2 de outubro de 2012

Joel - Questões Introdutórias


AUTORIA

Joel, cujo nome é uma genuína profissão de fé israelita (significa “Yahweh é Deus”), oferece pouca informação sobre si mesmo. Ele é o filho de um desconhecido chamado Petuel (1.1).

Suas várias referências a Jerusalém e ao templo (1.9; 2.15-17,23,32; 3.1) sugerem que ele nasceu em Judá e que talvez tenha sido um morador de Jerusalém. Suas referências ao sacerdócio do templo induzem alguns a considerá-lo um sacerdote, ou um profeta do templo (W. S. LaSor, D. A. Hubbard, e F. W. Bush, Introdução ao Antigo Testamento, pp. 406-407). Isso é possível mas não definitivo, já que ele não se inclui entre os sacerdotes (cf. 1.13,14; 2.17).


DATA

De todos os profetas, Joel é o livro cuja data é mais difícil de precisar conclusivamente. A causa da profecia foi uma praga recente de gafanhotos que devastou o país e ameaçou a existência da nação com a fome. Como não há referência histórica a tal praga nos livros de Reis nem de Crônicas, todas as tentativas de datar Joel se baseiam em evidência interna, que é, na melhor das hipóteses, ambígua. Várias datas foram sugeridas como se segue:

a) O governo sacerdotal durante a infância de Joás, no último quarto do século 9 a.C. Isso se baseia na ausência de qualquer menção ao rei; líderes e sacerdotes aparentemente regiam o país. Isso, no entanto, também poderia colocar a profecia em um cenário pós-exílico, o que torna o argumento inconclusivo.

b) A lista de inimigos reunidos contra Judá parece refletir a situação do século 9/início do 8 (cf. Joel 3.4,19), já que envolve o Egito. Também essa data não é conclusiva visto que, mesmo no tempo de Josias (final do século 6), o Egito era um poder considerável.

c) Alguns apontam para a menção aos Yavanim, feita por Joel, como prova de uma data pós-exílica (c. 400-350 a.C.), mas como indica Kapelrud, contatos comerciais e militares entre a Grécia e Palestina datam desde o século 7 (A. S. Kapelrud, Joel Studies, pp. 154-155.). Mais uma vez, isso esvazia o argumento.

d) Uma data pré-exílica é proposta por alguns que vêm referência às deportações assíria (722 a.C.) e babilônica (605 e 597 a.C.) em Joel 3.2. Embora esse ponto de vista seja atraente, não chega a ser conclusivo pois: (1) o profeta poderia estar falando prolepticamente; e (2) Joel 2.18,19 menciona arrependimento e misericórdia, o que não aconteceu no final da história de Judá (cf. 2 Rs 23.26,27).

Essa visão geral sugere que nenhuma das quatro propostas maiores para a data da profecia de Joel é conclusiva. Manter o julgamento em suspenso parece ser a melhor tática, se bem que este autor tem preferência pela data anterior, fundamentado em uma provável citação de Obadias 17 em Joel 2.32. Allen atribui Joel ao período pós-exílico fundamentado na mesma citação (ele prefere a data por volta de 587 a.C. para Obadias; veja Leslie C. Allen, Joel, Obadiah, Jonah, and Micah, NICOT, p. 131.), mas uma data anterior ainda parece preferível. Se, como este autor defende, Obadias situa-se por volta de 845 a.C., isso colocaria Joel dez ou quinze anos mais tarde, com tempo suficiente para assimilar e expandir o oráculo de Obadias.

Argumento básico

MAIORES PROBLEMAS INTERPRETATIVOS

Em suma, há dois problemas maiores na interpretação de Joel. Primeiro, o que é descrito em 2.1-11, uma invasão de gafanhotos ou uma invasão literal de exércitos humanos? Segundo, como se deveria interpretar 2.18-20, em que o hebraico utiliza os pretéritos e a maioria das versões bíblicas em tempo futuro? Um terceiro problema, mais relacionado ao estudo do Novo Testamento, trata do cumprimento de Joel 2.28-32; esta passagem foi totalmente cumprida em Atos 2? Ou foi apenas ilustrada pelos eventos de Pentecostes?

