6 de junho de 2012

Introdução à Teologia do Antigo Testamento (Parte 3)


4.1. Fundamentos Filosóficos da Hipótese Graf-Wellhausen

Um outro nítido exemplo pode ser visto na influência da filosofia hegeliana (Hegel), sobre a Teologia do Antigo Testamento, principalmente no que concerne à concepção de Hegel sobre o desenvolvimento da religião.

Hegel concebia a religião em quatro etapas distintas:

  • religião natural ou animismo caracterizado pela adoração a natureza;

  • religião antropomórfica, cuja ênfase estava na representação da divindade em forma humana1;

  • religião cristã ou cristianismo;

  • o último estágio de desenvolvimento da religião é a reformulação das crenças do cristianismo em conceitos da filosofia especulativa.
Esse conceito idealista (isto é, apenas a mente é real) 2 da história da religião baseava-se nas três leis do raciocínio lógico-filosófico (lógica dialética):

  • do movimento – “tudo é movimento, e está em processo de mudança continuamente”;

  • da contradição – onde “a contradição é a base de todo movimento e toda manifestação vívida”;

  • da transformação qualitativa – que é “o resultado do encadeamento lógico das duas primeiras”.

Procede dessa conseqüência lógica (tese, antítese e síntese), que a história revela progressivamente o absoluto, e tudo o que acontece na história é de caráter racional, pois tudo tem uma justificativa racional. Segundo Reale: “Hegel pode ser considerado o primeiro “modernista” (para usar uma terminologia posterior), no sentido que adequou sistematicamente o dogma cristão tradicional ao pensamento moderno e o mudou radicalmente em função de suas exigências especulativas”.3

O idealismo hegeliano expandiu-se como movimento filosófico alemão, e após a morte de Hegel, a escola se dividiu a respeito da correta interpretação da doutrina religiosa, nascendo assim o que Mondin chama de direita e esquerda hegeliana.4 A esquerda representada por J.K.F. Rosenkranz e G. Herdermann, que alterando a doutrina de Hegel, procuraram se coadunar com a ortodoxia e com a fé cristã tradicional, conservando a crença na imortalidade da alma, a união da natureza divina e humana na pessoa de Cristo, a personalidade e a transcendência de Deus.5 Já os hegelianos da esquerda, tais como L. Feuerbach e K.Marx desenvolveram a filosofia de Regel como radical negação dos fenômenos sobrenaturais e naturais da vida religiosa.6

Quando o discípulo de Hegel, Wilhelm Vatke lançou em 1835 a sua Teologia Bíblica (Biblische Theologie) com base na filosofia de seu mestre, lançou as sementes para Julius Wellhausen, em 1895, desferir seu golpe contra a autoria mosaica do Pentateuco, por meio da Hipótese Documentária.

Embora não tenha sido o pioneiro da teoria evolucionária da história religiosa de Israel, e o patrono da Hipótese Documentária, Wellhausen, de modo habilidoso e eloqüente deu nova roupagem a teoria a partir de uma releitura do teólogo Karl H. Graf, conferindo-lhe a sua expressão clássica, que lhe deu proeminência na maioria dos círculos eruditos europeus e, mais tarde, norte-americanos. Mais tarde essa teoria ficou conhecida como Hipótese Graf-Wellhausen, que foi aceita como base fundamental da Alta Crítica.

Segundo Wellhausen, o Pentateuco não é de autoria mosaica, mas a reunião de diversos documentos escritos por diversos autores, escritos em épocas distintas. Wellhausen fez repousar a Hipótese Documentária sobre o ponto de vista evolutivo da história, prevalecente nos círculos filosóficos da época. Usava a teoria da evolução religiosa de Israel como um dos meios para distinguir os supostos documentos que constituiriam o Pentateuco. Também a utilizou para datar esses documentos. Por exemplo, se lhe parecia que determinado documento tinha uma teologia mais abstrata do que outro, chegava à conclusão de que havia sido redigido em data posterior, já que a religião cada vez mais se tornava complicada. Por isto, estabeleceu datas segundo a medida de desenvolvimento religioso que ele imaginava. Relegou o livro do Gênesis, em sua maior parte, a uma coleção de mitos cananeus, adaptados pelos hebreus.

