quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Gleason L. Archer - A Baixa Crítica do Antigo Testamento (Conclusão)


(Parte 1) (Conclusão)

A Obra dos Soferim, o Talmude e os Massoretas

Os Sopherim representavam aquela ordem de escribas (pois é este o significado do têrmo), que surgiu primeiramente sob Esdras, o maior escriba de todos, que, na época de Jesus, formava a corporação dos responsáveis pelo texto bíblico. Sua atividade se estendeu de 400 a.C. até 200 d.C., e sua grande obra era padronizar um texto puro das Escrituras Hebraicas (tão puro como as fontes manuscritas permitiriam). Supõe-se que tinham muita coisa que ver com o hipotético comitê de revisão  e tomaram o cuidado de exigir que todas as cópias das Escrituras produzidas por eles (e formavam a sociedade oficial para a publicação das Escrituras naquela época) se conformassem ao texto padrão. Num período desconhecido (talvez no primeiro século a.C.) desenvolveram o artifício de contar todos os versículos, as palavras, as letras em cada livro do Antigo Testamento, acrescentando estas cifras no término de cada livro envolvido. Isto ajudaria qualquer assistente de escriba a fazer exame da exatidão da cópia, pois se os versículos, as palavras e as letras não perfizessem o total correto, saberia que havia um erro. Estas estatísticas dos Sopherim foram incluídas nas Massora Finalis de cada livro da Bíblia Massorética. Deve ser compreendido claramente que os Sopherim só trabalhavam com o texto consoantal; não tinham nada que ver com as pontuações vocálicas. As pontuações vocálicas nem sequer foram inventadas antes de 500 d.C.


Uma outra contribuição dos Sopherim consistia nos assimchamados “decretos dos escribas” tiqqune sopherim em número de dezoito. Muitos destes eram de caráter antiantropomórfico (cf. Cânone 7 acima) ; e.g., em Gênesis 18:22, “O SENHOR ficou em pé” é alterado para “Abraão ficou em pé”. Ou protegem a dignidade de Deus de outra maneira. Assim, no texto tradicional de 1 Samuel 3:13 os filhos de Eli amaldiçoam a Deus (,LHYM), mas o texto é alterado para dizer que amaldiçoam (ou trazem maldição, “a eles mesmos” (LHM — omitindo-se o alef e o yod). Outras das emendas parecem ter pouca razão de ser ou justificativa.[1]

Segundo a tradição judaica, o termo Sopherim deve ser aplicado com mais exatidão ao primeiro grupo de escribas (do quinto até o terceiro século a.C.), desde Esdras até Antígono de Soco.

Depois deles vieram os Zugoth (os “pares” de estudiosos textuais) do segundo e do primeiro séculos a.C. (desde José ben Joezer até Hillel). O terceiro grupo foi formado dos Tanaim (“repetidores” ou “professores”), desde a morte de Hillel até a morte de Judá Hanassi depois de 200 d.C. Os ensinamentos destes três grupos se acham no Misná, no Toseftá, nas Baraitote e no Midraxe. Mais de duzentos Tanaim se mencionam nestas obras, a maioria deles tendo o título de Rabbi ou Rabban (“nosso mestre”).

Os judeus preservaram, primeiramente através das tradições orais e depois por escrito, uma quantidade enorme de interpretações tradicionais da Torá e de outras partes do Antigo Testamento, juntamente com acréscimos folclóricos, anedotas, e homílias de vários tipos. Uma boa parte desta matéria tratava de questões legais práticas, com detalhes intrincados do ritual, e coisas afins. Esta massa de tradições tem sido conservada em duas coletâneas maiores, o Midraxe e o Talmude, mais uma menor chamada Toseftá. Passaremos a descrevê-las na ordem cronológica.

