16 de julho de 2012

John Bright - Antes da História: Fundamentos da Civilização no Antigo Oriente (Parte 5)



2.  O Egito e a Ásia Ocidental no terceiro milênio
 Coincidiu quase exatamente o aparecimento dos mais remotos textos decifráveis na Mesopotâmia com a entrada do Egito na história como uma nação unificada. Discute-se precisamente como os dois reinos pré-dinásticos do Alto e do Baixo Egito estavam unidos — se antes ou depois do malogro de uma tentativa de conquista de supremacia em data anterior.
Pelo vigésimo nono século os reinos do Alto Egito ganharam ascendência e levaram toda a região para o seu domínio. O rei Narmer (primeira dinastia) é pintado usando a coroa branca do sul e a coroa vermelha do norte, e é desenhado com proporções gigantescas, como convém aos deuses.[1] A memória da dupla origem da nação, pode-se dizer, esteve sempre viva e foi perpetuada para todos os tempos futuros nas insígnias e títulos reais.

a. O Império Antigo (do século vinte e nove ao século vinte e três). — Os fundamentos do Antigo Império foram lançados pelos faraós da Primeira e da Segunda Dinastias (do século vinte e nove ao século vinte e sete).[2]
Com o aparecimento da Terceira Dinastia (em 2600 aproximadamente), entramos na era do florescimento clássico do Egito. Nessa ocasião é que as características básicas e significativas de sua cultura assumiram a forma que devia ser normativa no futuro. Foi a Idade das Pirâmides.
A mais antiga é a Pirâmide dos Degraus, que Zoser, fundador da Terceira Dinastia, construiu em Mênfis. Com um templo mortuário na base, é a mais antiga construção de pedra lavrada que se conhece até hoje.
Entretanto, muito mais maravilhosas são as pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, da Quarta Dinastia, (do século vinte e seis ao século vinte e cinco), também em Mênfis. A Grande Pirâmide, com 147 metros de altura, tendo como base um quadrado de 217 metros, foi construída com 2.300.000 blocos de pedra lavrada, com um peso médio de duas toneladas e meia.
Todos estes blocos foram transportados para os seus respectivos lugares apenas com a força muscular, sem o emprego de nenhuma máquina, e com uma margem de erro praticamente nula.[3] Esta Grande Pirâmide nos leva a respeitar a habilidade técnica do antigo Egito mil anos antes do nascimento de Israel. Ela também nos apresenta o espetáculo da utilização de todos os recursos de um estado organizado para preparar o local do descanso final de seu rei-deus.
Os faraós da Quinta e da Sexta Dinastia também construíram pirâmides (do século vinte e cinco ao século vinte e três). Embora fossem menos imponentes, foi nelas que os assim chamados Textos das Pirâmides foram encontrados. Consistem em palavras mágicas e encantamentos destinados a assegurar a passagem livre do faraó para o mundo dos deuses, e são os textos religiosos mais antigos que nos são conhecidos no Egito. Embora apareçam no último período do Antigo Império, seu material remonta aos tempos protodinásticos.
Durante todo esse período, o Egito esteve em contato permanente com a Ásia. Embora seja claro que a influência da Mesopotâmia cesse virtualmente depois do começo das dinastias, as relações com a Fenícia, com a Palestina e as terras adjacentes continuaram intatas.
Eram exploradas regularmente as minas de cobre do Sinai, nas quais já se trabalhava nos tempos pré-dinásticos. Contato com as terras de Canaã nos é testemunhado pelo intercâmbio de tipos de cerâmica e outros objetos, e também pela introdução de palavras da língua falada em Canaã na língua egípcia.
Sabe-se que vários faraós fizeram campanhas militares na Ásia.[4] Embora isso não prove que o Egito já tinha organizado um império asiático, contudo mostra que as terras da Palestina eram consideradas como sua esfera legítima de interesses e que estava preparado e era capaz de proteger os seus interesses nestas regiões com força militar.
Mas Byblos, como em todos os períodos da força egípcia, era virtualmente uma colônia. Uma vez que o Egito era quase desarborizado, Byblos — saída para as madeiras-de-lei do Líbano — era um ponto de vital importância. Inscrições votivas de vários faraós e outros objetos atestam a influência do Egito nesse local durante todo o Antigo Império. Antes do fim do terceiro milênio, os habitantes de Canaã em Byblos empregaram uma escrita silábica modelada sobre os hieróglifos egípcios.
b. O Estado e a Religião no Egito. — A organização do Estado no Egito era muito diferente da organização contemporânea do Estado na Mesopotâmia. O faraó não era um vice-rei que governava por eleição divina, nem era um homem que tinha sido deificado. Ele era deus. Era Horus visível entre os homens, entre o seu povo.
Teoricamente, todo o Egito era propriedade sua, todos os seus recursos estavam à disposição dos seus projetos. Apesar de a terra ser realmente administrada por uma burocracia complexa, chefiada por um vizir, este também era súdito do rei-deus.
