11 de julho de 2012

John Bright - Antes da História: Fundamentos da Civilização no Antigo Oriente (Parte 2)



2. Desenvolvimento cultural na Mesopotâmia
Com  a introdução do metal termina a Era Neolítica e começa a assim chamada Era Calcolítica (Era da Pedra e do Cobre). Precisamente quando começou esta transição não é assunto que mereça discussão de nossa parte (ela ocorreu gradualmente). Mas na Mesopotâmia todo este período é atestado por uma série de culturas, que receberam os nomes das localidades onde elas foram encontradas pela primeira vez. Isso nos leva, com poucos hiatos de alguma importância, através do quinto e do quarto milênio, até aos umbrais da história, no terceiro.[1] Foi um período de surpreendente floração cultural.
A agricultura, muito mais desenvolvida e expandida, veio possibilitar e melhorar a alimentação e fazer face à densidade crescente de população. A maior parte das cidades que foram fundadas então estavam destinadas a desempenhar um papel importante na história da Mesopotâmia durante os milênios futuros.

Levaram-se a efeito projetos de drenagem e irrigação. E à medida que estes projetos se tornavam mais elaborados e exigiam uma manutenção e um controle contínuos, e à medida que o comércio e a vida econômica se desenvolviam, surgiram as mais antigas cidades estados.
O progresso técnico e cultural era grande em todos os campos, incluindo a invenção da escrita. De fato, pelos fins do quarto milênio, a civilização da Mesopotâmia assumia, nos seus pontos essenciais, a forma que iria caracterizá-la por milhares de anos futuros.

a. Culturas antigas de cerâmica pintada. — A floração cultural começou cedo na Alta Mesopotâmia, enquanto os vales inferiores dos rios eram ainda terras pantanosas sem população estabelecida. Já no sexto milênio surgiu aí a cultura Hassuna, acima mencionada.
Era uma cultura aldeã, baseada em pequena lavoura e criação, mas com especialização crescente de técnica, ficando assim como uma transição do Neolítico para o Calcolítico.
Embora o metal fosse ainda desconhecido, já começavam a aparecer certos tipos de cerâmica pintada (marca distintiva do Calcolítico). Era de uma beleza especial a porcelana de
Samarra — decorada com figuras humanas e de animais, geométricas e monocrômicas, de rara perfeição artística. Esta porcelana começa a aparecer na última parte deste período.
A habilidade artística alcançou novo auge com a cultura Halaf seguinte (na última parte do quinto milênio). Esta cultura, que recebeu este nome por causa da região no vale de Khãbür, onde foi identificada pela primeira vez, tinha o seu centro ao longo do alto Tigre. Mas sua cerâmica característica foi encontrada através de toda a Alta Mesopotâmia até à costa Siro-ciciliana, ao norte até o Lago Van e ao sul até Kirkuk.
Por este tempo os vales ribeirinhos da Alta Mesopotâmia eram provavelmente densamente povoados. De acordo com os padrões de então, as aldeias eram bem construídas, com casas retangulares de terra batida ou tijolo cru.
Estruturas mais maciças circulares (tholoi) com teto baixo serviam para uma finalidade que nos é inteiramente desconhecida. Numerosas estatuetas de animais e de mulheres, estas últimas freqüentemente em posição de parto, revelam que se praticava então o culto da deusa mãe. É de modo especial digno de nota a imponente cerâmica. Cozida em forno, mas feita manualmente, sem o uso de qualquer máquina, distingue-se pelos desenhos florais geométricos policrômicos, de uma excelência artística e de uma beleza raramente igualada.
Quem era este povo não sabemos. Não existem textos que nos revelem que língua falavam, porque ainda não tinha sido inventada a escrita. Mas esta cerâmica nos prova à evidência que a civilização já tinha feito grandes progressos na Alta Mesopotâmia, há mais de dois mil anos antes de Abraão.

