5 de julho de 2012

Uma visão equivocada - O uso do Antigo Testamento na pregação contemporânea (Parte 1)


(Parte 1) (Parte 2)

Por Isaltino Gomes Coelho Filho

INTRODUÇÃO

Quando fui professor de Homilética na Faculdade Teológica Batista de S. Paulo, nos anos setentas, pedi que os alunos da disciplina fizessem um levantamento da proporção de mensagens pregadas no Antigo e no Novo Testamentos. Fogem-me os dados, porque muito tempo já decorreu e porque nas mudanças muito papel se perde, mas recordo-me que a proporção estava em quatro sermões no Novo Testamento para cada sermão no Antigo Testamento.
Deve ter havido uma mudança nesta situação. Há hoje uma pregação maciça no Antigo Testamento. Isto não é ruim em si mesmo. O ruim é que se vê muita pregação no Novo Testamento com este sendo
analisado pelo Antigo. Está havendo uma supremacia do Antigo sobre o Novo não apenas em quantidade, mas como critério de interpretação. O Antigo tem interpretado o Novo e seus pressupostos teológicos têm sido empurrados para a Igreja, a comunidade do Novo. A Igreja precisa conhecer o Antigo Testamento, mas não precisa obedecê-lo. E, por favor, não me acusem de antinomismo. Na medida em que a palestra caminhar entenderão o que quero dizer, se já não entenderam logo. São inteligentes e não quererão fazer “pegadinhas”. Isto é coisa de meninos.
Observou um estudioso que os diversos grupos evangélicos têm uma utilização diferente, um do outro, das Escrituras para a sua pregação. Os tradicionais têm, costumeiramente, se centrado nas epístolas. O movimento pentecostal se centra mais em Atos e episódios e declarações dos evangelhos, mas o neo e o baixo-pentecostalismo têm calcado sua prática no Antigo Testamento. São estes grupos que mais têm se valido da pregação no Antigo Testamento.
 Não é difícil entender a razão destas diferenças.  Os tradicionais desejam a sistematização do evangelho.  Os pentecostais desejam enfatizar sinais e prodígios. E neo e baixo-pentecostais se refugiam no Antigo Testamento porque este lhes é mais útil, tendo eles uma visão singular e equivocada das Escrituras. Sobre isto falarei um pouco mais à frente. Mas há uma outra razão que menciono agora. É que nestas duas correntes, a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos é diluída e cede espaço para a visão sacerdotal do pastor. Ele se torna um sacerdote, com poderes especiais que os demais não têm. Só ele pode quebrar maldições, só ele tem poder de curar ou a capacidade de interpretar a Bíblia. Deus só age por meio dele e no espaço físico que ele comanda. O Novo Testamento, com a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos, democratiza a liderança e os dons. O Antigo Testamento monopoliza os dons e o Espírito, deixando-os com uma casta. Os pastores do neo e do baixo-pentecostalismo se refugiam no Antigo Testamento. Isto explica um pouco da ênfase veterotestamentária nas pregações, mas não esclarece tudo.
1.      A VISÃO EQUIVOCADA DAS ESCRITURAS

