29 de junho de 2012

O Antigo Testamento à luz da evidência arqueológica - Kitchen, Kenneth A. (Resenha)


Resenha de:

O livro de Kitchen oferece ao leitor a mais exaustivamente investigada e abrangente coleção de materiais relevantes do Antigo Oriente Próximo, disponível para o estabelecimento da história do Antigo Testamento dentro do seu original e autêntico mundo. Embora não tenha sido concebida como uma história de Israel no sentido tradicional do termo, serve-se ao leitor uma melhor e mais completa do que qualquer coisa anteriormentedisponível. Aqueles que leram o autor de “Antigo Oriente e Antigo Testamento” vão encontrar aqui a mesma discussão detalhada e o denso conjunto de fatos que o volume apresentado anteriormente. Considerando que o referido livro, escrito na década de 1960, cobriu material até o seutempo, Kitchen passou agora a reunir e argüir as questões das últimas três décadas e meia, tão bem quanto anteriormente. O resultado é uma surpreendente coleção de materiais, voltada principalmente para os textos e secundariamente sobre os artefatos.


Poucos estudiosos de qualquer tendência são tão familiarizados com as fontes primárias como este autor. Poucos leram de forma mais ampla ou fizeram a sua investigação tão intensamente. Aqui está um trabalho que irá pagar as horas investidas em seu estudo com uma fonte equilibrada e baseada em entendimento do mundo por trás do Antigo Testamento e pelo tanto que contribui para um mundo cheio de apreciação da Bíblia e história.

Em seu primeiro capítulo, Kitchen apresenta sua fundamentação para a ordenação dos materiais restantes. Dividindo o Antigo Testamento em sete epopéias históricas, ele escolhe começar com as duas últimas (a Monarquia Dividida, o Exílio e o Regresso) e retrabalhar em capítulos posteriores: Monarquia Unida, Assentamentos em Canaã, estada egípcia e Êxodo, Patriarcas, e Proto-História Primeva. Esta seqüência torna o livro um pouco mais difícil de ler enquanto uma história, no entanto, é conveniente para o método do autor. Ao fazê-lo, Kitchen pode começar a partir do que é melhor conhecido e retrabalhar para os textos bíblicos que estão menos bem atestados ou mais controversos quanto à sua historicidade.

Kitchen examina a Monarquia Dividida primeiramente. Utilizando metodologia apropriada para um historiador, ele começa com as fontes primárias. Cataloga todas as referências aos governantes estrangeiros nos livros de Reis e Crônicas e, em seguida, discute todas as referências aos governantes de Israel e Judá de fora da Bíblia. Quando existe evidência comparativa dos dados provenientes do Egito, Assíria, Babilônia, Aram, Fenícia, e a Bíblia mostra uma consistência nos nomes e seqüências de governantes a que se referem. Isto fornece o essencial com o qual se revê a cronologia das Monarquias Divididas. Usando o sistema deThiele como um ponto de partida, Kitchen examina as várias questões de múltiplos sistemas de calendários e a questão dos anos de ascensão e descensão nos sistemas de datação. Ele conclui que Thiele explica melhor os dados bíblicos sobre Manassés, e faz alguns poucos ajustes depois(datações de anos de descensão para Jeorão, Acazias II, e Joás), a fim de sincronizar praticamente todas as referências bíblicas em um dos vários gráficos úteis no livro (pp. 30-32).

O autor apresenta uma história da Monarquia Unida, utilizando as fontes disponíveis (pp. 32-45). Tal como no resto do livro, ele demonstra competência, tanto nas fontes primárias como também na discussão acadêmica corrente. Assim, o leitor descobre que as fontes demonstram faraó Shoshenq I (= Sisaque c. 945-924 a.C.) como o único Shoshenq com atividades conhecidas na Palestina. Suas obras inacabadas em comemoração de sua vitória na campanha situada em cerca de 927/6 ou 926/5, idêntico a da invasão do faraó Sisaque mencionado na Bíblia como ocorre no quinto ano de Roboão. Isso seria 926/5. Fornece um dado congruente usando uma série israelita (bíblico) independente do egípcio. Kitchen entende que a Estela de Mesha descreve uma revolta do rei Mesha de Moab contra o rei Jeorão de Israel pouco depois da morte de Acabe (c. 850 a.C.).

