26 de setembro de 2012

Geerhardus Vos - A revelação noaica e o desenvolvimento que conduz a ela


Dois elementos caracterizam a revelação desse período. Em primeiro lugar, sua significância reside não na esfera da redenção, mas na esfera do desenvolvimento natural da raça, apesar de ela ter, no fim, um papel importante no progresso subsequente da redenção. Em segundo lugar, a revelação aqui traz no seu todo um caráter negativo em vez de positivo. Ela se contenta em administrar um mínimo de graça. Esse mínimo não poderia ser evitado, seja na esfera da natureza ou da redenção. Na primeira esfera, sem pelo menos algum grau de intervenção divina, o resultado seria o colapso da própria estrutura do universo. Na segunda esfera, a continuidade do cumprimento da promessa teria sido quebrada, caso a graça tivesse sido completamente retirada. Esses dois elementos encontram sua explicação no propósito desse período em geral. Deus tinha a intenção de expor as consequências do pecado quando deixado, até onde fosse possível, por conta de si mesmo. Se Deus tivesse permitido que a graça fluísse livremente no mundo e ganhasse força num curto período, então a verdadeira natureza e as consequências do pecado teriam sido reveladas de maneira imperfeita. O homem atribuiria à sua relativa bondade aquilo que, na realidade, era um produto da graça de Deus, Portanto, antes que a obra de redenção avançasse, a tendência decadente do pecado é claramente ilustrada, a fim de que, subsequentemente, à luz desse
movimento descendente, a verdadeira causa divina do curso ascendente da redenção pudesse ser apreciada.
A narrativa prossegue em três períodos. Primeiramente ela descreve o desenvolvimento rápido do pecado da linhagem de Caim. Em relação a isso, ela descreve o trabalho da graça comum na dádiva da invenção aos homens para o progresso da civilização na esfera da natureza. Ela mostra, mais adiante, que esses dons da graça foram abusados pelos cainitas e foram feitos servos do progresso do mal no mundo. Nós temos aqui o relato de uma degeneração rápida, orientada por Deus para expor a tendência, inerente ao pecado, de conduzir à ruína, e seu poder de corromper e degradar o que quer que seja que a bondade possa ainda desenvolver. No que diz respeito à humanidade desse período, os fatos confirmam a interpretação sobre ele. Os detalhes da descrição são escolhidos evidentemente com vistas a enfatizar o resultado. A morte de Abel por Caim ilustra um desenvolvimento rápido do pecado, progredindo para assassinato na segunda geração. Daí a maneira cuidadosa que a conduta de Caim é descrita antes e depois do ato. Caim cometeu seu pecado com premeditação, tendo sido advertido previamente. Após o ato, ele nega seu pecado, ele é afrontoso, repudia toda obrigação para com a Lei do amor. Mesmo depois de Deus ter pronunciado a sentença, Caim está exclusivamente preocupado com as consequências de seu pecado, não com o pecado em si. Quando se compara isso com o ato pecaminoso cometido no paraíso, torna-se evidente o rápido progresso na corrupção do coração humano. O pecado se mostra poderoso o suficiente para adulterar os dons da graça comum de Deus, na esfera da natureza, para fins malignos. O primeiro passo no progresso natural é dado por Enoque, o filho de Caim, que construiu uma cidade. Depois disso, na oitava geração de Caim, as invenções de técnicas de pecuária, música e metalurgia aparecem. Os inventores eram filhos do cainita Lameque, de cuja canção tem-se a impressão de que o aumento de poder e de prosperidade por ele realizado teve somente o efeito de causar mais separação de Deus. A canção [Gn 4.23,24] é uma canção-espada. Delitzsch observa bem que ela é uma expressão de arrogância veemente. Ela faz do poder o seu deus, e carrega seu deus, isso é, sua espada em sua mão. O que Deus havia ordenado como uma medida de proteção para Caim foi desprezado, e a confiança total é depositada sobre a vingança por meio da espada. Mesmo Caim sentia ainda a necessidade da ajuda de Deus; o espírito de Lameque depende somente de si mesmo. Nenhum traço de noção de pecado permanece. Também é registrado que Lameque mudou a relação monogâmica entre os sexos para a poligamia.
