5 de junho de 2012

Introdução à Teologia do Antigo Testamento (Parte 2)



4. História da Teologia do Antigo Testamento

Os teólogos que se ocupam da Teologia do Antigo Testamento datam o início dessa disciplina em 30 de março de 17871, e atribuem a paternidade moderna da disciplina a Johann Philpp Gabler. Gabler discursou na Universidade de Altdorf, Alemanha, sobre “Da distinção correta entre as teologias bíblica e dogmática e da determinação adequada dos alvos de cada uma delas”. Nesta ocasião Gabler distinguiu a Teologia do Antigo Testamento da Teologia Dogmática e da Teologia do Novo Testamento. Atualmente acredita-se que a primeira obra a usar o título “Teologia do Antigo Testamento” saiu da pena de G. L. Bauer, publicado em Leipzig, Alemanha, em 1796, sob o título Teologia do Antigo Testamento (Theologie des Alten Testaments).


Entretanto, tanto Gabler quanto Bauer eram adeptos dos métodos racionalistas aplicados aos textos (racionalismo alemão), e destacaram como teologia, sobretudo, a abordagem sobre aquilo que eles compreendiam como elementos mitológicos ou lendários do Antigo Testamento. Tudo quanto não se podia explicar, como por exemplo, os milagres; e os eventos que uma mente racionalista não podia compreender, como a interferência divina na história do povo eleito, eram considerados por eles como mitológico ou lendário, ou como símbolos literários que representavam uma realidade política ou histórica.

A base da Teologia do Antigo Testamento nesse período centralizava-se, sobretudo no racionalismo alemão, do qual J.D. Michaelis (1717-1791) e J. D. Semler (1725-1792), foram responsáveis pela aplicação dos fundamentos e métodos racionais às Escrituras. Embora cressem na existência de Deus, aceitavam a doutrina do determinismo e deísmo que afirmavam que Deus não intervinha na história do homem.

Esses estudiosos eram anti-sobrenaturalistas, trabalhavam sob a pressuposição de que Deus não intervem na história do homem. Portanto, rejeitavam qualquer evidência que indicasse a presença de fatores sobrenaturais na história do povo eleito e da igreja. Tanto Gabler, Michaelis, Semler e os que vieram após ele aplicavam ao estudo do Antigo Testamento o método histórico-gramatical de interpretação. O método histórico-gramatical ou léxico-sintático, embora seja um ótimo método de interpretação, recebeu ênfase e pressuposições anti-sobrenaturalista, que negava a intervenção de Deus na história humana. Infelizmente, esse conceito, incapaz de traduzir a verdadeira teologia, influenciou teólogos e universidades cristãs em todo o mundo.

No excelente artigo de Dreyfus, “Exegese Acadêmica e Exegese Pastoral” (Exégèse em Sorbonne, exégèse em Église”, o rapsodo alerta que a crítica literária (hermenêutica crítica) ter-se-ia tornado um câncer no seio da exegese.4 Dreyfus considera as Escrituras uma obra com uma mensagem clara, e por isso mesmo, não é necessário uma pesquisa acadêmica com refinados métodos, basta ler com atenção e boa vontade para compreender a mensagem. Não somos escusados de frisar que as afirmações do teólogo francês é uma provocação dirigida a crítica literária, ao seu método puramente científico, que nada acrescenta a fé. A visão hermética das Escrituras deve ser reavaliada, e isso deve ser realizado através do equilíbrio entre teoria, prática e edificação.

Não somos escusados de frisar, contudo, que boa parte da Teologia do Antigo Testamento na Alemanha desenvolveu-se sob as tutelas da filosofia de Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), e Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855).2 Embora, em certos aspectos, a Teologia do Antigo Testamento tenha se formado com as bases dos discursos filosóficos desses pensadores e de outros não registrados aqui, atualmente se discute os avanços e retrocessos propiciados por essas escolas filosóficas na formação de uma Teologia do Antigo Testamento.
Para percebermos a gravidade da situação da Teologia do Antigo Testamento dentro do contexto do racionalismo alemão, não é apenas necessário quanto também plausível, que perlustremos um pouco mais sobre o tema.
Nas bases ulteriores desse cenário surgiu Hermann Samuel Reimarus (1694-1768) com a defesa da religião natural e a rejeição da religião revelada. Segundo Reimarus, na obra lançada em 1754 (Tratado sobre as principais verdades da religião cristã), a razão é suficiente para provar a existência de Deus como criador do mundo e a imortalidade da alma. Segundo Reale, para Reimarus:


"Deus é o criador do mundo e da ordem do mundo, então o único milagre verdadeiro é a criação, sendo impossíveis os milagres proclamados pela religião positiva, porque Deus não tem por que mudar nem corrigir as suas obras. Apenas a religião natural é verdadeira e, como a religião bíblica é contrária à religião natural, então isso significa que a religião bíblica é simplesmente falsa."3


Essa consideração foi assimilada por muitos teólogos que procuravam conformar a Bíblia às concepções iluministas daquele período. Pouco tempo depois viria a ascensão do evolucionismo que acabaria agravando muito mais a situação das teologias bíblicas vigentes.

Fonte: teologiaegraca.blogspot.com.br

Notas:

1 Cf. CRABTREE, A.R. Teologia do Velho Testamento. Rio de Janeiro:JUERP, 1977,p.35; SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento: história, método e mensagem. São Paulo:Vida Nova, 2001, p.29.
2 Schleiermacher foi um influente pastor em Berlim que, ainda hoje é considerado o pai da teologia moderna. Hege era um teólogo e filosofo que negava a limitação da razão e a considerava como a base das operações do Absoluto em todas as coisas. Kierkegaard, o “Dinamarquês Melancólico”, considerado o patrono do existencialismo.
3 REALE, Giovane; ANTISERI, Dario. História da filosofia: do humanismo a Kant. 3.ed. São Paulo: Paulus. Volume 2, 1990, p.831.
4 DREYFUS, F. Reoulé-F. Exégèse em Sorbonne, exegese Église, apud SIMIAN-YOFRE, Horácio (et.al.). Metodologia do Antigo Testamento. Bíblica Loyola 28. São Paulo: Edições Loyola, 2000,p.13-18.