O Midraxe (“estudo textual” ou “interpretação textual” da palavra dãrash “buscar, investigar”) foi colecionado entre 100 a.C. e 300 d.C.. Era uma exposição doutrinária e homilética do Antigo Testamento. Composto com seções hebraicas e seções aramaicas, ofereceu um comentário da Lei escrita (i.é., o Pentateuco). Consistia em duas partes: o Halacá (“procedimento”), comentando a Torá apenas; e o Hagadá (“declaração” ou “explicação”) comentando o Antigo Testamento inteiro, incluindo vários provérbios, parábolas e estórias. Contêm algumas das primeiras homílias de sinagoga que existem. Por causa das suas numerosas citações do texto do Antigo Testamento, têm alguma importância para a crítica textual, pois ocasionalmente há formas um pouco diferentes das do TM.

O Toseftá (“adição” ou “suplemento”) surgiu entre 100 e 300 d.C. Consiste numa coletânea de ensinamentos e tradições dos Tanaim que se vinculavam estreitamente ao Misná. Segundo a tradição, contém aquela parte do Misná original que o Rabino Aquiba (ca. de 100 d.C.) omitiu da sua edição abreviada do Misná (foi abreviada para facilitar a memorização).

O Talmude (“instrução”, de limmêd “ensinar”), desenvolveuse entre 100 e 500 d.C.. Consiste em duas divisões principais. O Misná (“repetição” ou “ensinamento”) foi completado ca. de 200 d.C. Composto em hebraico, era uma seleção harmonizada de todas as leis orais (as quais, segundo se supunha, tinham sido comunicadas verbalmente por Moisés aos setenta anciãos), tradições e explicações das Escrituras. Divide-se em seis ordens (sedãrim): Agricultura, Festas, Mulheres, Leis Civis e Penais, Sacrifícios ou Coisas Sagradas, e Coisas Impuras. Por sua vez, são divididas em sessenta e três Tratados (cujos títulos se registram em ISBE 2905). Os sábios que contribuíram para o Misná eram chamados Tanaim (a última ordem dos Sopherim, conforme se mencionou acima). A segunda divisão é o Guemará (“matéria aprendida” de gemar “completar”, “galgar” ou “aprender”). Consiste num suplemento a ser acrescentado a cada um dos Tratados, na forma de comentários mais desenvolvidos sobre o Misná. Seu nome aramaico indica que foi composto em aramaico. Surgiu em duas formas distintas, o Guemará da Palestina (ca. de 200 d.C.) e o Guemará da Babilônia, muito maior (ca. de 500 d.C.). Os sábios que contribuíram ao Guemará foram chamados Amoraim (“faladores”, “os que explicam”, do verbo ,ãmar “falar”).

Os Massoretas eram os estudiosos que deram ao texto do Antigo Testamento sua forma final, entre 500 e 950 d.C. Receberam este nome porque conservaram por escrito a tradição oral (ou “massora”) no que diz respeito a vocalização e acentuação certa do texto, e o número de ocorrências de palavras raras e ortografias pouco comuns. Receberam o texto consoantal sem vocalização, da parte dos Sopherim, e intercalaram os pontos vocálicos que deram a cada palavra sua pronúncia e forma gramatical exatas. Até se dedicaram a um pouco de crítica textual moderada. Toda vez que suspeitavam que o texto consonantal estava errôneo, corrigiamno de maneira engenhosa. Deixaram as consoantes propriamente ditas intocadas, como as tinham recebido dos Sopherim. Mas intercalavam os pontos vocálicos que pertenciam à palavra nova que queriam introduzir no lugar da antiga, e depois, as consoantes desta palavra nova foram colocadas em letras pequeníssimas como anotação marginal. Por exemplo, em Isaías 28:15 ocorre a expressão KY-’BR. Com a vocalização normal, isto queria dizer KiY -’ãBãR (“quanto passou”), e esta seria a leitura do kethib (um termo aramaico que significa “a coisa escrita”, i.e., a palavra indicada pelas consoantes). Mas os Massoretas sentiam que o tempo do futuro deve seguir KiY (que quer dizer “quando”) neste contexto, e por este motivo colocaram debaixo de ’BR as vogais apropriadas para a palavra Ya’aBõR (“passará”), e depois, na margem, escreveram Y’BR em letras pequenas, que indica esta variação qerê (termo aramaico que significa “leia!”). (A forma abreviada da palavra kethib é K, e de qerê é Q).

