1 de junho de 2012

O Cânon dos Judeus (Parte 2)



Por Willuan Webster

O número de livros no Cânon hebraico

A Bíblia hebraica não estava apenas estruturada de uma forma definida mas os livros que compunham o cânon estavam limitados a um número específico de ou vinte e dois ou vinte e quatro dependendo de como os livros estivessem organizados. Algumas vezes Rute era anexado a Juízes e Lamentações a Jeremias, fazendo o número ser vinte e dois. Quando listados separadamente o número aumentava para vinte e quatro. Esta numeração é encontrada em vários escritos históricos. Uma das testemunhas mais antigas do número vinte e dois é Josefo:


Pois não temos uma multidão incontável de livros entre nós, discordando de e contradizendo uns aos outros, [como os gregos possuem,] mas somente vinte e dois livros.13

Josefo não somente deu o número preciso de livros canônicos mas declarou que a nação judaica reconhecia só estes vinte e dois como canônicos. O que é importante sobre seu testemunho é que ele usou a versão da Septuaginta do Velho Testamento. Assim, mesmo que ele tivesse usado a versão grega, ele citou o cânon limitado dos hebreus. E como mencionado antes, Filo também usou a Septuaginta e não incluiu os Apócrifos como Escrituras canônicas autoritativas. Estes casos demonstram que não se segue que aqueles que usaram a Septuaginta aceitaram um cânon expandido, em particular, Jesus e os apóstolos. Ryle comenta sobre a importância do testemunho de Josefo:

Nós devemos lembrar que Josefo escreve como o porta-voz de seu povo, para defender a exatidão e suficiência de suas Escrituras, em comparação com as recentes e contraditórias histórias dos escritores gregos... Nesta controvérsia ele defende o julgamento de seu povo. Ele não expressa meramente uma opinião pessoal, ele afirma representar seus conterrâneos... Como então ele descreve os Livros Sagrados? Ele menciona seu número; ele fala deles como consistindo de vinte e dois livros. Ele os considera como uma coleção nacional bem definida. Ou seja, Josefo e seus conterrâneos, no início do segundo século D.C. Reconheciam uma coleção do que ele, pelo menos, chamava de vinte e dois livros, e não mais do que o Cânon das Escrituras Sagradas. Seria profanação pensar em aumentar, diminuir ou alterar este Cânon de qualquer forma.14

Alguns Pais da Igreja também testificaram a numeração tradicional judaica do cânon. Orígenes, que teve contato com judeus, escreveu que o número dos livros canônicos passados por eles era de vinte e dois15. Outros pais que listaram o número de livros como vinte e dois foram Hilário de Poitiers16, Cirilo de Jerusalém17, Atanásio18, Epifânio19, que era nativo da Palestina, Gregório de Nazianzo20, Basílio o Grande21, e Rufino22, enquanto que Jerônimo23 deu numerações de tanto vinte e dois quanto vinte e quatro. O trabalho pseudoepígrafo, Jubileus, encontrado entre a comunidade de Essênios em Qumran, também numerou os livros do Velho Testamento e foi provavelmente a testemunha mais antiga a numerar os livros que constituíam o cânon hebraico, predatando Josefo. Lee McDonald explica a importância desta obra:

Em uma edição posterior do antigo livro conhecido como Jubileus, há uma referência a uma coleção de vinte e dois livros das Escrituras assim como vários grupos importantes de vinte e dois nas tradições judaicas... O texto em questão lê:

Havia vinte e dois cabeças de Adão até Jacó, e vinte e dois tipos de trabalhos foram feitos antes do sétimo dia. O primeiro foi abençoado e santificado, e o último também foi abençoado e santificado. Um era como o outro com respeito à santificação e benção. E foi conferido ao primeiro que eles deveriam sempre ser os abençoados e santificados pelo testemunho e a primeira lei assim como ele santificou e abençoou o dia de Sábado no sétimo dia (Jubileus 2:23).