                A questão fundamental é a visão que se tem da Bíblia. Todos os grupos evangélicos a dão como Palavra de Deus. Nenhum deles a nega. Até mesmo a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que segundo o ex-adventista Ubaldo Torres, desde uma assembléia realizada em Dallas, Texas, em abril de 1980, passou a considerar Helen White como “inspirada no mesmo sentido em que o são os profetas da Bíblia” e que “seus escritos são uma continuação e fonte autorizada de verdade” [1], declara que a Bíblia é a Palavra de Deus. Mas tendo dito isto, muitos se afastam de uma hermenêutica sadia e começam a interpretá-la à luz de escritos institucionais ou de opiniões de seus fundadores ou, ainda, de seus comitês doutrinários. A questão não é a Bíblia, mas a forma como se vê a Bíblia. Não é o discurso sobre, mas o uso dela.
            Vou me referir um pouco à Igreja Universal do Reino de Deus, que é o mais expressivo segmento do baixo-pentecostalismo. Muito de suas promoções religiosas se fundamentam no Antigo Testamento e isto merece reflexão. Mas precisamos ver como tem ela interpretado a Bíblia.  Seu método de interpretação das Escrituras não parte do pressuposto de que ela é normativa, e sim que ela é indicativa. Cito, a propósito, um documento da Comissão Permanente de Doutrina da Igreja Presbiteriana do Brasil sobre este ponto:
            O método de interpretação das Escrituras utilizado por bispos e pastores da IURD consiste em geral numa atualização ou transposição das experiências religiosas de personagens bíblicos para os dias atuais. Isto ocorre em virtude do que entendem ser a Bíblia. Macedo não parece ver a Bíblia como a revelação proposicional de Deus, mas como um livro de experiências religiosas, que começa com Israel no Antigo Testamento, e termina com a humanidade em Apocalipse, experiências estas que podem ser repetidas nos mesmos moldes, nos dias atuais.[2]
            Um pesquisador na área de Sociologia da Religião notou a mesma coisa. Diz ele que para tal grupo
A Bíblia é muito mais um depósito de símbolos, alegorias e cenas dramáticas, ou até um amuleto para exorcizar demônios e curar enfermos do que “a palavra de Deus”, encarada por outros grupos protestantes como “regra única de fé e prática”, e para os fundamentalistas, “a regra infalível”. [3]
                 Desta maneira, a preocupação da IURD não é com o ensino da Bíblia para ministrar verdades bíblicas, mas com a re-encenação dos episódios bíblicos para subsidiar sua pregação. Os episódios bíblicos são transpostos de uma cultura para outra, sem a preocupação de se entender o contexto revelacional em que sucederam. Com seu texto submetido a altas doses de alegorização, a Bíblia deixa de ser o livro que expressa a vontade de Deus aos homens e passa a ser o elemento subsidiador das práticas do grupo. E nenhuma porção se presta melhor a isto do que o Antigo Testamento.
            O grande problema da alegoria é que com elas fazemos a Bíblia dizer o que nós queremos que ela diga. Lutero se opôs veementemente à alegorização das Escrituras, particularmente o Antigo Testamento. Os alegoristas até sua época viam sentidos ocultos no texto bíblico e assim o interpretavam. Para eles, não era o que o texto dizia, mas o que se julgava ver por trás do texto. Cada versículo podia ter até quatro sentidos, o físico, o moral, o espiritual e o místico. Mas se há algo que devemos à Reforma é sua insistência na validade da Bíblia como regra de fé. As Escrituras não podem dizer o que queremos que digam, nem ser usadas para dizermos o que queremos. Há um sentido histórico-gramatical no texto e ele deve ser buscado. A este sentido histórico-gramatical eu ajunto o significado da estrutura do texto. Entendo que o texto comunica não apenas com o que diz, mas também como diz. Mas nunca posso usá-lo para ele dizer o que eu digo. O pregador deve dizer o que o texto diz, e não lhe impor um sentido além do gramático-histórico-estrutural. A alegorização é uma prática bastante problemática porque não ensina a Bíblia, mas ensina as ideias do alegorizador. Por isso, alegorizar o Antigo Testamento não significa pregá-lo, mas pregar as idéias de quem o alegoriza. Assim, esta pregação maciça no Antigo Testamento não tem ensinado a palavra de Deus, mas práticas de homens. Está havendo uso do Antigo Testamento, mas não está havendo pregação bíblica no Antigo Testamento.
É possível se assistir aos programas da Universal por um semestre sem ouvir uma pregação no Novo Testamento, particularmente nas epístolas. A não ser uma frase isolada como subsídio da prática do dia ou da campanha que a Igreja esteja realizando. A Bíblia é declarada como Palavra de Deus, mas é assim no sentido de fornecer elementos para o que a IURD vê como verdadeira Palavra de Deus, sua linha de ação.
            A preocupação, aqui, nesta palestra, não é analisar a IURD, mas verificar como se pode pregar no Antigo Testamento sem ensinar o Antigo Testamento. É bastante duvidoso que o episódio dos 318 homens que Abraão arregimentou para livrar seu parente Ló signifiquem 318 homens de Deus orando pela saúde econômica de alguém. É duvidoso que a espada usada por Gideão signifique o uso de uma espada de plástico para cortar as dificuldades da vida de hoje. Na realidade, tal uso do Antigo Testamento me parece sumamente desrespeitoso.
2.      A VISÃO EQUIVOCADA DO CONCEITO DE INSPIRAÇÃO

