20 de julho de 2012

Introdução a língua Hebraica - Willian White Jr

 Por Willian White Jr

Os escritos do Novo Testamento são, em grande medida, baseados na revelação de Deus no Antigo Testamento. Para entender os temas da Criação, Queda e Restauração apresentados no Novo Testamento, é preciso ler sua origem no Antigo Testamento. O Novo Testamento foi escrito no dialeto popular de um idioma indo-europeu, o grego. O Antigo Testamento foi escrito nos idiomas semíticos do hebraico e aramaico. Durante séculos, estudantes leigos da Bíblia achavam muito difícil entender a estrutura do hebraico bíblico. Os guias de estudo do hebraico bíblico são projetados para pessoas que leem hebraico — e muitos destes guias foram escritos em alemão, o que só aumenta a dificuldade.

Este Dicionário Expositivo apresenta cerca de 500 termos significativos do Antigo Testamento para os leitores leigos que não estão familiarizados com o hebraico. Descreve a frequência uso e significado destes termos tão completamente quanto possível. Nenhuma fonte foi ignorada no esforço de trazer a mais recente erudição hebraica para o estudante que a busca. Espera-se que este pequeno livro de consulta venha a iluminar os estudantes da Bíblia para que vejam as riquezas da verdade de Deus contidas no Antigo Testamento.

A. O lugar do hebraico na História. A língua e a literatura hebraicas mantêm posição única no curso da civilização ocidental. Emergiu algum tempo depois de 1500 a.C. na região da Palestina, ao longo da costa oriental do mar Mediterrâneo. Os judeus têm usado o hebraico continuamente em um ou outro local até os dias atuais. Um dialeto modernizado do hebraico (com modificações na soletração) é a língua oficial do Estado de Israel. Quando Alexandre, o Grande, subiu ao poder, de cerca de 330 a.C. a 323 a.C. ele uniu as cidades-estados gregas sob a influência da Macedônia. Alexandre e seus generais virtualmente aniquilaram as estruturas sociais e as línguas das sociedades antigas que o império tinha absorvido. Os babilônios, aramaicos, persas e egípcios deixaram de existir como civilizações distintas; só a cultura grega (helenística) permaneceu. O judaísmo foi a única religião antiga e o hebraico a única língua antiga que sobreviveram a esta investida furiosa. 
A Bíblia Hebraica contém a sucessiva história da civilização desde a Criação até os tempos romanos. É o único registro dos procedimentos de Deus para com a humanidade por meio dos seus profetas, sacerdotes e reis. Além disso, é o único documento religioso antigo que continuou a existir completamente intacto.
O hebraico está relacionado com o aramaico, o siríaco e com idiomas modernos como o etíope e o árabe (antigo e moderno). Pertence a um grupo de línguas conhecido como línguas semíticas (assim designadas, porque a Escritura diz que eram faladas pelos descendentes do filho de Noé, Sem). O mais antigo idioma semítico conhecido é o acadiano, que foi escrito no sistema de sinais em “forma de cunha” ou cuneiforme. Os textos acadianos mais recentes foram escritos em tabuinhas de barro em cerca de 2400 a.C. O babilônio e o assírio são dialetos mais recentes que o acadiano; ambos influenciaram o desenvolvimento do hebraico. Pelo fato de os idiomas acadiano, babilônio e assírio terem sido todos usados na Mesopotâmia, eles são classificados como línguas “semíticas orientais”.
