sexta-feira, 27 de julho de 2012

Gleason L. Archer - A Inspiração do Antigo Testamento (Conclusão)



 (Parte 1) (Conclusão)
Obs. De muita relevância é refletirmos sobre as considerações e os perigos adotados pelo ponto de vista "Sub-Bíblicos de Inspiração", aja em vista a situação de muito seminários teológicos brasileiros.

O Doutrina da Inspiração Afirmada pelas próprias Escrituras


Reivindica a Bíblia infalibilidade para si mesma? Às vezes tem sido levantado o argumento de que as próprias Escrituras não reivindicam sua própria infalibilidade. Mas a investigação cuidadosa demonstra que quando o assunto é ventilado assevera-se o fato de sua absoluta autoridade como sendo a infalível Palavra de Deus.


Mateus 5:18: “Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i (a letra menor do alfabeto hebraico) ou um til (um traço que faz a distinção entre certas letras hebraicas) jamais passará da lei (isto é, o Antigo Testamento) até que tudo se cumpra” — palavras de Cristo. Isto indica que não somente os pensamentos transmitidos pelas Escrituras, mas as próprias palavras individuais, como veículos válidos destes pensamentos, e conforme sua própria soletração, são dotadas de verdade infalível, e seguramente serão cumpridas e realizadas.

João 10:35: “...ea Escritura não pode falhar”, tem as mesmas implicações do versículo supra citado. 2 Timóteo 3:16: “Toda Escritura é inspirada por Deus (theopneustos) e útil para o ensino”. Do contexto do Novo Testamento pode ser facilmente estabelecido que a palavra “escritura” (graphê) se refere ao Cânon inteiro dos trinta e nove livros do Antigo Testamento, conforme hoje os temos em mãos. 2 Pedro 3:16 dá a entender que as Epístolas neotestamentárias de Paulo também gozam da mesma situação de Escrituras inspiradas (graphai).

Hebreus 1:1,2: “Havendo Deus ... falado... pelos profetas... nos falou pelo Filho”. Estas palavras reivindicam para os escritos dos profetas do Antigo Testamento a mesma infalibilidade que pertence às mensagens do próprio Cristo, registradas no Novo Testamento.

1             Pedro 1:10,11: “Foi a respeito desta salvação que os profetas (do Antigo Testamento) indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam”. Está implícito aqui que o Espírito Santo estava nos autores do Antigo Testamento, e que Ele os guiou para que compusessem palavras de verdade infalível cujo cumprimento era garantido, ainda que os autores humanos não entendessem plenamente tudo aquilo que as palavras divinamente orientadas realmente significassem. Por causa de versículos como estes, precisamos, ao interpretar as Escrituras, procurar estabelecer não somente a intenção do autor humano que escreveu as palavras, mas também (e mais importante) a intenção do Autor divino que orientou a composição das mesmas.

2             Pedro 1:21: “Nunca jamais qualquer profecia (as Escrituras proféticas do Antigo Testamento) foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus movidos (literalmente, levados adiante, como a nau à vela é levada pelos ventos) pelo Espírito Santo”. Naquilo que falavam (conforme está registrado por escrito), estes autores do Antigo Testamento que profetizavam sobre Cristo, foram “levados pela correnteza” à verdade infalível, verdade que não se podia sujeitar a mera interpretação particular (v. 20).

Todas essas passagens vão formando a doutrina da inspiração: que a exatidão é inerente em cada parte do Antigo Testamento e também do Novo Testamento, de maneira que, como um todo, e em todas as suas partes, a Bíblia é infalível quanto à sua verdade, e final quanto à sua autoridade. Esta exatidão se estende até assuntos de história e de ciência, e não só à teologia e à ética. Alguns estudiosos, tais como Henry P. Smith e Charles A. Briggs, procuraram fazer uma distinção entre estes dois tipos de verdade, dando vazão à possibilidade de haver falsidade inerente em assuntos de mera história ou ciência. Há duas objeções fatais a esta posição.

