9 de outubro de 2012

John Bright - A situação mundial em 1200-1050 a.C., aproximadamente (Período dos Juízes)


Podemos supor que a ocupação israelita da Palestina ficou concluída e a confederação tribal formada aproximadamente no final do século treze.

Como vimos, o Egito era no momento uma nação fraca. Tendo, sob Mamiptah (1224-1211, aproximadamente) rechaçado os Povos do Mar, o Egito entrou naquele período de confusão prévio ao colapso da Décima Nona Dinastia, durante a qual ele perderia o controle efetivo de suas possessões na Ásia. Isto deu a Israel oportunidade de se estabelecer firmemente em sua terra.

Apesar de ter logo afirmado novamente a sua autoridade, o Egito foi incapaz de mantê-la permanentemente, e o Império caminhou rapidamente para o fim.


a. A Vigésima Dinastia: o fim do Império egípcio. — Finalmente, restaurou-se a ordem no Egito, por ocasião do estabelecimento da Vigésima Dinastia, sob o poder de Set-nakht e seu filho Ramsés III (1183-1152, aproximadamente)[1]. Com este último, que agiu vigorosamente para recuperar o prestigio perdido pelo Egito na Ásia, parecia que estava para surgir um novo período na história do Império.

Embora os pormenores destas operações não sejam claros (ele se vangloria de grandes campanhas para o norte, até a Síria, das quais os estudiosos muito desconfiam, para dizer o mínimo sobre o assunto)[2]  , Ramsés certamente conseguiu restabelecer o controle egípcio para o norte, até a Planície de Esdrelon, onde foi reconstruída a fortaleza de Betsam.

Podemos apenas supor o que teria sido a história de Israel se o Egito tivesse conseguido restabelecer o seu Império. Mas isto não iria acontecer. Entre o quinto e o décimo primeiro ano de seu reinado, Ramsés III foi forçado a enfrentar uma série de constantes assaltos desferidos pelos Povos do Mar, pelos líbios e pelas tribos aliadas, no fim dos quais o Egito encontrava-se completamente exausto.

Contingentes dos Povos do Mar, que haviam sido repelidos por Marniptah, durante alguns anos fizeram incursões na costa oriental mediterrânea, levando a destruição até o sul da Palestina, onde alguns deles já se tinham estabelecido como tropas de guarnição a serviço do faraó. Agora, eles marchavam para o sul por terra ou por mar, com suas mulheres, crianças e pertences, numa grande migração, ameaçando as possessões egípcias na Ásia e até o próprio Egito (no oitavo ano do reinado de Ramsés, foi repelido um ataque naval na própria foz do Nilo). Entre os Povos do Mar, Ramsés registra os Perasata (Pelasata), isto é, os filisteus, os Danuna (Daneus), os Washasha, os Shakarusha e os Tjikar (Tsikal) — talvez o Sikel homérico que daria o nome à Sicília.[3]

Não nos podemos deter nos pormenores das várias batalhas. Mas, embora Ramsés se vangloriasse de vitória em cada uma dessas batalhas e certamente fosse capaz de sustar uma invasão, o Egito sofreu um golpe terrível. Desprovido de forças para repelir os invasores da Palestina, o faraó viu-se obrigado a fazer da necessidade força, permitindo que alguns (filisteus, tsikal e talvez outros) lá se estabelecessem como seus vassalos. Ele também os utilizou como mercenários nas suas guarnições, tanto nessa região como no Egito.[4]

Os filisteus — que ironicamente iriam dar o seu nome à Palestina — apareceram assim em cena, poderosos, somente alguns anos depois da chegada do próprio Israel.

O Império egípcio nunca mais se recuperou. Esgotado pelas guerras, a sua economia debilitada pelas pródigas doações aos templos, cujas enormes possessões eram livres de tributo, o Egito não estava em condições internas muito boas. Quando, depois de uma conjuração contra sua vida, Ramsés III morreu, o Império logo chegou ao fim. Seus sucessores, Ramsés IV-XI (1152-1069, aproximadamente) foram incapazes de mantê-lo.

Embora o Egito continuasse a reclamar para si a Palestina durante algum tempo (foi encontrada em Megiddo a base de uma estátua com uma inscrição de Ramsés VI), suas possessões na Palestina eram uma ficção e logo deixaram por completo de existir.
A História de Wen-Amun (aproximadamente 1060) ilustra graficamente o colapso do prestígio egípcio[5]; mesmo em Byblos, que foi tão egípcio como o próprio Egito, o emissário real foi recebido com vaias e insultos de punhos fechados.