Parece que a evidência mais recente para as origens das línguas “semíticas ocidentais” é uma inscrição da antiga cidade de Ebla. Tratava-se de uma capital pouco conhecida de um estado semítico no que hoje é o Norte da Síria. As tabuinhas de Ebla são bilíngues, escritos em sumério e eblaíta. Os arqueólogos italianos que escavaram Ebla relataram que estas tabuinhas contêm vários nomes de pessoas e lugares mencionados no Livro de Gênesis. Algumas das tabuinhas foram datadas já do ano de 2400 a.C. Visto que o hebraico também era uma língua semítica ocidental, a publicação dos textos de Ebla pode lançar nova luz sobre muitas palavras e frases hebraicas mais antigas.
A série completa mais recente de textos pré-hebraicos vem da antiga cidade cananéia de Ugarite. Localizada em um agrupamento de colinas no Líbano meridional, Ugarite tem revelado textos que contêm informações detalhadas sobre a religião, poesia e comércio do povo cananeu. Os textos são datados entre 1800 a.C. e 1200 a.C. Estas tabuinhas contêm muitas palavras e frases que são quase idênticas às palavras encontradas na Bíblia hebraica. O dialeto ugarítico ilumina o desenvolvimento do antigo hebraico (ou paleo-hebraico). A estrutura poética do idioma ugarítico está refletida em muitas passagens do Antigo Testamento, como no “Cântico de Débora”, em Juízes 5. Os escribas de Ugarite escreveram numa escrita cuneiforme modificada que era virtualmente alfabética; esta escrita abriu caminho para o uso do sistema de escrita fenício mais simples.
Diversos textos de várias partes do Oriente Próximo contêm palavras e frases semíticas ocidentais. As mais importantes destas são as tabuinhas da antiga cidade egípcia de Amarna. Estas tabuinhas foram escritas pelos subgovernantes das colônias egípcias da Siria-Palestina e por seu senhor feudal, o Faraó. As tabuinhas dos príncipes secundários foram escritas em babilônio; mas quando o escriba do correspondente idioma não sabia a palavra babilônica adequada para expressar certa ideia, ele substituía por uma “glosa” cananéia. Estas glosas nos contam muito sobre as palavras e soletrações que eram usadas na Palestina durante o tempo em que o paleo-hebraico emergiu como língua distinta.
A língua hebraica entrou em existência provavelmente durante o período patriarcal, cerca de 2000 a.C. A língua foi convertida em escrita por volta de 1250 a.C., e a mais antiga inscrição hebraica existente data de aproximadamente 1000 a.C. Estas antigas inscrições foram esculpidas em pedra; os mais recentes rolos hebraicos conhecidos foram encontrados nas cavernas de Qumran, próximo ao mar Morto, e datam do século III a.C. Ainda que alguns textos hebraicos seculares tenham sobrevivido, a fonte primária para nosso conhecimento do hebraico clássico é o próprio Antigo Testamento.