Aceitando a mais amplamente seguida reconstrução da Estela de Tel Dan, Kitchen conecta o rei de Israel mencionado aqui com o mesmo rei Jeorão mencionado na Estela de Mesha (embora não por um nome preservado).Este rei de Judá na Estela de Tel Dan é Acazias (II). Os dois reis foram mortos por Jeú, de acordo com 2 Reis 9, mas Hazael de Damasco tem o crédito na Estela. Entretanto, Jeú não aceitou a vassalagem de Hazael mas imediatamente recorreu para o rei assírio Shalmaneser III, presenteando-lhe com um tributo em 841, como exibido no obelisco negro. A vassalagem israelita para a Assíria começa pra valer um século mais tarde, quando Menahem paga mil talentos de prata em 740, a taxa passada para reis em fracas posições em seu país de origem.

O restante da seção discute as intervenções posteriores dos poderes da Assíria e Babilônia. Com base na análise destes registros, o autor conclui (1) que Pekah não foi derrubado por Hoshea mas exilado pelo rei assírio; (2) é improvável que Samaria caira algo diferente de 722 nas mãos deShalmaneser V; e (3) que Ezequias pagou tributo após Senaquerib e seu exército ter recuado. Este último ponto prende-se com a questão de duas fontes distintas, em 2 Reis, relativa à batalha: uma que é considerada como factual e anterior (18:13-16) e uma que é mais tardia e teológica (18:17 através capítulo 19). No entanto, Kitchen observa que o próprio Senaquerib faz comentários teológicos ("confiando no deus Ashur meu senhor, lutei com eles e derrotei-os") em uma justificativa por escrito dentro de um ano da campanha de 701 (p. 50). Em sua discussão do ataque de Senaquerib em Jerusalém, ele considera 2 Reis 18:15-16 como contendo uma "nota de rodapé" descrevendo como Ezequias recolhera um tributo, apesar de não ter sido pago até depois do recuo de Senacherib (p. 42). Talvez versículos 13-16 podem ser melhor entendidos como um sumário recapitulativo que frequentemente aparece no início de uma narrativa hebraica. O autor analisa todos principais sítios escavados dentro de Israel e correlaciona seus estratos ocupacionais deste tempo (pp. 51-61).

Este valioso e competente inquérito fornece notas sobre possíveis eventos bíblicos e do Antigo Oriente Próximo em relação aos locais. Um resumo das informações do capítulo conclui que os três séculos e meio cobertos pela monarquia dividida podem ser correlacionados com fontes externas escritas e dados arqueológicos para fornecer um confiável relato.

Continuando no período exílico e pós-exilico do Antigo Testamento, Kitchen observa o modo como os escritos bíblicos aqui também correlacionam à linhagem de reis persas com o que é conhecido a partir de fontes externas. Além disso, Sanballat de Samaria, sucessor de Sanballat II é conhecido do papiro Wadi Daliyeh I, e o bíblico Sanballat é referido no papiro Elefantina de 407 a.C. (p. 74). Inscrições nomeando Geshem e a família de Tobias, todos inimigos de Neemias, também foram encontradas. A fundação e controle de cultos em todo o império persa é atestada a partir deElefantina, no sudeste egípcio para Lycia e Magnésia naAnatólia. Em Elefantina um representante judeu do imperador foi enviado para garantir a correta observação das festas judaicas, como Esdras fizera em Jerusalém.

