17 de julho de 2012

John Bright - Antes da História: Fundamentos da Civilização no Antigo Oriente (Conclusão)


(Parte 1) (Parte 2) (Parte 3) (Parte 4) (Parte 5) (Conclusão)

3. O Antigo Oriente pouco antes da Idade Patriarcal
Os séculos finais do terceiro milênio nos levam aos limites da Idade na qual começa a história de Israel. Foram séculos conturbados, com movimentos, migrações e invasões que perturbaram os padrões estabelecidos em todas as partes do mundo bíblico. Na Mesopotâmia, termina a longa história da cultura sumeríana. No Egito, um tempo de desintegração e confusão. Na Palestina, completa ruína.
a. Mesopotâmia. A queda de Akkad e a renascença sumeriana. — Já vimos que no vigésimo quarto século o poder passou das cidades-estados sumerianas para os reis semíticos de Akkad, que criaram um grande império. Depois das conquistas de Naramsin, o poder de Akkad enfraqueceu rapidamente e um pouco depois de 2200 chegou ao fim, com o assalto violento de um povo bárbaro — os guti. Este povo, cuja terra de origem eram as montanhas de
Zagros, manteve o domínio da terra por cerca de cem anos. Seguiu-se então um breve período de trevas do qual temos poucas referências e durante o qual os hurrianos se infiltraram na região do Tigre ocidental, ao mesmo tempo que os amoritas faziam incursões na Alta Mesopotâmia (adiante veremos mais sobre este povo). Mas como o controle dos guti era fraco, é provável que as cidades sumerianas fossem capazes de manter uma existência semi-independente no sul.
De fato, os guti, destruindo o poder de Akkad, prepararam o caminho para o renascimento da cultura sumeriana, que veio a florescer na Terceira Dinastia de Ur (Ur III: 2060-1950, aproximadamente).
Realmente, o domínio dos guti foi destruído e a terra foi libertada por Utu-hegal, rei de Erech. Mas ele foi logo vencido por Ur-nammu, fundador de Ur III.
Embora os reis de Ur falem pouco de guerra, eles provavelmente eram capazes de controlar a maior parte da planície da Mesopotâmia, apesar de os governantes em exercício pelo menos nominalmente reconhecerem a sua autoridade.[1]
Denominando-se a si mesmos “Reis da Suméria e de Akkad” e “Reis das quatro Partes do Mundo”, eles se diziam perpetuadores do império de Sargão e da cultura sumeriana.
Discute-se se, ou em que grau, eles arrogavam a si prerrogativas divinas, como fizeram os reis de Akkad. Alguns deles assinavam seus nomes com o qualificativo de “divino” e se davam a si o título de “o deus de sua terra”.
Mas esta linguagem pode não passar de uma linguagem convencional, porque ainda persistia a noção de realeza por designação divina. Embora o rei fosse em teoria um monarca absoluto, e os governantes das várias cidades seus deputados, na prática estes últimos gozavam de considerável liberdade na administração dos negócios locais.
A cultura sumeriana floresceu sob os reis de Ur III. O fundador, Ur-nammu, distinguiu-se não só pelas numerosas edificações e pela atividade literária que caracterizou o seu reinado, mas sobretudo por seu código de leis, o mais antigo que se conhece até hoje.[2]
A maior evidência de renascimento, contudo, vem de Lagash, onde um Gudea era ensi. Este governante, cuja data precisa é assunto de discussão que não nos deve deter [3] , nos deixou muitas inscrições e monumentos.
Governando em Lagash como o “Pastor de Ningirsu”, ele era um ensi de acordo com a maneira sumeriana na tradição do reformador Urukagina. Urna estatuária primorosa e objetos de arte produzidos nessa época mostram a habilidade sumeriana na sua melhor fase.
Mas se o renascimento foi glorioso, foi também o último. A cultura sumeriana chegava ao término da sua jornada. Até a língua sumeriana estava morrendo. Embora as inscrições de Ur III fossem em sumeriano, o acádio o estava substituindo como língua vernácula. Por volta do décimo oitavo século ele deixou inteiramente de ser falado, apesar de ter sobrevivido no uso erudito e litúrgico (como o latim em nossos dias), por muitíssimos séculos.
Os sumérios e os semitas estavam completamente misturados nesse tempo, e estes últimos tinham-se tornado o elemento predominante. Mesmo alguns dos reis de Ur (Shu-sin, Ibbi-sin), apesar de serem da casa da Suméria, tinham nomes semitas e, sem a menor dúvida, sangue semita.
Na Mesopotâmia, no tempo das origens de Israel, toda uma maré de civilização tinha fluído e refluído. A cultura sumeriana tinha nascido, e levado uma vida brilhante durante um período de mil e quinhentos anos e finalmente desaparecido do cenário. Israel nasceu num mundo já antigo.