B. A origem do sistema de escrita hebraica. A tradição grega assevera que os fenícios inventaram o alfabeto. De fato, isto é só parcialmente verdade, visto que o sistema de escrita fenício não era um alfabeto como conhecemos hoje. Era um sistema silabário simplificado — em outras palavras, seus diversos símbolos representam sílabas em vez de componentes vocais distintos. O sistema de escrita hebraico desenvolveu-se do sistema fenício.
O sistema de escrita hebraico foi mudando pouco a pouco no decorrer dos séculos. De 1000 a.C. a 200 a.C., foi usada uma escrita arredondada (antigo estilo fenício). Esta escrita foi usada pela última vez para copiar o texto bíblico e pode ser vista nos rolos do mar Morto. Mas depois que os judeus voltaram do cativeiro babilónico, eles passaram a usar a escrita quadrada do idioma aramaico que era a língua oficial do Império Persa. Os escribas judeus adotaram a caligrafia aramaica de livro, uma forma mais precisa de escrita. Quando Jesus mencionou o “jota” e o “til” da lei mosaica, Ele se referia aos manuscritos na escrita quadrada. A caligrafia de livro é usada em todas as edições impressas da Bíblia Hebraica.

C. História concisa da Bíblia Hebraica. Não há que duvidar que o texto da Bíblia Hebraica foi atualizado e revisado várias vezes na antiguidade, e houve mais de uma tradição textual. Muitas palavras arcaicas no Pentateuco sugerem que Moisés usou documentos cuneiformes antigos na compilação do seu relato da história. Os escribas da corte real sob os reinados de Davi e Salomão
provavelmente revisaram o texto e atualizaram expressões dúbias. Aparentemente certos livros históricos, como 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas, representam os anais oficiais do reino. Estes livros retratam a tradição histórica da classe sacerdotal.
É provável que a mensagem dos profetas foi escrita algum tempo depois que os profetas entregaram a mensagem. Há variedade de estilos de escrita entre os livros proféticos; e vários, como Amós e Oséias, parecem estar mais próximos à linguagem coloquial.
Admite-se que o texto do Antigo Testamento foi revisado novamente durante o tempo do rei Josias, depois que o livro da lei foi redescoberto (2 Reis 22—27; 2 Crônicas 24—35). Isto teria acontecido em cerca de 620 a.C. Os dois séculos seguintes, que trouxeram o cativeiro babilônico, foram os tempos mais momentosos na história de Israel. Quando os judeus começaram a reconstruir Jerusalém sob o governo de Esdras e Neemias, em 450 a.C., sua linguagem comum era a língua aramaica da corte persa. Esta língua tornou-se mais popular entre os judeus até que deslocou o hebraico como língua dominante do judaísmo na era cristã. Há evidência de que o texto do Antigo Testamento foi revisado mais uma vez nessa época.
Depois que os gregos subiram ao poder sob o domínio de Alexandre, o Grande, a preservação do hebraico tornou-se questão política; os partidos conservadores judaicos quiseram conservá-lo. Mas os judeus da Diáspora — aqueles que viviam fora da Palestina — dependiam de versões do texto bíblico em aramaico (chamadas Targuns) ou em grego (chamada Septuaginta).
Os Targuns e a Septuaginta foram traduzidos dos manuscritos hebraicos. Havia diferenças significativas entre estas versões, e os rabinos judeus empreenderam grandes esforços para explicar tais diferenças.
Depois que Jerusalém caiu diante do exército do general romano Tito, os estudiosos bíblicos judeus foram espalhados por todo o mundo antigo e o conhecimento do hebraico começou a declinar. De 200 d.C. até perto de 900 d.C., grupos de estudiosos procuraram inventar sistemas de marcas vocálicas (depois chamadas pontos) para ajudar os leitores judeus que já não falavam hebraico. Os estudiosos que fizeram este trabalho são chamados de massoretas, e a marca que inventaram é chamada de Massorá. O texto massorético que produziram representa as consoantes que tinham sido preservadas desde por volta de 100 a.C. (como está comprovado pelos rolos do mar Morto); mas as marcas vocálicas refletem o entendimento da língua hebraica em cerca de 300 d.C. O texto massorético dominou os estudos do Antigo Testamento na Idade Média e serviu como base para virtualmente todas as versões impressas da Bíblia Hebraica.
Infelizmente, não temos nenhum texto completo da Bíblia Hebraica que seja mais antiga que o século X d.C. O mais recente segmento completo do Antigo Testamento (os Profetas) é uma cópia que data de 895 d.C. Se bem que os rolos do mar Morto tenham fornecido livros inteiros, como Isaías, eles não contêm uma cópia completa do texto do Antigo Testamento. Portanto, ainda
temos de depender da longa tradição da erudição hebraica usada nas edições impressas da Bíblia hebraica.
A primeira edição completa impressa da Bíblia Hebraica foi preparada por Félix Pratensis e publicada por Daniel Bomberg, em Veneza, em 1516. Uma edição mais extensa da Bíblia Hebraica foi editada pelo estudioso judeu-cristão Jacob ben Chayyim, em 1524. Alguns estudiosos continuam usando o texto de ben Chayyim como a Bíblia hebraica impressa básica.

