31 de março de 2012

Hermenêutica contemporânea à luz da Igreja primitiva. Dockery David S. (resenha)



Resenha do Livro:

Hermenêutica Contemporânea à luz da igreja primitiva. Dockery. David S. – São Paulo: Editora Vida, 2005.

Por Danilo Moraes 

Introdução


            Hermenêutica Contemporânea à luz da Igreja Primitiva, tem como proposta tratar sobre a história da interpretação.  Sua esfera de ação vai desde a interpretação que Jesus fez do Antigo Testamento até o concílio de Calcedônia em 451. Assim, este livro busca através do passado elucidar o presente.
            Segue-se um apanhado do conteúdo do livro, e após uma consideração pessoal sobre a obra.

Século I: O início das hermenêuticas cristãs
            Jesus adotou o método de interpretação dos exegetas judeus, mas acrescentou a este método uma leitura cristológica do AT. Jesus lia o AT a luz de si mesmo. As cinco formas de interpretação que predominava nos tempos de Jesus são: Literal; Midrash; Pesher; Alegórica e Tipológica.

Os apóstolos e as hermenêuticas cristológicas
Lucas. Se percebe que as citações do AT em Atos se dão quase exclusivamente em contextos judaicos, o que é compreensível, pois os gentios não compreenderiam. Abordagens pesher estão presentes fortemente em Lucas. Paulo. Paulo considerou o AT cristologicamente, e acreditava ser Jesus o messias. Por meio da midráshica, Paulo buscava demonstrar um significado cristológico no texto do AT. Paulo também usou o pesher em algumas passagens, dentre elas Ef 4.8. Pedro. Pedro fazia uso considerável da abordagem tipológica, e seu uso do AT era o padrão de interpretação primitiva, de Jesus e Paulo. O autor de Hebreus.  A epístola aos Hebreus tem como fundamento o AT, e é cercada por interpretações pesher, e tipologia messiânica.

Século II: da hermenêutica funcional à autorizada
Hermenêutica funcional nos pais apostólicos
Os pais apostólicos. Como acontecia com os escritores do NT, os pais apostólicos não davam tanta ênfase no uso do AT para falar de Cristo. Clemente. Para ele a revelação de Deus estava primordialmente no AT, e interpretava o AT cristologicamente. Inácio. Ele parafraseava os textos de Paulo com muita liberdade, e seu método hermenêutico se caracterizou como funcional.
Heresia, ortodoxia e confusão hermenêutica
Judaizando o cristianismo. Desde o início da igreja houve grupos que buscavam de alguma forma judaizar o cristianismo, desde os mais extremados aos mais moderados. E este era o desafio da igreja, fornecer respostas e harmonizar a lei a nova aliança. Gnosticismo. Os apologistas do século II entendiam ser o gnosticismo uma combinação da filosofia grega com o cristianismo. Estudiosos recentes, porém, crê que o gnosticismo é uma mistura da cultura grega com a religião oriental toda. Outros gnósticos. Era comum entre os gnósticos considerarem o AT e o NT revelações de deidades diferentes. O Deus do AT era inferior e chamado de Demiurgo. Montano/ Montanismo. O movimento montanista era caracterizado pelo uso de profecias como meio de revelação. O uso que faziam das profecias com expressões de êxtase, era contrário ao uso comum.
As respostas hermenêuticas ao perigo da heresia
Justino Mártir. Fazendo uso de uma interpretação tipológico-cristocêntrico alegava que em sua totalidade o AT apontava para Jesus. Ele usava com freqüência os métodos rabínicos em suas abordagens hermenêuticas. Utilizava as profecias do AT para fazer apologética do messianismo de Jesus. Irineu e Tertuliano. Nos escritos de Irineu Cristo e o cristianismo eram vistos como cumprimento do AT, através de uma leitura tipológico-cristológica. Irineu sustentou que interpretação verdadeira estava na tradição da igreja, produzindo assim uma hermenêutica onde a tradição da igreja determinava o significado das Escrituras. Tertuliano entendia que a Bíblia só podia ser usada pela igreja e não pelos hereges, pois ela era herdeira através da sucessão apostólica.