                Faço profissão na absoluta inspiração das Escrituras. Creio que ela é totalmente inspirada por Deus. Já estão sabedores do significado teológico da expressão e não preciso me delongar muito nesta parte. Apenas algo que me intrigou: a expressão de Paulo em 2Timóteo 3.16 é “Toda a Escritura é inspirada por Deus…”. O termo grego traduzido por “inspirada” é theopneustos, que acaba trazendo um problema, pois segundo Packer, significa “soprado para fora”, e não, propriamente “ins-pirado”, isto é “soprado para dentro”. A interpretação de Warfield é que o sentido é passivo e não quer dizer que Deus soprou a verdade dentro das Escrituras, mas que Deus é soprado pelas páginas das Escrituras. Independente da interpretação que dermos aqui, a questão geral é que a Bíblia tem origem e qualidades divinas.
            Mas isto, origem e qualidades divinas, precisa ser bem entendido. Ser um livro inspirado não significa ser um livro mágico. Não quer dizer que se pode tomar qualquer passagem e usá-la como se deseja, pois de uma maneira ou outra as coisas vão dar certo, pois o livro tem poder. O poder é do conteúdo da mensagem e não do artefato. Esta visão mágico-mítico, do poder do livro como livro, produz algumas deturpações. Toda ela sopra Deus para fora de suas páginas ou todo o seu conteúdo foi soprado por Deus para dentro do escritor, mas há partes que merecem mais cuidado na interpretação. Deus disse a Elifaz: “Estou indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó” (Jó 42.7). Podemos pregar um sermão em uma das declarações dos amigos de Jó e fazermos a exegese de um texto com declarações que Deus não achou certas. Eles não fizeram declarações certas sobre Deus, disse Deus.
            O Antigo Testamento é inspirado como Palavra de Deus, mas não pode ser palavra absoluta. Suas verdades são penúltimas, não últimas. Sua inspiração é absoluta, mas sua aplicação à nossa vida é relativa. Numa época de “redescoberta” das raízes judaicas da Igreja e de uma rejudaização do cristianismo, é oportuno lembrar o que a Igreja decidiu  guardar do Antigo Testamento. Está em Atos 15.28-29: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas. Que tudo lhes vá bem".
            Qualquer pregação no Antigo Testamento que ensine aos ouvintes algum preceito do judaísmo além desses aqui mencionados está fora dos eixos e não é aquilo que o Espírito Santo mostrou à Igreja no passado. Podemos pregar no Antigo Testamento, mas não podemos pregar o Antigo Testamento para a Igreja. Parece contra-senso? Vejamos o item posterior.
 3. O CONCEITO DE REVELAÇÃO PROGRESSIVA
                A maneira correta de se pregar no Antigo Testamento passa, primeiramente, pelo conceito de revelação progressiva. Isto se aprende no primeiro ano de seminário, ou até mesmo em classes de Escola Bíblica Dominical. Mas muitos pregadores se esqueceram disto. Vamos caminhar por aqui, pelo conceito de revelação progressiva como a porta para podermos pregar no Antigo Testamento.
            Vejamos, primeiro, o que revelação progressiva não significa. Em primeiro lugar, não significa sair do erro para o acerto. Não é como se a revelação primeira, do Antigo Testamento, estivesse errada, e a do Novo certa. Não é isto. Em segundo lugar, não significa sair do negativo para o positivo, como se no Antigo houvesse apenas notícias ruins, maldade, a apresentação de um Deus iracundo, e no Novo, boas novas, bondade de Deus, um Deus de amor. Isto está mais para Marcião do que para teologia sadia.  Em terceiro, não é sair da ignorância, do atraso, para a luz, como se o AT fosse coisa de ignorantes e o NT de gente espiritualmente mais adiantada.