Quanto ao primeiro problema, este autor prefere uma invasão humana real em 2.1-11 pelas seguintes razões: (a) as imagens do capítulo vão muito além de uma praga de gafanhotos normal, que nada tem de ver com os eventos cataclísmicos descritos em 2.10 e repetidos em 2.30,31; (b) os invasores no texto hebraico do capítulo 2 são realmente chamados de “povos” (2.2,17), “exército” (2.11) e “o exército do Norte” (em hebraico “o que vem do Norte”; 2.20), que sugere o uso de linguagem simbólica para descrever um evento semelhante; (c) a referência a gafanhotos em 2.25 como um “exército” aponta para o capítulo 1, relacionando o livramento escatológico à praga histórica que a nação experimentara recentemente; (d) a direção da qual vem essa “praga” (2.20) assemelha-se perfeitamente à história militar do Oriente Médio antigo, e nada tem de ver com pragas de gafanhotos, que geralmente vinham da direção oposta.

Os pretéritos são realmente um problema espinhoso. Eles parecem indicar que 2.18-20 se refere ao derramamento de bênçãos de Yahweh a uma nação arrependida à época de Joel. No entanto, o conteúdo de 2.19b,20 sugere que a passagem ainda pertence ao futuro, à época da composição do livro. Robert Chisholm (Robert Chisholm, “Joel”, em The Bible Knowledge Commentary – Old Testament Edition, pp. 1418-1419.) opta por pretéritos normais, mas reconhece que “profecias referentes a sua geração se fundem aqui com aquelas que esperam por realização futura” (p. 1419). Apoio sintático para considerar os pretéritos como futuros pode ser encontrado cf. W. Gesenius, E. Kautzsch, e A. E. Cowley, Hebrew Grammar, § 117 w, desde que seja estabelecida uma ligação entre 2.11 (o último verbo a empregar um perfeito profético) e 2.18 (em que ocorre o primeiro pretérito). Se o intérprete postular um parênteses exortativo em 2.12-17, ou considerar o imperfeito יֹאמְרוּ (yôʾmerû) como futuro, é possível argumentar em favor de um sentido futuro para os espinhosos pretéritos de Joel 2.

O significado de Joel 2.28-32 em relação a Atos 2 já recebeu pelo menos cinco interpretações diferentes. O ponto de vista de cumprimento até Pentecostes atribui cumprimento parcial durante os dias de Joel e cumprimento completo em Pentecostes. O ponto de vista do cumprimento somente em Pentecostes encara como cumprimento total em Pentecostes, com alguns detalhes relacionados ao tempo da crucificação de Jesus. O ponto de vista do cumprimento parcial abandona o elemento cataclísmico contemporâneo a Joel em favor de um cumprimento escatológico na segunda vinda de Cristo. O ponto de vista de cumprimento contínuo considera um cumprimento inicial das promessas relacionadas ao Espírito em Pentecostes que continua durante o período da Igreja, como também um componente escatológico que se cumprirá na segunda vinda de Cristo. O ponto de vista de não-cumprimento em Atos argumenta que a ausência de linguagem de fórmula literária e a total ausência de detalhes cataclísmicos em Pentecostes, apontam para um uso ilustrativo (alguns preferem a palavra “típico”) da profecia de Joel pelo apóstolo Pedro; Joel 2.28-32 encontra seu cumprimento total na segunda vinda do Senhor. Este último ponto de vista é o mais coerente na opinião deste autor.