Com a evidência para a última parte do abordado pelo Antigo Testamento, Kitchen agora passa a analisar o período anterior. Ele começa com a Monarquia Unida. Primeiro, argumenta que o período de Saul, Davi e Salomão, da décima primeira para a última parte do décimo século, foi um momento de escassez quando tanto o Egito quanto a Mesopotâmia (Babilônia e Assíria) foram ocupados com questões internas e não deixaram registros de contatos internacionais. Nada dentre as inscrições arameas data deste período precoce. Das remanescentes inscrições fenícias e de Luvian, da Síria e Turquia, elas são quase exclusivamente preocupadas com os seus próprios assuntos. Na Palestina não há praticamente nenhuma inscrição de monumentos a partir deste período, ou mais tarde durante a monarquia. Kitchen menciona apenas um pequeno fragmento de Samaria com uma única palavra, o pronome relativo para "quem" ou "o qual". Caso contrário, ele observa a inscrição de Ekron, a Estela de Mesha, os pequenos textos e fragmentos amonitas, e a Estela de Tel Dan como tudo o que resta de Filistia, Moab, Ammon, e do sul de Aram (sem nada de Edom)1 para os textos dos monumentos históricos da Monarquia inteira (pp. 90-91). Ele está correto em ignorar a inscrição de Jeoás como também muitas questões que permanecem relativas à sua identidade.

Há também agora um fragmento de inscrição de monumento de Jerusalém ("A Fragment of a Monumental Inscription from the City of David," Israel Exploration Journal 51/1 (2001) 44-47), embora a sua parte sobrevivente parece lidar apenas com questões financeiras (tributos do templo?). Kitchen localiza o nome pessoal de Davi nas referências dinásticas a "a casa de Davi", como encontrado nas inscrições do nono século “Tel Dan” e “Mesha”. Ele também considera o nome no local denominado "as alturas de dwt" sobre o itinerário egípcio de Shoshenq I, de 925 a.C. Citando exemplos onde um egípcio "t" transcrevera um semítico "d" em vários nomes próprios, bem como outros asiáticos "Davis" (por exemplo, Twti e TT-w't), juntamente com uma versão etíope do sexto século reproduzindo “ReiDavid” da mesma maneira (DWT), Kitchen argumenta convincentemente para o nome situado no décimo século do sul judaico, "as alturas de Davi", como a mais precoce referência extrabíblica ao fundador da dinastia de Judá (p. 93).

Tal como muitos outros pormenores, neste volume, o próprio autor tinha publicado anteriormente como um artigo acadêmico ("A Possible Mention of David in the Late Tenth Century BCE, and Deity *Dod as Dead as the Dodo?" Journal for the Study of the Old Testament 76 [1997] 29-44) , mas aqui ele apresenta pela primeira vez como parte de uma discussão integrada da história de Israel. O mesmo é verdadeiro para o seu modelo de mini-impérios no qual a descrição bíblica do império de Salomão teve realidades geopolíticas comparáveis com contemporâneos mini-impérios rudimentares de Tabal, Carchemish, e Aram-Zobah(pp. 99-104; cf. "The Controlling Role of External Evidence in Assessing the Historical Status of the Israelite Monarchy," pp. 111-130 in V. P. Long, D. W. Baker, and G. J. Wenham eds., Windows into Old Testament History: Evidence, Argument, and the Crisis of "Biblical Israel", Grand Rapids: Eerdmans).

É uma distintiva contribuição do trabalho de Kitchen que muito daquilo que ele escreve em seu estudo histórico representa materiais que ele mesmo não somente tenha visto em primeira mão, mas frequentemente fora muitas vezes o primeiro a publicar, em termos de seu relacionamento com a história de Israel. Claro, ele também faz uso do trabalho que os outros fizeram. Um exemplo disto são as observações de A. Malamat sobre um texto do assírio Shalmaneser III(oitavo século a.C.), que faz referência ao seu antecessor Assur-Rabi II (1013-972). Durante o seu último reinado, o rei de Arumu capturara duas cidades a leste do Eufrates. Se Arumu é Aram, uma provável possibilidade, então este rei pode ser Hadadezer de Aram-Zobah quem atraira sobre esta área tropas para o seu exército em suas batalhas com David (2 Sam. 10:13-19). Novamente, os paralelos da Idade do Bronze Tardia para o "caminho do rei" (1 Sm. 8:11 e ss.) desafiam a opinião de que esta deve ser uma posterior inserção antimonárquica, utilizando as evidências de Ugarit, Mari, e Alalakh. Para isto especificamente ser possível, acrescenta um paralelo do século XIV ao alistamento real do v. 12 para o trabalho na terra. O texto provém da Palestina, ele mesmo como a carta de Amarna 365, de Biridiya de Megido, que usou sua corvéia para trabalhar a terra para os egípcios na Shunem (Shunama) no Vale de Jezreel.

