10 de agosto de 2012

Teologia Bíblica e Teologia Sistemática - Eugene H. Merrill


Os termos bíblico e teologia evocam uma gama de conotações e associações. O que, então, dizer da combinação Teologia Bíblicai Não é tautológico o uso em  conjunto? Não é auto-evidente que os adjetivos bíblico e teológico são praticamen te sinônimos e que, em todo caso, a teologia é inconcebível sem a Bíblia?
Estas e outras perguntas semelhantes têm surgido desde os tempos do Antigo Testamento e ao longo do curso da história da Igreja e exigido novas respostas a cada geração. Hoje, na primeira década do século XXI, mais do que nunca, isto é verdadeiro, pois as disciplinas gêmeas da teologia e erudição bíblica estão em tremenda desordem e raramente a Igreja tem estado menos segura sobre as suas inter-relações.[1]

As DISTINÇÕES DA TEOLOGIA SISTEMÁTICA

A interpretação tradicional da Teologia Bíblica manifesta-se em uma de duas formas: (1) é o corpo da verdade contida na Bíblia, quer esteja ou não sistematizada em algum ponto; ou (2) é a verdade que se origina na Bíblia, mas que se expressa em categorias lógicas e filosóficas.[2]  A ultima forma, mais corretamente definida por Teologia Sistemática, é
essencialmente de método e elaboração dedutivas, ao passo que a primeira forma, Teologia Bíblica no sentido restrito e técnico, é indutiva. Em outras palavras, a Teologia Bíblica procura encontrar suas categorias e focos teológicos na própria Bíblia e não a partir de padrões racionais ou clássicos derivados de fora e impostos na Bíblia.

Outra diferença entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática está nos termos do desenvolvimento e dinamismo, de um lado, e conclusão e estatismo, de outro. Falando teologicamente, uma é de perspectiva diacrônica e a outra, sincrônica.[3]  A Teologia Sistemática interessa-se em ver e articular a verdade bíblica em termos do testemunho canônico completo, sem preocupação particular pelo processo desenvolvente em ação para criar a forma final. E a mais sintética das disciplinas e objetiva um resultado unificado. A Teologia Bíblica interessa-se em discernir, localizar e descrever o progresso da revelação divina ao longo do Cânon desde as primeiras até às mais recentes expressões. Precede, logicamente, a sistemática e é a ponte entre a exegese e a sistemática.

Estas duas abordagens à teologia, se compreendidas e definidas corretamente, de modo nenhum são mutuamente exclusivas. Uma Teologia Sistemática genuinamente cristã encontrará sua doutrina somente na Bíblia e interessar-se-á em limitar as categorias organizacionais às inerentes na Bíblia. Não obstante, ainda emprega um método essencialmente sintético para avaliar a matéria-prima teológica com que trabalha. Por exemplo, a Soteriologia, sensível como é às diferenças entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, perscrutará a Bíblia do começo ao fim em busca de dados que, juntos, compõem as doutrinas da salvação. Por outro lado, a Teologia Bíblica Cristã traçará a história da salvação, um passo de cada vez, ao longo da Bíblia, permitindo que a história tome qualquer forma apropriada em qualquer determinada fase da revelação, reconhecendo como a doutrina desenvolveu-se à medida que a revelação progredia. Então, e só então, a Teologia Bíblica procurará organizar e sintetizar os resultados da investigação.

No esforço de distinguir entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática, é enganador contrapor uma contra a outra, como se ambas estivessem em conflito mútuo ou uma fosse superior à outra. São dois modos de ver e expressar o mesmo corpo de revelação. Muito dano tem sido causado pela inabilidade em perceber as suas respectivas naturezas, prioridades e relações. Os que praticam só a Teologia Bíblica, às vezes, não entendem a integração apropriada dos campos da verdade que eles descobrem na indagação longitudinal. Vêem o desenvolvimento da revelação divina, mas não conseguem entender a plenitude para a qual o processo avança. Terminam muitas vezes com campos paralelos da verdade que jamais são sistematizados em um padrão coerente. Os teólogos sistemáticos, às vezes, são culpados de trazer estruturas epistemológicas à revelação bíblica que são alienígenas ou estranhas a essa revelação. Forçam o material em conformidade com a grade filosófica própria, sem considerar a possibilidade de que a verdade de Deus é intratável e tem de produzir as suas próprias categorias.[4]

Bons teólogos, de ambas as abordagens, reconhecerão a obrigação que devem uns aos outros. Os intérpretes sistemáticos entendem que o material com o qual trabalham deve ser extraído pelos exegetas e teólogos bíblicos, e os teólogos bíblicos sabem que o trabalho não está completo se eles meramente localizarem e delinearem os principais temas teológicos de determinadas porções da Bíblia.

