7).
 • A percepção de Jonas é que sua desobediência era equivalente à idolatria e exigia arrependimento e confissão da soberania de Yahweh como Salvador (2.8,9).
 3. Deus completa Seu livramento trazendo Jonas de volta à terra seca (2.10).
 II. A soberania de Yahweh em exercer salvação se manifesta gloriosamente no arrependimento de Nínive e em Sua confrontação com o amargurado profeta (3.1 – 4.11).
 A. A soberania de Yahweh em exercer salvação se manifesta gloriosamente no arrependimento de Nínive com a pregação de Jonas (3.1-10).
 1. Jonas é recomissionado e obedece ao Senhor (3.1-3).
 2. A mensagem de Jonas anuncia o julgamento divino contra Nínive (3.4).
 3. A mensagem de Jonas produz fé e arrependimento generalizados em Nínive (3.5-9).
 • O quebrantamento começa na menor esfera social (3.5).
 • O quebrantamento alcança o palácio e se torna um decreto para toda a cidade (3.6-9).
 4. O arrependimento de Nínive afasta a ira de Yahweh e garante o livramento do perigo iminente (3.10).
 B. A soberania de Yahweh em exercer salvação se manifesta gloriosamente em Sua confrontação com o amargurado profeta (4.1-11).
 1. A reação de Jonas ante a demonstração de misericórdia do Soberano Deus é de rejeição aberta e autojustificação (4.1-3).
 2. A reação de Jonas à confrontação inicial de Deus é de desafio obstinado (4.4,5).
 3. Yahweh ilustra Seu soberano amor salvador proporcionando um objeto de afeição a Jonas, o qual é perdido repentinamente (4.6-8).
 4. A explicação de Yahweh contrasta o apego egoísta de Jonas à planta que ele não criara com o amor compassivo de Deus pelas Suas criaturas perdidas (4.9-11).

Fonte: Fonte: PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo : Hagnos, 2008.