1 de outubro de 2012

Geerhardus Vos - Revelação após o dilúvio


Nós chegamos agora ao período da revelação noaica que ocorreu após o dilúvio. Nessa época, medidas positivas e construtivas foram tomadas para o prosseguimento dos planos divinos. Mais uma vez vale lembrar que os princípios anunciados e as medidas tomadas não se relacionam diretamente com o processo de redenção, apesar de que não se deve ignorá-las como um suporte indireto. Podemos deduzir que se li da com o desenvolvimento da vida natural por aproximação pelo que se segue: o que está ordenado por Deus e a promessa feita têm referência igual para toda a família de Noé. Contudo, nós sabemos que a obra de redenção teve seu prosseguimento somente pela linhagem de Sem; que o arranjo feito não se confina à raça humana; que tal arranjo é feito com toda criatura viva, ou melhor, com o próprio planeta; que o berith é um berith com a natureza é evidente no sinal do berith. o arco-íris é um fenômeno da natureza e absolutamente universal em sua referência. Todos os sinais ligados à redenção são sangrentos, sinais sacramentalmente divisivos.


A positiva revelação noaica procede em três períodos. O primeiro dos três recita o propósito de Deus, expresso num monólogo, de instituir uma nova ordem de coisas. O segundo descreve as medidas tomadas para dar conteúdo

e segurança a essa ordem. O terceiro relata como a nova ordem estava confirmada na forma de um berith.
A primeira seção se encontra em Gênesis 8.20-22. Deus declara: “Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem... nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz. Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite”. A regularidade da natureza nos seus grandes processos fundamentais continuará daqui em diante. Há, contudo, uma qualificação acrescentada a isso - “enquanto durar a terra”. Isso se relaciona com o pano de fundo escatológico do dilúvio [cf. IPe 3.20,21; 2Pe 2.5]. O motivo para a declaração divina é indicado no versículo 21: “porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade”. Palavras quase idênticas foram ditas por Deus antes do dilúvio para indicar o motivo do julgamento (6.5). Como é que a mesma declaração pode explicar, primeiramente, que o julgamento é inevitável e, então, que não haverá a repetição do juízo de agora em diante? A solução para a dificuldade é encontrada nas palavras adicionais "desde a sua mocidade”, no segundo caso. O que estava descrito em Gênesis 6.5 era a culminação histórica de um processo de degeneração; aquela situação pedia pelo julgamento. O que está descrito agora é o estado natural de maldade no coração humano como tal, totalmente à parte dos problemas históricos. Porque o mal está de tal maneira entranhado, nenhum julgamento pode curá-lo. Portanto, outros meios devem ser procurados. Esses outros meios não poderiam ser postos em execução se julgamentos dessa natureza, catastróficos e repetidos, interferissem no desenrolar ordinário da História.

A segunda seção [9.1-7] relaciona as ordenanças instituídas, a fim de tornar possível e salvaguardar esse programa de longanimidade. Essas ordenanças se referem à propagação da vida, proteção da vida tanto do ataque de homens como de animais e à sustentação da vida. Aquilo que se relaciona com a sustentação da vida tem sido inserido na promessa de proteção da vida do ataque de animais porque a permissão de comida animal para melhor sustento se relaciona naturalmente a isso. A fim de entender essas medidas, devemos visualizar claramente o estado reduzido da humanidade como resultado do dilúvio. Por isso, ecos de algumas das ordenanças dadas na criação podem ser ouvidos aqui. O mandamento e a bênção para serem frutíferos são renovados.

A importância disso pode ser inferida de sua ocorrência dupla, primeiro no versículo 1 e, de novo, no versículo 7. Sobre a proteção da vida humana do ataque de animais, o versículo 2 indica a sujeição dos animais ao homem: “Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues”. A isso se acrescenta no versículo 5: “Certamente, requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida; de todo animal o requererei”.

Havia, originalmente, a supremacia do homem [Gn 1.26, 28]; mas, como instituído na criação, isso era da natureza de uma submissão voluntária. Isso pode ser visto nas figuras escatológicas que os profetas deram a esse respeito. Nessas figuras, temos os princípios de um retorno ao paraíso no final [Is 11.6-8]. Agora, no estado de pecado, tal supremacia é obtida pelo temor e pavor instilados nos animais. E Deus promete vingar o homem cuja vida seja destruída por animais: “requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida”. Não é possível dizer com exatidão como essa Lei funciona. Tem sido sugerido que toda espécie de carnívoros está destinada à extinção no fim. A permissão de se alimentarem da carne de animais está intercalada entre as referências àqueles animais que são hostis. A permissão tem suas condições: “Carne, porém, com sua vida, isso é, com seu sangue, não comereis”. Tal ponto de vista é revelado ao ser colocado com a promessa de vingança dos animais. Uma vez que os animais não devem devorar o homem da maneira dos carnívoros, o homem também não deve comer animais como uma fera selvagem devora sua presa. Ele deve demonstrar reverência apropriada pela vida como sendo uma coisa sagrada, sobre a qual somente Deus tem direitos absolutos e para o uso da qual o homem é dependente da permissão divina. A Lei em Levítico repete essa proibição, mas acrescenta outro aspecto a ser observado, que é o fato de que o sangue é derramado sobre o altar o que, é claro, para o Antigo Testamento, faz que a proibição de comer sangue seja absoluta. Em virtude da falha em distinguir o simples do complicado, essa prática de abstenção absoluta teve ,continuidade na igreja por vários séculos. O chamado decreto dos apóstolos At 15.20 tornou a restrição obrigatória para os cristãos gentios ainda que não porque a coisa era errada em si, mas para que nenhuma ofensa fosse imprimida sobre os irmãos do Cristianismo judeu.

