quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Gleason L. Archer - A Baixa Crítica do Antigo Testamento (Parte 1)


(Parte 1) (Conclusão)

Em contradistinção com a alta crítica, que trata de questões de autoria e da integridade do texto dos livros bíblicos, a ciência da baixa crítica (ou crítica textual) se preocupa na tarefa de restaurar o texto original na base das cópias imperfeitas que chegaram até nós. Procura selecionar as evidências oferecidas pelas variações, ou leituras diferentes, quando há uma falta de acordo entre os manuscritos sobreviventes, e pela aplicação dum método científico chegar àquilo que era mais provavelmente a expressão exata empregada pelo autor original.


Tipos de Erros Manuscritos

É um fato bem conhecido que certos tipos característicos de erro tinham a tendência de acompanhar a transcrição de qualquer documento escrito. Às vezes, o copista substituía uma palavra com som semelhante, pela palavra que constava no original (“seu” no lugar de “céu”, “vício” no lugar de “viço”); talvez inadvertidamente escrevia a mesma palavra duas vezes (“depois depois”); ou trocava a ordem das letras (“cesno” no lugar de “censo”). O tipo de erro que se poderia citar neste assunto abrange numerosos exemplos. Usualmente podem ser reconhecidos pelo próprio contexto, e o leitor inteligente facilmente percebe o que o copista queria escrever.


Mas há certos tipos de descuidos dos escribas que são passíveis de uma das várias explicações, e torna-se necessário algum método ou sistema padronizado para se chegar àquela correção que restaura a palavra ou expressão do original que mais provavelmente seria exata. Na transmissão do texto sagrado das Escrituras, descobrimos que os mesmos tipos de erros de cópia que aparecem nas obras seculares, se introduziram nas cópias dos livros bíblicos.

Conforme já foi sugerido, seria necessário nada menos do que um milagre para possibilitar uma cópia infalível dum original infalível.

Deus não determinou operar milagres pelos quais as Escrituras possam ter sido transmitidas de cópia em cópia entre a época da composição original e a invenção da máquina de impressão. Não há nenhum motivo específico pelo qual deveria ter feito isto. Teremos, portanto, que tratar dos problemas apresentados pelos erros de transmissão, enfrentando-os da maneira mais objetiva e sistemática possível. Esta, pois, é a tarefa da baixa crítica bíblica.

Em primeiro lugar, é necessário analisar os vários tipos de erros que os copistas tendiam a cometer, e observar os contextos nos quais os erros mais provavelmente surgiam. Este preparo é necessário antes de se proceder à correção. Algumas das classificações mais comuns dos erros se alistam a seguir, e a maior parte delas são exemplificadas com citações do Primeiro Rolo de Cunrã de Isaías (lQIsa).

1.  Haplografia — escrever uma letra, sílaba ou palavra só uma vez, quando deveria ter sido escrita mais do que uma vez. Por exemplo, Isaías 26:3: BeKa BãTeHuW (ou BiTeHuW), que quer dizer “em ti confiaram” (ou: “em ti; confiai”), no lugar de BeKã BãTuWaH BiTeHuW (“confiando em ti; confiai”). Sendo que isto só foi escrito em consoantes (que foi o caso de todo documento hebraico antes de 800 d.C.), tratar-se-ia de BK BTHW no Rolo e BK BTWH BTWH do Texto Massorético. Uma haplografia talvez entrou no texto (Massorético) de Juizes 20:13, havendo BNYMN (“Benjamim”) no lugar de BNY BNYMN (“os filhos de Benjamim”). Esta leitura foi conservada na LXX, e indica as palavras originais (conforme podemos comprovar pelo verbo no plural que acompanha este substantivo, pois um simples BNYMN exigiria um verbo no singular). A omissão acidental duma letra também se chama haplografia, mesmo quando não se tratava duma reduplicação na forma original. Por exemplo, o Rolo de Isaías diz BHZQT YD (“com força de mão”) em Isaías 8:11, no lugar de BHZQT HYD (“com a força da mão”) do TM.

2.  Ditografia — escrever duas vezes aquilo que deveria ter sido escrito só uma vez. Por exemplo, em Isaías 30:30 HSMY’ HSMY’ (“fazer ouvir fazer ouvir”) no lugar do simples HSMY’ do TM. Semelhantemente, em Ezequiel 48:16, o TM diz HSM HSM M’WT (“cinco quinhentos”) no lugar de HSM M’WT (quinhentos).