O texto de Symeon Logothetes é similar ao texto acima, exceto que ele lê no meio “portanto também havia vinte e duas letras e o mesmo número de livros entre os hebreus” e ao invés de “ele diz” este texto lê “Moisés diz”. Beckwith nota outra forma deste texto ocorrendo em Georgius Syncellus (cerca de 800 D.C.) que lê: “todas as obras são juntas vinte e duas, igual em número com os vinte e dois pais fundadores de Adão a Jacó”. Qual destas três tradições textuais é a mais antiga é debatível, mas se elas puderem ser datadas do primeiro século A.C., ou mesmo D.C., elas todas proveem evidência que a primeira instância do cânon de vinte e dois livros deve ser encontrada no livro de Jubileus que foi descoberto nos fragmentos de Qumran.24

A literatura rabínica talmúdica em Baba Bathra deu a lista de vinte e quatro. Como notado, este escrito foi considerado uma antiga tradição entre os judeus e, como iremos ver, ela dá uma identidade precisa daqueles vinte e quatro livros. Ela não inclui os Apócrifos.

Áquila, o prosélito judeu, é outra importante, senão indireta, testemunha do primeiro século para o número de livros. Ele traduziu o Velho Testamento hebraico para o grego, substituindo a Septuaginta por volta de 128-129 D.C. Os judeus se tornaram desencantados com a Septuaginta por causa de seu uso pelos cristãos. Áquila trabalhou para produzir uma tradução bastante literal sobre os auspícios dos judeus palestinos. Ele então teria seguido o cânon hebraico tradicional de vinte e dois ou vinte e quatro livros, excluindo os Apócrifos. Swete dá seu pano de fundo sobre Áquila:

Áquila, o tradutor, era do Ponto, da famosa cidade porto de Sinope... mas ele era de origem gentílica. Ele viveu no reino de Adriano (117-138 D.C.), e era uma conexão do Imperador... Adriano empregou seu pai para supervisar a construção da Aelia Capitolina na área de Jerusalém, e enquanto esteve ali, Áquila se converteu ao Cristianismo pelos cristãos que tinham retornado de Pela. Recusando-se, contudo, a abandonar a prática pagã da astrologia, ele foi excomungado; ao qual mostrou seu ressentimento ao submeter-se à circuncisão e se ligar aos Rabis judaicos. O propósito de sua tradução era colocar de lado a interpretação da LXX, por ela parecer dar suporte às visões da Igreja Cristã... Depois de sua conversão ao Judaísmo, Áquila se tornou um pupilo de R. Elezer e R. Joshua... ou, de acordo com outra autoridade, de R. Akiba... Era natural que a versão de Áquila seria recebida com alegria pelos seus correligionários. Seus professores o parabenizaram nas palavras do Salmo xlv.3. O Talmude cita ou se refere a sua tradução em não poucas passagens... Nos tempos de Orígenes ele era confiado implicitamente em círculos judaicos, e usado por todos os judeus que não entendiam hebraico... e a mesma preferência por Áquila parece ter sido característica dos judeus no quarto e quinto séculos.25

Swete nota que Áquila foi aprovado pelo Talmude, e desde que o Talmude aprovava apenas a visão tradicional de livros do cânon hebraico, parece claro que o número de livros que Áquila traduziu teria sido vinte e dois ou vinte e quatro.

A identidade dos Livros Canônicos Hebraicos

O cânon judaico não apenas incluiu uma clara divisão tríplice de um número específicos de livros, mas sua identidade foi também bem estabelecida. Obviamente, se Josefo e outros pudessem dizer que o cânon consistia de vinte e dois ou vinte e quatro livros, eles sabiam quais livros eles eram. A questão é, permitiria um cânon limitado a vinte e dois ou vinte e quatro livros incluir qualquer uma das obras dos Apócrifos? Os fatos históricos revelam que a resposta é não.

Para começar, os livros específicos que faziam parte do cânon do Velho Testamento podem ser deduzidos dos comentários de Josefo. Esta é a evidência existente mais antiga que temos dos livros do cânon:

Pois não temos uma multidão incontável de livros entre nós, discordando de e contradizendo uns aos outros, [como os gregos possuem,] mas somente vinte e dois livros, que contém os registros de todos os tempos passados; que corretamente se crê serem divinos; e destes cinco pertencem a Moisés, que contém suas leis e as tradições das origens da humanidade até sua morte. Este intervalo de tempo foi um pouco menor que três mil anos; mas do tempo entre a morte de Moisés até o reino de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas, que foram depois de Moisés, escreveram o que foi feito em seu tempo em treze livros. Os quatro livros restantes contém hinos a Deus, e preceitos para a conduta da vida humana. É verdade, nossa história foi escrita desde Artaxerxes bem particularmente, mas não foi estimada com a mesma autoridade que a anterior [escrita] pelos nossos pais, porque não houve uma exata sucessão de profetas desde aquele tempo; e quão firmemente nós temos dado crédito a estes livros de nossa própria nação é evidente pelo que fazemos; pois durante tantas eras como já se passaram, ninguém foi tão ousado em adicionar qualquer coisa a eles, tirar alguma coisa deles ou fazer alguma modificação neles; mas se tornou natural para todos os judeus imediatamente, e desde seu próprio nascimento, considerar que estes livros contém doutrinas Divinas, e persistir neles, se a ocasião for necessária, morrer por eles.26

Josefo escreve que o cânon consistia de cinco livros de Moisés, treze dos Profetas e quatro do que ele se referiu como hinos a Deus e preceitos para a vida humana. Está claro que esta perspectiva era uma mantida pelos judeus por longo tempo, que considerava estes vinte e dois livros apenas como de origem divina e eram cuidadosos em preservar a integridade e número deles. De fato, tão grande era a sua veneração destes livros, que eles eram capazes de morrer por eles. Certamente, tal compromisso implica uma convicção de que só estes livros eram verdadeiramente canônicos. Em adição, está claro que o cânon referido por Josefo não inclui os livros dos Apócrifos e que ele considerou o cânon estar fechado. Ele declara que vinte e dois livros foram escritos no espaço de tempo específico de Moisés a Artaxerxes e nenhum livro escrito depois deste tempo foi considerado inspirado. Ele menciona outros livros escritos depois dos profetas, que não eram considerados pelos judeus carregados de mesma autoridade, ou seja, eles não eram inspirados e não eram, então, canônicos. Esta é uma referência clara a um número de livros Apócrifos. John Wenham resume a importância de Josefo e seus escritos:

Josefo, nascido cerca de 37 D.C., foi talvez o mais distinto e erudito judeu de seus dias. Seu pai foi um sacerdote e sua mãe foi descendente dos reis Macabeus. Recebendo a melhor educação possível, ele provou ser algo como um prodígio... O que é particularmente interessante sobre a declaração de Josefo é a clara distinção entre livros canônicos que estavam completos no tempo de Artaxerxes e aqueles escritos depois que não eram considerados dignos de igual crédito “porque a exata sucessão de profetas terminou”. A ideia evidentemente é que os livros canônicos foram escritos (ou creditados) pelos profetas, mas que quando a era profética terminou, nenhum livro apropriado para o cânon foi escrito... Josefo se compromete com uma data bem precisa para o fechamento do Cânon. Artaxerxes Longimanus reinou por quarenta anos, de 465 to 425 A.C. Esdras veio a Jerusalém no sétimo e Neemias no vigésimo ano de seu reinado (Ed 7:1, 8; Ne 2:1). Em adição a Josefo há várias outras testemunhas que apontam para o tempo de Esdras e Neemias, com ocasionais referências ao ministério de Ageu, Zacarias e Malaquias, como o tempo de reunião, término e reconhecimento do Velho Testamento.27

F.F. Bruce explica como os livros precisos podem ser inferidos das declarações de Josefo:

Quando Josefo fala de 22 livros, provavelmente refere-se exatamente aos mesmos documentos contidos na contagem tradicional judaica de 24 livros, tendo Rute como um apêndice a Juizes e Lamentações na mesma situação para com Jeremias. Suas três divisões poderiam ser chamadas de Lei, Profetas e Escritos. Sua primeira divisão compreende os mesmos cinco livros da primeira divisão no arranjo tradicional. Sua segunda divisão, no entanto, tem treze livros, não oito, sendo os cinco adicionais, provavelmente, Jó, Ester, Daniel, Crônicas e Esdras-Neemias. Os quatro livros da terceira divisão seriam então Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos. É impossível termos certeza, porque não são especificados individualmente os livros de cada uma das três divisões.