CANITAS E SETITAS
A narrativa procede, em seguida, à descrição do desenvolvimento na linhagem dos setitas [Gn 4.25-5.32]. Nada é dito, em relação a essa genealogia, sobre invenções e o progresso secular. A continuidade da redenção é que é enfatiza¬da. Os dois tipos de progresso aparecem distribuídos nas duas linhagens dos cainitas e dos setitas. Deus, algumas vezes, escolhe famílias e nações fora da esfera. da redenção para conduzirem o progresso na cultura secular. Exemplos disso são: os gregos, que cultivavam a arte; e os romanos, que receberam uma habilidade para o desenvolvimento de instituições políticas e legais. Note que, enquanto entre os setitas a continuidade da redenção é assinalada cuidadosamente, nada é dito sobre um novo influxo de graça especial mesmo entre des. O sentido da narrativa permanece negativo. Não que os setitas fizeram grande progresso no conhecimento e serviço a Deus; mas, antes, que eles se mantiveram relativamente livres da degeneração dos cainitas; esse é o peso da narrativa. Os pontos altos dessa narrativa estão nos contrastes entre certas figuras preeminentes nessa linhagem e seus correspondentes na sucessão cainita. Assim Caim e Abel são postos em oposição um ao outro. Da mesma maneira com Enoque, o filho de Caim, e Enos, o filho de Sete. Mas o ápice do contraste é visto na sétima geração. Aqui, o setita Enoque e o cainita Lameque estão em oposição um ao outro. Em contraste com o orgulho e arrogância de Lameque, Enoque é descrito como quem “andou com Deus”. Isso significa mais do que ter levado uma vida piedosa, pois as frases que mais comumente descrevem isso são “andar perante Deus" e “andar após Deus”. "Andar com Deus” indica uma relação sobrenatural com Deus. A frase é usada somente mais duas vezes no Antigo Testamento, referindo-se a Noé na sequência imediata e aos sacerdotes em Malaquias 2.6. Obviamente, tem-se a intenção de estabelecer alguma relação entre esse grau único de proximidade de Deus e Enoque ter sido poupado da morte. Por meio do ato de transladar o patriarca, mais uma vez é proclamado que. onde a comunhão com Deus é restaurada, o livramento da morte vem em seguida. A exatidão da visão sobre o andar com Deus” pode ser verificada na tradição apocalíptica posterior dos judeus, que representa Enoque como o grande profeta, iniciado em todos os mistérios. Quanto à descrição do cainita Lameque, notaremos que a descrição da linhagem cainita é abandonada. A outra linhagem prossegue até Noé. Em harmonia com isso, a cronologia está vinculada à linhagem setita, pois a cronologia é a estrutura na qual, na Escritura, o progresso da redenção está suspenso. O único outro ponto de comemoração na tradição setita diz respeito à declaração de Lameque, pai de Noé, no nascimento de seu filho: “Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra (não fora da terra) que o SENHOR amaldiçoou” [5.29], Essas palavras expressam um profundo senso do peso da maldição, e na mesma medida, do peso do pecado como causa da maldição. Além disso, esse senso expressa uma expectativa prematura, talvez, de que do alívio desse peso o conforto virá em breve. Isso, mais uma vez, faz um contraste vívido com o sentimento pagão dos cainitas, que não sentem a maldição ou, se sentem, esperam o alívio por meio de si mesmos e suas invenções humanas.
Apesar desses exemplos isolados de continuidade da graça redentora, o relato como um todo tende a trazer à luz o propósito divino antes formulado. Mesmo o bom, quando mantido vivo, não é capaz de fazer o mal retroceder. Nada se diz a respeito de qualquer influência por parte dos setitas sobre os cainitas. Enquanto que o poder de redenção permanecia estacionário, o poder do pecado crescia em força a ponto de estar preparado para atacar os bons que ainda existiam.