3. Metatese — trocar a posição certa das letras ou das palavras. Por exemplo, Isaías 32:19 HY’R (“a floresta”) no lugar de H’YR (“a cidade”) que consta no TM, e é a única palavra que faz sentido no contexto. Do mesmo modo, em Ezequiel 42:16 o texto consoantal do TM tem HMS ’MWT QNYM (“Cinco cúbicos canas”) no lugar da forma óbvia HMS M’WT QNYM (“quinhentos canas”) —              a correção certa já tinha sido indicada pelos massoretas no seu aparato (vd. o artigo Massoretas, pág. 65).

4. Fusão — formar uma palavra de duas separadas. Wiirthwein cita Amós 6:12 onde BBQRYM (“com bois”) provavelmente indique o original BBQR YM (“com bois o mar” — i.é. “Poderão lavrar o mar com bois?”). Rypins cita Isaías 3:15 MLKM (segundo o TM consoantal), que significaria “seu rei”; mas o que o contexto exige (e que é a emenda dos massoretas) é MH LKM (“o que há convosco?”). Neste assunto, nota-se que Jerônimo, seguindo a interpretação da LXX, entendeu que o termo L’Z‘ZL (“para Azazel”) em Levítico 16:8 era um caso de fusão de L’Z ׳ZL (“para ser bode de mandar embora” — que certamente faz excelente sentido no contexto, e abole um nome próprio duvidoso, completamente desconhecido em outros contextos).

5. Divisão — dividir uma palavra única em duas. Por exemplo, em Isaías 2:20, o TM que diz LHPR PRWT (“para uma cova ratos musaranhos”), conforme mostra a LXX (que simplesmente translitera a palavra por pharpharõth, sem procurar traduzi-la). Rypins cita o TM de Ezequiel 7:4 KY DRKYK (“porque teus caminhos”), argumentando que originalmente deve ter sido KDRKYK (“segundo teus caminhos”). Esta última emenda, porém, não conta com muito apoio.

6.  Homofonia — substituir um homônimo por outro. Por exemplo, frequentemente achamos LW (“para ele”) substituído por L׳ (“não”). Assim, em Isaías 9:3 tanto o TM e o Rolo têm HRBYT HGWY L’ HGDLT HSMHH (“Multiplicaste o povo; a alegria não aumentaste”), quando um sentido muito melhor seria obtido da leitura HRBYT HGWY LW HGDLT HSMHH (“Multiplicaste o povo; a alegria lhe aumentaste”). A confusão surgiu do fato de tanto L’ como LW ter sido pronunciado lõ.

7.  Leitura errônea de letras de aparência semelhante. Desde 600 a.C., D (daleth) e R (resh) eram tão semelhantes que frequentemente havia confusão entre elas, especialmente em nomes próprios. Assim, o Dodanim de Gênesis 10:4, aparece como “Rodanim” em 1 Crônicas 1:7 — que muitos acham preferível, já que se refere provavelmente aos rodianos. Do mesmo modo, W (vav) e Y (yod) se escreviam de maneira bem semelhante desde 150 a.C., e mesmo no Rolo de Isaías é muitas vezes impossível distinguir entre estas letras. Onde TM registra WD’W (“e sabei”) o Rolo tem Y D’W (“Que saibam”), em Isaías 33:13. Um exemplo interessante ocorre em Atos 7:43, que cita a grafia da LXX Raiphan como sendo o nome do ídolo, enquanto o trecho original do qual a citação foi tirada, Amós 5:26, escreve Chiun no TM. Como tal confusão poderia ter surgido? Só em consoantes, Chiun aparece como KYWN; Raiphan seria RYPN. No quinto século a.C., conforme testificam os Papiros de Elefantina, a forma de K era muito semelhante a R, e W era muito semelhante a P. Naquela época, pois, uma cópia de Amós registraria um nome que poderia ser lido como KYWN ou RYPN. (Do acadiano Kaiwanu, o nome da divindade que presidiu sobre o planeta Saturno, entendemos que o TM conservou a grafia mais original neste caso). Quanto a Estêvão, cujo discurso se registra em Atos cap. 7, o versículo que citou foi registrado por Lucas segundo a Versão LXX, a única forma do Antigo Testamento acessível aos seus leitores de fala grega.