b. Egito: o primeiro intermediário (cerca do século vinte e dois até o século vinte e um). — Nesse ínterim, no Egito a glória do Antigo Império tinha desaparecido. Depois do fim da Quinta Dinastia, o poder monolítico do Estado começou progressivamente a desintegrar-se, à medida que o poder passava cada vez mais das mãos do faraó para as mãos da nobreza provincial hereditária.
Mais ou menos no vigésimo segundo século, aproximadamente quando os guti estavam destruindo o poder de Akkad, o Egito entrava num período de desordem e depressão, conhecido como o Primeiro Intermediário.
Havia desunião interna, com faraós rivais disputando o trono. Os administradores provinciais, sem o controle da coroa, exerciam uma autoridade feudal e se tornaram efetivamente reis locais. Certas cidades no Baixo Egito eram virtualmente independentes, com câmaras próprias.
As coisas se agravaram com a infiltração dos seminômades asiáticos no Delta. Reinava a confusão, não se observavam as leis, a ordem era violada, o comércio definhava.
E uma vez que provavelmente não se mantinha o sistema de irrigação, do qual dependia a vida da terra, com certeza grassava a penúria e a fome.
Foi uma época de profunda depressão. E esta depressão penetrou, como tudo indica, na alma egípcia. Temos deste período ou de um período um pouco posterior uma literatura rica e muito agradável, que reflete o espírito da época. Além do interesse pela justiça social (por exemplo, O Camponês Eloquente ), sente-se um profundo espanto e pessimismo e tem-se a sensação de que os tempos estavam muito convulsos (por exemplo, O Diálogo de um Misantropo com a sua Alma, O Cântico do Harpista).[4]
Deve ter parecido a muitos egípcios, abatidos como estavam pela adversidade, que tudo o que eles conheceram e tudo em que eles acreditaram não os tinha satisfeito, que a própria civilização, depois de mil anos de progresso constante, tinha chegado ao fim. E tudo isso muito antes do nascimento de Abraão!
Naturalmente, se eles pensavam assim, estavam enganados. Na metade do vigésimo primeiro século, mais ou menos quando a cultura sumeriana estava revivendo, sob os reis de Ur, uma família tebana — a Décima Primeira Dinastia — era capaz de unificar a terra e pôr fim ao caos.
Ao começar o segundo milênio, o Egito entrou no seu segundo período de prosperidade e estabilidade sob os faraós do Médio Império.
c. Palestina: Invasores nômades. — Na última parte do terceiro milênio (mais ou menos entre o vigésimo terceiro e vigésimo séculos), ao passarmos pela fase final da primitiva Idade do Bronze para a primeira fase da Idade Média do Bronze — ou talvez ao entrarmos no período de transição entre as duas — temos bastante evidência de que a vida na Palestina sofreu grande abalo às mãos dos invasores nômades que estavam irrompendo dentro da região.
Foi destruída uma cidade após outra (quanto saibamos, todas as cidades grandes), algumas com incrível violência, e assim terminou a Primitiva civilização do Bronze.
Semelhante dilaceração parece ter ocorrido na Síria. Estes recém-chegados não reconstruíam nem ocupavam as cidades que tinham destruído. Pelo contrário, parece que preferiam continuar a sua vida nômade. Só depois de um considerável intervalo é que, gradualmente, eles começaram a construir povoações e estabelecer-se.
No fim do terceiro milênio tais povoações, nós o sabemos, existiam tanto no oriente como no ocidente do Jordão, no vale do Jordão, até o Negeb. Mas eram pequenas, mal construídas, e sem pretensões materiais.
Só aproximadamente no décimo nono século, quando dominava em toda a região uma influência cultural nova e vigorosa, é que se pode dizer que recomeçou a vida urbana.
Que nome estes nômades davam a si mesmos não sabemos. Não há dúvida de que eles pertenciam a diversos grupos tribais e tinham consequentemente vários nomes diferentes.
Entretanto não resta a menor dúvida de que eles faziam parte daquele grupo geral de povos semitas do Nordeste conhecidos como amoritas que, na época estavam fazendo incursões em todas as partes do Crescente Fértil.[5] É provável que os semitas que se infiltraram no Egito no Primeiro Intermediário fossem de origem similar. Mais para a frente falaremos mais deste povo. Talvez, se nossos olhos fossem apenas um pouco mais penetrantes, poderíamos discernir entre eles —     ou seguindo-os como parte do mesmo movimento geral — as figuras de Abraão, Isaac e Jacó.
Tal era a situação da história do mundo, este era o palco que os antepassados de Israel estavam prestes a ocupar. Se procuramos montar este palco com mais cuidado do que poderia parecer necessário, foi para que os começos de Israel pudessem ser vistos não numa perspectiva de dimensões reduzidas, mas numa perspectiva de muitos séculos e de civilizações já antigas.


Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.



[1] O fato de se dar o título de ensi (vice-rei) a um príncipe de Byblos (aproximadamente 2000 anos antes de Cristo), indica que a influência política se estendia até à costa do Mediterrâneo; cf. Albright, in YGC, p. 99 e as referências que aí se encontram. Mas não se sabe se o controle desta área era efetivo ou meramente nominal. Sobre este período, cf. C. J. Gadd, in CAH, I: 22 (1965); D. O. Edzard em Bottéro, Cassin, Vercoutter, eds., o.c., pp. 133-161, Kramer, o.c. (em nota 11).
[2] Este código é conhecido somente por cópias tardias e precariamente conservadas; cf, PRITCHARD, in ANE Supl., pp. 532-525, para uma tradução e referências.
[3] Se o Nammakhni de Lagash que foi assassinado por Ur-nammu foi predecessor de Gudea, como se supõe, Gudea deve ser identificado com o ensi desse nome durante o reinado de Shu-sin de Ur; cf.
ALBRIGHT, in ARI, p. 228. Mas se Nammakhni foi seu sucessor, Gudea deve ter florescido pelos fins da dominação gutiana. Cf. EDZARD, in BOTTÉRO, CASSIN, VERCOUTTER, eds., o.c., pp. 100, 122-125; KRAMER, o.c., pp. 66-68; C. J. Gadd, in CAH, I: 19 (1963), pp. 44ss.
[4] Cf. Albright, in FSAC, pp. 183-189. As Admoestações de Ipu-wer são também geralmente, e talvez corretamente, atribuídas a este período. Mas recentemente foram apresentados fortes argumentos para situá-las no Segundo Intermediário; cf. J. VAN Seters, The Hyksos, Yale University Press, 1966, pp. 103-120.
[5] Alguns se opuseram a que estes povos devessem chamar-se “amorítas”; cf. MOSCATI, o.c. Entretanto, em vista de toda a evidência que há, parece que é a designação mais apropriada para eles; cf. as referências a De Vaux em nota 33; também, Kathleen M. Kanyon, Amorites and Canaanites, (Oxford University Press, Londres, 1966), que concorda, mas que reserva o termo “canaanita” para a cultura que
surgiu na Idade Média do Bronze.