12 de abril de 2012

Pluralismo Pós-Modernista


Por Danilo Moraes 

O pluralismo tem várias pressuposições que controlam todo um conjunto de idéias:
A primeira grande pressuposição é que, segundo a abordagem pluralista, todas as religiões têm que abandonar a sua arrogância teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma cultura superior à outra. Todas são igualmente boas.
O que percebemos é que o cristianismo é altamente relevante na sociedade contemporânea, não para levantar novamente a bandeira do intelectualismo, mas para mostrar a racionalidade da fé cristã, para trazer de volta os fundamentos da sociedade e da moralidade, e para responder a questões que só o cristianismo pode responder. Contudo, estas convicções têm sido continuamente questionadas hoje. Num contexto pluralista em que vivemos, ninguém pode dizer uma coisa dessas da sua própria religião. Tudo é relativizado. “Todos aqueles que se sustentam em sua metanarrativa, como se ela realmente fosse a história canônica, abarcando ou explicando todas as outras histórias, vivem sob uma ilusão”.[1]

A grande dificuldade que a fé cristã enfrenta é na área da apologética, que é o departamento da teologia que reivindica a verdade do cristianismo. O cristianismo certamente reconhece que é a única religião verdadeira, pois crê numa religião revelada pelo único Deus. Mas num mundo de pós-modernismo, não há lugar para a apologética. Como podem as reivindicações de verdade do cristianismo ser tomadas seriamente, quando há muitas alternativas rivais e quando a "verdade" em si mesma tem se tornado uma noção esvaziada? Ninguém pode reivindicar a posse da verdade. É tudo uma questão de perspectiva. Todas as reivindicações da verdade são igualmente válidas. Não há nenhum ponto de vantagem privilegiado que permita alguém decidir o que é certo e o que é errado.
Segundo o princípio pluralista, a fé cristã tem que se contentar em ser apenas mais uma entre as muitas alternativas religiosas neste mundo pós-modernista. A fé cristã não pode jactar-se de ser a única detentora da verdade. O orgulho teológico do cristianismo deve ser combatido.
A segunda grande pressuposição do pluralismo religioso é a ausência da verdade absoluta. Não existe a verdade, mas verdades. A verdade é alguma coisa subjetiva, na mente de quem interpreta um texto, mas não no texto propriamente. A verdade está na forma como eu a vejo, mas não objetivamente. O que é verdade para mim pode não ser verdade para outra pessoa. Por essa razão, ninguém pode reivindicar estar com a verdade objetivamente. Ela não está em nenhum lugar que não seja na mente do indivíduo. O pós-modernismo tem sido caracterizado por “uma aversão endêmica pelas questões da verdade.”
A verdade pode estar em dois sistemas políticos e econômicos totalmente opostos. Algumas pessoas podem aceitar a democracia e outros o totalitarismo. Ambos podem estar com a verdade porque a verdade é reconhecida quando ela é aceita por um grupo, mas não existe verdade absoluta ou objetiva. O fato é que estamos convivendo nesta nossa geração com "verdades" antitéticas; convivendo com concepções opostas igualmente "verdadeiras."
Assim, na concepção pluralista, nenhuma religião, inclusive o cristianismo, é a depositária da verdade. Não existe a idéia de definição: este versus aquele. Não deve haver, em hipótese alguma, a definição de estar num lado ou no outro, como se somente um dos lados estivesse com a verdade. A verdade está com todas as religiões, e não é propriedade de uma só. Há uma relativização histórica das verdades do cristianismo.
Para os pluralistas, são altamente criticáveis aqueles que postulam um só padrão de verdade. Todos aqueles que se insurgem contra a crença pós-modernista de que "não há absolutos" ficam fora dos cânones da tolerância. O erro dos cristãos, por exemplo, segundo os pós-modernistas neste mundo pluralista, é crer na verdade absoluta.
A terceira grande pressuposição embutida no pluralismo pós-modernista é a de que a experiência religiosa de todas as tradições deve ser fonte de autoridade. Segundo o pós-modernismo: “Contamos histórias, acreditamos em doutrinas, sustentamos filosofias porque elas dão a nós ou à nossa comunidade poder sobre os outro”.[2]
