22 de setembro de 2012

Geerhardus Vos - O conteúdo da primeira revelação especial redentora


O termo “redenção” é usado aqui em antecipação. Ele não vai ocorrer até o período mosaico. Nós o empregamos aqui por motivo de conveniência. As características da aproximação salvífica de Deus e seu trato com o homem aparecem imediatamente. Tanto a justiça quanto a graça são dirigidas ao homem caído. A justiça é demonstrada no aspecto penal das três maldições pronunciadas; a graça para a humanidade aparece implícita na maldição sobre o tentador. Contudo, ela é claramente apresentada na maneira como Deus busca e interroga o homem depois da Queda. Em cada um de seus aspectos, percebe-se o sopro do espírito daquele que fez provisão para a demonstração final da graça. Nós podemos observar ainda, nesse ponto, como a revelação especial se relaciona à revelação geral. Os sentimentos de vergonha e medo foram produzidos no homem pela revelação geral. Deus traz isso no seu diálogo com o homem, que era a revelação especial.


A vergonha por causa da nudez é, na sua forma sexual, o modo mais primitivo no qual a perda da inocência se revela. Várias explicações teológicas têm sido produzidas com relação a isso. De acordo com alguns, a nudez física é o expoente da nudez interior da alma, privada da imagem divina. De acordo com outros, a vergonha do pecado se evidencia na nudez, a fim de salientar que o pecado é um assunto racial. Outros ainda afirmam que a vergonha é o reflexo no corpo do princípio de corrupção introduzido na alma pelo pecado. Essa vergonha, então, seria a percepção instintiva da degradação e decadência da natureza humana. Mas não podemos atribuir a autoridade do relato em si para nenhuma dessas opiniões. Deve-se notar, todavia, que a vergonha e o medo operam com referência a Deus. O homem e a mulher se escondem da presença de Deus, mas não um do outro. A interrogação divina reduz o senso de vergonha e medo à sua raiz última no pecado. Deus não permite que o homem se refira ao físico como se isso fosse razão suficiente para justificar aqueles sentimentos. Antes, Deus compele o homem a reconhecer neles o reflexo dos aspectos éticos envolvidos.

AS TRÊS MALDIÇÕES

As três maldições são proferidas na mesma sequência em que os pecados foram cometidos. Na maldição da serpente reside uma promessa de vitória sobre ela e sua semente. A condenação “rastejar sobre o ventre” capacita a semente da mulher a ferir sua cabeça, enquanto que a serpente só pode ferir o calcanhar da semente da mulher. O princípio de vitória final é, mais adiante, discriminado em seus elementos principais na formulação que é dada a essa maldição. São eles:

(a)          A iniciativa divina na obra de libertação. A ênfase está sobre o pronome: Deus diz: Eu porei inimizade”. Aqui não é, primariamente, um apelo ao homem, mas uma promessa divina. Deus não está meramente instigando ou promovendo a inimizade; ele está soberanamente a estabelecendo.

(b)          A essência do ato de libertação consiste no reverso da atitude assumida pelo homem em relação à serpente e a Deus, respectivamente. Ao pecar, o homem se posicionou ao lado da serpente e se colocou em oposição a Deus. Agora, a atitude em relação à serpente se torna a de hostilidade; isso deve carregar uma mudança correspondente na atitude do homem em relação a Deus. Sendo Deus aquele que faz guerra contra Satanás, o homem, ao se juntar nessa luta, torna-se claramente o aliado de Deus.

(c)          A continuidade da obra de libertação é declarada; a inimizade se estende à semente da mulher e da serpente. A promessa de Deus é que ele manterá a inimizade na linhagem humana e não permitirá que ela desapareça. A expressão “semente da mulher” indica que o organismo da raça será trazido para dentro do círculo de redenção, o que não significa, é claro, que todos os indivíduos se tomarão inimigos da serpente. O ponto é que Deus não salva indivíduos meramente, mas ele salva a semente da mulher.

Com referência à semente da serpente, existem duas visões. De acordo com uma, essa expressão designa aquela parte da raça humana que continua do lado da serpente. Nesse caso, “semente” é usada metaforicamente. A objeção a essa ideia é que, como está colocado, a semente da serpente seria, ao mesmo tempo, parte da semente da mulher em que as duas aparecem distintamente separadas. Como resposta a isso se diz que, de agora em diante, somente os aliados de Deus constituem a verdadeira humanidade; que somente eles merecem ser chamados de “a semente da mulher”. Parece mais plausível buscar a. semente da serpente fora da raça humana. O poder do mal é um poder coletivo, um reino do mal, do qual Satanás é o cabeça. Os espíritos malignos são chamados de uma semente da serpente para assimilar a imagem dela na cláusula correspondente. Ainda que eles não descendam de Satanás por meio da propagação física, derivam sua natureza dele.

