12 de abril de 2012

Teoria do Conhecimento - Johannes Hessen (Resumo)


Por Danilo Moraes

Introdução

 A essência da filosofia
Quando se fala em teoria do conhecimento, falamos em uma disciplina da filosofia. Ao tentarmos definir o que vem a ser “filosofia” encontramos uma grande dificuldade, pois cada filósofo em sua época a definiu de uma maneira. Mas não pode negar que na busca por esta definição se encontra as seguintes características na essência de toda filosofia: a) a atitude em relação à totalidade dos objetos; b) o caráter racional, cognoscitivo dessa atitude.
Tanto Sócrates como depois com seu discípulo Platão, mostram sua filosofia como a auto reflexão do espírito sobre seus valores teóricos e práticos, os valores do verdadeiro, do bom e do belo.
Através de sua metafísica Aristóteles vê a filosofia como uma visão de mundo. Após Aristóteles a filosofia com os estóicos e epicureus, transforma-se em filosofia de vida. Já no começo da Idade Moderna a filosofia torna pelo caminho aristotélico, ou seja, aparece como teoria do conhecimento. No século XIX a filosofia assume um caráter puramente formal, metodológico.
Enfim a filosofia é uma visão de si e uma visão de mundo. A ciência e a filosofia possuem uma afinidade, a saber, o pensamento. A Ciência preocupa-se com o particular e a filosofia com o universal. Na religião sua visão filosófica é baseada em sua fé, na filosofia brota do conhecimento racional.


  1. A posição da teoria do conhecimento no sistema da filosofia
A filosofia se divide em diferentes disciplinas: teoria da ciência, teoria do valor e teoria da visão de mundo. A teoria do conhecimento se encaixa dentro da teoria da ciência, e pode ser definida como teoria material da ciência. Geralmente se divide a teoria do conhecimento em geral e especial.

  1. A história da teoria do conhecimento
A teoria do conhecimento veio surgir como disciplina independente, através de John Locke. No ocidente Kant surge como o verdadeiro fundador da teoria do conhecimento. Com Fichte, sucessor de Kant, a teoria do conhecimento é chamada “teoria da ciência”.

PRIMEIRA PARTE

Teoria Geral do Conhecimento
Investigação fenomenológica preliminar:
O fenômeno do conhecimento e os problemas nele contidos

A teoria do conhecimento se trata de uma “teoria” e portanto é necessário cautela ao investiga-la. Esta teoria busca apreender a essência geral no fenômeno concreto, busca o que é essencial.
O conhecimento é uma determinação do sujeito pelo objeto, e o conhecimento se dá com a relação do sujeito com o objeto. A essência do conhecimento está estreitamente ligada ao conceito de verdade. Somente o conhecimento verdadeiro é conhecimento efetivo. O conhecimento é algo totalmente peculiar e independente. O método fenomenológico só pode oferecer uma descrição do fenômeno do conhecimento.

I . A possibilidade do conhecimento

1.      O dogmatismo
O principal erro do dogmatismo, é não compreender que o conhecimento se da com a relação entre sujeito e objeto. Dentre as formas de dogmatismo temos o teórico, ético e religioso. O dogmatismo esta entre o mais antigo ponto de vista, somente com os sofistas que levantou-se o problema do conhecimento, dando fim assim com o dogmatismo no campo da filosofia.

2.      O ceticismo
O ceticismo acredita ser impossível o sujeito apreender o objeto. Assim, devemos nos abster de qualquer formulação de juízo. Existem diversas formas de ceticismo, ceticismo, lógico, absoluto, radical, metafísico, ético, religioso, metódico, sistemático.
Na antiguidade temos Pirro de Elis (360-270 a.C), como seu fundador. Em tempos modernos temos Montaigne (+1592) e Hume com um ceticismo metafísico. Temos também Bayle, e Descartes. Qualquer forma de ceticismo é infrutífero pois anula a possibilidade de conhecimento. O ceticismo metafísico é também conhecido como positivismo; o ceticismo religioso de agnoscitismo.

3.      O subjetivismo e o relativismo
Para o subjetivismo e o relativismo a verdade existe, mas é limitada em sua validade. Para o relativismo não existe verdade absoluta, toda verdade é relativa. Os sofistas já empregavam o subjetivismo através de Protágoras com sua famosa frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Resumindo, o que o subjetivismo e o relativismo é que não existe verdade universalmente válida. Com isso se mostram céticos pois negam a verdade, de maneira indireta contestando sua validade universal.

4.      O pragmatismo
A verdade segundo o pragmatismo significa o que é útil, valioso, promotor da vida. William James (+ 1910) é tido como o fundador do pragmatismo. Na Alemanha seu maior defensor foi Friedrich Nietzsche (+ 1900).
           