8.  Homeoteleuto — a omissão duma passagem intermediária porque o olho do copista pulou duma terminação para outra que se assemelha (em Grego, homoeoteleuton quer dizer “terminação semelhante”). Um exemplo se acha em Isaías 4:5 (todas as palavras contidas entre os parênteses foram omtidas no texto do Rolo): BR’ YHWH . . ’NN (YWMM W’SN WNGH ’ ,S LHBH LYLH KY ’L KL KBWD HPH WSKH THYH LSL) YWMM MHRB. Aqui pode ser observado que o olho do escriba pulou da primeira ocorrência de YWMM (“de dia”), para a segunda, com a perda de treze palavras da passagem intermediária. Em 1 Samuel 14:41 também, a LXX tem duas vezes a expressão “Ó Senhor Deus de Israel”, com dezenove palavras entre elas. No TM, faltam todas estas dezenove palavras, e surge só uma vez “ó Senhor Deus de Israel”. A única conclusão justa seria que o TM tenha omitido estas palavras por homeoteleuto, e não que a LXX teria interpolado estas palavras dalguma fonte desconhecida. (Cf. Bíblia Hebraica, Kittel, 12a edição, p. 426).

9.  A omissão acidental de palavras — em situações nas quais não se trata de repetições. Um exemplo célebre é 1 Samuel 13:1, onde o TM registra: “Saul tinha      anos quando começou a reinar”. Infelizmente, a crítica textual não nos ajuda aqui, pois tanto a LXX como as outras versões não registram nenhum número aqui. Aparentemente, o número certo foi perdido numa época tão recuada na história da transmissão deste trecho, que era irrecuperável antes do terceiro século a.C.

10. Leitura errônea de letras vocálicas como sendo consoantes. As letras hebraicas ’ (alef), H (he), W (vav) e Y (yod) só eram consoantes verdadeiras nos primeiros estágios da escrita hebraica. Paulatinamente vieram a ser usadas para indicar a presença de certas vogais, e quando assim empregadas, as letras ’, H, W ou Y não se deviam pronunciar, cada uma sendo apenas uma mater lectionis (“mãe de leitura”, i.é., uma letra vocálica; o plural do termo é matres lectionis — “mães de leitura”). No período dos Macabeus, expandiu-se consideravelmente o uso destas letras vocálicas, provavelmente porque a pronúncia correta do hebraico se tornava incerta para pessoas que empregavam o aramaico para todas as finalidades comuns. A maioria dos manuscritos Cunrã mais antigos evidencia esta proliferação de matres lectionis. No primeiro século a.C., os Soferim (vd. a seção de Soferim neste capítulo) voltaram à ortografia menos sobrecarregada do período mais antigo, e restringiram, regra geral, as letras vocálicas aos casos de vogais longas por natureza (não as usando para casos de vogais que eram longas por causa da fonética, e de vogais breves, que tinha sido a prática freqüente dos Rolos do segundo século a.C.). Mas ocasionalmente, algumas das matres lectionis supérfluas foram conservadas quando, sendo interpretadas como consoantes verdadeiras, causariam uma diferença substancial no sentido. Uma instância que se aplica ao caso, segundo Würthwein, é Amós 2:7 onde HS’PYM (“os que pisoteiam”) do TM, tomou o lugar da forma original HSPYM (“os que ferem”).

Os Cânones da Crítica Textual

Certos critérios padronizados foram estabelecidos pelos críticos textuais para ajudar a se chegar a uma escolha inteligente entre duas ou mais variações competitivas. Frequentemente acontece que duas ou mais destas regras (ou cânones) se aplicam juntamente a uma certa situação, inclinando as preferências em direções opostas. Assim, de duas leituras uma pode se conformar mais exatamente àquilo que se sabe do estilo e da dicção do autor, enquanto a outra pode ser a mais difícil (Cânone N.° 6 contra Cânone N.° 2). Pode ser que a leitura mais antiga (Cânone N.°l) também seja a leitura mais extensa (Cânone 3). Em tais casos, a regra prática é dar prioridade aos Cânones pela ordem na qual aparecem alistados abaixo. Mas este método deve ser aplicado com grande discriminação e com devida discriminação de todas as circunstâncias especiais que possam enfraquecer o caso da variação específica que o Cânone anterior tenha favorecido. Por exemplo, uma aplicação rígida do Cânone 1 automaticamente daria preferência ao Rolo do Mar Morto de Isaías, contra o TM em cada caso de discórdia. Mas um estudo cuidadoso do Rolo inteiro indica que o copista obedecia a padrões de fidelidade de cópia muito abaixo daqueles da recensão oficial na qual o próprio TM foi baseado. Semelhantemente, uma cópia muito antiga pode ter sido derivada dum exemplar anterior que tenha sofrido rasuras, o efeito de traças etc.. Estas coisas seriam percebidas pelas perdas ocasionais de certas palavras, ou por conjeturas que são marcantemente diferentes de outras tradições textuais. Respeitando-se devidamente estes fatores especiais de complicação, os cânones alistados abaixo servirão como guia digno da confiança do crítico textual.