Em primeiro lugar, o Novo Testamento não admite semelhante distinção: a historicidade de Adão e Eva se implica em 1 Timóteo 2:13,14, (senão, o comentário de Paulo seria totalmente irrelevante), como também em 1 Coríntios 11:8,9; a experiência literal de Jonas, que ficou três dias no estômago do peixe grande é absolutamente essencial, se tem que servir como analogia verídica dos três dias que Cristo passou no túmulo, Mt 12:40. É impossível rejeitar a historicidade destes dois episódios cuja veracidade tem sido frequentemente contestada, sem rejeitar a autoridade do Cristo dos Evangelhos e do Apóstolo Paulo nas Epístolas. Em segundo lugar, nem sempre é possível fazer uma nítida separação entre teologia e ética, e entre história e ciência. Há casos cruciais que envolvem ambos estes tipos de verdade, como é o caso do Adão literal e histórico (pois o argumento teológico inteiro de Rm 5:14-19 depende da doutrina de ser Adão o pai da raça humana inteira).

Não se pode conceder a presença de erros em matéria de história e de ciência sem acabar aceitando que há falsidade em matéria de doutrina.

Pontos de Vista Sub-Bíblicos de Inspiração

As pessoas que têm tendências a uma abordagem neo-ortodoxa ao tratar da inspiração das Escrituras usualmente (como é o caso de H. H. Rowley de Manchester) colocam a assim-chamada “mente de Cristo” como padrão de distinção entre verdades e erros de doutrina na Bíblia. Por exemplo, dizem que quando Josué e os israelitas mataram a população inteira de Jericó, era por causa das suas idéias primitivas ou selvagens de justiça, e não por causa do mandamento explícito de Deus conforme se registra em Deuteronômio 20:16-18. Declarações ou julgamentos atribuídos a Deus no Antigo Testamento, mas que parecem por demais severos quando se comparam com os padrões de mansidão, paciência ou amor de Cristo conforme se registram no Novo Testamento, devem ser rejeitados (segundo eles) como sendo meras invenções humanas compostas pelos israelitas no seu estágio primitivo de desenvolvimento religioso. O critério da verdade é a “mente de Cristo”.

Não obstante, a investigação demonstrará que muitas das declarações de Cristo registradas no Novo Testamento entram em choque com esta suposta “mente de Cristo”, de maneira assustadora. Nota-se, por exemplo, Mateus 23:33: “Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?” Outra vez, em Mateus 25:41: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Não temos nenhum outro relatório acreditado daquilo que realmente era a mente de Cristo a não ser suas palavras registradas nos Evangelhos. É fatalmente inconsistente estabelecer um conceito filosófico de qual seria realmente o ponto de vista de Cristo, na base de algumas das suas declarações registradas, e depois rejeitar a autenticidade de outras declarações registradas nas mesmas fontes, simplesmente porque pleiteiam com as preferências pessoais de quem está fazendo este juízo. Tal procedimento vem a ser realmente a imposição de julgamentos humanos sobre a Palavra de Deus escrita, aceitando como verdadeira somente aquela porção da Palavra que a mente humana acha aceitável. Mas já temos mencionado que o raciocínio humano é um elemento inadequado e desacreditado quanto a atingir conhecimentos religiosos verdadeiros. A Bíblia sempre deve emitir juízos sobre o homem; o homem nunca poderá julgar a Bíblia. Seus poderes de raciocínio devem ser empregados na tarefa de interpretar consistentemente a mensagem da Bíblia, para garantir sua própria compreensão daquilo que Deus quer dizer através das palavras da Escritura. Mas nunca poderia emitir seu juízo contrário aos ensinamentos claros das Escrituras, estabelecidos pela exegese; se assim faz, rejeita ao mesmo tempo a autoridade das Escrituras como um todo.