Kitchen considera uma variedade de temas relacionados com os textos bíblicos que descrevem a Monarquia Unida. De especial interesse são regiões egípcias e adjacentes. Assim, a identidade (Siamun) e finalidade (redução da tributação), do faraó e sua conquista e o presente de Gezer para Salomão são revisados(pp. 107-112). Ao mesmo tempo, ele examina outros domínios das relações internacionais: Hiram e comércio fenício (pp. 112-115), a rainha de Sabá e o comércio de ouro e especiarias da Arábia do Sul e Leste da África (especialmente atrás montanhas do Mar Vermelho, no Sudão, pp. 115-120), e o Templo de Salomão com as suas dimensões de 105 pés por 30 pés e as suas semelhanças (três níveis de armazéns em torno de três lados do edifício, duas colunas de um pórtico, e mais um lugar santo dentro) para com templos hititas e egípcios do segundo milênio a.C., bem como o importante contemporâneo sítio sírio de Ain Dara (pp. 122-127).

Quanto ao templo, os detalhes - como três cursos de pedra seguidos por um de madeira, painéis de madeira nas paredes interiores, folheado a ouro e decoração, e vários utensílios - todos têm paralelos na Idade do Bronze e Ferro. O mesmo acontece com os outros edifícios públicos, a administração, e vários aspectos culturais do reino de Salomão, como registrado nos livros de Reis e Crônicas. Sua discussão do recente debate com relação os dados tradicionais dos portões salomônicos e fortificações em Hazor, Megido, e Gezer é baseada em uma análise dos estratos em Hazor.

Tal como outros, Kitchen conclui que existem demasiados níveis de ocupação e destruição dentro de um período demasiado curto para a data tardia de Finkelstein e Ussishkin ser aceitável (pp. 140-150). Outro importante debate a partir da Monarquia Unida, que Jerusalém era demasiada pequena e insignificante para ser a capital de um império e que a terra da Palestina no décimo século foi amplamente desabitada, é travado. Kitchen (p. 154) observa que o inquérito do sul de Samaria resulta de quase uma centena de pequenos sítios em que a área é isolada. Ele também observa estudos separados por Mazar e Dever que lista outros vinte ou trinta sítios em toda a Palestina, neste momento, incluídos centros fortificados. Finalmente, ele compara, nos 16o e 15o séculos, a capital do Egito, Thebes, durante o tempo da criação do seu império do Reino Novo. Foi também uma pequena vila ou cidade.

Kitchen nega que o livro de Josué pretenda descrever uma conquista completa. Ele observa que apenas Hazor foi queimado entre as cidades da das colinas na terra, e que Israel permaneceu centrada em Gilgal por todas as batalhas de Josué 1-12 (pp. 162-163). Embora eles não podem ser equiparados com o “Apiru” das cartas de Amarna do século XIV, os hebreus/israelitas foram semelhantes em seus ataques de cidades. Maior do que o tamanho do território ocupado inicialmente pela geração de Josué (a partir de Betel a Siquém e Tirzah) e muito mais politicamente significativa, fora a realização de Abdi-Ashirta e seu filho Aziru no norte do Líbano nas correspondências de Amarna do século XIV(p. 166) .

Tal como outros, Kitchen reconhece formas retóricas em Josué cuja interpretação literal deve ser atenuada por notas no texto. Assim, a eliminação completa de todos os guerreiros cananeus é imediatamente atenuada por uma nota de que houvera sobreviventes (Js. 10:20, p. 174). Os detalhes onomásticos e filológicos de Josué são analisados como manifestação de um único contexto em Idade do Bronze Tardia e Idade de Ferro Precoce (isto é, 1550-1000 a.C.). Os sítios mencionados na "conquista" de Josué são examinados, cada um, por seus vestígios arqueológicos. De especial interesse são Jericó e Ai. A antiga destruição foi seguida por quatro séculos de ausência de ocupação que erodiu quase tudo desde esse período (p. 187).