Esses temas devem ser integrados e entretecidos de tal modo a produzir um arranjo auto consistente, harmonioso e equilibrado da revelação divina. Esta tarefa, admitem eles, é do teólogo sistemático.

Lógica e metodologicamente, tem de haver um empreendimento cooperativo em fazer teologia que honre a Deus. Os teólogos bíblicos têm de abrir caminho através de testes bíblicos, descobrindo indutiva e progressivamente a verdade teológica. Nesse processo, podem ou não discernir padrões e paradigmas importantes, mas têm de fazer o esforço de extrair princípios que forneçam os dados concretos para a síntese. Quer dizer, eles tem de ser diacrônicos e sensíveis à revelação gradual, mas progressiva da disposição de Deus em revelar informações sobre si mesmo. Os teólogos sistemáticos têm de fornecer o ponto crucial do empreendimento teológico. Idealmente, recusam ler no determinado texto o que não está ali, extraem os princípios pelos quais os teólogos bíblicos trabalham (que não seja o seu produto) e negam-se a confeccionar uma camisa-de-força filosófica na qual os dados indutivamente derivados tenham de ser comprimidos.


O DESENVOLVIMENTO NOS ÚLTIMOS SÉCULOS

Embora as distinções entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática devam estar claras agora, é importante lembrar que esta distinção é de época bastante recente.[7]  Até há uns duzentos anos, teologia era teologia, isto é, o estudo de Deus, seus atributos e o meio em que Ele atua no mundo. O adjetivo bíblico era considerado supérfluo, pois obviamente a teologia era derivada da Bíblia e tinha conteúdo bíblico como o próprio objeto de estudo. Em tempos mais antigos, inclusive na era dos escritos do Novo Testamento, a teologia nem mesmo era sistematizada. Consistia apenas na apropriação da verdade do Antigo Testamento como fundamentação e apoio para a revelação de Deus em Jesus Cristo. Em certo sentido, era verdadeiro ao conceito e princípios da Teologia Bíblica, porque o judaísmo ou o cristianismo  primitivo não faziam esforços para criar rubricas lógicas e mutuamente exclusivas de acordo com as quais a revelação bíblica (ou seja, o Antigo Testamento) fosse entendida. Por outro lado, tal empenho teológico não era teologia verdadeiramente bíblica no sentido atual, pois nem o Novo Testamento nem outro antigo escrito judaico e cristão empreendeu o tipo de investigação analítica e sintética do registro bíblico como estes volumes estão fazendo. A teologia, como entendemos o termo no século XXI, era uma noção estranha em tempos mais antigos.

O surgimento da Teologia Sistemática, às vezes conhecida por Teologia Dogmática, acompanhou o surgimento dos estudos neoclássicos na igreja ocidental, especialmente o estudo da filosofia platônica e aristotélica. Isto ocorreu de dois modos: (1) como resposta e discussão contra o paganismo associado a tal pensamento filosófico e (2) pela apropriação de argumentos metafísicos e epistemológicos empregados por esses filósofos. Havia aspectos negativos e positivos do uso cristão da filosofia clássica.

Infelizmente não demorou muito para que a natureza formal da análise e reconstrução filosófica fosse confundida com a sua natureza material. Quer dizer, a teologia, no empenho de sistematizar, começou a absorver as categorias filosóficas de organização e os conteúdos extrabíblicos e até antibíblicos derivados do racionalismo filosófico. O resultado foi a imposição de estruturas e pensamentos extrabíblicos nos dados teológicos da Bíblia. Foi em reação a isto que nasceu o movimento da Teologia Bíblica em meados do século XVIII. O brado tornou-se “de volta à Bíblia” em prol da substância da teologia e também da metodologia a ser empregada na averiguação dessa substância. A reação foi tão forte que os próprios conceitos da Teologia Sistemática ou Dogmática estavam ameaçados, até que se percebeu que as duas, longe de serem inerentemente antitéticas, eram complementares e que ambas as disciplinas eram necessárias.
A Teologia Bíblica assumiu o seu lugar legítimo como depósito do qual a Teologia Sistemática retirava seus recursos e a Teologia Sistemática reconheceu que só podia falar com autoridade bíblica quando derivava suas categorias e substância da Bíblia mediada pela Teologia Bíblica.

A análise precedente espelha principalmente o trabalho e atitude dos teólogos tradicionais e ortodoxos. Mas com o surgimento da moderna alta crítica, aproximadamente contemporânea com esta nova distinção entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática, desenvolveu-se um racionalismo cético para com a Bíblia que a eviscerou da autoridade científica, histórica e teológica. O resultado foi que a Teologia Bíblica do Antigo Testamento tornou-se nada mais, nada menos que a historia da religião de Israel, ao passo que a Teologia Sistemática tornou-se urna tentativa objetiva e não mais normativa de organizar o conteúdo de urna Bíblia desacreditada. A troca da Biblia como base e foco da teologia resultou em novas abordagens, como a Teologia Filosófica ou a historia da doutrina.