5.      O criticismo
O criticismo se encontra entre o dogmatismo e o ceticismo. Crê que o conhecimento é possível e a verdade existe, mas põe a prova todo afirmação da razão humana e nada aceita inconscientemente. Kant é tido como o verdadeiro fundador do criticismo

II. A origem do conhecimento
1.                   O racionalismo
                       O racionalismo entende que o conhecimento deve ter validade universal, e a razão humana é quem julga a validade de algo. Assim todo conhecimento genuíno depende do pensamento. Em Platão vemos algumas raízes do racionalismo, pois ele esta convencido da necessidade lógica e da validade universal para o verdadeiro saber.
                       Com Agostinho o conhecimento se dá quando o espírito humano é iluminado por Deus. Descartes e Leibniz acreditam que existem em nós idéias inatas que seriam fundamentadoras de nosso conhecimento.

2.                  O empirismo
                        Contrariando o racionalismo que tem na razão a fonte do conhecimento, o empirismo tem a experiência como fonte de conhecimento. Desde tempos antigos vemos concepções empiristas, como nos sofistas, estóicos e epicuristas. Mas somente com John Locke (1632-1704) filósofo inglês que o empirismo se sistematiza e se desenvolve. Locke nega as idéias inatas, pois acredita que a alma é um papel em branco que a experiência vai aos poucos cobrindo com marcas escritas.
                        O empirismo acaba levando ao ceticismo, pois se todo conhecimento esta estabelecido nos limites do mundo da experiência, um conhecimento metafísico é absolutamente impossível.

3.                             O intelectualismo
            O intelectualismo é uma forma de mediação entre racionalismo e empirismo que são antagônicos, pois acredita que tanto a razão como a experiência participam na formação do conhecimento. Para Aristóteles racionalismo e empirismo seriam uma síntese.

4.                             O apriorismo
            O apriorismo também aceita o racionalismo e o empirismo como formas de conhecimento. Kant é o fundador desta teoria, ele buscou mediar entre o racionalismo de Leibniz e Wolff e o empirismo de Locke e Hume. Para ele o material do conhecimento provém da experiência, e a forma provém do pensamento.

5.                        Posicionamento crítico
A moderna psicologia do pensamento tem refutado o empirismo que alega que todo conhecimento vem da experiência. A psicologia desconhece conceitos inatos ou nascidos de fontes transcendentes. Devemos buscar uma atuação conjunta de fatores racionais e empíricos no conhecimento humano.

III. A essência do conhecimento

1.      Soluções pré-metafísicas do problema
a)        O objetivismo
Para o objetivismo o elemento decisivo na relação de conhecimento é o objeto e este determina o sujeito.

b) O subjetivismo
Ao contrário do objetivismo que procura ancorar o conhecimento no objeto o subjetivismo ancora o conhecimento no sujeito. Este sujeito é puramente lógico e não metafísico.

2.                 Soluções metafísicas do problema
a) O realismo
Para o realismo existem coisas reais, independentes da consciência. Dentre as formas de realismo existe o realismo ingênuo, o realismo natural, e o realismo crítico. Na Grécia antiga Demócrito enfatizava o realismo crítico, mas Aristóteles sustentava um realismo natural, que predominou até a Idade Moderna quando reviveu o realismo crítico de Demócrito.

b) O idealismo
Dentre as formas de idealismo o metafísico e o epistemológico, trataremos do epistemológico. E este acredita não haver coisas reais, independentes da consciência. Existe o idealismo subjetivo ou psicológico e o idealismo objetivo ou lógico.
O idealismo sustenta que é contraditório pensar num objeto independente da consciência, pois na medida em que penso num objeto, faço dele um conteúdo de minha consciência. Toda realidade esta na consciência.

c) O fenomenalismo
O fenomenalismo é uma tentativa de reconciliar o realismo e o idealismo, e Kant teve uma papel importantante nesta tentativa. A teoria do fenomenalismo advoga que conhecemos as coisas como nos aparecem. E lidamos sempre com o mundo das aparências, e nunca com as coisas em si mesmas.