(d)          O tema da inimizade é predito. Na Versão Revisada, o texto diz: esse te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Contudo, uma tradução alternativa é dada: “ele ficará aguardando pela tua cabeça, tu ficarás aguardando pelo seu calcanhar”. O verbo, no hebraico, é shuf e a nota marginal o coloca como equivalente a sha'af. O sentido original é “morder” alguma coisa, então “procurar morder” alguma coisa, ou seja, “ficar na espera” por isso. O verbo shuf ocorre, além dessa passagem, somente duas vezes no Antigo Testamento [Jó 9.17; SI 139.11]. Quanto ao texto em Salmos, parece impossível que o significado seja “ferir” ou “ficar aguardando”. Porém, em Jó, o sentido de ferir parece indicado. Uma objeção é levantada quanto à tradução usada: apesar de a palavra ser apropriada para a semente da mulher em relação à serpente, esse não seria o verbo natural para descrever o que é feito pela serpente. Essa não é uma objeção séria. Se alguém fosse substituir a ideia de “ferir” pela de “ficar aguardando”, o mesmo resultado se seguiria, ele é adequado para uma oração, mas não é para a outra. Além disso, nada poderia ser dito concernente à luta envolvida. Tanto no grego como no aramaico as palavras para “surrar” e “bater” são usadas para mordidas e ferroadas. Talvez também o verbo na segunda oração seja repetido, a fim de que a mesma expressão possa ser mantida. Em Romanos 16.20, Paulo usa a palavra “ferir” com uma alusão evidente à passagem que estamos estudando. Observe que o pronome “ele” em “ele ferirá a tua cabeça”, tem, como seu antecedente, “a semente da mulher”, e não, como está na Vulgata, a própria mulher, uma tradução que levou alguns comentaristas católicos romanos a encontrar a virgem Maria aqui.

“SEMENTE”

Quanto à palavra “semente”, não há nenhuma razão para que evitemos o sentido coletivo em qualquer dos casos. A semente da serpente tem de ser coletiva, e isso determina o sentido da semente da mulher. A promessa é que, de alguma maneira, um golpe fatal virá da raça humana, o qual esmagará a cabeça da ^serpente. Ainda, indiretamente, é indicada a possibilidade de que, ao desferir esse golpe mortal, a semente da mulher estará concentrada em uma única pessoa, porque se deve notar que não é a semente da serpente, mas ela mesma que terá a cabeça ferida. Na primeira parte da maldição, as duas sementes são postas em contraste; aqui, o contraste é entre a semente da mulher e a serpente. Isso sugere que, como no clímax da batalha, a semente da serpente será representada pela serpente, da mesma maneira a semente da mulher deve encontrar seu representante numa única pessoa. Contudo, não estamos autorizados a buscar uma referência exclusiva ao Messias aqui, como se somente ele estivesse sendo indicado pela expressão “semente da mulher” . A revelação do Antigo Testamento trata do conceito de um Messias pessoal de modo bem gradual. Era suficiente para o homem caído saber que, por meio do poder e graça divinos, Deus traria vitória contra a serpente do meio da raça humana. A fé poderia descansar nisso. O objeto da fé deles era muito menos definido do que o nosso, uma vez que conhecemos o Messias pessoal. Entretanto, a essência dessa fé era a mesma, quando considerada no seu aspecto subjetivo, confiança na graça de Deus e seu poder de trazer libertação do pecado.

SOFRIMENTO HUMANO

Finalmente, notamos a revelação da justiça nas maldições sobre a mulher e o homem. A mulher é condenada a sofrer naquilo que constitui sua natureza como mulher. (Para uma construção precisa ou emenda possível do texto hebraico, veja Dillmann’s Commentary, in loco.) O elemento de graça que está entrelaçado a isso consiste na implicação de que, apesar da pena de morte, a raça humana será habilitada a se propagar. A punição do homem consiste em trabalhar ate morrer. Não que o trabalho em si seja a penalidade, pois o homem tinha sido colocado no jardim para o cultivar e guardar. A referência aqui é ao trabalho penoso o trabalho que traz a morte. Isso se aplica ao trabalho em geral mas a forma indicada pela maldição é derivada da forma mais primitiva de trabalho que é a de lavrar o solo. Ao mesmo tempo, traz a ideia de que o homem deve, de agora em diante, trabalhar pelo seu sustento básico. Isso será uma verdadeira luta pela sobrevivência. No suor de seu rosto ele comerá seu pão, e “pão”, talvez, em vez de significar comida em geral, faça referencia especifica ao alimento produzido do solo, em contraste com o sustento produzido do solo, em contraste com o sustento mais facilmente obtido que era o fruto do jardim. Não se diz nada sobre uma deterioração subjetiva do homem, fazendo que seu trabalho seja pesado e fatal ao final. A causa indicada é objetiva – a produtividade da natureza está prejudicada. O solo é amaldiçoado por cansa do homem. Ele agora produz cardos e abrolhos. O elemento de graça que se mistura com a maldição consiste em que o pão será pão apesar de tudo: ele vai sustentar a vida. Da mesma maneira que a mulher está habilitada a trazer nova vida ao mundo, o homem será capaz de sustentar essa vida pelo seu trabalho duro.

Fonte: VOS, Geerhardus. Teologia Bíblia, Antigo e Novo Testamento. São Paulo : Cultura Cristã, 2010.