Na mente de Pedro, o reino estava sendo oferecido uma vez mais à nação de modo condicional, ou seja, o arrependimento nacional permitiria a Israel o desfrute das promessas concernentes ao reino por meio da volta do Messias. Deste modo, a expressão “isto é o que” tem um elemento condicional que, conforme a História prova, nunca se materializou e ainda aguarda cumprimento no fim dos tempos.

TEMA E DESENVOLVIMENTO

O livro trata da ameaça de julgamento de Deus contra Judá, que Ele ilustra com a recente e devastadora praga de gafanhotos. A esperança de Judá repousa no arrependimento e na misericórdia divina, que trará, com os julgamentos do Dia do Senhor, Sua abundante misericórdia ao restaurar a nação à glória e fartura. Assim, o propósito do livro pode ser assim enunciado:

Promover arrependimento nacional e fé em Yahweh como o Deus que julgará cosmicamente a humanidade de modo a trazer as bênçãos de que Israel é receptor e canal.

Joel atinge seu propósito desenvolvendo-o nas três partes que compõem sua profecia. Na primeira parte (1.2-20), o profeta descreve a praga de gafanhotos que ameaçara a vida da nação. Joel conclama a nação a considerar o caráter incomum desse julgamento divino (1.2-4), depois exorta todas as camadas sociais a chorar suas perdas, causadas pelos gafanhotos devoradores (1.5-13). Tal julgamento exige arrependimento nacional (1.14) e aponta para o iminente Dia do Senhor (1.15-20).

Na segunda parte, Joel anuncia os julgamentos cósmicos de Deus, que incluem uma violenta invasão militar da Palestina (2.1-11). Essa invasão é descrita com referência à recente praga de gafanhotos. Joel apresenta tal julgamento como próximo no tempo (2.1,2), altamente destruidor (2.3-5) e irresistível (2.6-11).

Na terceira parte, esse julgamento cósmico é apresentado como o ponto inicial do tempo de arrependimento e restauração para Israel, enquanto o Senhor castiga as nações gentílicas opressoras e abençoa o remanescente espiritual e materialmente (2.12–3.21). A conclamação profética ao arrependimento nacional (2.12-17) é seguida pela promessa divina de restauração benevolente em resposta ao arrependimento de Israel (2.18-27). Israel recebe depois a promessa de um futuro glorioso que inclui sua renovação espiritual (2.28-32), vingança dos seus inimigos (3.1-8), livramento sobrenatural do ataque estrangeiro escatológico (3.9-17) e paz e prosperidade sob a presença do próprio Deus com o Seu povo, que cumprirá, portanto, seu papel na aliança como o canal de bênçãos de Yahweh para o mundo (3.18-21).

ESBOÇO SINTÉTICO

Mensagem

O julgamento histórico contra um povo espiritualmente insensível anuncia um julgamento cósmico por meio do qual o remanescente de Israel receberá as bênçãos prometidas e as canalizará para todo o mundo.