As implicações avassaladoras disto para a vida e sobrevivência da Igreja ficaram claras para muitos pensadores cristãos de dentro e de fora da comunidade evangélica. Foi assim que ocorreram os primeiros sinais do movimento da  “Nova Teologia Bíblica” imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, um movimento que acentuava a centralidade da Bíblia para o recurso teológico à parte ou mesmo apesar das suas deficiências conforme são definidas pela crítica histórica. Este foi o esforço empreendido principalmente pelos estudiosos comprometidos com o atual método crítico. Os proponentes de uma crença ortodoxa nunca abandonaram uma Teologia Bíblica ou uma Teologia Sistemática apropriada, embora a primeira fosse lamentavelmente negligenciada como um método a favor da última.

Hoje, o movimento da “Nova Teologia Bíblica” envelheceu, mas nem por isso o interesse das pessoas diminuiu. Estudiosos católicos, protestantes e judeus estão ativamente ocupados em muitas formas de abordagens ao tema, que variam de uma teologia como declaração da revelação de Deus em uma Bíblia atemporal e inerrante para uma teologia como prisma pelo qual podemos entender o antigo Israel como um fenômeno religioso e sociológico. É impossível prever se o impulso do movimento, com todas essas características modernas e criativas, conseguirão se sustentar por mais tempo.[8]

Estes dois volumes atestam a significação da Teologia Bíblica na percepção da maioria da comunidade evangélica. Nos últimos cinquenta anos foram feitos excelentes trabalhos,[9]  mas este é talvez o primeiro deste tipo, um esforço colaborador feito por uma equipe comprometida, com uma visão sublime da autoridade da Bíblia e com a proposição de que a Teologia Sistemática sadia tem de encontrar raízes e substância em uma Teologia Bíblica corretamente empreendida. Os autores colaboradores são os primeiros a reconhecer o caráter experimental do que fizeram. Entretanto, estão convencidos de que tal passo, por mais preliminar que seja, é necessário para que o evangelicalismo faça uma contribuição digna de confiança à teologia contemporânea.

 ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro : CPAD, 2009.


[1] James Barr, “The Theological Case against Biblical Theology”, in: Canon, Theology, and Old
Testament Interpretation, Gene M. Tucker, David L. Petersen e Robert R. Wilson, ed. (Filadélfia:
Fortress, 1988), pp. 3-19.
[2] Gerhard Ebeling, “The Meaning of ‘Biblical Theology”’, in: Journal of Theological Studies 6
(1955): p. 210.
[3] Gerhard Hasel, Old Testament Theology: Basic Issues in the Current Debate, 3 ed. (Grand Rapids:
Eerdmans, 1982), pp. 42-43, 69-70. [Edição brasileira: Teologia do Antigo Testamento: Questões
Fundamentais no Debate Atual (Rio de Janeiro: JUERP, 1992).]
[4] Para inteirar-se de uma análise antiga, mas ainda importante, sobre este assunto da relação
entre a Teologia Bíblica e a Teologia Sistemática, veja Altdorf Address de Johann Gabler, in:
J. Sandys-Wunsch e L. Eldredge, “J. P. Gabler and the Distinction between Biblical and Dog-
matic Theology: Translation, Commentary, and Discussion of His Originality”, in: Scottish
Journal of Theology 33 (1980): pp. 133-158.
[5] O segundo, de dois volumes desta série, é Teologia do Novo Testamento, editado pela CPAD.
[6] Ainda que Hasel rejeite a possibilidade de tal centro, a análise das ideias e opções é esclare-
cedora. Veja “The Problem of the Center in the OT Theology Debate”, in: Zeitschrift fur die
ALttestamentliche Wissenschdft 86 (1974): pp. 65-82.
[7] Para inteirar-se de história mais antiga do movimento da Teologia Bíblica, veja John H. Hayes
e F. C. Prussner, Old Testament Theology: Its History and Development (Atlanta: John Knox,
1985), pp. 1-142.
[8] Para inteirar-se de história mais antiga do movimento da Teologia Bíblica, veja John H. Hayes
e F. C. Prussner, Old Testament Theology: Its History and Development (Atlanta: John Knox,
1985), pp. 1-142.
[9] Para inteirar-se do estado da Teologia Veterotestamentária Contemporânea e saber as pro
jeções quanto ao futuro, ver Gerhard Hasel, “Old Testament Theology from 1978-1987”, in:
Andrews University Seminary Studies 26 (1988): pp. 133-157; e Marvin E. Tate, “Promising
Paths toward Biblical Theology”, in: Review and Expositor 78 (1981): pp. 169-185.