D. O hebraico do Antigo Testamento. O hebraico do Antigo Testamento não tem uma estrutura cuidada e concisa; o Antigo Testamento foi escrito ao longo de tamanho espaço de tempo que não se pode esperar ter uma tradição lingüística uniforme. De fato, o hebraico das três principais seções do Antigo Testamento varia consideravelmente. Estas três seções são conhecidas por Torá (A Lei), Nebi’im (Os Profetas) e Ketubim (Os Escritos). Além das diferenças linguísticas entre as seções principais, certos livros do Antigo Testamento possuem peculiaridades próprias.
Por exemplo, Jó e Salmos contêm palavras e frases muito antigas semelhantes ao ugarítico; Rute preserva algumas formas arcaicas da língua moabita; e 1 e 2 Samuel revelam a natureza áspera e bélica da linguagem coloquial da era de Salomão e Davi. À medida que Israel passava de uma confederação de tribos para um reino dinástico, a língua mudou da linguagem de pastores e comerciantes de caravana para a língua literária de uma população estabelecida. Enquanto os livros do Novo Testamento refletem um dialeto grego conforme foi usado por um período de cerca de 75 anos, o Antigo Testamento utiliza várias formas da língua hebraica à medida que foi evoluindo durante quase 2.000 anos. Certos textos — como a primeira narrativa do Livro de Êxodo e a última dos Salmos — foram escritos virtualmente em dois dialetos diferentes e deveriam ser estudados tendo isto em mente.

E. Características da língua hebraica. Pela razão de ser o hebraico uma língua semítica, sua estrutura e função são bastante diferentes das línguas indo-européias, como o francês, alemão, espanhol, português e inglês. Várias consoantes hebraicas não podem ser transformadas exatamente em letras portuguesas. Nossa transliteração das palavras hebraicas sugere que a língua soava muito áspera e tosca, mas provavelmente era muito melodiosa e bonita.
A maioria das palavras hebraicas é construída com base em raiz de três consoantes. A mesma raiz pode aparecer em um substantivo, um verbo, um adjetivo e um advérbio — todos com o mesmo significado básico. Por exemplo, ketãb é um substantivo hebraico que significa ‘livro”. Uma forma verbal, kātab, significa “escrever”. Há também o substantivo hebraico ketõbeth, que significa “decoração” ou “tatuagem”. Cada uma destas palavras repete o conjunto básico das  três consoantes e lhes dá uma semelhança de som que pareceria desajeitada em português. Soaria absurdo a um escritor português compor uma frase como esta: “O escritor escreveu a escrita escrita do escrito”. Mas este tipo de repetição seria muito comum no hebraico bíblico. Muitos textos do Antigo Testamento, como Gênesis 49 e Números 23, usam este tipo de repetição para enfatizar o significado das palavras.
O hebraico também difere de outras línguas indo-européias na variação da forma de uma única classe de palavra. Certas línguas indo-européias têm só uma forma de determinado substantivo ou verbo, enquanto que o hebraico pode ter duas ou mais formas da mesma classe de palavra básica. Por muitos séculos os estudiosos têm estudado estas formas menos comuns de palavras
hebraicas e desenvolvido vasta literatura sobre tais palavras. Qualquer estudo dos termos teológicos mais importantes do Antigo Testamento tem de levar em conta estes estudos.

F. A forma das palavras (morfologia). Em princípio, a palavra hebraica básica consiste em uma raiz de três consoantes e três vogais — duas internas e uma final (entretanto, a vogal final não é muitas vezes pronunciada). 
As formas diferentes das palavras hebraicas sempre mantêm as três consoantes nas mesmas posições relativas, mas eles mudam as vogais inseridas entre as consoantes. Por exemplo, kõteb é o particípio de kãtab. enquanto que kãtôb é o infinitivo.
Ampliando as formas verbais das palavras, os escritores hebraicos puderam desenvolver significados muito extensos e complexos. Por exemplo, acrescentando sílabas no começo da raiz de três consoantes, assim:

Raiz = KTB
yi + ketôb — ”que ele escreva”
we + kãtab — “e ele escreverá”

Às vezes, um escritor dobra uma consoante enquanto mantém as três consoantes básicas na mesma posição. Por exemplo, tomando a raiz de KTB e fazendo com que a palavra wayyketõb signifique “e ele foi levado a escrever”.
O escritor hebraico também podia acrescentar várias terminações ou sufixos diferentes para que um verbo básico produzisse uma cláusula inteira. Por exemplo, usando o verbo qãtal (que significa ‘‘matar”), ele podia desenvolver a palavra qetaltîhû (significando “eu o matei”). Estes exemplos enfatizam o fato de que o hebraico é um idioma silábico. Não há combinações consonantais únicas como ditongos (ou sons semivocálicos) como cl, gr, bl, como em nossa língua.