Mais tipicamente neo-ortodoxo é o ponto de vista que considera a Bíblia como sendo algo menos do que a Palavra de Deus escrita; seria meramente uma testemunha à Palavra de Deus. Segundo este ponto de vista, a Palavra de Deus seria um princípio dinâmico que opera somente quando há um encontro vivo ou “existencial” entre o crente e Deus. Deus lhe fala poderosamente através das páginas das Escrituras Sagradas, e estabelece um relacionamento pessoal, mais do que instilar uma verdade proposicional na mente do crente.

“Proposicional” aqui significa o tipo de verdade que pode ser declarada em proposições, assim como: “Deus é um Espírito eterno”. Proposições podem ser assimiladas como meros objetos de conhecimento, como fórmulas matemáticas, mas a verdade divina, segundo se argumenta, nunca pode ser assimilada pela mente humana. A verdade divina chega ao homem num encontro íntimo de “Eu-Tu”; é como uma corrente elétrica com seu polo positivo e seu polo negativo como sendo condições para sua existência). Sendo que o texto bíblico foi escrito por autores humanos, e reconhecendo-se que todos os homens são pecaminosos e sujeitos ao erro, deve haver, alegam, erro no texto bíblico. Mas, diz o argumento, o Deus vivo tem a capacidade de falar, mesmo através deste texto parcialmente errôneo, para atrair os crentes para um relacionamento vital com Ele, num encontro salvador. Tal ponto de vista da Bíblia deixa lugar para todos os tipos de erros científicos e históricos, e para todos os juízos adversos da alta crítica racionalista contra a autenticidade dos escritos de Moisés, Isaías, Daniel e todos os demais.

Todas essas descobertas da crítica seriam sem dúvida verdadeiras como um relatório exato da origem humana da Bíblia. Apesar disso, Deus resolveu que estas Escrituras, eivadas de erros, seriam a testemunha única autoritativa da Sua revelação, e Ele pode usá-las de maneira dinâmica, para “salvar” os homens.
Assim, nos seus esforços de evitar o efeito dos assaltos da alta crítica, contra a veracidade do registro bíblico, e de salvar o significado da mensagem cristã no meio das objeções científicas contra aquilo que é sobrenatural, os teólogos do movimento neo-ortodoxo se refugiaram num ponto de vista paradoxal da natureza da própria revelação. Sustentam a posição que, pela sua própria natureza, a revelação divina não pode ser registrada em Escrituras. Logo que fica aprisionada em palavras, especialmente palavras que demonstram proposições acerca de Deus e de verdades espirituais, torna-se um objeto das mentes humanas e dos seus poderes cognitivos. Assim, cai sob o controle do homem, e se acha “aprisionada dentro das capas da palavra escrita” A revelação, portanto, não deve ser equacionada à doutrinas reveladas ou a proposições teológicas; muito ao contrário, consiste num encontro direto entre Deus e o homem, como um sujeito se confrontando com outro sujeito. A revelação teria uma analogia com um encontro pessoal entre seres humanos, que se experimentam mutuamente como personalidades, mais do que uma lista de estatísticas ou itens de informações num cartão de identificação.

Dentro deste ponto de vista, pode até se argumentar que nem é matéria de importância se as narrativas registradas nas Escrituras são verazes ou não. Por exemplo, o registro do nascimento virginal, ou da ressurreição corpórea de Cristo, que há nos Evangelhos, muito bem pode deixar de ser fato histórico (pois a teoria científica moderna não deixa vazão para tais acontecimentos miraculosos), mas isto não faria nenhuma diferença significante.

Através destas lendas piedosas da Igreja primitiva podemos fazer nosso encontro com Deus e com as realidades supra-históricas para as quais estas histórias apontam. Depender da exatidão infalível do registro escrito da Bíblia seria, segundo esta teoria, um obstáculo à verdadeira fé. O dogma das Escrituras infalíveis operaria como uma muleta malsã para depender dela, pois a verdadeira fé voaria acima dos manifestos erros da Bíblia, para as alturas da verdade transcendental da qual a Bíblia dá testemunho — uma verdade disponível ao crente na medida de haver um encontro pessoal com o Deus vivo.