É pouco provável que a classificação apresentada por Josefo tenha sido originada por ele ou seja exclusivamente sua. Ele provavelmente reproduz uma tradição que lhe era familiar havia algum tempo, que teria aprendido no círculo sacerdotal no qual nascera, ou entre os fariseus com os quais se associara na juventude.28

Ryle oferece esta observação adicional:

Ele registra um teste de sua canonicidade. Ele menciona o padrão que, aparentemente, na opinião judaica corrente, todos os livros que estavam inclusos no Cânon satisfaziam. Nenhum escrito histórico, parece, pertenceu a ele, já que foram considerados compostos depois do reinado de Assuero. A menção deste limite particular parece ser feito expressamente com referência ao livro de Ester, somente onde o Artaxerxes de Josefo (o Assuero do livro hebraico de Ester) figura. Assim, nós aprendemos que um teste popularmente aceito, o da data de composição, embora erroneamente aplicado, determinou a questão da canonicidade. No primeiro século D.C., a impressão prevaleceu que os livros do Cânon eram todos antigos, que nenhum era mais recente que Assuero, e que todos há muito tempo haviam sido considerados como canônicos. O mesmo limite de data, apesar de não tão claramente aplicado aos livros poéticos, deveria, com toda probabilidade, ser aplicado igualmente a eles, já que eles combinavam com os livros dos profetas em jogar luz sobre a mesmo período da história. Que tal padrão de canonicidade de antiguidade fosse afirmado, de forma tão crua como possa parecer, deveria ser suficiente para nos convencer que os limites do Cânon ficaram por um longo tempo indisputados.29

Jerônimo, famoso por traduzir o Velho Testamento hebraico para o latim, tinha a intenção de traduzir apenas aqueles livros considerados canônicos pelos judeus. Ele não apenas testemunha a classificação tríplice tradicional da Bíblia hebraica, mas também quais livros compunham cada categoria. Sua lista é essencialmente a mesma que é inferida dos escritos de Josefo. Os livros específicos que ele lista são:

1) A Lei de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

2) Os Profetas: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e os doze profetas menores.

3) Os Hagiógrafos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico de Salomão, Daniel, Crônicas, Esdras-Neemias e Ester.30

Obviamente, se o número de livros canônicos é vinte e dois isto excluiria os Apócrifos. Jerônimo declara claramente que os Judeus não recebem os livros dos Apócrifos como canônicos.31 Agostinho concorda, escrevendo:

Durante o mesmo tempo também aquelas coisas que estão escritas no Livro de Judite foram feitas, o qual, de fato, os judeus dizem que não foi recebido no cânon das Escrituras... E o reconhecimento de suas datas é encontrado; não nas Sagradas Escrituras que são chamadas canônicas, mas em outros, entre os quais estão também os livros dos Macabeus. Estes são tidos como canônicos, não pelos judeus, mas pela Igreja, com base no extremo e “maravilhoso” sofrimento de certos mártires... Os judeus não possuem esta Escritura que é chamada Macabeus, como eles possuem a lei e os profetas, aos quais o Senhor dá testemunho como sua testemunha. Mas é recebido pela Igreja não sem vantagem, se for lido e ouvido de forma sóbria, especialmente por causa da história dos Macabeus, que sofreram tanto pelas mãos dos perseguidores para o bem da lei de Deus.32

Orígenes e Epifânio também testificam que os judeus rejeitavam certos Apócrifos. Orígenes escreveu que os judeus tinham uma consideração inferior por Judite e Tobias, nunca os aceitando como canônicos33, e Epifânio declarou que eles rejeitavam Eclesiástico, Sabedoria, Baruque e a Epístola de Jeremias. Isto é confirmado por Beckwith em seus comentários sobre a lista canônica do Velho Testamento dada por Epifânio:

Os conteúdos das listas parecem ser exatamente idênticos com os conteúdos das listas de Jerônimo. Os únicos apêndices a livros são Rute adicionado a Juízes e Lamentações adicionado a Jeremias. Eclesiástico e Sabedoria são firmemente declarados fora do cânon judaico... no capítulo 5 ele fala das epístolas de Baruque (tradução siríaca, “de Jeremias e Baruque”) sendo reconhecidas com Jeremias. Mas último lugar citado ele adiciona que as duas epístolas não são incluídas pelos judeus... 34