O caráter do período nesse aspecto encontra sua mais clara expressão no que é dito, em terceiro lugar, sobre a mistura de cainitas e setitas por meio de casamentos entre as duas linhagens. Os últimos se permitiram assimilar a iniquidade dos primeiros. Isso foi permitido por Deus até o ponto em que a lição sobre o potencial de destruição inerente ao pecado tivesse sido plenamente ensinada; até o ponto em que ela não poderia avançar mais, pois Noé e sua família eram os únicos que permaneceram fiéis, dando a impressão de que a obra de Deus estava em perigo; até o ponto em que o tempo havia chegado para ensinar a lição final sobre o julgamento sem o qual o período inteiro teria falhado em seu propósito. Na declaração citada, seguimos a interpretação ,mais comum para “filhas dos homens” e “filhos de Deus”. As primeiras são mulheres cainitas, os últimos são os setitas. Essa interpretação, contudo, é contestada por um número razoável de exegetas. Eles sustentam que “os filhos de Deus aqui designam, como às vezes é o caso em outras passagens, seres sobre-humanos, ou seja, anjos. Nós não vamos discutir todos os argumentos que podem ser usados a favor de uma ou de outra posição. Somente a primeira parece se encaixar no modo como a construção do todo do período é feita. Nós havíamos entendido que o período serve ao propósito de mostrar o resultado necessário do pecado, quando deixado livremente por conta de si mesmo. Se a teoria dos anjos for aceita, isso tenderá a obscurecer a ideia proposta. Nesse caso não teremos mais o desenvolvimento do pecado por si, mas um desenvolvimento sob a influência de um fator sobre-humano ab extra. A alegada natureza ilógica do contraste entre “filhas dos homens” e “filhos de Deus”, ao caso dos últimos pertencerem à raça humana, não é decisiva. Na língua hebraica, algumas vezes um gênero é colocado em oposição a uma parte dele como se os dois fossem mutuamente excludentes. A explicação é que, em certas circunstâncias, o todo é entendido como tendo somente as características genéricas e nada mais, enquanto que certa distinção é atribuída a uma parte, o que a coloca acima do gênero ao qual ela logicamente pertence. Assim, o que temos aqui: as filhas dos homens, ou seja, daqueles que eram homens e nada mais, são postas em oposição àqueles que, ainda que continuem homens em sua natureza, tinham a distinção de além disso serem filhos de Deus. Salmos 73.5 e Jeremias 32.20 são casos similares. Tem sido alegado que a expressão “filhos de Deus”, num sentido espiritual, estaria fora de lugar nesse período inicial de revelação, mas essa opinião não atenta para o fato de que o uso dela não é transportado para aquele período; ele é empregado a partir do ponto de vista do escritor. Um argumento a favor da teoria sobre os anjos é tirado da Epístola de Judas, versículo 7. Nesse texto, depois da descrição da Queda dos anjos, no versículo 6, o autor continua: “como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne", etc. Os que argumentam nesse sentido insistem que as palavras “como aqueles” devem unir os anjos do versículo 6 e as cidades da planície, de modo que o pecado dos primeiros teria sido também de natureza sexual, ou seja, intercurso sexual de anjos com seres humanos. A confirmação para isso é encontrada mais adiante na expressão “outra carne”, significando que anjos foram atrás dos seres humanos. Não se pode negar a força do argumento baseado nesses textos quando examinado com maior
atenção, ele não é conclusivo e permanece aberto para certas objeções. “Como aqueles” é interpretado por alguns como ligando não os anjos do versículo 6 e as cidades do versículo 7, mas Sodoma e Gomorra e “as cidades circunvizinhas”. Nesse caso, não há nenhuma referência à fornicação dos anjos. Outra objeção séria vem da frase “tomaram para si mulheres”, o que não poderia significar nada além de casamento  permanente, não uma fornicação casual, entre anjos e mulheres, algo muito difícil de se ter em vista aqui. Finalmente, “outra carne” dificilmente se encaixa na teoria sobre os anjos, pois os anjos, de acordo com o Antigo Testamento, não são “carne”. Entretanto, a palavra se encaixa perfeitamente no que era a abominação das cidades da planície — homossexualidade.
Deve-se observar que os escritores da linha histórico-crítica geralmente relacionam com a teoria dos anjos a suposição de que a narrativa em Gênesis 6 tem o propósito de relatar a origem do pecado, de indicar que o escritor não estava familiarizado com o relato da Queda nos capítulos anteriores; em outras palavras, que os dois relatos pertencem a documentos diferentes. Por isso que a exegese tem importância prioritária.