O último ponto se relaciona à proteção da vida humana do ataque do próprio homem, e estabelece a Lei divina para a punição do assassinato: “como também da mão do homem, sim, da mão do próximo de cada um requererei a vida do homem. Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem”. Alguns, a fim de se evadirem da instituição da pena de morte para assassinato, entenderiam essas palavras como uma mera predição de que assassinato se qualifica a estar sob a lex talionis pela vingança do sangue. Essa exegese é positivamente impossível em virtude da cláusula acrescentada: “porque Deus fez o homem segundo a sua imagem”. A imagem de Deus no homem nunca pode prover um motivo para a probabilidade de se demandar a vingança do sangue.

A pergunta permanece sobre o que a imagem de Deus no homem tem a ver com a aplicação da pena de morte. Duas respostas têm sido dadas. De acordo com uma, essa cláusula explica por que tal poder extraordinário de tirar a vida de outro homem pode ser conferido a uma pessoa. Isso é em razão da soberania de Deus, sendo parte de sua imagem divina, investido da qual aquele homem pode executar a justiça em questões capitais. Outros entendem que a cláusula provê a razão pela qual o ataque à vida do homem deve ser tratado com essa penalidade extrema. Na morte de alguém dessa maneira é a imagem de Deus, ou seja, a majestade divina, que está sendo atacada. A última interpretação merece nossa preferência. Perceba a diferença de que o instrumento para a execução da ordem divina é indicado claramente: “pelo homem se derramará o seu”, enquanto que no caso da retribuição sobre animais esse aspecto da matéria é deixado indefinido. Além do mais, a base para a instituição dessa penalidade parece dupla. De um lado o contexto mais amplo no qual a ordem ocorre demonstra ser uma medida de proteção para a sociedade. Ao mesmo tempo, a referência à imagem de Deus mostra que algo mais profundo deve ser subentendido. Pode-se questionar se o primeiro sozinho, sem qualquer in- junção específica a Deus, poderia justificar o infligir da morte por um homem sobre o outro. Considerações sociais puramente utilitárias dificilmente seriam suficientes aqui Elas podem vir como uma razão secundária somente depois que a matéria tenha sido disposta perante a alta instância da administração da justiça sancionada por Deus. O argumento frequente de que a pena capital somente acrescenta um segundo assassinato é baseado ou na total ignorância dos fatos da Escritura ou numa negação franca do caráter obrigatório daquilo que a Bíblia ensina. Como pode ser caracterizado como duplo assassinato aquilo que professa se basear no mais explícito comando de Deus, contra o qual os homens não têm nada a dizer a não ser objeções sentimentais e teorias não comprovadas sobre a eficácia de melhoramento pelas formas de disciplina que, por natureza, excluem a pena de morte?

A última seção é 9.8-17. Deus dá sua promessa na forma de um berith ao adicionar um sinal solene a ela. Esse sinal serve ao propósito de salientar a certeza absoluta da ordem instituída. Jeremias 33.25 fala nesse sentido do berith de Deus com o dia e a noite, isso é, da inexaurível sucessão desses dois. Talvez, contudo, haja mais aqui do que uma introdução comparativa à ideia de berith pode haver a intenção de uma referência de fato ao episódio com Noé. Certamente esse é o caso em Isaías 54.9, segundo o qual o berith noaico se posta em sua infalibilidade como um tipo de perpetuidade ainda maior da promessa do juramento de Deus sobre a redenção. A promessa dada a Noé tem o seu limite na crise escatológica, que conduzirá a terra ao fim. Todavia, apesar de os montes se retirarem e de as colinas terem sido removidas naquela catástrofe final, ainda assim a misericórdia de Deus não se apartará de Israel, nem o berith de sua paz será removido [v. 10]. A representação com relação ao arco-íris é antropomórfica, mas por isso mesmo ela é mais impressionante do que poderia ser de outro modo. A ideia não é, como normalmente assumida, de que o homem é relembrado da promessa divina pelo arco, mas que o próprio Deus, se fosse possível que ele pudesse esquecer, será lembrado de seu juramento: “Sucederá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, e nelas aparecer o arco, então, me lembrarei da minha aliança (berith). O que acontece com o arco-íris aqui é o que vai acontecer, mais tarde, com a circuncisão: ambos existiam antes, e, em certo momento, o momento escolhido, foram consagrados por Deus para servirem como sinais de seu berith. O sinal é, em seu caráter, relacionado com a força da natureza da qual ele promete proteção. Ele é produzido a partir das próprias nuvens que haviam trazido destruição sobre a terra, pelos raios do sol que, no simbolismo da Escritura, representam a graça divina.

Fonte: VOS, Geerhardus. Teologia Bíblia, Antigo e Novo Testamento. São Paulo : Cultura Cristã, 2010.