Outro pedaço de evidência histórica para o número de livros canônicos do Velho Testamento é a obra apocalíptica pseudoepígrafe de 2 Esdras, depois conhecida como 4 Esdras, composta por volta do ano 100 D.C. Ela numera os livros do cânon hebraico em vinte e quatro, implicando que como uma coleção, estes livros foram aceitos como canônicos desde os dias de Esdras e Neemias. Beckwith provê o seguinte pano de fundo sobre esta obra e seu significado sobre a questão do cânon:

No capítulo 14 de 2 Esdras, é declarado que Moisés publicasse abertamente algumas coisas reveladas para ele e algumas coisas deveriam ser escondidas (vv. 4-6), mas que quando os babilônios conquistassem Judá, as Leis de Deus seriam queimadas (v. 21). Esdras é então representado como sendo inspirado pelo Espírito Santo para ditar as Leis de Deus todas novamente para os escribas, e como recebendo o comando “quando você terminar, algumas coisas você deverá publicar abertamente, e algumas coisas você deverá entregar em segredo para os sábios” (vv. 22-26). Tudo isto foi feito no espaço de quarenta dias (vv. 36-43).

Então em quarenta dias foram escritos oitenta e quatorze livros. E aconteceu que, quando os quarenta dias foram cumpridos, que o Altíssimo falou comigo, dizendo, “Os primeiros que você escreveu publique abertamente, e que os dignos e indignos o leiam. Mas mantenha os últimos setenta, para que você possa mandá-los para os que forem sábios entre o povo, pois neles estão as fontes do entendimento, a fonte da sabedoria, e os rios de conhecimento”. E eu fiz assim (vv. 44-8).

Destes 94 livros, os setenta que Esdras é instado a manter para os poucos especialmente privilegiados são sem dúvida os numerosos apocalipses pseudônimos dos quais 2 Esdras é ele mesmo um exemplo, livros apreciados em círculos limitados, enquanto que os 24 que podem ser publicados abertamente para os dignos e indignos poderem ler mesma forma devem ser os livros do cânon.35

Outra testemunha para os livros precisos do cânon vem do Talmude judaico, escritos rabínicos datados de 200 a 500 D.C. No Talmude Babilônico, Baba Bathra 14b, datado do final do quinto século, há uma declaração explícita dos livros que compunham a estrutura tripartite do cânon:

Nossos Rabis ensinaram: a ordem dos Profetas é Josué, Juízes, Samuel, Reis, Jeremias, Ezequiel, Isaías, os doze Profetas Menores...[Nossos Rabis ensinaram:] A ordem dos Hagiógrafos é Rute, o livro de Salmos, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Lamentações, Daniel e o rolo de Ester, Esdras e Crônicas…Quem escreveu as Escrituras? - Moisés escreveu seu próprio livro e a porção de Balaão e Jó. Josué escreveu o livro que tem seu nome e [os últimos] oito versos do Pentateuco. Samuel escreveu o livro que tem seu nome e o livro de Juízes e Rute. Davi escreveu o livro de Salmos, incluindo ele na obra dos dez anciãos, a saber, Adão, Melquisedeque, Abraão, Moisés, Hemã, Yeduthun, Asafe e três filhos de Corá, Jeremias escreveu o livro que tem seu nome, o livro de Reis e Lamentações. Ezequias e seus colegas escreveram (mnemônico YMSHQ) Isaías, Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Os Homens da Grande Congregação escreveram (mnemônico QNDG) Ezequiel, os Doze Profetas Menores, Daniel e o rolo de Ester. Esdras escreveu o livro que tem seu nome e as genealogias do livro de Crônicas até seu próprio tempo. Isto confirma a opinião de Rab (220~450), já que Rab Judah (250-290) disse em nome de Rab: Esdras não deixou a Babilônia para ir a Eretz Yisrael até que tivesse escrito sua própria genealogia. Quem então o terminou [o livro de Crônicas]? - Neemias o filho de Hacalias36.