Quanto à Ai, Kitchen oferece uma variedade de possíveis explicações para a ausência de evidências nas escavações do local, incluindo a opinião de que Ai está localizada noutro local (pp. 188-189). Revivendo uma antiga teoria naturalista (de Hort), ele sugere que a história da terra "engolir" Corá e os seus companheiros (Números 16) deriva de kewirs ou lodaçais do sul do Mar Morto. Duas ou três dúzias de centímetros de barro endurecido permitem mais que uma goteira que pode infiltrar-se e romper durante uma tempestade. Localizado na moderna Jordânia, a leste de Arabah, Punon pode ser identificado com a região de Feinan e sua associação com a mineração de cobre. Talvez aqui a serpente de bronze fora feita (Nm. 21:4-9; 33:41-44).

O livro de juízes não apresenta uma visão alternativa para os mesmos eventos que ocorrem em Josué. Em vez disso, descreve "na tentativa de justificar as conquistas, além de fixação em locais próximos, logo após Josué" (p. 224). Kitchen assinala o caráter seletivo do livro de juízes e vêuma sobreposição de períodos de magistério para os diferentes juízes. Ele compara-o com exemplos da Mesopotâmia e, especialmente, Egito (p. 204). Seu interesse na cronologia estabelece um argumento convincente para o período de 1255-1215 como o da peregrinação no deserto (embora permitindo cinco anos de margem para mais ou para menos), e 1160 como a data da guerra de Deborah e Barak contra Jabin (pp. 207-208) .

A migração nortista da tribo de Dan e sua captura da cidade de Laish/Dan deveria datar mais precocemente no início do décimo segundo século, ao início do período dos juízes. Nível VIIA representa o próspero período cananeu enquanto estrato VI reflete uma era mais pobre, que do assentamento de Dan. O Jabin que reinou depois da destruição de Josué (e combatido Deborah e Barak) poderia ter governado a partir de um centro diferente de Hazor, dado o seu pobre remanescente a partir deste período. A apresentação de uma tabela cronológica dos juízes, como ocorre na p. 210, é incomum para um estudioso sério, tentar datar estas figuras e, por isso, é muito útil. Kitchen considera um similar ciclo teológico tal qual o dos juízes (apostasia, castigo, opressão, arrependimento, libertação) em devotas inscrições contemporâneas egípcias em estela apresentada ao (s) deus (es) a quem o indivíduo entregou (p. 217). Desta forma, ele argumenta que teologia deuteronomista, como atribuída ao livro de juízes, não necessita ser considerada tardia. No entanto, pode haver uma diferença entre individuais e nacionais (ou tribais) aspectos dessa teologia. 

A Estela de Merneptah registra como o faraó lançou uma campanha na Palestina (c. 1213-1210 a.C.). Kitchen sugere que a batalha contra Israel pode ter sido concebida para desencorajar banditismo entre as tribos do altiplano como as que entraram nas planícies e invadiram as colheitas de Gezer e Ashkelon (cf. Jz. 1:18). Uma fortaleza egípcia perto de Jerusalém, Lifta (denominada "Águas da Nephtoah = [Mer] neptah;" Jos. 15:9), pode ter sido temporariamente instalada neste momento. Finalmente, a partir deste período, o autor concede que a fascinante estrutura em Mt. Ebal pode ser um local de culto como encontrado em Josué 8 e 24 (pp. 232-234). Ele observa que a certeza é impossível, mas nenhuma outra sugestão é inteiramente satisfatória.

O Capítulo 6, "Coma Lótus e Vá - Êxodo e Pacto", continua o processo de retorno ao registro bíblico. Aqui, a meio caminho através do seu livro, o autor chega ao período do êxodo e peregrinação do deserto. Ele estabelece de cara os argumentos essencias positivos e negativos quanto ao evento do êxodo. Positivamente, "... por que na terra inventou-se um conto sobre origens tão humilhantes? Ninguém mais no Antigo Oriente Próximo declinou para esse tipo de conto de começo de comunidade." (p. 245). Negativamente, a questão da ausência de provas egípcias escritas e arqueológicas sobre o êxodo pode ser melhor respondida por um egiptologista profissional (p. 246; cf. P. 311):

A cabana de tijolos de lama de escravos e humildes cultivadores há muito que voltara às suas origens lamaçais, para nunca mais ser observada. Mesmo estruturas de pedras (tais como templos) dificilmente sobrevivem, em forte contraste com sítios no vale da falésia-emparedada do Alto Egito ao sul.