Talvez o exemplo mais freqüente e famoso duma leitura qerê é o nome de Deus usado em conexão com a Aliança, “Jeová”. Este nome se escreve com as quatro consoantes YHWH, que remontam a uma pronúncia original que seria YaHWeH. A maneira certa e original de se transliterar este nome divino seria, portanto, Yahweh (ou Jahweh, como os alemães escrevem). Mas já na época de Neemias, os judeus começavam a sentir escrúpulos ao pronunciar o nome divino, por medo de trazer sobre si mesmos as possíveis consequências penais vinculadas ao terceiro mandamento. Tornou-se, pois, prática aceitável a substituição do título “Senhor” (׳aDõNãY) pelo nome Yahweh cada vez que o nome fosse lido a alta voz. Para indicar que esta substituição se devia fazer, os Massoretas intercalavam as vogais de ’aDõNãY sob as consoantes de JaHWeH, daí surgiu a palavra JeHoWaH ou “Jeová”. Sem compreender este qerê, os estudiosos europeus da época da Renascença (quando o hebraico passou a ser avidamente estudado na Europa) supunham que a pronúncia certa da palavra era “Jehovah” — e assim o nome ficou (com variações da ortografia local) nas línguas europeias. Foi realmente Yahweh (que seria a leitura kethib) mas o erro foi tão sancionado pela tradição que, em geral, cristãos devotos relutam em aceitar qualquer volta à pronúncia que era historicamente correta.

Além da intercalação dos pontos vocálicos, e a indicação das leituras qerê, os Massoretas se ocupavam também com marcas de acentuação. No início, as marcas de acentuação se usavam pouco, e eram singelas, mas se tornaram mais complicadas em épocas posteriores, especialmente enquanto o sistema de acentuação se aperfeiçoava nas mãos da Escola Tiberiana de Massoretas (Tiberias é a cidade que se menciona nos Evangelhos, como sendo situada à beira do Mar da Galiléia). O mais célebre dos Massoretas era Moisés ben Asher (com seu filho erudito, Arão) e ben Naftali. O texto padrão da Bíblia hebraica se baseia num texto de ben Asher (o Códice de Leningrado do Antigo Testamento).

A Massora Marginal se colocava nas margens laterais dos manuscritos massoréticos. Incluía não apenas as consoantes das leituras qerê (conforme a descrição acima), mas também estatísticas descrevendo quantas vezes certas palavras e frases que apareciam naquela linha ocorriam noutros trechos das Sagradas Escrituras.

Noutras ocasiões, indicavam quantas vezes ocorria certa combinação de palavras, ou certa ortografia. A anotação mais frequente destas era a letra L (lamed) com um ponto em cima, indicando lõ, (“não”), com o significado que esta palavra ou ortografia não existe em nenhuma outra parte das Escrituras Hebraicas. (Isto, obviamente, servia como advertência para futuros copistas que qualquer outra ocorrência desta palavra ou ortografia singular teria que ser rejeitada como erro).

Na margem inferior dos mss. massoréticos havia a Massora Maior, contendo mais informações deste tipo, freqüentemente oferecendo artifícios mnemónicos pelos quais todas as ocorrências de palavras ou frases raras pudessem ser decoradas. Por exemplo, a nota massorética de Gênesis 1:1 diz acerca da primeira expressão (“no começo” — berê’shit): “O sinal é: Deus estabelece os retos” (elõhim yãkim hasedek). Isto indica que a primeira ocorrência de berê’shit é seguida pela palavra “Deus”; a segunda ocorrência de berê’shit (Jr 26:1) é seguida pela palavra Jeoaquim, o nome do rei (“Jeoaquim” ou Yehõ-yãkim significa “Jeová estabelece”); a terceira ocorrência de berê’shit (Jr 28:1) é seguida pelo nome de Zedequias (“Zedequias” ou Tsedek-Yah significa “Justo é Jeová”).

