31 de março de 2012

Ouvindo a Deus, uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica - DYCK, Elmer. Ed (resenha)



Resenha do Livro:
 Ouvindo a Deus, uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica. DYCK, Elmer. Ed. 2001: Publicações Shedd .

 Por Danilo Moraes

 Considerações Preliminares

A presente obra “Ouvindo a Deus, uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica”, trata de uma antologia que tem por editor Elmer Dyck. Como o objetivo é propor “uma abordagem multidisciplinar” cada capítulo foi tratado com um enfoque diferente e por autor diferente.
Os autores na sua maioria ao desenvolverem seus temas, buscaram dar uma exemplificação bíblica aplicando a teoria que desenvolveram a uma aplicação na interpretação de textos bíblicos. Assim trata-se de uma obra importante, pois não fica apenas no campo teórico. Com esta ferramenta o leitor poderá compreender melhor como “ouvir a Deus” através da Bíblia e também terá base para entender métodos hermenêuticos disponíveis que o conduzirão nesta busca em ouvir a voz de Deus através de sua Palavra.

Os assuntos abordados são “A História como contexto para a interpretação” (Gordon D. Fee); “O cânon como contexto para a interpretação” (Elmer Dyck); “A Teologia e a leitura da Bíblia” (J.I. Packer); “A sociologia do conhecimento e a arte da suspeita – Uma interpretação sociológica da interpretação” (Graig M. Gay); “A hermenêutica e a reação pós-moderna contra a ‘verdade’” (Loren Wilkinson); e “Visando a uma espiritualidade Bíblica” (James M. Houston). Para um resumo de cada capítulo a seguir:


  1. A HISTÓRIA COMO CONTEXTO PARA A INTERPRETAÇÃO

A fim de evitarem-se erros de interpretação é necessário que o leitor da Bíblia faça uma exegese do texto buscando transpor o abismo histórico dos escritores e o nós. Também pela hermenêutica utilizar a exegese, buscando aplicar em nossos dias a Palavra de Deus. Nos últimos duzentos anos temos tido a oportunidade de desfrutar de ferramentas históricas que tem contribuído para compreendermos a intenção original do autor. Isso nos tem colocado em vantagem sobre a igreja antiga.
Para se fazer uma boa exegese deve-se observar tanto o contexto como o conteúdo do texto. Como exemplo, temos o texto de 1Co 3.10-17 e 11.17-34, que ao verificarmos seu Gênero Literário, Contexto histórico (geral e específico) e Contexto literário, podemos chegar a um entendimento do sentido pretendido por Paulo ao escrever 1 Coríntios.
Com isso, vemos que a exegese é uma necessidade, e que a boa exegese deve anteceder a aplicação.

  1. O CÂNON COMO CONTEXTO PARA A INTERPRETAÇÃO

Tanto o AT como o NT constituem-se a Palavra de Deus. Jesus defendia a validez do AT. O autor de Hebreus nos diz que nestes últimos dias Deus tem falado conosco através do Filho, e em 8.13 nos diz que a “nova” aliança pressupõe que a antiga esta velha. As distinções entre os testamentos, é que o primeiro é cronologicamente anterior ao outro, e que o primeiro é sombra do segundo. Mas nenhum deles desqualifica o outro.
Encontramos no texto do AT algumas dificuldades interpretativas em relação ao NT, e uma maneira de tratar com essas dificuldades é usarmos a tradição interpretativa da própria Bíblia, ou seja, nosso padrão esta dentro do próprio cânon.
Jesus interpretava o AT a luz de sua pessoa e missão, e os cristãos do primeiro século seguiram este padrão. No período pós-apostólico predominava uma abordagem harmonística, enfatizando a unidade entre o AT e o NT. Posteriormente desenvolveu-se a escola de interpretação de Alexandria, que era afetada pelo pensamento platônico, tendo como princípio a alegorização do texto. Com a escola de Antioquia, temos uma abordagem que valorizava a interpretação literal e histórica. Do século IV até XV não houve mudança significativa na leitura bíblica.
Para Lutero as Escrituras interpretam as Escrituras, e devem ser entendidas dentro de suas próprias categorias, ao invés de, de ser em termos da tradição herdada. Após a Reforma com o surgimento do Iluminismo, e do Racionalismo, qualquer tipo de interpretação canônica passou a ser inaceitável. O texto passou a ser interpretado apenas em seu sentido histórico.
O texto seria mais bem interpretado se o estudássemos em sua forma final; que o contexto histórico quando observado isoladamente é insuficiente e se víssemos o próprio cânon como o contexto para a interpretação.
O autor faz uma análise de Isaías 7.14, sob a luz do contexto canônico, e de uma exegese histórica buscando determinar qual o significado das palavras, e como foram entendidas, quando foram ditas pela primeira vez. O alvo da abordagem canônica é considerar a realidade à qual os textos apontam. Com isso, os meninos de Isaías 7-9 se referem exclusivamente a crianças no contexto de Isaías; e Mateus ao se referir a estes meninos como sendo Jesus cometeu um erro exegético.