No próprio Egito, a lei e a ordem entraram em colapso. Até os túmulos dos faraós foram violados e roubados. A Vigésima Dinastia foi derrubada aproximadamente em 1069, e a Vigésima Primeira Dinastia (Tanita) tomou seu lugar. Mas esta Dinastia, tendo como rivais os sacerdotes de Ámun, que se tornaram tão poderosos quanto os próprios faraós e virtualmente independentes, também foi impotente. Tão enfraquecido internamente, o Egito não podia fazer nada para recuperar sua posição no exterior. Seus dias de Império estavam contados.

b.  A Ásia Ocidental nos Séculos Doze e Onze. — Não existia nenhuma potência rival para herdar os escombros das possessões asiáticas do Egito. O Império Hitita havia desaparecido. A Assíria, no auge do seu poder, no século treze, com o assassinato de Tukulti-ninurta I (aproximadamente 1197), entrou num século de enfraquecimento, durante o qual foi suplantada até pela Babilônia, agora uma vez mais (aproximadamente 1150) sob uma Dinastia nativa.

A Assíria teve um breve período de ressurgimento sob Teglatfalasar I (1116-1078, aproximadamente), que derrotou a Babilônia e cujas campanhas o levaram para o norte, até a Armênia e a Anatólia, e para o oeste até o Mediterrâneo, no norte da Fenícia. Isso, porém, não durou muito. A Assíria se enfraqueceu novamente, conservando-se nesse estado por perto de duzentos anos. A razão disto está sobretudo nos arameus, que exerciam uma crescente pressão sobre todas as partes do Crescente Fértil na ocasião. A Síria e a Alta Mesopotâmia tornaram-se predominantemente araméias em sua população. Os arameus logo estabeleceram ali muitos pequenos Estados, dos quais são exemplos Sham‘al, Cárquemis, Beth-eden e Damasco. A própria Assíria, infiltrada como estava, dificilmente poderia defender suas fronteiras, quanto mais fazer campanha no exterior.

Qualquer que tenha sido a crise que o recém-formado Israel teve de enfrentar, ele gozava de liberdade para se desenvolver sem ameaça de qualquer poder terreno.

Canaã, entretanto, não mais defendida pelo poder imperial, recebeu um golpe terrível, com a invasão e infiltração de novos povos. Os israelitas ocuparam as montanhas da Palestina e os Povos do Mar grande parte do seu litoral, enquanto o interior da Síria era progressivamente tomado pelos arameus. Embora aqui e ali ainda se encontrassem enclaves canaanitas e em muitas áreas remanescentes de sua população, os canaanitas perderam a maior parte de suas possessões terrestres. As cidades fenícias recuperaram-se admiravelmente. Pela metade do século onze, Biblos e outras cidades estavam florescendo novamente como centro de comércio. Mas a expansão colonial dos fenícios para oeste começaria um pouco mais tarde.

Os filisteus, que dominavam o litoral da Palestina e ocupavam os pontos estratégicos, através da Planície de Esdrelon e no vale do Jordão, tinham o centro do seu poder numa pentápolis, que eram: Gaza, Ashkelon, Asdod, Ecron e Gat, cada uma delas governada por um tirano (seren).

Originalmente estabelecidos como vassalos de faraó ou como mercenários, eles certamente tornaram-se de fato independentes à medida em que o poder egípcio se enfraquecia e desaparecia. Embora mantivessem um comércio florescente por mar e por terra e durante muito tempo realizassem contatos com sua pátria de origem, eles se adaptaram ao novo ambiente, e progressivamente assimilaram a língua e a cultura de Canaã.
A crise na qual eles lançaram Israel nos interessará mais tarde. Embora os dois povos não entrassem imediatamente em conflito, podemos supor que quando os filisteus se expandiram para o interior, ocupando ou dominando as cidades ao longo das fronteiras dos territórios tribais de Israel (Gazer, Bet-sames etc.), o conflito foi inevitável.

Os filisteus gozavam de monopólio local na manufatura do ferro, segredo que eles provavelmente aprenderam dos hititas, que tinham desfrutado de monopólio semelhante. Isso lhes dava uma tremenda vantagem, que eles sabiam muito bem explorar.

Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.


[1] Datas para este período são altamente incertas. As que apresentamos aqui seguem W. Helck, Geschichte des Alten Ägypten, in HO, I: 3 (1968), pp. 193-205. Mas se a ascensão de Ramsés II ao
trono for colocada em 1304 e não 1290 (cf. acima, c. 3, nota 1), a de Ramsés III deve ser colocada entre 1200 e 1195.
[2] Sobre as listas de Medinet Habu de Ramsés III, cf. M. C. ASTOUR, in JAOS, 88 (1968), pp. 733-752.
[3] Ou talvez os teucros, que se diz terem se estabelecido em Chipre; cf. ALBRIGHT, in CAH, II: 33 (1966), p. 25.
[4] Sobre o estabelecimento dos Povos do Mar na Palestina, cf. ALBRIGHT, ibid., pp. 24-33; G. E. WRIGHT, in BA, XXII (1959) pp. 54-66; ibid., XXIX (1966), pp. 70-86.
[5] Para o texto, cf. PRITCHARD, in ANET, pp. 25-29; para discussão, veja ALBRIGHT, The Eastern Mediterranean About 1060 B.C., in Studies Presented to David Aloore Robinson, Washington University,
Vol. I, 1951, pp. 223-231.