b. Sequência de culturas pré-dinásticas na Baixa Mesopotâmia. — Mas foi na última parte do quarto milênio que o florescimento cultural da Mesopotâmia alcançou o seu apogeu.
A povoação da Baixa Mesopotâmia, a descoberta das grandes cidades na região, e a organização das primeiras cidades-estados abriram o caminho para um progresso técnico e cultural admirável.
Uma série de culturas na Baixa Mesopotâmia nos leva dos começos do quinto milênio até a luz da história, no terceiro.
Convencionalmente estas culturas são conhecidas, em ordem descendente, como a cultura de Obeid (de antes de 4000 até depois de 3500) a de Warka (no trigésimo primeiro século aproximadamente) e a de Jemdet Nasr (aproximadamente do trigésimo primeiro ao vigésimo nono século), de acordo com os locais onde foram respectivamente identificadas pela primeira vez. Mas provavelmente é melhor dividir a cultura Warka em aproximadamente o tempo da invenção da escrita (cerca do ano 3300?) e unir a última parte dela à cultura Jemdet Nasr, sob o título de “Protoliterária”, ou uma denominação semelhante.[2]
A civilização teve, assim, o seu início da Baixa Mesopotâmia relativamente tarde, depois de já ter seguido seu curso por muitas centenas de anos na parte superior do vale.[3] As razões são fáceis de ver. A Baixa Mesopotâmia tem em geral chuvas insuficientes para manter uma agricultura viável e tem de depender, no que se refere à água, dos grandes rios que correm através de seu solo para o Golfo Pérsico.
Mas estes estavam sujeitos a enchentes periódicas e como corriam sem nenhum controle humano, não raro mudavam seu curso e espalhavam suas águas cheias de detritos sobre os terrenos planos ribeirinhos e formavam vastos charcos e lagoas, onde não podia medrar nenhuma vegetação útil.
Por isso a terra não podia receber um cultivo intensivo até que os homens dominassem uma técnica eficiente de irrigação, com a construção de diques e canais. E com toda a certeza isso não foi obra de um dia.
O trabalho de drenar e preparar a terra e de estabelecer as cidades deve ter-se prolongado durante séculos. Por outro lado, uma vez exploradas as terras de aluvião, extraordinariamente ricas, podemos presumir que a população aumentou rápida e constantemente. Este processo de povoamento e de construção já estava em vigor no período Obeid.
Quem era este povo e de onde ele tinha vindo é uma questão debatida, estreitamente ligada com o difícil problema das origens sumerianas.
Mas quem quer que tenha sido, foi ele o fundador da civilização na Baixa Mesopotâmia. Embora a sua cultura fosse muito pouco suntuosa, realizaram edifícios de proporções monumentais, como por exemplo, as séries de templos de Eridu.
Sua cerâmica, apesar de artisticamente inferior à de Halaf, mostra de certo modo muito maior domínio técnico. A expansão desta cerâmica por toda a Alta Mesopotâmia e mais além ainda, indica que essa influência cultural se estendia muito longe.

c. Período Protoliterário. — A fase seguinte, a Warka, foi provavelmente muito breve (até 3300 aproximadamente ou depois). É também uma questão que não deve deter-nos o fato de ter esta cultura se desenvolvido dentro de Obeid, ou de ter sido trazida de fora por adventícios.
O período seguinte, o Protoliterário (do trigésimo terceiro século ao vigésimo nono), trouxe um surto de progresso como poucos na história do mundo. Foi este um período de grande desenvolvimento urbano, no decurso do qual a civilização mesopotâmica tomou uma forma normativa.
Desenvolveu-se plenamente por esse tempo o sistema de diques e canais que tornou possível o cultivo intensivo das planícies de aluvião.
A população aumentou rapidamente e surgiram em toda a parte grandes cidades. Nasceram e desenvolveram-se cidades estados, onde ainda não as havia. Os templos, construídos de tijolo de barro sobre plataformas acima do nível das inundações, — dos quais o complexo do templo de Warka (Erech) é um brilhante exemplo, — exibem as características da arquitetura do templo mesopotâmico que irão perdurar durante todos os séculos futuros.
Notam-se em toda a parte novas técnicas. Usavam-se rodas, e fornos para cozimento da cerâmica, tornando possível uma louça de grande excelência técnica.
Aperfeiçoaram-se processos para bater o cobre, triturá-lo e em seguida vazá-lo. Prova deste raro aperfeiçoamento artístico são os sinetes de cilindro, primorosos, que substituem os antigos.
Mas nenhum progresso marcou mais época do que a invenção da escrita. Os mais antigos textos que nos são conhecidos remontam aos últimos séculos do quarto milênio. Embora ainda não possam ser lidos com segurança, parece que são sobretudo documentos inventariais e de negócios, dando assim um testemunho da complexidade crescente da vida econômica.
E uma vez que a vida econômica se centralizava em volta do templo, podemos presumir que a organização característica da cidade-estado em redor dos santuários, que nos é familiar a partir do terceiro milênio, já está então muito adiantada. Em todo o caso, podemos recordar o fato de que os umbrais da escrita já tinham sido cruzados, cerca de dois mil anos antes de Israel surgir na história como um povo.
Tampouco podemos supor que este florescimento cultural foi uma coisa restrita a um rincão isolado, e que não exerceu nenhuma influência além dos confins da Mesopotâmia.
Pelo contrário, como veremos logo mais, há uma evidência comprovada de que, antes deste período, houve intercâmbios comerciais e culturais com a Palestina e com o Egito pré-dinástico.