3. A TEOLOGIA E A LEITURA DA BÍBLIA

            È comum pessoas menosprezarem o papel da teologia na vida da Igreja, por acharem que o Espírito Santo “os guiará a toda verdade”. Mas é preciso entendermos o verdadeiro papel da teologia. A princípio a teologia é uma “ciência”  um organismo de pensamento, um complexo de disciplinas que se interagem para fornecer uma compreensão melhor do todo. A teologia para ser compreendida bem leva tempo e esforço por parte do teólogo. Dentre as suas disciplinas temos as seguintes: exegese, teologia bíblica, teologia histórica, teologia sistemática, apologética, ética, missiologia, espiritualidade, liturgia e teologia prática.
            Devido à ascensão do Iluminismo, racionalismo e consequentemente da teologia liberal predominaram nos seminários e estudos teológicos uma postura que negava a fé expressa na Bíblia na forma como era sustentada pela igreja antiga e pelos cristãos evangélicos. Com isso o estudo da teologia passou a ser visto com reservas na maioria das denominações, que passaram então a desencorajar seus membros ao estudo da teologia, pois o referencial que tinham de “teologia” passou a ser os referidos teólogos em atividade que eram na sua maioria liberais ou progressistas.
            Tanto a teologia como a leitura bíblica são uma só. A teologia boa é boa leitura da Bíblia. A leitura da Bíblia gera teologia, e a teologia fertiliza a leitura da Bíblia. A teologia possui um depósito de verdades que chamamos de “ortodoxia”. Essas verdades constituem o teologizar da igreja sobre a Bíblia. A teologia se mostra importante, porque é ela que nos mostra como devemos abordar a Bíblia, coloca diante de nós a substância da Bíblia, nos ajuda a mantermos o ponto de vista bíblico e nos previne, de antemão, contra todos os modos heréticos de entender à Bíblia.

  1. A SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO E A ARTE DA SUSPEITA

Ao buscar tratar sobre uma interpretação sociológica da interpretação, causa imediatamente certa desconfiança, pois a interpretação sociológica da Bíblia tem resultado em questões contrárias a fé cristã ortodoxa. Esta abordagem sustenta a Teologia da Libertação, Teologia Negra e Teologia Feminista. Mas devemos com cautela buscar na ciência “sociologia” contribuições boas para a fé cristã.
Com uma abordagem sociológica se verifica que Jesus desmascarou a hipocrisia do uso do Corbã pelos fariseus, pois Jesus conseguiu detectar a intenção verdadeira dos fariseus ao se referir ao Corbã.
O mais correto seria intitular “Teologias da Libertação” e não Teologia da Libertação, pois são muitas as variações e os interesses em cada teólogo. Mas alguns pontos são comuns: a) teólogos da libertação estão unidos quando suspeitam que as igrejas estabelecidas tenham sido aliadas teológicas das classes opressoras; b) argumentam que a interpretação bíblica tem uma necessidade desesperadora de ficar livre do cativeiro ideológico; c) a interpretação deve começar com a experiência da opressão.
Embora os teólogos da libertação realmente citem as Escrituras, seu verdadeiro apelo, é um tipo específico de experiência, a saber: a experiência da opressão.

  1. A HERMENÊUTICA E A REAÇÃO PÓS-MODERNA CONTRA A “VERDADE”

Com o advento da pós-modernidade tem se apresentado outras formas de hermenêuticas que tem por base os princípios de Bacon, Descartes e Newton; cada qual contribuindo de certa maneira para a conclusão de que o conhecimento é poder. Assim as três características radicais do modernismo são: o desprendimento cartesiano, a fragmentação baconiana e o mecanismo newtoniano.
            Heidegger e Gadamer contribuíram com o componente filosófico da nova hermenêutica, juntamente com Nietzsche, Marx, a Crítica Descontrutivista, Derrida e Foucault. Podemos notar uma interpretação descontrutivista nas teologias da “libertação”, na linguagem “politicamente correta”, na resistência contra um “currículo fundamental”, na interpretação do passado e na história da ciência.
            A verdade objetiva é algo inalcançável. A verdade sempre tem levado a uma forma de dominação, onde o conhecimento detém o poder. Qualquer grupo de declare estar com a verdade deve ser rejeitado. Qualquer interpretação desintegra e desconstrói a doutra pessoa.
            Uma interpretação que considere a autoridade da Palavra de Deus constatará que os textos realmente tem seus significados e refletem a intenção de seus autores.

  1. VISANDOA UMA ESPIRITUALIDADE BÍBLICA

A comunicação (hermenêutica) sempre constituiu um meio apropriado para transmitir conhecimento, e esta comunicação de forma geral era dada através da “palavra”. A parti do século 17 o espírito secular começou a dominar a sociedade e gradativamente a “escrita” foi sendo descartada como forma de transmissão de conhecimento.
No evangelho de João verificamos o uso de vários dispositivos literários, e a questão hermenêutica central era onde se achava a verdade. Com os Pais do Deserto as escrituras eram valorizadas como texto escrito, mas muito mais o exemplo de vida. O leitor na Idade Média valorizava a “leitura divina” que ao invés de ensinar uma lição ou estudar as Escrituras de modo crítico, ensinava a oração e envolvia a pessoa total no serviço da Palavra de Deus.
No período da reforma se valorizou a gramática, que passou a ocupar uma implicação maior na leitura à medida que a intenção do leitor deve ser, forçosamente, deixar as Escrituras interpretar a si mesmas. Lutero enfatizava a interpretação literal, e dava também importância ao sentido tropológico. Lutero também focalizava os requisitos morais do leitor bíblico. Na fé reformada tanto luterana, como calvinistas tinham a pregação como veículo primário da leitura das Escrituras.
Como herança do iluminismo e racionalismo, é comum ao estudante da bíblia se emaranhar nos estudos acadêmicos e ir deixando sua devoção a Deus, como oração e leitura bíblica. Temos que ter a concepção que o ato de lermos a Bíblia, é muito mais do que aprender técnicas e se tornar perito na exegese e na hermenêutica.