Revelação progressiva significa sair do incompleto para o completo. Sair da sombra para a realidade. Neste sentido, vejamos Colossenses 2.16-17: “Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado. Estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo”. O Antigo Testamento era a sombra. A realidade é Cristo, o Novo Testamento.
            Pensemos, ainda, em Hebreus 1.1-2: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho…”. A palavra final e decisiva de Deus foi dada em Jesus.
            A última frase da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, no tópico “I. Escrituras Sagradas” é esta: “Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo”. Aqui está, em outras palavras, a essência da revelação progressiva. Jesus Cristo é o fio de prumo para a interpretação.
Na sua Dogmática Cristã, Braaten e Jenson assim fizeram a súmula do capítulo 4, “As Sagradas Escrituras”:
As Sagradas Escrituras são a fonte e a norma do conhecimento da revelação de Deus que diz respeito à fé cristã. A autoridade última da teologia cristã não é o cânon bíblico como tal, mas o evangelho de Jesus Cristo testemunhado pelas Escrituras – “o cânon dentro do cânon”. O próprio Jesus Cristo é o Senhor das Escrituras, a fonte e o alcance de sua autoridade.[4]
            O ponto é este: a autoridade final da Bíblia é o Novo Testamento e, mais especificamente, a pessoa de Jesus. Lutero estava certíssimo: o critério de interpretação das Escrituras é cristológico. Esta posição levou Käseman a criar a expressão “cânon dentro do cânon”. Este cânon dentro do cânon, que é a pessoa de Jesus, é o eixo hermenêutico de toda a Bíblia. Podemos usar o Antigo Testamento quanto quisermos, mas o cânon chamado Jesus é o paradigma hermenêutico para interpretá-lo. Pregação que não sirva para ensinar sobre Jesus deixou de cumprir sua missão. Até mesmo porque o púlpito cristão é para glorificar a Cristo.
            Revelação progressiva significa isto, em termos hermenêuticos: que Jesus é o padrão para interpretar a Bíblia. Este princípio deve ser levado em conta na pregação em textos do Antigo Testamento. Se a mensagem pregada no Antigo Testamento terminar com o brilho da antiga revelação sobre a nova e, mais precisamente, sobre a pessoa de Jesus, então falhou. É preciso que ou a pessoa de Jesus ou algum aspecto de sua revelação seja mostrado, de modo que se entenda que se aprendeu mais da fé cristã.
 CONCLUSÃO
                Pretendo detalhar mais alguns aspectos da pregação no Antigo Testamento na próxima palestra. Esta primeira teve a função mais de mostrar os equívocos mais comuns no nosso tempo. Mas para não ficar apenas na demonstração do que não se deve fazer, apresentei a parte primeira e principal do que se deve fazer, que é buscar Jesus Cristo. A pregação precisa se centrar na pessoa de Jesus. Isto é fundamental. Mas não é banal nem trivial. Temos visto a cruz ser substituída pela estrela de Davi, Israel ser mostrado como povo de Deus em detrimento da Igreja, e a sombra valer mais que a realidade, como vimos nas figuras de Colossenses.
Somos cristãos. Pregamos a Cristo. Cabem aqui as palavras de Paulo, em 1Coríntios 1.23: “nós, porém, pregamos a Cristo crucificado”. Não pregamos a Moisés nem a Arão. Pregamos a Cristo. Mesmo no Antigo Testamento, preguemos a Cristo. Ele é o nome sobre todo o nome. Sobre o nome de qualquer personagem do Antigo Testamento.

[1] TORRES, Ubaldo. O Adventismo. Edição do autor, sem maiores indicações, 1981, p. 96
[2] COMISSÃO PERMANENTE DE DOUTRINA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Igreja Universal do Reino de Deus – Sua Teologia e Sua Prática. 1997, p. 30.
[3] CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado. Petrópolis, RJ: Vozes; S. Paulo: Simpósio Editora e Universidade Metodista de S. Paulo, 1977, p. 82
[4] BRAATEN, Carl & JENSON, Robert (eds). Dogmática Cristã I. S. Leopoldo: Editora Sinodal, 1990, p. 78.