IV. Os tipos de conhecimento
1.      O problema da intuição e sua história
Para se adquirir o conhecimento é necessário buscar de varias maneiras apreender e compreender o objeto. A forma de conhecimento intuitiva se da pelo olhar. Temos a intuição racional, uma emocional e uma volitiva.
Em Descartes temos a intuição como forma autônoma de conhecimento, pois a proposição cartesiana não envolve nenhuma inferência, mas uma intuição imediata de si. Para Espinosa, Leibniz, e Kant a intuição não representa um papel especial na teoria do conhecimento.
No século XIX, Fichte sucessor de Kant entendia haver uma intuição racional-metafísica. Para Fries o pressentimento é o órgão religioso do conhecimento, e para Schleiermacher a religião não é nem um saber, nem um fazer. Seu lugar não é nem o entendimento nem a contade, mas sim o sentimento, para ele a religião é “sentimento e intuição do universo”.
O neokantismo nega a intuição como forma de conhecimento. O realismo crítico da mesma forma também nega

2.      O correto e o incorreto no intuicionismo
Conforme se pensa a respeito da essência do homem se tem uma visão de conhecimento ou racional, ou intuitivo. No campo teórico o meio de conhecimento é o racional-discursivo, e no meio prático o conhecimento se dá pelo intuicionismo. Desta forma a razão esta ao lado do intuicionismo.

V. O critério da verdade
1.                 O conceito de verdade
Eis a grande questão. Como sabemos se um juízo é verdadeiro?
Quando o conteúdo do pensamento entra em concordância com o objeto, temos um conceito de verdade transcendente. O conceito imanente diz que o conceito de verdade reside no interior do próprio pensamento. A verdade é a concordância do pensamento consigo mesmo.
O conceito de verdade imanente segue os princípios do fenomenalismo, e só faz sentido caso não haja qualquer objeto real, exterior à consciência.

2.                 O critério da verdade
Para o idealismo lógico verdade significa concordância, assim , onde não existe contradição está a verdade. Mas este critério de verdade não é universal. No conceito imanente de verdade, um juízo é verdadeiro se construído segundo as e normas do pensamento.

SEGUNDA PARTE
Teoria especial do conhecimento

1.           Sua tarefa
A teoria especial do conhecimento, busca através de um relacionamento com os objetos chegar ao conhecimento. Ela investiga os conceitos (categorias) gerais com que tentamos definir os objetos. Assim, se relaciona com a metafísico geral ou ontologia. Pretende, partindo dos fatos da experiência, obter uma visão da estrutura essencial do mundo, dos princípios de toda a realidade.

2.     A essência das categorias
Para Aristóteles as categorias são formas do ser, determinações dos objetos; e para Kant são formas do pensamento, determinações do pensamento.
Em uma concepção moderna da teoria dos objetos, as categorias aparecem como propriedades do objeto.

3.      O sistema das categorias
Aristóteles foi o pioneiro em tentar sistematizar as categorias. Kant buscou ao contrário de Aristóteles que derivou dos tipos de palavras sua sistematização, enquadrar a sistematização nos tipos de juízo. Após Kant a única busca relevante da sistematização das categorias foi feita por Eduard von Hartmann, que entendia que as categorias pertencessem á esfera do inconsciente. Hartmann dividiu as categorias em categorias da sensibilidade e categorias do pensamento.
As categorias, não podem si dar por vias psicológicas e metafísicas, mas somente por vias lógicas.

4.                            A substancialidade
Os acidentes necessariamente dependem das substâncias, os primeiros não existem por si só, já as substâncias sim. Esta relação das substâncias com os acidentes é chamada de inerência. Os acidentes mudam, já as substâncias permanecem sempre as mesmas, assim, possui o atributo de permanência.

5.          Causalidade
b) O princípio de causalidade
O princípio de causalidade pressupõe que toda as vezes que nos deparamos com uma mudança devemos pressupor uma causa. Assim, toda mudança, todo acontecimento tem uma causa. Tudo que surge, surge pela força de uma causa.

Conclusão
Fé e saber
O conhecimento humano dentre as áreas abordadas, temos também a metafísica, e suas relações com a filosofia. Nisto alguns vêem que a filosofia é religião, outros que a religião é filosofia; alguns já dizem que são uma só coisa.
Ocorre que a metafísica se preocupa com representações concretas, e não abstratas, o que a torna inferior. Então, a religião se baseia na filosofia, a fé baseia-se no saber.
Para Kant enquanto ciência a metafísica é impossível, e esta forma de pensar dominou a teologia protestante no século XIX.
O dualismo moderna acredita ser possível a metafísica como ciência, pois elas tem um ponto de contato: a idéia de absoluto. As tentativas de se misturar religião e filosofia, deve saber que a religião é um domínio de valores completamente autônomo.
Os fundamentos filosóficos utilizados pela religião abalaram os fundamentos tradicionais. Mas a pedra fundamental pode virar pedra de moinho levando alguns ao ceticismo, pois não soube lidar com o intelectualismo resultante do conflito entre filosofia e religião.