Este ponto de vista neo-ortodoxo se confronta, porém, com uma multidão de dificuldades lógicas. Coloca a autoridade das Escrituras no nível de uma fé que não se pode averiguar. Como poderemos ter a certeza que Deus não nos falou através da narrativa do Alcorão (demonstravelmente cheia de erros e anacronismos), ou do Livro dos Mortos do Egito, ou das Vedas hindus? Por que só da Bíblia? A verificação objetiva não somente se rejeita como sendo impossível, mas o próprio desejo da verificação seria condenado como sendo repreensivelmente terreno e racionalístico. É necessário simplesmente crer! Crer em quem ou em quê? Bem, nas Escrituras, é claro. Mas, lastimavelmente, as próprias Escrituras parecem ser totalmente ignorantes desta maneira dos neo-ortodoxos de se tratar de verdades religiosas. A Bíblia positivamente formiga com verdades proposicionais acerca de Deus, verdades que podem ser expressas em declarações credais que a mente humana pode captar intelectualmente. Talvez possa ser dada uma explicação que diz que isto resulta da falibilidade e fraqueza dos homens pecaminosos que escreveram a Bíblia. Mas como é que se chega, além da Bíblia, àquela verdade mais rarefeita, inefável, supra-histórica, de encontros pessoais, que, segundo dizem, jaz além? Bem, por meio de um encontro direto com Deus, é claro! Sim, mas por meio de qual destes encontros? O de Barth? O de Brunner? O de Niebuhr? O de Tillich? Estes gigantes do movimento neo-ortodoxo conservam entre si fortes diferenças de opinião em assuntos teológicos. Alguns, como Barth, chegam a discordar com suas próprias opiniões de década em década. É difícil perceber como a eterna e imutável verdade de Deus pode ser validamente interpretada no célebre Comentário sobre Romanos, quando os pontos de vista de Barth são modificados tão marcadamente como é o caso entre cada edição desta obra de Barth.

Quando se enfrenta os fatos, então, este ponto de vista neoortodoxo das Escrituras levanta dificuldades muito mais sérias do que aquelas que quer solucionar. É virtualmente impossível aos teólogos de Crise fazer qualquer afirmação sobre Deus, a fé ou qualquer outro aspecto de verdade religiosa que não depende em última análise das declarações proposicionais da Palavra de Deus escrita.

Por exemplo, citemos a máxima de William Temple no assunto das Escrituras Sagradas: “Nenhuma só frase pode ser citada como tendo a autoridade de um pronunciamento distinto do Deus santo”.[1]  Mas como é que o Arcebispo Temple sabe que existe um único Deus, e não uma plêiade de deuses, conforme ensinam as religiões pagãs?

Ou nenhum deus, conforme o marxismo nos ensina? Só poderia saber isto, baseado na autoridade da Bíblia escrita, ou de uma Igreja confessante, que demonstravelmente tem confiado na autoridade infalível da Bíblia. Como, igualmente, pode saber que o Deus único é “santo”? Só porque a Bíblia diz isto d’Ele — uma afirmação proposicional! Removendo-se a autoridade de um registro escrito da revelação divina, e as declarações de Temple ou de Brunner ou de qualquer outro ensinador religioso acerca de verdades religiosas seriam reduzidas à condição de meras conjeturas, completamente destituídas de autoridade, alicerçadas nas mesmas bases questionáveis de todas as outras opiniões meramente humanas. Como poderíamos saber que a fé é um princípio importante e salvador, conforme insistem os ensinadores neo-ortodoxos? É só porque assim se nos ensina na Palavra de Deus escrita. Se não fosse assim, haveria a probabilidade de haver a salvação somente através das boas obras, conforme crê a maior parte do mundo não-cristão.

Até a própria possibilidade de um encontro entre Deus e o homem só é garantida para nós pelas afirmações das Escrituras, e seus inúmeros relatórios de tais encontros. Senão, a “experiência” inteira de encontros divino-humanos pode ser simplesmente um assunto de alucinações e de auto-sugestões, destituídas de qualquer realidade metafísica.