(...) praticamente nenhum registro gravado de quaisquer extensões foi obtido a partir dos sítios do Delta reduzidos a montes de tijolos ... uma ínfima fração (de datação tardia) fora encontrada carbonizada (queimada) ... uma ínfima parte dos relatórios do Delta oriental ocorrera em papiros recuperados a partir do deserto perto de Memphis. Caso contrário, a totalidade dos registros administrativos do Egito em todos os períodos no Delta estaria perdida (Fig. 32B); e monumentais textos também são quase nulos. E, como nunca faraós imortalizavam derrotas nos muros do templo, nenhum registro do sucesso de saída de um grande agrupamento de escravos estrangeiros (com perda de uma plena esquadra de carruagens) jamais teriam sido “memorializadas” por qualquer rei, no Delta, em templos ou em qualquer outro lugar.

Para além disto, Kitchen cita paralelos para o trabalho dos israelitas, o pedido para adorar seu Deus no deserto, e êxodos típicos de movimentos de pessoas. Ele discute as pragas em pormenores, descrevendo as causas possíveis para muitos dos fenômenos. Ele identifica os locais deRamesses (Tell el-Dab'a) e Pithom (Tell-Retaba), discutindo os mal-entendidos associados a outras discussões destes locais. Kitchen propõe novas identificações para os locais da rota (naturalmente, yam suph é "Mar dos Juncos", não "Mar Vermelho"), através da peregrinação no deserto e firma-se no tradicional local para Monte Sinai (Gebel Musa), tal como continua a ser o mais provável.


Paralelos são desenhados com estudos tipológicos de ambos, o Tabernáculo e os documentos do pacto do Pentateuco. Em cada caso, o que está mais proximamente "apto" ocorre com as estruturas e os documentos da Idade do Bronze Tardia (1550-1200 a.C.). De especial relevo é o estudo das maldições em Deuteronômio. É reconhecido que Deuteronômio 28 tem uma relação com os tratados neo-assírio Esarhaddon do século 7. Na verdade, sete maldições foram identificadas como similares. Isto pode ser comparada com dez conexões com o código Hamurabi do início do segundo milênio a.C. tem com Deuteronômio 28 e com adicionais cinco ligações que ocorrem entre ch. 28 e Mari e o tratado de Zimri-Lim/Eshnunna. A partir do patrimônio comum das fórmulas de maldição, estas e outras comparações emergem. Eles não "provam" datas precoces ou tardias. Kitchen sugere duas formas de lidar com os 480 anos de 1 Reis 6:1 para chegar a uma data do décimo terceiro século para o êxodo: quer a visão tradicional de 12 gerações de 40 anos cada, ou a adição de anos usando os valores para o comprimento de tempo que os juízes reinaram no livro de juízes.

Ele observa que o pacto do Sinai usa uma forma de tratado que não aparecem no mundo antigo antes do século XIV. Portanto, a tradicional data antiga de 1447 a.C. não se enquadra nessa teoria. Como ele resume a evidência (pp. 310-312), e uma vez mais está ciente, como com os capítulos sobre a Monarquia Unida e sobre Josué / Juízes, que não há testemunhas externas para o êxodo ou a qualquer dos eventos específicos descritos nos relatos mais precoces da Bíblia. No entanto, há muito que pode ser dito. O que encontramos é que os acontecimentos e descrições, nos incidentais bem como nos principais pontos, correspondem constantemente ao material remanescente do registro escrito contemporâneo com a época pretendida destes eventos. Mais do que isso, alguns itens (por exemplo, o Tabernáculo e a estrutura do pacto no Pentateuco) não podem ser datados diferentes desta época, se o método tipológico recebe o seu significado próprio.