d. Os Sumérios. — Povo que constitui um dos maiores mistérios da história, foram os sumérios os criadores da civilização na Baixa Mesopotâmia. De que raça eram eles e de onde vieram podemos apenas fazer conjeturas. Os monumentos pintam-nos como imberbes, musculosos, de cabeça muito grande. Mas nem sempre os esqueletos encontrados atestam esta última característica. Falavam uma língua aglutinante, que não se filia a nenhuma outra língua conhecida, viva ou morta.
Os autores não concordam sobre o tempo e sobre o modo de sua chegada — se eles foram os criadores da mais antiga cultura Obeid, ou se chegaram depois e construíram sobre os alicerces lançados por outros.[4]
Entretanto, está claro que os sumérios estiveram presentes na Mesopotâmia por volta da metade do quarto milênio. Porém, uma vez que os textos mais antigos que nos são conhecidos
estão em sumério, podemos presumir que foram eles que introduziram a escrita. No período protoliterário, eles deram forma àquela brilhante cultura que vemos na sua forma clássica no alvorecer do terceiro milênio.


Fonte: BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.



[1] Para posterior leitura veja: ANN L. Perkins, The Comparative Archeology of Mesopotamia, The University of Chicago Press, 1949; A. MOORTGAT, Díe Entstehung der sumeriscben Hochkultur, J. C. Hinrichs, Leipzig, 1945; A. PARROT, Archéologie mesopotamienne, Vol. II, A. Michel, Paris, 1953. Mais recentemente veja os relevantes artigos em R. W. EHRICH, ed. o.c. e os importantes capítulos in CAH. Para estudos mais populares, cf. M. E. L. MALLOWAN, Early Mesopotamia and Iran, Thrmes and Hudson, Ltd., Londres, 1965; A. FALKENSTEIN in J. BOTTÉRO, E. CASSIN, J. VERCOUTTER, eds., The Near East: The Early Civilizations, trad. ingl.: George Weidenfeld & Nicolson, Ltd., Publishers, Londres, 1967, pp. 1-51.
[2] Há controvérsia sobre o ponto no qual deve ser feita esta divisão e o nome do novo período resultante da divisão. Cf. Perkins, o.c. pp. 97-161, que designa a última parte do antigo período Warka como o Antigo Protoliterário (Protoliterário A-B), e o Antigo Jamdet Nasr como o Tardio Protoliterário (Protoliterário C-D); Parrot (o.c., pp. 272-278) prefere o termo “pré-dinástico”, e Moortgat (o.c., pp. 59-94), “Proto-histórico”. Mas cf. M. E. L. Mallowan, in CAH, I: 8 (1967), parte I, pp. 3-6, que advoga tenazmente a terminologia tradicional.
[3] Supõe-se geralmente que a Baixa Mesopotâmia tenha sido povoada pela primeira vez na última parte do quinto milênio. Mas este fato pode ter ocorrido muito mais cedo e, por causa da depressão gradual da terra, as povoações mais antigas podem estar debaixo do nível do lençol d’água. Cf. S. N. KRAMER, The Sumerians, The University of Chicago Press, 1963, pp. 39ss e o artigo de G. M. LEES e N. L. FALCON
lá citado (Geographical ]ournal, 118 [1952], pp. 24-39). De qualquer modo, o povoamento tinha começado muito antes do período Obeid.
[4] Para debate, além das obras relacionadas na nota 9, veja também E. A. SPEISEK, Mesopotamian Origins, University of Pennsvlvania Press, 1930; Idem, The Sumerian Probletn Reviewed, in HUCA, '׳״! III, Parte I (1950/1951), pp. 339-355; H. FRANKFORT, Archeology and the Sumerian Problem, The University of Chicago Press, 1932; S. N. KRAMER, New Light on the Early History of the Ancient Near East, in AJA, LII (1948), pp. 156-164; idem, o.c. (em nota 11); W. F. ALBRIGHT e T. O. LAMBDIN, in CAH, I: 4 (1966), pp. 26-33.