G. A ordem das palavras hebraicas. A ordem normal das palavras de uma oração verbal em uma passagem hebraica em narrativa ou prosa é:

Verbo — Objeto — Objeto Indireto ou Pronome — Sujeito 

É interessante notar que a ordem das palavras hebraicas para uma oração nominal pode corresponder a esta do português:

Sujeito — Verbo — Predicativo/Complemento Nominal

Os escritores hebraicos se afastavam do arranjo verbal em prol da ênfase. Contudo, uma oração hebraica raramente pode ser traduzida palavra por palavra, porque o resultado ficaria sem sentido. Ao longo dos séculos, os tradutores desenvolveram modos padronizados de expressar estas formas peculiares de pensamento semítico na língua indo-européia.

H. As palavras estrangeiras em hebraico. O Antigo Testamento usa palavras estrangeiras de vários modos, dependendo do contexto. Os nomes próprios acadianos aparecem muitas vezes nas narrativas patriarcais do Gênesis. Eis alguns exemplos:

(sumério-acadiano) Sumer = Sinar (hebraico)
(acadiano) Sharrukin = Ninrode (hebraico)

Vários termos egípcios aparecem na narrativa de José, da mesma maneira que termos babilónicos aparecem nos escritos de Isaías e Jeremias, e palavras persas no Livro de Daniel. Contudo, nenhuma destas palavras tem significado teológico. Há pouca evidência linguística de que os conceitos religiosos de Israel foram emprestados de fontes estrangeiras.
A maior incursão de uma língua estrangeira é o caso da língua aramaica que aparece em vários versículos isolados e alguns capítulos inteiros do Livro de Daniel. Como já comentamos, o aramaico se tornou a língua religiosa primária dos judeus que viviam fora da Palestina depois do cativeiro babilónico.

I. O texto escrito da Bíblia Hebraica. O texto hebraico do Antigo Testamento oferece dois problemas imediatos ao leitor não-iniciado. Primeiro, é o fato de que o hebraico é lido da direita para a esquerda, diferente das línguas indo-européias; cada caractere do texto e seus símbolos auxiliares é lido de cima para baixo, como também da direita para a esquerda. Segundo, é o fato de que o hebraico escrito é um sistema complicado de símbolos de sílabas, cada uma das quais tendo três componentes.
O primeiro componente é o sinal para a própria consoante. Alguns dos sinais consonantais menos frequentes simbolizam sons de vogal. (Estas letras são o álefe [que indica o som a longo], o vau [que indica o som u longo] e o yod [que indica o som “i” — como em “vi”].) O segundo componente é o padrão de pontos vocálicos. O terceiro componente é o padrão de cancelamentos, que foram acrescentados durante a Idade Média para ajudar os chantres (os cantores solistas de uma sinagoga) a cantar o texto. Requer-se um pouco de prática antes que a pessoa possa ler o texto hebraico que usa todos os três componentes. A ilustração que se segue mostra a direção e sequência para a leitura do texto. (Os cancelamentos foram omitidos.)


TRANSLITERAÇÃO: ’asherê hã’ish 'asher

Os pontos vocálicos específicos e sua sequência dentro da palavra indicam a força ou acentuação a ser dada a cada sílaba da palavra. Tradições diferentes dentro do judaísmo indicam maneiras diferentes de pronunciar a mesma palavra hebraica, e os pontos vocálicos de um determinado manuscrito vão refletir a pronunciação usada pelos escribas que copiaram o manuscrito.
Muitos padrões de fala eslavos e espanhóis entraram furtivamente nos manuscritos hebraicos medievais, por causa da associação dos judeus com as culturas eslavas e espanholas durante a Idade Média. Porém, o uso da língua hebraica no Israel moderno está tendendo a unificar a pronunciação do hebraico.
A tabela a seguir indica as transliterações aceitas para a fonte hebraica pela maioria dos estudiosos bíblicos de hoje. E o sistema padronizado, desenvolvido pelo Journal of Biblical Literature, para uso na escrita e instrução da língua.