Fica assim demonstrado que cada afirmação religiosa dos aderentes desta escola, depende, em última análise, da veracidade da Palavra de Deus escrita, as Escrituras hebreo-cristãs. Se estas são errôneas em qualquer das suas porções, pode haver erros nas outras porções; não se poderia depositar nelas confiança alguma, nem mesmo as asseverações que os teólogos neo-ortodoxos derivaram delas — e de fato, todas as suas declarações doutrinárias acerca de Deus, de encontros, de fé, foram derivadas destas Escrituras. Em outras palavras, se a autoridade da Bíblia escrita não merece confiança, então nem o discernimento da teologia da Crise tem mais valor do que qualquer mera opinião humana — a não ser que porventura estes teólogos gozem, nas suas próprias pessoas, do próprio atributo de infalibilidade que querem negar no que diz respeito às Escrituras.

Isto nos leva para a questão da peculiaridade da fé neo-ortodoxa, aquela fé que levanta vôo até Deus sem os impecilhos do dogma da infalibilidade das Escrituras. O que é a fé, senão confiar em algo ou em alguém? Em que ou em quem descansa esta fé tão exaltada dos neo-ortodoxos? Ostensivamente esta fé é dedicada a Deus, ou nas introspecções derivadas da experiência religiosa quando o crente tem seu encontro com Deus, seja através das páginas das Escrituras, seja nalgum outro contexto. Mas como é que se julga a validez destas introspecções? Sendo que não podem ser averiguadas ao apelar para qualquer autoridade objetiva (seja as Escrituras, seja qualquer ensinador ou igreja infalível), o crente não pode apelar à nenhuma autoridade a não ser sua própria. Nem sequer pode ter certeza que Deus existe, se a Bíblia não é uma testemunha objetiva de confiança; só pode confiar na sua própria

pessoa. Em outras palavras, o tipo de fé neo-ortodoxa é, em última análise, fé no próprio homem e não em Deus; isto é, a fé do crente se coloca nele mesmo. Sendo que a Bíblia não merece a confiança dele, e muito menos a autoridade humana (pois a própria humanidade implica em falibilidade), então o crente neo-ortodoxo não pode saber nada além da sua própria opinião, e esperar que esta seja correta. Senão, ele está perdido sem a possibilidade de recuperação. Está iludindo-se a si mesmo ao supor que sua fé depende de um Deus fora dele mesmo; destituído de qualquer autoridade objetiva, ele está à mercê de suas próprias impressões e opiniões subjetivas. Nunca pode ter certeza de que suas revelações não são meras alucinações.

Enfrentando as Dificuldades na Bíblia

Necessário é reconhecer que o texto das Escrituras, conforme foi transmitido até nós, contém dificuldades ocasionais que aparentemente desafiam a doutrina da infalibilidade da Bíblia. Algumas destas dificuldades se resolvem pelo emprego correto da ciência bíblica. Outras, tais como discrepâncias nas estatísticas e na soletração de nomes, exigem uma emenda textual que vai além dos dados disponíveis da crítica textual. Outras, ainda, são dificuldades lógicas, tais como o que parece ser a aprovação dada em Juizes 11 ao sacrifício da filha de Jefté, quando Deuteronômio 12:31 proíbe qualquer sacrifício humano em Israel.

Há dois métodos possíveis para se enfrentar estes problemas.

1) É possível conservar reservas quanto às reivindicações da própria Bíblia no que diz respeito à sua infalibilidade, até que cada dificuldade seja esclarecida. Cada vez que surge uma nova dificuldade, a Bíblia é degradada a uma situação de suspeita, até que o assunto possa ser esclarecido de maneira satisfatória. No ínterim, o crente bíblico fica ansioso, em doloroso suspense e angústia de alma, até que, mais uma vez, a Bíblia fica inocentada da nova acusação que surgiu contra ela. 2) É igualmente possível, mesmo quando confrontado por aquilo que parece ser uma discrepância, conservar a fé na infalibilidade do registro bíblico, esperando com paciência a vindicação que investigações posteriores não deixariam de suprir. O crente, convicto de que só a origem divina explica o fenômeno das Escrituras, toma posição ao lado do Jesus de Nazaré, ao crer na infalibilidade da Palavra de Deus escrita, e espera confiantemente num esclarecimento final de todos os problemas que possam surgir.