Assim, quando chegamos aos patriarcas, (p. 313) a observação de Kitchen de que o itinerário de Sisaque I de 925 a.C. pode nomear um lugar bíblico no Negev como "o Acampamento de Abraão", é surpreendente. Aqui, o nome de uma figura patriarcal pode realmente ser certificado. Existem outras interpretações, mas nenhuma se adapta a região a esta antiga figura que vagueou no Negev. Costumes matrimoniais patriarcais e monoteísmo são encontrados para retornar ao início do segundo milênio. Mesmo muitos dos detalhes nos anos de Jacó passados com Labão têm paralelos nas leis da Antiga Babilônia de Hamurabi e as tradições da Velha Assíria (pp. 337-338).

De especial interesse é trabalho pormenorizado de Kenneth A. Kitchen sobre a distintiva construção de nomes encontrados entre os povos semitas do oeste no início do segundo milênio a.C. Esta construção, o imperfectivo amorita, ocorre em nomes como Isaac e Jacó (e Israel). Embora apareça mais tarde em nomes de pessoas, nunca tem a mesma freqüência como no período mais antigo. Esta diferença é baseada na análise de milhares de nomes, incluídos alguns seis mil desde o início do segundo milênio. É, portanto, uma das mais empiricamente verificáveis manifestações da antiguidade destes nomes. Embora em teoria nomes como Isaac e Jacó poderiam ocorrer mais tarde, o agrupamento destas formas de nomes no mesmo período, quando a Bíblia descreve-os não é nem coincidente nem irrelevante. Talvez por este motivo, esta análise tem sido uma das mais incompreendidas e atacadas de qualquer uma das muitas evidências que Kitchen tem apresentado contextualizar a Bíblia. No entanto, não existe nenhuma evidência para anular os fatos. Por conseguinte, o estudo de Kitchen está resumido aqui com a necessária contra-argumentação dos estudiosos nas notas (pp. 341-343).

Nem todos vão concordar com a análise literária de Isaías que se propõe (p. 379). No entanto, a presença de líderes anteriores com o nome de Ciro parece ser claramente demonstrada. Um avô do imperador também governou no Irã sob o nome de Ciro, e um anterior Ciro governou em cerca de 646 a.C. Homens chamados Ciro ainda mais anteriores podem ter governado no Irã (p. 380).

A menção de Ciro é considerada um fundamento no argumento para múltipla autoria de Isaías2 . Perante estes fatos, já não é impossível presumir que um líder iraniano mais antigo chamado Ciro era desconhecido para Isaías de Jerusalém no final do oitavo ou no início do século VII. Algures na questão dos profetas bíblicos, Kitchen analisa Jeremias como sendo composto de sete partes, cada uma escrita originalmente em um pergaminho menor separado.

Isto forma um pano de fundo para o próximo capítulo de Kitchen, que trata dos profetas e profecias. O autor comenta as evidências, desde os profetas de Mari (século 18) e do mundo semítico ocidental para as "profecias" neo-assírias do século VII. As primeiras profecias de Mari deram o tom que contêm o mesmo tipo de ênfases proféticas como ocorre no material bíblico profético tardio. As posteriores profecias semítica-ocidentais e neo-assírias incidem sobre o período de c. 800 a.C. a c. 600 a.C., um período de tempo durante o qual os escritos pré-exílicos proféticos trabalharam. Kitchen visita Ugarit e compara a terminologia para o sacrifício, a estrutura dos templos, a textualmente atestada confissão do pecado, e a terminologia sacrificial.

Ele também considera vários locais palestinos do tardio segundo milênio a.C. e as provas para as atividades do culto lá. Contudo, a forte ênfase na evidência textual significa que Kitchen permanece cético de qualquer material iconográfico sem inscrições acompanhando. Assim, o bem- conhecido culto de Taanach sustentado a partir do décimo século não possui imagens de Asherah onde uma fêmea nua está associada com um leão. Em vez disso, se trata de uma imagem de uma deusa, que representa Qadishtu cujas conexões com leões são textualmente suportadas no Egito. Compara também o nome composto da divindade, Qadishtu-Astarte-Anat. Asherah não é freqüentemente reconhecida assim (p. 410).