Nunca se descobriu um código de lei no Egito antigo. Embora não se possa afirmar dogmaticamente que não existia nenhum código desta natureza, é possível que não fosse posto em prática, porque não se sentia a necessidade de tal código. Bastava o decreto do rei-deus .[5]
Com certeza havia o conceito de lei, porque não pode existir Estado sem tal conceito. Embora o poder do faraó fosse em teoria absoluto, ele não governava contra os padrões estabelecidos, porque tinha o dever, como rei-deus, de manter a justiça (ma‘at).
E embora o sistema fosse um absolutismo sob o qual o egípcio era teoricamente livre, embora a sorte dos camponeses devesse ter sido incrivelmente dura, não existiam barreiras rígidas que impedissem os homens da mais humilde origem de ascender às mais altas posições, se a sorte os ajudasse.
Era um sistema que, aos olhos dos egípcios, era um meio benéfico de manter a paz e a segurança da região. O egípcio não via seu mundo como um mundo de equilíbrio precário, uma coisa problemática, como o mesopotâmio, mas como uma ordem imutável, estabelecida desde a criação, tão regular no seu ritmo como as enchentes do Nilo. A pedra angular desta ordem imutável era o rei-deus.
Durante a vida ele protegia o seu povo. Depois da morte, ele continuava a viver no mundo dos deuses e era substituído por seu filho, também deus.
A sociedade governada pelo rei-deus estava assim fortemente ancorada no ritmo do cosmos. À nossa maneira de ver as coisas, o espetáculo do Estado que esgota as suas riquezas para preparar um túmulo para o faraó pode parecer loucura e, da parte do próprio faraó, uma desconsideração egocêntrica pelo bem-estar do povo. Mas os egípcios não viam as coisas assim. Apesar de o Estado absoluto ter dado provas de que era uma carga muito pesada para ser levada para sempre, e se tenham levado a efeito modificações, os egípcios nunca rejeitaram o sistema, pelo menos em teoria.
A religião do Egito, como a da Mesopotâmia, era um politeísmo altamente desenvolvido.[6]
Entretanto, ela apresenta um quadro por demais confuso. Apesar das diversas tentativas, em tempos remotíssimos, de sistematização (as cosmogonías de Heliópolis e Hermópolis, a Teologia Menfítica), nunca se chegou a um panteão ordenado ou a uma cosmogonia consistente. A fluidez do pensamento era uma característica própria do egípcio. Contudo, não se pode chamar de primitiva a religião do Egito.
Apesar de muitos de seus deuses serem pintados em forma animal, faltam as características essenciais do totemismo. O animal representava a forma na qual o misterioso poder divino se manifestava. E embora o prestígio de um deus pudesse flutuar com o prestígio da cidade na qual ele era cultuado, os altos deuses do Egito não eram deuses locais.
Eles eram adorados em toda a região e se lhes concedia domínio cósmico.
c. A Palestina na remota Idade do Bronze. — Na Palestina, todo o terceiro milênio coincide com o período conhecido pelos arqueólogos como a remota Idade do Bronze.
Este período — ou uma fase transitória que levava a ele — começou tardiamente no quarto milénio, quando a cultura protoliterária floresceu na Mesopotâmia e a cultura gerzeana floresceu no Egito, e continuou até os últimos séculos do terceiro.[7]
Embora a Palestina nunca tenha apresentado uma cultura material nem mesmo remotamente comparável às culturas do Eufrates e do Nilo, o começo do terceiro milênio foi testemunha de um progresso admirável também nessa região. Foi uma época de grande desenvolvimento urbano, quando a população aumentou, as cidades foram construídas e, presumivelmente, se estabeleceram as cidades-estados.
Apesar de a população ser distribuída irregularmente (mais densa no norte e nas áreas centrais, mais esparsa no sul), as cidades eram razoavelmente numerosas.
Muitas das cidades que mais tarde haviam de desempenhar papel importante na Bíblia já existiam, como, Jericó (reconstituída depois de grande abandono), Megiddo, Beth-shan, Ai, Gazer, Lachish. Muitas delas foram construídas pela primeira vez. Embora estas cidades não fossem opulentas, eram admiravelmente bem construídas e muito bem fortificadas, como indicam as escavações de Jericó, Megiddo, Ai e de outras localidades.[8]
A população da Palestina e da Fenícia era nesta época, pelo menos predominantemente, canaanita. Mais para a frente falaremos pormenorizadamente desse povo.
Sua língua era presumivelmente a ascendente da língua falada pelos habitantes de Canaã nos tempos israelitas, da qual o                hebraico bíblico era um dialeto. Com toda a probabilidade eles se estabeleceram na Palestina no quarto milênio, e devem ser com toda certeza considerados como os fundadores da civilização da Remota Idade do Bronze.[9]
De qualquer modo, os nomes das cidades mais antigas que conhecemos são uniformemente semíticos. É provável que os mitos que conhecemos pelos textos Ras Shamra (décimo quarto século) remontem aos protótipos desse período, e que a religião canaanita já era na sua essência a mesma que encontramos na região, e ainda mais tarde, na Bíblia.
Embora a Palestina não nos forneça inscrições do terceiro milênio, os canaanitas de Byblos, como dissemos, empregavam uma escrita silábica modelada sobre a egípcia.


Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.


[1] Veja a paleta de Narmer; PRITCHARD, in ANEP, placas 296-197.
[2] Seguimos aqui as cronologias de A. SCHARFF ( SCHARF-MOORTGAT, AVAA) e H. STOCK (Studia Aegyptiaca II [Analecia Orientalia 31; Rema, Pontifício Instituto Bíblico, 1949]) que concordam quanto à
essência (cf. ALBRIGHT em R. W. EHRICH, ed., o.c., p. 50). Para leitura posterior sobre este período no Egito, cf. I. E. S. EDWARDS, in CAH, I: 11 (1964); W. S. SMITH, ibid. I: 14 (1965); também J. VERCOUTTER em BOTTÉRO, CASSIN, VERCOUTTER, eds., o.c., pp. 258-346.
[3] Cf. ־ J. A. WILSON, The Burden of Egypt, The University of Chicago Press, 1951, pp. 54ss. O erro não chega a 0,09 por cento, quanto à quadratura, e o desvio de nível é menos de 0,004 por cento.
[4] A intervenção militar na Ásia parece ter começado no tempo de Narmer: cf. S. YEIVIN, in IEJ, 10 (1960), pp. 193-203; Y. YADIN, in IEJ, 5 (1955), pp. 1-16; idem, The Art of Warfare in Biblicd Lands, McGraw-Hill Book Company, Inc., 1963, vol. I, 51,53, 122-125.
[5] Cf. J. A. WILSON, em Authority and Law in the Ancient Orient, in JAOS, Suppl. 17 (1954), pp. 1-7.
[6] Veja especialmente H. Frankfort, Ancient Egyptian Religión, Columbia University Press, 1948; também idem em H. Frankfort, et al., The Intellectual Adventure of Ancient Man; idem, Kingship and the Gods; ]. Vandier, La religión êgyptienne, Presses Universitaires de France, Paris, 1944; Wilson, o.c.; J. Cerny Ancient Egyptian Religión,Hutchinson’s University Library, Londres, 1952; Albright, in FSAC, pp. 178-189.
[7] Sobre este período, cf. WKIGHT, in BANE, pp. 81-88; ALBRIGHT em R. W. EHRICH, ed., o.c., pp. 50-57; R. DE VAUX, in CAH, I; 15 (1966); também KENYON, Digging, cc. VI-VIII; Anati, o.c., pp. 317-373. Discute-se quanto à extensão do período e o nome que lhe deve ser aplicado. Wright começa o período em aproximadamente 3300. Outros começam-no um ou dois séculos mais tarde. Kenyon chama o período que vai aproximadamente de 3200 a 2900 (geralmente EB I) de “Proto-urbano”, e o que vai de aproximadamente 2300 a 1900 (geralmente EB IV e MB I), de “Período do Bronze Primitivo Intermediário” e de “Período do Bronze Médio”, respectivamente, mantendo o termo “Período do Bronze Primitivo” para o período intermediário.
[8] As muralhas das cidades têm às vezes a espessura de 7 a 9 metros, A grande muralha dupla de Jericó (realmente duas muralhas separadas), que se pensou que fora destruída por Josué, pertence a este período. Cf. KENYON, ibid.
[9] Alguns eruditos se opuseram a que estes povos fossem chamados de “canaanitas”; por exemplo, S. MOSCATI, The Semites in Ancient History, University of Wales Press, Cardiff, 1959, pp. 76-103. Mas
parece muito certo chamá-los com este nome. Cf. R. DE VAUX, in RB, LXV (1958), PP. 125-128; idem, in CAH, I: 15 (1966), pp. 27-31; ALBRIGHT, in YGC, pp. 96-98. Sobre os canaanitas em geral, cf. idem, The Role of the Canaanites in the History of Civilization, ed. rev., in BANE, pp. 328-362.