As pessoas que se atêm a este segundo modo de agir talvez possam ser acusadas de subjetivismo ilógico, por agirem na base de uma convicção a priori. Mas esta acusação não é bem fundamentada, pois não se pode nem começar a estudar a Bíblia sem pro ceder fundamentado nalguma de duas suposições a priori. É necessário começar com a suposição a priori, ou que a Bíblia é um registro falível, ou que é infalível. Não há nenhum meio termo; não se pode ficar numa situação neutra de suspense, insistindo: “Deixe que a Bíblia fale por si mesma”. Em primeiro lugar, precisamos averiguar que tipo de livro é este que tem que falar. É a infalível Palavra de Deus, ou é o produto do homem, passível de erros, possuindo elementos de verdade divina misturados com erros humanos?

O procedimento mais lógico é determinar desde o princípio que tipo de livro é a Bíblia. Se apresenta dados tais que obrigam a um reconhecimento que só pode ser de origem divina — e de fato, a Bíblia apresenta tais dados em abundância — então o único caminho razoável, seria tomar a sério as próprias reivindicações de infalibilidade que a Bíblia registra. Se as Escrituras constituem uma autêntica auto-revelação de Deus, as discrepâncias que aparecem precisam ser reconhecidas como sendo só aparentes, e não reais. Ao se conseguir todos os fatos, comprovar-se-á que os alegados erros não são uma realidade concreta.

Deve ser mencionado que tal procedimento comumente se segue no assunto das relações humanas, sem que haja quem o critique severamente. Por exemplo, um marido que chegou à conclusão que sua esposa é uma mulher leal e virtuosa, será perseverante em recusar a ter suspeitas contra ela, mesmo se ela tenha sido vista saindo com algum outro homem. Sem tirar conclusões precipitadas, simplesmente aguardará mais informações que esclarecerão a situação e explicarão de maneira satisfatória sua associação com o referido homem. Ele seria estulto e indigno se abandonasse sua convicção da integridade dela até que tenha sido vindicada sua atuação. Só uma pressuposição desde o início, de de que ela é inconstante e indigna de confiança é que justificaria tal reação da parte dele.

Da mesma maneira, quem está convicto da autoridade divina da Bíblia seria estulto e indigno se fosse questionar sua infalibili- dade até que cada alegação contra ela que surge tenha sido esclarecida. Isto, longe de ser o procedimento científico e objetivo que muitos alegam que é, não é nada mais do que uma política de mudanças ilógicas de um a priori a outro, com vacilações próprias de mentes fracas. Uma contradição genuína e completa nas Escrituras (mormente se pudesse ser demonstrada nos autógrafos originais), seria justo motivo para se abandonar a fé na infalibilidade das Escrituras; mas até que isto tenha sido comprovado, ou, de acordo com as leis da evidência legal, algum erro sério de história ou ciência tenha sido demonstrado, o crente na Bíblia não precisa sentir embaraço ao conservar a suposição que é a infalível Palavra de Deus. É altamente significativo que nenhum erro deste tipo tenha sido comprovado até agora, de maneira que satisfizesse a um foro de justiça, embora que várias tentativas neste sentido tenham sido feitas.[2]

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.

[1] William Temple, Nature, Man and God — “A Natureza, o Homem e Deus”. (1953), p. 350.
[2] Cf. Harry Rimmer, The Lawsuit against the Bible — “O Processo Contra a Bíblia” (1940). Para mais matéria no assunto das dificuldades na Bíblia, consulte a defesa firme da Bíblia, quanto à sua autoridade e infalibilidade, em Wick Broomall, Biblical Criticism (1957), págs. 11-84.

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