Para os primeiros materiais na Bíblia, os de Gênesis 1-11, Kitchen considera os primevos contos mesopotâmicos, aLista dos Reis Sumérios, o Épico Atrahasis, e o Gênesis de Eridu. Ele observa que, à semelhança de Gênesis 1-11, todos estes datam a partir do início do segundo milênio a.C. e eles todos têm a criação (por fim) seguida por uma inundação e um novo começo. Ele conclui que o rio Pishon no Jardim do Éden, deve ser identificado (seguindo J. Sauer), com um rio que flui através da Arábia Saudita até ter se esgotado no terceiro milênio a.C.

Para o Quadro das Nações (Gênesis 10), Kitchen argumenta que este trabalho, que começou no início do segundo milênio, foi atualizado no primeiro milênio. Particularmente a estrutura de Gênesis 1-11 e seus homólogos e o Quadro das Nações são úteis em estudos de literatura comparada, embora não seja claro a este escritor que o Gênesis de Eridu constitui uma fonte unificada.

A conclusão do capítulo de cinqüenta páginas muito das evidências apresentadas em maior detalhe nos capítulos anteriores. No entanto, faz mais. Começando com as recentes avaliações críticas de história bíblica de T.L. Thompson, N.P.Lemche, e o trabalho de I. Finkelstein e N. Silberman (com um aceno a W.G. Dever), Kitchen analisa e critica seus argumentos. Ele então se move para trás no tempo para a metade do século XX e examina os estudos sobre as narrativas do Gênesis por Thompson, J. VanSeters, e o egiptologista P.O. Redford.

Após apontar os erros de evidência nestas obras, ele considera a coleção de ensaios que J.H. Hayes e J.M. Millerpublicaram em 1977 e que se tornou o texto padrão inglês sobre o estudo crítico da história de Israel durante o último quarto de século. Por último, ele considera os críticos do final do século XIX e início do XX. Em cada caso ele identifica erros específicos de fato, baseado em evidências que existem atualmente. Além disso, Kitchen oferece reflexões críticas sobre a Zeitgeist ("Espírito da Época" - clima intelectual de um contexto) de cada período e a maneira em que esta influenciou as pressuposições da época. Isso inclui uma revisão do desconstrucionismo como aplicado aos estudos históricos na época atual. Seria conveniente o estudante de história bíblica analisar e refletir sobre estas páginas, especialmente as discussões específicas de erros na prova em si e na forma em que críticos estudiosos têm, por vezes, lhes reportado. O tipo de frustração que emerge na discussão da apresentação consistente de erros factuais, por não-especialistas em um campo particular (porém eles são altamente respeitados) é exemplificado na pp. 481-482, e vale a pena ler-se por todos serem historiadores da Bíblia.

Umas cem páginas de notas, quarenta "pratos" de mapas, desenhos e gráficos, e índice de assuntos e passagens da escritura completam o volume. Um livro desse tipo iria beneficiar mais com notas de rodapé do que notas finais. Também seria mais fácil ter usado as placas que haviam sido incorporadas no texto nos pontos apropriados.

O autor merece a gratidão de todos os estudantes da Bíblia por este trabalho notável. Professor Kenneth A. Kitchen dedicou sua vida ao estudo da história e cultura do Egito Antigo e do Antigo Oriente Próximo. Existem poucos estudiosos que trabalharam tão longa e cuidadosamente as fontes primárias como ele o fez. Este estudo apresenta um claro convite para avaliar as evidências à luz de uma multiplicidade de hipóteses e hábeis generalizações e para o regresso à difícil, mas realmente gratificante tarefa do exame das fontes primárias para o estudo do Antigo Israel. Com Kitchen, este começa com a própria Bíblia e avança aonde quer que todas e quaisquer evidências pertinentes levem o investigador.

Richard S. Hess, Ph.D.
Professor of Old Testament and Semitic Languages
Denver Seminary
May 2004

Fonte: http://bibliosofia-informadordeopiniao.blogspot.com.br/