TÍTULO (1.1)
 I. Uma devastadora praga de gafanhotos ameaça a sobrevivência da nação enquanto Judá é castigada por Yahweh (1.2-20).
 A. O profeta conclama a nação a considerar o caráter incomum desse julgamento (1.2-4).
 B. Todas as camadas sociais afetadas pela praga são conclamadas a chorar suas perdas (1.5-13).
 1. Bêbados, privados de seu vinho, devem chorar (1.5-7).
 2. Fazendeiros, que perderam suas colheitas, devem chorar (1.8-12).
 3. Sacerdotes, que dependiam dos dízimos dos produtos agrícolas, também devem chorar (1.13).
 C. A nação é conclamada a arrepender-se e pedir livramento divino (1.14).
 D. A praga recente aponta para a iminência do Dia do Senhor (1.15-20).
 1. Ambos são tempo de castigo de Deus (1.15).
 2. Ambos são tempo de privação (1.16-18).
 3. Ambos são tempo de calamidade nacional (1.19,20).
 II. O julgamento cósmico de Deus inclui uma violenta invasão militar da Palestina, descrita com referência à recente praga de gafanhotos (2.1-11).
 A. Esse tempo de julgamento sem precedente mandado por Deus se aproxima (2.1,2).
 B. Esse exército mandado por Deus é altamente destruidor (2.3-5).
 C. Esse exército mandado por Deus é irresistível (2.6-11).
 1. Ele inspira terror em seus adversários (2.6).
 2. Ele é altamente organizado e disciplinado (2.7,8).
 3. Sua marcha inexorável é acompanhada de cataclismas cósmicos ordenados pelo próprio Senhor (2.9-11).
 III. O iminente julgamento cósmico de Deus prenuncia o arrependimento e a restauração de Israel quando o Senhor pune as nações e abençoa o remanescente (2.12–3.21).
 A. O profeta conclama um arrependimento nacional (2.12-17).
 1. A nação é exortada a voltar-se para o Senhor com todo seu coração com base em Seu caráter benevolente (2.12,13).
 2. O arrependimento traz consigo a possibilidade de escapar à exe-cução (2.14).
 3. As várias camadas da sociedade são convocadas a um dia de arrependimento nacional (2.15,16).
 4. Os profetas são instruídos a solicitar a misericórdia de Yahweh à luz do opróbrio que tal destruição traria à Sua reputação (2.17).
 B. Restauração benevolente será a resposta de Deus ao arrependimento de Israel (2.18-27).
 1. A prosperidade será restaurada quando o inimigo for banido de Israel (2.18-20).
 2. As bênçãos materiais serão um sinal da própria presença de Yahweh no meio do Seu povo (2.21-27).
 • A abundância agrícola será normal para a nação (2.21,22).
 • A regularidade climática assegurará colheitas abundantes e recuperação da escassez anterior (2.23-25).
 • A abundância de Israel confirmará para a nação que Deus intervém miraculosamente em seu favor e entre eles habita (2.26,27).
 C. O futuro de Israel será de gloriosa felicidade quando Deus punir seus inimigos e restaurar seus bens espirituais e materiais além de quaisquer expectativas (2.28–3.21).
 1. Israel será espiritualmente renovado quando Deus intervier em seu favor (2.28-32).
 • O Espírito de Deus estará disponível a todo tipo de pessoa (2.28,29).
 • Convulsões cósmicas serão sinais do dia da intervenção divina (2.30,31).
 • O remanescente de Israel experimentará proteção e livramento divinos (2.32).
 2. As nações se reunirão para julgamento pela sua crueldade para com Israel (3.1-8).
 • O julgamento das nações acontecerá em Israel, quando a nação for restaurada (3.1,2).
 • O desprezo gentílico para com os tesouros consagrados a Yahweh e a crueldade exercida contra Seu povo escolhido receberão castigo em espécie (3.3-8).
 3. O julgamento divino será precedido por um conflito mundial centralizado em Israel, no qual o Senhor pessoalmente intervirá em favor de Seu povo (3.9-17).
 • Os poderes mundiais serão convocados para a guerra em Israel, conforme o plano de Yahweh de ali julgá-las (3.9-12).
 • O julgamento oportuno de Yahweh contra os inimigos de Israel envolvem catástrofes cósmicas das quais Ele sobrenaturalmente protege Seu povo (3.13-16).
 • O resultado final do julgamento das nações é que Israel reconhecerá definitivamente a singularidade de Yahweh como Deus (3.17).
 4. O futuro de Israel será glorioso e livre de seus inimigos viscerais, desfrutando prosperidade e a própria presença de Yahweh (3.18-21).
 • A terra de Israel será restaurada a sua completa glória e produtividade (3.18).
 • Os inimigos viscerais de Israel terão sua terra amaldiçoada (3.19).
 • A retribuição longamente adiada de Yahweh aos inimigos de Israel e Sua presença pessoal em Sião garantirão paz e segurança para Israel (3.20,21).