Não é necessário dizer que a maior parte destas informações é de interesse limitadíssimo para a maior parte dos estudiosos modernos, e portanto, estas anotações massoréticas não se estudam extensivamente em círculos não-judaicos.

A Massora Final contém, na maior parte, estatísticas quanto ao número de versículos, letras e assim por diante, que ocorre no livro, e indica também qual a letra central e qual a palavra central do livro.
Duas outras especificidades da recensão massorética merecem ser mencionadas, por causa da sua relação com a crítica textual.

Há quinze palavras no texto hebraico do Antigo Testamento que são marcadas com pingos, e a tradição judaica diz que eram palavras que, segundo o julgamento dos estudiosos da assim-chamada Grande Sinagoga (fundada por Esdras, segundo parece), devem ser omitidas, ou pelo menos marcadas' como sendo duvidosas. Por exemplo, em Números 3:39, a palavra “e Arão” tem estes pingos, sendo que Arão pessoalmente não era uma pessoa incluída no censo. O outro artifício era aquele das letras suspensas, i.é., letras colocadas acima da linha. Estas letras surgiram em quatro passagens, nas quais os Massoretas (seguindo as decisões dos Sopherim), lançaram suspeitas quanto à autenticidade das letras assim deslocadas. Assim, em Juizes 18:30, as palavras originais devem ter sido:“Jonatã, filho de Gérson, filho de Moisés” (hebraico: MõSHeH); mas para proteger a reputação de Moisés, um N (nun) adicional foi acrescentado, (um pouco acima da linha) para mudar o nome de “Moisés” para “Manassé” (MeNaSHeH).
Concluindo, devemos conceder aos Massoretas o mais alto louvor por seus cuidados meticulosos em conservar assiduamente o texto consoantal dos Sopherim, que tinha sido passado para eles.

Juntamente com os Sopherim, dedicaram a mais diligente atenção à conservação exata das Escrituras Hebraicas, a um ponto nunca igualado na dedicação dada a qualquer literatura, antiga ou moderna, secular ou religiosa, em toda a história da civilização humana. Foram tão conscienciosos na sua mordomia do texto sagrado, que nem se aventuravam a fazer as correções as mais óbvias, no que dizia respeito às consoantes, mas deixaram seu Vorlage exatamente como tinha sido entregue a eles. Por causa da sua fidelidade, temos hoje uma forma do texto hebraico que em todos os essenciais é a duplicata exata da recensão considerada autoritativa nos dias de Cristo e dos Apóstolos, senão um século antes. E esta recensão, por sua vez, ao julgar pela evidência de Cunrã, remonta a uma revisão autoritativa do texto do Antigo Testamento que foi composto na base dos manuscritos mais exatos que então existiam dos séculos anteriores, para confrontação. Estes nos levam bem perto dos autógrafos originais, oferecendo-nos um relatório autêntico das revelações de Deus. Conforme W. F. Albright tem dito (OTMS 25 de Rowley): “Podemos ter absoluta certeza que o texto consoantal da Bíblia Hebraica, mesmo se não é infalível, tem sido preservado com uma exatidão talvez sem paralelo entre quaisquer outras literaturas do Oriente Próximo”. [2]

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.

[1] Estas são alistadas na tradução de C. D. Ginsburg da introdução de Jacó ben Hayyim à Bíblia Bomberg. Cf. Stanley Rypins, The Book of Thirty Centuries (1951), p. 37.
[2] Citado por H. H. Rowley, OTMS, p. 25.

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