Cânone 1: A leitura mais antiga deve ser preferida. Conforme acaba de ser indicado, o manuscrito mais antigo não é necessariamente aquele que foi melhor copiado; este cânone se aplica quando o manuscrito mais antigo está em condições tão merecedoras de confiança quanto o mais recente, e igualmente livre de idiosincrasias e peculiaridades.[1]

Cânone 2: A leitura mais difícil (lectio defficilior) se deve preferir. Isto porque o escriba tenderia mais a simplificar ou esclarecer as palavras do original, do que tomá-las mais difíceis para o leitor entender. Se deixou uma palavra rara, uma expressão difícil ou uma forma gramatical irregular, deve ter sido por causa de ter achado isto nas suas fontes originais. Este Cânone não se aplica, é claro, a diferenças que surgiram de ignorância, de inadvertência, da parte do próprio copista. Nem se aplicaria se a leitura difícil não faz sentido algum, ou se contradiz completamente com o sentido do autor, conforme claramente expressa noutras passagens.

Cânone 3: A leitura mais breve deve ser preferida. Isto porque os copistas tinham mais tendências a acrescentar novas matérias do que omitir qualquer coisa do texto sagrado que tinham na sua fonte. Nos casos de haplografia ou de homeoteleuto, este Cânone não se aplica.

Cânone 4: A leitura que melhor explica as variações deve ser preferida. Por exemplo, Salmo 22:16 (TM 22:17) diz K’RY YDY WRGLY, com a pontuação vocálipa dos Massoretas (|Cã׳aRiY), significa “como o leão minhas mãos e meus pés” (Versão Autorizada Inglesa: “traspassaram minhas mãos e meus pés”). A coluna hebraica na Poliglota Complutensiana tem K’RW, vocalizado Ka’RuW, que quer dizer “traspassaram”. Qual leitura explica melhor as variações (neste caso, a leitura das versões)? Provavelmente, a segunda leitura, pois a LXX, a Pesita, a Vulgata, e o Saltério Hebraico de Jerônimo interpretam: “atravessaram” ou “escavaram”. Símaco traduziu: “procuraram atar” (que não favorece claramente nem K’RY nem K’RW).

Cânone 5: A leitura com o maior apoio geográfico deve ser preferida. Assim, uma leitura favorecida pela LXX, a ítala e a Cóptica não será tão bem atestada como quando a Pesita e a Samaritana concordam. Isto porque as versões ítala e Cóptica são traduções da LXX e pertencem à norma Alexandrina, enquanto a Pesita e a Samaritana são versões de tradições textuais totalmente diferentes. Semelhantemente, a probabilidade que uma variação atestada por tradições tão diversas como são a LXX e a Samaritana esteja mais perto do original do que o TM, é grande. Por exemplo, em Números 22:35, tanto a Samaritana e a LXX concordam com a forma TSMO LDBR (“tomarás cuidado em dizer”), enquanto o TM diz simplesmente TDBR (“falarás”). É claro que o Cânone 3 parecerá favorável ao TM aqui, mas a presença da mesma locução em tradições tão separadas entre si dificilmente se explicaria como sendo uma interpolação posterior que por coincidência era igual em ambos os casos.

Cânone 6: A leitura que mais se conforma ao estilo e à dicção do autor deve ser preferida. Naturalmente, esta é apenas uma declaração de probabilidade. Mas quando duas variações se apresentam, ambas igualmente possíveis no contexto, mas uma delas mais conforme à maneira do autor expressar aquele tipo de pensamento, e a outra soando diferentemente do estilo que usa noutros trechos, a primeira deve ser preferida. Torna-se necessário acrescentar que os críticos da escola de recortar-e-picar empregaram este Cânone de maneira totalmente inadmissível, impondo sobre passagens que não lhes convêm, julgamentos arbitrários quanto aquilo que o autor antigo poderia ou não poderia ter escrito.