J. O significado das palavras hebraicas. Desde a fundação da igreja, os cristãos têm estuda do o idioma hebraico com variados graus de intensidade. Durante a era da Igreja Apostólica e Primitiva (40-150 d.C.), os cristãos tiveram grande interesse no idioma hebraico. Por conseguinte, dependiam mais acentuadamente da Septuaginta em grego para ler o Antigo Testamento. No princípio da Idade Média, Jerônimo teve de empregar estudiosos judeus para ajudá-lo a traduzir a versão oficial do Antigo Testamento da Vulgata em latim. Havia poucos cristãos interessados no idioma hebraico nos tempos medievais. No século XVI, certo estudioso alemão católico romano chamado Johannes Reuchlin estudou hebraico com um rabino judeu e começou a escrever livros introdutórios em latim sobre hebraico para estudantes cristãos. Ele também compilou um pequeno dicionário hebraico-latim. O trabalho de Reuchlin despertou interesse no hebraico entre os estudiosos cristãos, fato que
continua até nossos dias. (As sinagogas judaicas tinham passado adiante o significado do texto durante séculos e dado pouca atenção à mecânica do próprio idioma hebraico.) 
Comparando as línguas acadiana, ugarítica, aramaica e hebraica, os estudiosos modernos conseguiram entender o significado das palavras hebraicas. Aqui estão algumas das chaves que eles descobriram:

1. Palavras cognatas. Palavras estrangeiras que têm sons ou construções similares às palavras hebraicas são chamadas palavras cognatas. Pelo motivo de as palavras de diferentes línguas semíticas terem sua base na mesma raiz de três consoantes, os cognatos são abundantes. Em tempos passados, estes cognatos deram lugar a “etimologia folclórica” — interpretação não erudita de palavras baseada no folclore e na tradição. Com frequência estas etimologias folclóricas eram usadas na interpretação do Antigo Testamento. Contudo, os termos que são cognatos filológicos (relacionados à forma) não são necessariamente cognatos semânticos (relacionados ao significado). Um bom exemplo é a palavra hebraica sar. que significa “príncipe”. Esta mesma palavra é usada em outras línguas semíticas com o significado de “rei”.
Durante séculos, os estudantes europeus de hebraico usaram os cognatos filológicos árabes para decifrar o significado de palavras hebraicas obscuras. Este método incerto é usado por muitos dos dicionários e léxicos mais antigos.

2. O significado do contexto. E frequente dizer que o melhor comentário da Escritura é a própria Escritura. Em nenhuma situação isso é mais verdadeiro do que no estudo das palavras hebraicas. O melhor método para determinar o significado de qualquer palavra hebraica é estudar o contexto no qual ela aparece. Se aparece em muitos contextos diferentes, então o significado da palavra pode ser encontrado com mais precisão. Para as palavras que aparecem com muito pouca frequência (quatro vezes ou menos) os textos hebraicos não bíblicos ou outros textos semíticos podem nos ajudar a estabelecer o significado da palavra.
Há contudo, uma precaução a tomar: Nunca é sensato usar uma palavra obscura para tentar determinar o significado de outra palavra obscura. As palavras mais difíceis são as que só ocorrem uma vez no texto do Antigo Testamento: estas são chamadas de hapax legomena (em grego, “lidas uma vez”. Afortunadamente, todas as palavras hebraicas de significado teológico ocorrem com bastante frequência.

3. paralelismo poético. Um terço completo do Antigo Testamento é poesia. Esta quantidade de texto é igual ao Novo Testamento inteiro. Os tradutores tenderam a ignorar a estrutura poética de longas passagens do Antigo Testamento, como Isaías 40 a 66 e todo o Livro de Jó; mas as complexidades da poesia hebraica são vitais para a nossa compreensão do Antigo Testamento. Isto pode ser visto estudando uma versão moderna da Bíblia que imprime as passagens poéticas como tais. Vários versículos dos Salmos ilustram a estrutura subjacente da poesia hebraica.
Note que não há ritmo nem métrica na poesia hebraica, ao contrário da maioria da poesia portuguesa. A poesia hebraica repete as ideias ou a relação das ideias em linhas sucessivas. Eis um exemplo:

(I) Engrandecei ao SENHOR comigo,
(II) e exaltemos o seu nome juntos.