Wellhausen e Graf denominaram os supostos documentos da seguinte forma:

O Javista (J) que prefere o nome Yahweh e teria sido redigido possivelmente no reinado de Salomão e é considerado o mais antigo;

O Eloísta (E) que designa Deus com o nome comum de Elohim e teria sido escrito depois do primeiro documento, por volta do século VIII (a.C.);

O Código Deuteronômico (D) que compreenderia todo o livro de Deuteronômio e teria sido escrito no reinado de Josias pelos sacerdotes que usaram esta fraude para promover um despertamento religioso (2 Rs 22.8). O documento "D" ou deuteronômico teria como propósito estabelecer certas reformas nas práticas religiosas;

O Código Sacerdotal (S) é o que coloca especial interesse na organização do Tabernáculo, do culto e dos sacrifícios e forneceu o plano geral do Pentateuco.7 Esse escritor teria sido o último compilador a trabalhar na formação do Antigo Testamento, tendo dado ao mesmo os toques finais (cerca de 621 a. C.). “S” caracteriza-se por ter usado o nome Elohîm para indicar Deus e pelo seu estilo ácido. Segundo afirmam os adeptos da teoria, "a linguagem do código S é própria de um jurista, e não necessariamente de um historiador".

Estava lançada a semente para o movimento posterior que pregava a morte da Teologia do Antigo Testamento.


5. Conseqüências da aceitação da Hipótese Documentária.


1. Negação da autoria mosaica do Pentateuco, ficando apenas pequenos trechos do atribuídos ao período mosaico;

2. Negação da historicidade e realidade de muitos fatos e personagens bíblicos, pois segundo a teoria, muitos heróis bíblicos foram apenas seres irreais e imaginários;

3. O Pentateuco não fornece um relato veraz dos tempos passados, mas apenas reflete a história do reino dividido até o período pós-exílico de Israel;

4. As narrativas que tratam a respeito de Deus e de sua revelação e comunicação com vários homens é mentirosa. Jamais Deus falou com os homens como a Bíblia afirma, mas os sacerdotes e levitas é que deram, segundo eles, essa falsa impressão;

5. Nenhum dos fatos culturais narrados no Pentateuco pertence àquele período;

6. Os primeiros israelitas jamais tiveram um tabernáculo, tal qual afirma o Pentateuco;

7. São inverdades, segundo os adeptos da teoria, todas às reivindicações bíblicas concernentes aos atos miraculosos e remidores de Deus no Pentateuco;

8. Aceitar essa teoria é acreditar que o Pentateuco é um amálgama de idéias e concepções heterogênias; sem unidade e contradizente;

9. A inspiração divina das Escrituras é anulada, mesmo que alguns teóricos tentem conciliar a doutrina da inspiração à hipótese documentária;

10. Essa teoria torna o próprio Jesus mentiroso, pois o próprio Cristo afirmou ser o Pentateuco também de autoria mosaica;

11. Essa teoria nega as evidências internas e cumulativas que atestam a autoria mosaica.

12. Essa teoria induz ao erro e ataca a autoridade das Sagradas Escrituras, pois se a Bíblia não é segura em matéria histórica e literária, como poderá ser nos aspectos salvíficos e eternos? Aceitar a Hipótese Documentária simplesmente para conciliar o cristianismo ao racionalismo moderno é improdutivo quanto à fé.

A Hipótese Documentária já foi contestada em seu próprio berço, a Europa. Muitas obras foram escritas condenando não apenas os conceitos, às sutilezas, mas também os seus fundamentos teóricos. No entanto, alguns teólogos e seminários brasileiros insistem nessa teoria. Para alguns, infelizmente, a hipótese documentária é muito mais do que uma teoria, mas um dogma e um método de interpretação das Escrituras.


Fonte: teologiaegraca.blogspot.com.br



Notas:


1 Onde Deus era representado na forma humana com templos e imagens edificados em sua homenagem.

2 O conceito idealista de Hegel era que somente a mente é real, e o que é real é racional, e tudo aquilo que é racional é real.

3 REALE, Giovane; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do Romantismo até nossos dias. 3.ed. São Paulo: Paulus. Volume III. 1990, p.99.

4 Cf. MONDIN, Battista. Curso de filosofia: os filósofos do Ocidente. 5. ed. São Paulo: Edições Paulinas.Volume 3. 1981-1983, p.46.

5 Id.Ibid.,p.47.

6 Id.Ibid.,p.47.

7 O código Sacerdotal também é conhecido como “P”, pois em inglês, “sacerdotal” é Priestly.