Cânone 7: A leitura que não reflete nenhuma tendenciosidade doutrinária deve ser preferida. Por exemplo, sabemos pelos Targuns e pela LXX que o pensamento judaico posterior se esquivava de quaisquer representações de Deus em semelhança humana, ou de locuções que implicariam que Deus teria corpo, membros ou paixões. Uma variação que tende a minimizar este fator é chamada “antiantropomorfismo”. Exemplificando, em Isaías 1:12 temos no texto consoantal (o kethib) a palavra LR’WT, que normalmente seria vocalizada LiRe’oWT (“ver”). Mas isto implicaria na possibilidade de o homem contemplar a face de Deus, e por este motivo (presume-se) os Massoretas vocalizaram a palavra LéRã’oWT (“ser visto”, “aparecer”), permitindo assim a interpretação “aparecer perante mim”. Se Isaías realmente tivesse desejado dizer “aparecer”, normalmente teria dado a seguinte redação à palavra: LHR’WT. Ofereceríamos a melhor explicação aqui ao considerar a vocalização massorética como sendo um antiantropomorfismo, preferindo então o kethib.

Resumo de Métodos Textuais

Além das regras gerais que foram dadas acima, será proveitoso resumir uma metodologia excelente proposta por Würthwein.[2]

1. Quando o TM e outras testemunhas oferecem o mesmo texto, formando uma leitura inteligível e sensata, é inadmissível rejeitar esta leitura e apelar para as conjeturas (o que muitíssimos críticos têm feito).

2. Quando há um desvio genuíno do TM da parte de outras testemunhas (e que o desvio não é simplesmente um caso da interpretação do tradutor) e ambas as leituras parecem ser igualmente sensatas, então a preferência deve normalmente ser dada ao TM (a não ser que um dos Cânones intervenha para dar uma clara preferência à outra leitura).

3.  Quando o TM é duvidoso ou impossível por causa de fatores de linguagem ou do sentido no contexto, e quando ao mesmo tempo outras testemunhas oferecem uma leitura satisfatória, então estas últimas devem receber consideração favorável. Isto é especialmente o caso quando se pode demonstrar como o TM pode ter sido corrompido por algum erro de cópia de tipo bem conhecido. Mas se há motivo para crer que o tradutor antigo produziu uma leitura clara apenas por não poder perceber o significado do texto hebraico, adivinhando o sentido e suprindo aquilo que seria plausível no contexto, então temos um fato obscuro que não pode ser esclarecido a não ser por conjetura. O texto simplesmente tem que ser etiquetado “obscuro” ou “corrupto”.

4. Quando nem o TM nem as outras testemunhas textuais oferecer um texto provável ou possível, é legítimo o apelo à conjetura. Mas tal conjetura deve procurar restaurar uma leitura mais aproximada possível do texto corrupto, levando em devida consideração as bem-conhecidas causas da corrupção textual (vd. “Tipos de Erros Manuscritos” acima).[3]

5.  Em todos os trabalhos de crítica textual, deve se levar devidamente em conta a psicologia do próprio escriba. Sempre devemos postular conosco mesmos a pergunta: como é que este erro — se há um erro — poderia ter surgido da pena deste escriba? Está de acordo com seu tipo ou hábito mental conforme se observa em outros trechos da sua obra?

Por meio desta fórmula cuidadosa, Würthwein procura estabelecer um método de objetividade e procedimento científico que eliminaria muitas emendas precipitadas e mal consideradas que têm passado por crítica textual de boa fé.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.

[1] Nesta conexão, nota-se a excelente declaração de Burrows (MLDSS 162): “Não deveria ser necessário dizer, mas talvez seja, que uma leitura antiga não é necessariamente boa. Os textos de Cunrã são demonstravelmente inferiores aos textos tradicionais. Falando a mesma coisa em outras palavras, paradoxais porém verdadeiras, uma leitura pré-massorética não é necessariamente mais antiga do que uma leitura massorética. O texto proto-massorético existia em Cunrã juntamente com textos divergentes; de modo geral, é justo dizer que era o tronco do qual os outros brotaram como renovos. A maior contribuição dos Rolos do Mar Morto à crítica textual é a demonstração deste fato”.
[2] Emst Würthwein, Text of the Old Testament (1957), pâgs. 80, 81.
[3] Neste ponto seria de interesse mencionar uma excelente observação, citada com aprovação por Bentzen (“Introdução ao Antigo Testamento”, 1952, I, p. llln): “Sempre corremos o risco de introduzir novos erros através das conjeturas.... as conjeturas são em geral inúteis ao historiador, porque não é justificável inferir quaisquer conclusões de conjeturas, sem pelo menos notar-se que a conclusão é mais uma conjetura!” Concorda-se com esta idéia, mas é pena que o próprio Bentzen não percebeu como este princípio se aplica à alta crítica racionalista. Neste caso também, uma conclusão baseada em conjecturas (e nada existe na teoria deuteronômica que não se baseie em conjecturas) também é conjectura — e não, citando uma frase surrada, um dos “assegurados resultados da pesquisa moderna”.

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