Observe que virtualmente cada classe de palavra na Linha I pode ser substituída por seu equivalente na Linha II. Os estudiosos designam as palavras individuais na Linha I (ou hemistíquio I) como palavras “A” e as palavras da Linha II (ou hemistiquio II) de palavras “B”. Assim percebemos o padrão nestas linhas (levemente adaptadas) do Salmo 34.3:

Hemistiquio I: Engrandecei A ao SENHORA comigo, A
Hemistiquio II: e exaltemosB o seu nomeB juntos.B

Como se pode ver prontamente, a palavra “A” pode ser substituída pelas palavra “B” sem mudar o significado da linha, e o contrário também é verdade. Esta característica da poesia hebraica é chamada de paralelismo. Nos estudos eruditos da poesia hebraica, as palavras pares numa estrutura paralela são marcadas com barras paralelas inclinadas para mostrar a qual palavra ocorre normalmente primeiro — quer dizer, a palavra “A”—, b) o fato de as duas palavras formarem um par paralelo e c) qual palavra é em geral a segunda ou a “B”. Podemos mostrar o Salmo 34.3 desta maneira:

Engrandecei // exaltemos; ao SENHOR // o seu nome; comigo //juntos,

Este Dicionário Expositivo cita tais pares, porque indicam relações importantes no significado. Muitos pares são usados inúmeras vezes, quase como sinônimos. Assim o uso da palavra hebraica na poesia torna-se ferramenta muito valiosa para a nossa compreensão do seu significado. A maioria dos termos teológicos importantes, inclusive os nomes e títulos de Deus, encontrase nestes pares poéticos.

K. Teorias de tradução. As teorias de tradução afetam grandemente nossa interpretação das palavras hebraicas. Podemos descrever as atuais teorias dominantes de tradução como segue:

1. O método da equivalência direta. Este método presume que se encontrará somente uma palavra portuguesa para representar cada palavra hebraica que aparece no texto do Antigo Testamento. Considerando que algumas palavras hebraicas não têm equivalente em uma palavra em português, elas são simplesmente transliteradas (transformadas em caracteres portugueses).
Neste caso, o leitor deve ser instruído sobre o que o termo transliterado realmente significa. Este método era usado nas traduções mais antigas do Novo Testamento, que tentavam trazer os equivalentes latinos das palavras gregas diretamente para o português. Foi assim que as primeiras versões adotaram grande quantidade de terminologia teológica latina, como justificação, santificação e concupiscência.

2. O método histórico-linguístico. Este método procura encontrar um número limitado de termos em português que expressem adequadamente o significado de um termo hebraico em particular. Um estudioso que usa este método estuda o registro histórico de como a palavra foi usada e dá preferência ao seu significado mais frequente no contexto. Este método foi usado na preparação do Dicionário Expositivo.

3. método da equivalência dinâmica. Este método não procura fazer uso consistente de uma palavra portuguesa por uma palavra hebraica específica. Ao invés disso, esforça-se por mostrar impulso ou ênfase de uma palavra hebraica em cada contexto específico. Assim, proporciona uma tradução muito livre e coloquial de passagens do Antigo Testamento. Isto permite que os leitores leigos obtenham o âmago real do significado de uma passagem em particular, mas toma o  estudo das palavras bíblicas praticamente impossível. Por exemplo, uma comparação entre A Bíblia Viva e a Almeida, Revista e Corrigida (ARC) mostrará a diferença nos métodos de tradução. A Bíblia Viva usa muitas palavras mais específicas para refletir as sutis acepções no texto hebraico, tomando impossível traçar como determinada palavra hebraica foi usada em contextos diferentes.
Este Dicionário Expositivo procura mostrar os diferentes métodos de tradução indicando os diferentes significados de uma palavra hebraica dada por várias versões.

Fonte VINE, W., E., e UNGER, Merril, F., e WHITE, Jr. Dicionário Vine. Rio de Janeiro : CPAD, 2003.