Como observamos antes, esta lista foi apresentada como uma tradição antiga, como algo passado pelos rabis. Os comentários de McDonald merecem repetição:

Apesar de preservado no Talmude babilônico, esta passagem é geralmente entendida como uma baraita, ou seja, uma tradição do período tanaíta, 70 D.C.-200 D.C... É uma referência muito importante porque ela claramente identifica os escritos que constituíam a coleção de vinte e quatro livros dos escritos sagrados para os judeus e assume uma divisão tríplice do cânon bíblico.37

Ao listar os livros canônicos, o Talmude exclui os Apócrifos e é precisamente igual em conteúdo ao que foi dado por Jerônimo e é inferido pelos escritos de Josefo no primeiro século. Isto nos traz de volta a Áquila, que, como vimos, traduziu a Bíblia Hebraica para o grego sob os auspícios do Judaísmo palestino. Então ele teria seguido o cânon tradicional dos judeus de vinte e dois ou vinte e quatro livros, como expresso por Jerônimo e a baraita dos escritos Talmúdicos, excluindo com isto os Apócrifos. Adicionalmente, havia outras versões gregas das Escrituras que não incluíam os Apócrifos, como a produzida por Teodócio.

Outro ponto a ser notado é que dois dos livros Apócrifos se eliminam da consideração canônica por causa de seu testemunho interno. O autor de 1 Macabeus escreveu que ao tempo da escrita de sua obra não havia profeta em Israel (1Mc 4:46). Ao fazer isto ele estava admitindo que não era um profeta e então não era inspirado. McDonald explica:

O autor de 1 Macabeus 9 (cerca de 100 A.C.), escrevendo sobre os tempos difíceis em Israel depois da morte de Judas Macabeu, achava que os profetas em Israel assim como o espírito de profecia havia ido embora e que literatura inspirada então havia cessado. Depois que Judas Macabeu retomou o templo dos Selêucidas, que o profanaram, ele designou sacerdotes para purificá-lo, e nós lemos que os sacerdotes destruíram o altar do templo “e guardaram as pedras em um lugar conveniente no morro do templo até que viesse um profeta e dissesse o que fazer com elas” (1 Mc 4:46 RSV). A visão de que não havia profeta na terra era parte do pensamento do escritor de 1 Macabeus (1Mc 9:27; 14:41).38

O neto do autor de Eclesiástico deixou claro que o cânon estava estabelecido bem antes de seu avô escrever somente como intérprete e comentarista, não como profeta. Estes livros nunca foram recebidos como canônicos pelos judeus. Claramente, o cânon Protestante é consistente com o cânon hebraico. A Nova Enciclopédia Católica afirma:

Pois o Velho Testamento que os Protestantes seguem é o cânon judaico; eles possuem apenas os livros que estão na Bíblia Hebraica. Católicos possuem, em adição, sete livros deuterocanônicos do Velho Testamento.39

Apologistas Católicos Romanos objetam a estas conclusões a respeito da estrutura e número de livros no cânon com três pontos fundamentais. Primeiramente, eles afirmam que o uso da Septuaginta por alguns judeus sugere que os judeus não tinham um cânon fixo. Eles contendem que apesar dos judeus da Palestina serem mais conservadores, os judeus de Alexandria abraçavam um cânon mais amplo que incluía os Apócrifos. Isto é visto, dizem eles, pelo fato de que a Septuaginta, que originou-se em Alexandria, incluía os Apócrifos e era a Bíblia comumente usada por Jesus e os escritores do Novo Testamento. Consequentemente, eles mantêm que já que eles usaram a Septuaginta, eles deveriam ter aceito os Apócrifos igualmente. Em segundo lugar, Católicos Romanos argumentam que o Concílio de Jamnia, composto de anciãos judeus depois da queda de Jerusalém em 70 D.C., debateu o status canônico de alguns livros, provando que o cânon palestino não estava fechado ou era um tema estabelecido. Em terceiro lugar, Católicos Romanos clamam que os essênios mantinham um cânon mais amplo do que o mantido tradicionalmente na Palestina. Nós iremo endereçar cada uma destas objeções.

Notas:

13. Contra Ápion 1.8.

14. Herbert Edward Ryle, The Canon of the Old Testament (London: MacMillan, 1904), págs. 173-174.

15. Mas deve-se observar que os livros canônicos, conforme transmitidos pelos hebreus, são vinte e dois... (Eusébio, História Eclesiástica, Livro 6, Capítulo 25, 1-2, 1a Edição, 1999, Editora CAPD).