Em quarto lugar, em 6.3,5-7, temos Deus fazendo um sumário dos problemas daquele período e pronunciando seu julgamento sobre a raça antediluviana. Quanto ao versículo 3, há uma incerteza considerável quanto à sua interpretação, em razão das duas palavras, adhon e beshaggam, especialmente a primeira. A palavra dun ou din pode ser traduzida como “lutar, esforçar” ou “reger, governar”. O primeiro sentido é adotado pela Versão Atualizada que afirma: “Meu Espírito não contenderá sempre com o homem”. A Versão Revisada retém essa tradução, más uma nota marginal oferece uma alternativa: “não habitará sempre no homem”. Beshaggam é uma forma composta que pode ser analisada de duas maneiras: é possível considerá-la como sendo formada pela preposição be, a partícula relativa sha (uma abreviação de esher) e o advérbio gamy “também”. O resultado é: “naquilo também”. A outra opção é a preposição be, o infinitivo do verbo shagag, “extraviar-se”, o sufixo am, “deles”.
O sentido seria “no desvio deles”. Cada uma dessas opções pode ser ligada aos dois sentidos de dun ou din. A diferença entre aqueles últimos é de grande importância, pois a escolha a favor de um ou de outro colocará a declaração numa esfera bem diferente. A versão com “lutar, esforçar” a coloca na esfera ética. Deus teria a intenção de dizer, nesse caso, que ele não mais continuaria a permitir que seu Espírito exercesse a influência restritiva sobre o pecado até aquele momento. Certo limite de tempo, 120 anos, é fixado para que Deus se abstenha de retirar sua influência; depois disso vem o julgamento. A razão indicada ou é que o homem também é “carne”, “moralmente e religiosamente corrupto”, ou que ao se desviarem eles são carne, ou seja, o julgamento por vir é apropriado à condição deles. A versão de dun ou din com “reger, governar” põe a questão toda na esfera física. De acordo com o ensino geral do Antigo Testamento, o Espírito de Deus é a fonte de vida natural no homem [cf. SI 104.29,30]. Deus, ao dizer que seu Espírito não vai habitar indefinidamente no homem, anuncia o propósito de pôr um fim à existência física da humanidade após o limite de 120 anos. A razão é que eles são carne também (por causa do pecado, tornaram-se presa da corrupção física) ou que, ao se desviar, tornaram-se fisicamente sujeitos à corrupção que incidirá sobre eles após 120 anos. A tradução do verbo com “reger, governar” ou "habitar” merece a preferência. A noção ética de “carne”, se é que ela ocorre no Antigo Testamento, dificilmente é esperada nesse período inicial. Na outra visão dos três elementos mencionados — o Espírito, a carne e o abreviar do número de anos - todos eles são postos numa mesma linha. Alguns entenderiam os 120 anos de duração como designados ao homem individualmente de agora em diante. Isso não está de acordo com os fatos subsequentes. Só no caso de se adotar uma visão histórico-crítica é que seria possível aceitar essa interpretação já que a crítica afirma que a passagem, originalmente, não tem relação nenhuma com as narrativas patriarcais posteriores, e que ela foi escrita por alguém que não sabia nada sobre o dilúvio, mas que presumia um desenvolvimento ininterrupto da humanidade desde os primeiros tempos.
A outra parte do sumário divino, a declaração dos versículos 5-7, não oferece dificuldade. A iniquidade excessiva a que a humanidade chegou ao fim desse período é descrita nos termos mais fortes. Os pontos relevantes são, primeiramente: a intensidade e extensão do mal (“multiplicado na terra”); em segundo lugar seu caráter interno (“desígnio do seu coração"); em terceiro lugar. o caráter absoluto da inclinação para o mal, excluindo toda bondade (“mau”);
em quarto lugar,: o trabalho contínuo e habitual da maldade (“continuamente ). O mesmo juízo sobre esse estado de iniquidade irremediável é afirmado mais enfaticamente ainda nas palavras: “se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração”. Isso expressa, em linguagem antropomórfica, a ideia de que o desenvolvimento da humanidade fracassou quanto à finalidade para a qual Deus havia posto o homem na terra. Assim sendo, Deus diz: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito”. A inclusão das ordens inferiores de vida mostra que, por meio da humanidade, o organismo inteiro da natureza havia sido infectado pelo mal. Contudo, uma nota significante é acrescentada: “Porém Noé achou graça diante do SENHOR” (v. 8). A continuidade da raça é preservada. Deus salva o suficiente de entre os destroços, a fim de capacitá-lo a dar continuidade ao seu propósito original para com a mesma humanidade que ele havia criado.

Fonte: VOS, Geerhardus. Teologia Bíblia, Antigo e Novo Testamento. São Paulo : Cultura Cristã, 2010.