O pós-modernismo tem sido caracterizado pela ausência da verdade objetiva, como já foi mencionado acima, e isto leva a um paradigma altamente subjetivo. O pós-modernista Steven Connor, diz que "desde a música ao turismo, à TV e mesmo à educação, todas estas coisas são imperativos da propaganda, e que o consumidor não quer mais aquilo que é bom, mas ele quer experiências."  Essa força da experiência como algo de suprema importância tem atravessado as barreiras do mundo chamado "secular." Ela tem entrado no terreno da teologia prática. Muitos segmentos do cristianismo pós-moderno têm mudado o paradigma básico da busca da verdade objetiva da Palavra de Deus para a "verdade" da experiência. Se o paradigma da verdade de Deus não é levado em conta, e aceitamos o paradigma da experiência, não poderemos negar as experiências de outros grupos religiosos não-cristãos como válidas e como fonte autoritativa.
O cristianismo moderno tem enfatizado a experiência com Cristo Jesus como base de sua fé. Se a experiência dos cristãos é fundamento para a sua fé, não se pode negar às outras tradições o mesmo critério. Uma das coisas mais profundas nas religiões não-cristãs é a experiência religiosa como um fenômeno indiscutível. Às experiências de outras religiões também deveria ser permitido o mesmo status pelos pluralistas cristãos, para poderem ser coerentes. Muitíssimos religiosos muçulmanos e budistas têm reivindicado experiências salvadoras, confortadoras e que lhes têm trazido paz, e estas experiências deveriam ser levadas em conta pelos "experiencialistas" evangélicos, ao mesmo nível das experiências cristãs.
O pluralismo pós-modernista apóia totalmente esta mega-mudança nos círculos cristãos. O objetivo do pós-modernismo tem sido alcançado, porque essa mudança anula o princípio básico da verdade ensinada objetivamente.
A quarta grande pressuposição do pluralismo religioso é a necessidade de uma nova forma de "missão."
A missiologia do pluralismo rompe totalmente com o conceito missiológico vigente, até então, dentro da esfera do cristianismo. Ninguém pode tentar convencer outras pessoas a se tornarem cristãs, porque o caminho para a salvação pode ser encontrado dentro de todas elas. Não existem metanarrativas, “a pós-modernidade questionou radicalmente a grande narrativa, seja do Iluminismo, seja da revelação, seja da ciência”.[3] Os missiólogos do pluralismo parecem aceitar a tese de Ghandi, que disse: "Na esfera da política, do social e da economia, podemos estar suficientemente certos de converter pessoas, mas no reino da religião não há certeza suficiente de se converter ninguém e, portanto, não pode haver conversão nas religiões."  A ênfase não é mais à obra perdoadora singular de Jesus Cristo, porque temos que respeitar as tradições religiosas em nossa obra missionária, sem tocar nos pontos onde diferimos. Todas as tradições religiosas culturais têm os seus valores salvíficos. Portanto, não há mais necessidade de conversões!
A nova forma missionária é uma espécie de colaboração internacional de um povo para com outro, na esfera social, econômica e educacional, mas sem interferir nos costumes, hábitos e moral dos povos onde se faz a obra missionária. Não se deve alterar as crenças dos povos. Essa pressuposição missiológica do pluralismo é de certa forma, relacionada com a pressuposição que vem a seguir.
A quinta grande pressuposição do pluralismo religioso é que a religião de uma pessoa deverá ser a religião dominante do lugar onde ela nasceu. Em outras palavras, se alguém nasce em terras onde o islamismo prevalece, essa pessoa tem que ser muçulmana. Gavin D’Costa relaciona essa idéia com o que ele chama de "paroquialismo cultural."  É a cultura religiosa de um lugar que determina a religião dos que ali nascem. A conseqüência de se aceitar esse pressuposto é a noção de que a verdade é uma matéria simplesmente de nascimento.  Essa pressuposição também esvazia o conceito de missão em terras estrangeiras ou transculturais.
Um outro grande perigo do pragmatismo é que ele só vê os resultados. É uma espécie de marketing cristão. Neste barco muitos ministros e igrejas cristãs têm entrado. Por essa razão, o planejamento deles é o de resultados, não o de trabalho. Esse é um perigo do pós-modernismo para o qual precisamos estar atentos. Na perspectiva cristã a primeira coisa a ser levantada é a verdade, é o parâmetro objetivo. Depois, os resultados aparecem. E os resultados não têm muito a ver conosco, mas com a obra do Espírito. Deus mandou que trabalhássemos, plantando, regando e colhendo, mas o fruto do crescimento vem dele.[4]


[1] SIRE, James W. O Universo ao Lado. Press : São Paulo, 2001. pg. 220.
[2] SIRE, James W. O Universo ao Lado. Press : São Paulo, 2001. pg. 230.
[3] TRASFERETTI, José e SÉRGIO, Paulo. Teologia na Pós-Modernidade. São Paulo : Paulinas, 2003. pg. 166.
[4] Ver o artigo de F. Solano Portela sobre a influência do pragmatismo no moderno movimento de crescimento de igrejas, intitulado "Planejando os Rumos da Igreja: Pontos Positivos e Crítica de Posições Contemporâneas," em Fides Reformata 1/2 (1996) 79-98.