16. A lei do Velho Testamento é reconhecida em vinte e dois livros, para que eles possam se ajustar às letras hebraicas. Eles são contados de acordo com a tradição dos antigos pais (Comentário aos Salmos, Prólogo, Dr. Michael Woodward, Tradutor).

17. Agora estas Escrituras divinamente inspiradas do Velho e Novo Testamento nos ensina... Leia as Divinas Escrituras, os vinte e dois livros do Velho Testamento, estes que foram traduzidos pelos setenta e dois intérpretes (NPNF2, Vol. 7, Cirilo de Jerusalém, Catechetical Lectures IV.33-36).

18. Há então, do Velho Testamento, vinte e dois livros em número; pois, como eu ouvi, é passado que este é o número de letras entre os hebreus; em sua respectiva ordem e nomes sendo como se segue (NPNF2, Vol. 4, Atanásio, Carta 39.2-7).

19. Estes são os vinte e sete livros dados aos judeus por Deus. Eles são contados como vinte e dois, contudo, como as letras de seu alfabeto hebraico, porque dez livros que os judeus reconhecem como cinco são duplicados (The Panarion of Epiphanius of Salamis, Nag Hammadi Studies, Editado por Martin Krause, James Robinson, Frederik Wisse, (Leiden: Brill, 1987), Livro I, Seção I.6,1).

20. Receba o número e nomes dos livros sagrados... Estes vinte e dois livros do Velho Testamento são contados de acordo com as vinte e duas letras dos judeus (Dogmatica Carmina, Livro I, Seção I, Carmen XII, PG 37:471-474).

21. Por que 22 livros divinamente inspirados? Eu respondo que em lugar dos números... Pois não se deve ignorar que 22 livros os judeus entregaram, que correspondem ao número de letras hebraicas, e não sem razão 22. Assim como as 22 letras são a introdução à sabedoria, etc., assim também os 22 livros das Escrituras são a fundação e introdução à sabedoria de Deus e o conhecimento das coisas (Philocalia, c. 3, edição de Paris 1618, pág. 63).

22. E então parece apropriado neste lugar enumerar, como nós temos aprendido da tradição dos Pais, os livros do Novo e Velho Testamento, que de acordo com a tradição de nossos pais, se crê terem sido inspirados pelo Espírito Santo, e foram entregues às igrejas de Cristo. Do Velho Testamento, então, antes de tudo tem sido entregue cinco livros de Moisés, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; então Jesus Nave, (Josué filho de Nun), o Livro de Juízes junto com Rute; então quatro livros dos Reis (Reinos), que os Hebreus reconhecem dois; o livro das Omissões, que é intitulado o Livro dos Dias (Crônicas), e dois livros de Esdras (Esdras e Neemias), que os hebreus reconhecem um, e Ester; dos Profetas, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel; além disto dos doze profetas menores, um livro; Jó também e os Salmos de Davi, cada um, um livro. Salomão deu três livros para as Igrejas, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos. Estes compõe os livros do Velho Testamento (NPNF2, Vol. 3, Rufino, Comentário sobre o Credo dos Apóstolos 36).

23. E então há também vinte e dois livros do Velho Testamento; ou seja, cinco de Moisés, oito dos profetas, nove dos Hagiógrafos, apesar de alguns incluírem Rute e Kinoth (Lamentações) entre os Hagiógrafos, e acham que estes livros devem ser reconhecidos separadamente; nós devemos então ter vinte e quatro livros da velha lei (NPNF2, Vol. 6, São Jerônimo, Prefácio à versão Vulgata de Samuel e Reis, (Prologus Galeatus).

24. Lee M. McDonald, The Formation of the Christian Biblical Canon (Peabody: Hendrickson, 1995), págs. 61-62.

25. Henry Barclay Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek (New York: Ktav, 1968), págs. 31-33.

26. Contra Ápion 1.8. Citado por Roger Beckwith, The Old Testament Canon of the New Testament Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), págs. 118-119.

27. John Wenham, Christ & the Bible (Grand Rapids: Baker, 1994), págs. 134-136.

28. F.F. Bruce, O Cânon das Escrituras (Editora Hagnos, 1a Edição, 2011), págs. 32-33.

29. Herbert Edward Ryle, The Canon of the Old Testament (London: MacMillan, 1904), págs. 174-175.

30. O primeiro destes livros é chamado Bresith, ao qual nós damos o nome de Gênesis. O segundo, Elle Smoth, que tem o nome de Êxodo; o terceiro, Vaiecra, que é Levítico; o quarto, Vaiedabber, que nós chamamos de Números; o quinto, Elle Addabarim, que é intitulado Deuteronômio. Estes são os cinco livros de Moisés, que eles propriamente chamam Thorath, que é lei.

A segunda classe é composta pelos Profetas, e eles começam com Jesus o filho de Nave, que entre eles é chamado de Joshua o filho de Nun. Depois na série é Spohtim, que é o livro de Juízes; e no mesmo livro eles incluem Rute, porque os eventos narrados ocorreram nos dias dos Juízes. Então vem Samuel, que nós chamamos Primeira e Segunda Reis. O quarto é Malachim, que é, Reis, que é contido no terceiro e quarto volume de Reis. E é bem melhor dizer Malachim, que é Reis, do que Malachoth, que é Reinos. Pois o autor não descreve os Reinos de muitas nações, mas de um povo, o povo de Israel, que é composto de doze tribos. O quinto é Isaías, o sexto Jeremias, o sétimo Ezequiel, o oitavo é o livro dos Doze Profetas, que é chamado entre os judeus Thare Asra.

A segunda classe pertence aos Hagiógrafos, dos quais o primeiro livro começa com Jó, o segundo com Davi, cujos escritos eles dividem em cinco partes e compõe um volume de Salmos; o terceiro é Salomão, em três livros, Provérbios, que eles chamam Parábolas, que é Masaloth, Eclesiastes, que é Coeleth, o Cântico dos Cânticos, que eles chamam pelo título de Sir Assirim; o sexto é Daniel; o sétimo, Dabre Aiamim, que significa, Palavras dos Dias, que nós podemos mais expressivamente chamar uma crônica de toda a história sagrada, o livro que entre nós é chamado de Primeira e Segunda Crônicas; o oitavo, Esdras, que ele mesmo é dividido entre os gregos e latinos em dois livros; o nono é Ester.

E então há também vinte e dois livros do Velho Testamento; ou seja, cinco de Moisés, oito dos profetas, nove dos Hagiógrafos, apesar de alguns incluírem Rute e Kinoth (Lamentações) entre os Hagiógrafos, e acham que estes livros devem ser reconhecidos separadamente; nós devemos então ter vinte e quatro livros da velha lei (NPNF2, Vol. 6, São Jerônimo, Prefácio à versão Vulgata de Samuel e Reis, [Prologus Galeatus]).

31. Eu digo isto para mostrar a vocês quão difícil é dominar o livro de Daniel, que em hebraico não contém nem a história de Susanna, nem o hino dos três joven, nem a fábula de Bel e o Dragão...(Ibid., Volume 6, Jerônimo, Prefácios às obras de Jerônimo, Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos; Daniel, págs. 492-493).

32. Contra Epistolam Gaudentii Donatistae, cap. 23. Citado por William Henry Greene, General Introduction to the Old Testament, The Canon (London: Muray, 1899), pág. 172.

33. De onde você tomou seu “perdido e ganhado no jogo e jogado sem enterrar nas ruas”, eu não sei, a menos que seja de Tobias; e Tobias (como também Judite), nós devemos notar, que os judeus não usam. Eles nem mesmo são encontrados nos Apócrifos hebraicos, como eu aprendi dos próprios judeus (ANF, Vol. 4, Orígenes, Uma carta de Orígenes a Africano 13, pág. 391).

34. Roger Beckwith, The Old Testament Canon of the New Testament Church (Grand Rapids: Eerdmans, 1985), pág. 253.

35. Ibid., págs. 240-241.

36. Citado por Lee M. McDonald, The Formation of the Christian Biblical Canon (Peabody: Hendrickson, 1995), págs. 76. Tradução e datas fornecidos por Leiman, Canonization, 52-53.

37. Lee M. McDonald, The Formation of the Christian Biblical Canon (Peabody: Hendrickson, 1995), pág. 76.

38. Ibid., pág. 50.

39. New Catholic Encyclopedia, Volume III, Canon, Biblical, pág. 29.