A escola alexandrina: hermenêutica alegórica
Os antecedentes da hermenêutica alegórica
A maioria dos estudiosos considera Teágenes de Régio o fundador da prática de interpretação alegórica. Este método teve início no período pré-socrático na Grécia. Fílon, judeu de Alexandria dominava esta técnica, e era relevante para ele o significado filosófico contido na Bíblia, descoberto pela interpretação alegórica.
A arte e ciência da hermenêutica alegórica
Clemente de Alexandria. A abordagem alegórica era utilizada para fins apologéticos, e era superior a literal. Clemente também adotou um princípio que cada texto deveria ser interpretado a luz de toda a Bíblia. E o objetivo da interpretação era chegar a “verdadeira gnose”. Orígenes. Considerava a Bíblia como Palavra de Deus, mas como Clemente achava absurdo o texto bíblico possuir um só significado, e por isso além de literalmente interpretava alegoricamente. Todos os textos divinos possuíam um significado alegórico,  e a interpretação alegórica era destinada aos espiritualmente maduros.
Reação inicial à hermenêutica alegórica: em direção a uma interpretação teológica
Os problemas teológicos levantados nos séculos III e IV, foram além das respostas que Orígenes havia dado. Foi fundada nesta época a Escola de Antioquia que enfatizava o método literal de interpretação.

A escola antioquena: hermenêuticas lítero-histórica e tipológica
Exegese antioquena primitiva: o começo da interpretação histórica
O representante de maior proeminência do início da escola antioquena foi Teófilo de Antioquia. Ele valorizava o AT como histórico, e considerava a Bíblica inspirada. Buscava também harmonizar a lei do AT e do NT.
A Exegese antioquena rejeitou o método alegórico, e entre seus principais expoentes estavam: Luciano de Antioquia; Diodoro de Tarso; Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo.

Para uma hermenêutica canônica e católica
Jerônimo. Para Jerônimo uma tradução deveria basear-se no hebraico e não no grego, e sua opção era por uma tradução sentido-por-sentido e não palavra-por-palavra. Jerônimo admitia o uso do método alegórico, devido aos antropomorfismos, incongruências que aparentemente existiam na Bíblia. De início Jerônimo mostrou-se bastante simpatizante do método alegórico, mas sob influência da escola de Antioquia e judaica fez com que depreciasse o método alegórico. Agostinho. Em sua obra Cidade de Deus, ele minimiza a importância da divisão entre o AT e o NT, mas não a negava. Sua abordagem hermenêutica era canônica e unificada., interpretando tanto literal quanto simbólica. Ele considerava o Gênesis como um relato histórico, mas espiritualizava passagens onde encontrasse dificuldades. A sua famosa máxima “creio para poder entender” demonstra a sua integração da Bíblia com a filosofia platônica, assim a  interpretação bíblica começa com a fé. Agostinho recomendava interpretar passagens obscuras a luz de passagens mais claras. Quando o texto não fornecia um resultado satisfatório, Agostinha se via livre para usar alegorias. E para interpretar as Escrituras era necessária a autoridade da Igreja Católica.

Interpretação bíblica ontem e hoje
A igreja primitiva em retrospectiva. Tanto a Igreja primitiva, como nos séculos posteriores compreendiam a Bíblia como divina, e de certa forma havia uma unanimidade em que a Bíblia deveria ser interpretada cristologicamente.
Hermenêuticas medievais, da Reforma e da pós-Reforma
Hermenêuticas medievais. Nicolau de Lira (1265-1349) apresentou a hermenêutica medieval numa quadra: A letra ensina os fatos; A alegoria, aquilo em que se deve acreditar; A tropologia, aquilo que se deve fazer; e A anagogia, o lugar a que se deve aspirar. Hermenêuticas da Reforma. Lutero de início usou o método alegórico, mas aos poucos o foi abandonando e optando por um significado cristológico da Escritura, o que influenciou Erasmo, Calvino e outros reformadores. Hermenêuticas da pós-Reforma. Após Lutero e Calvino, a exegese tomou um molde filosófico.
O começo da hermenêutica moderna.
A primazia do autor. Friedrich Schleiermacher acreditava que o objetivo fundamental era alcançar a individualidade do autor, tendo assim uma interpretação psicológica. Para uma hermenêutica existencialista.  Heidegger mudou a ênfase da hermenêutica de Schleiermacher que é objetiva, para uma hermenêutica existencial, onde a ênfase se transferiu do autor para o leitor. Bultmann também através da demitologização, demonstrou sua interpretação existencial. Da hermenêutica existencial à antológica: para uma hermenêutica da conversação.  Para Gadamer a tarefa do leitor não é descobrir o que o autor quis dizer quando o texto foi escrito, mas entender o que o texto diz para o leitor hoje. E isso é retratado como uma conversa entre duas pessoas para se entenderem. Para ele o significado do texto vai além da intenção do autor.
Hermenêutica na igreja contemporânea
Perspectiva orientada para o autor. Até meados do século XX a hermenêutica era voltada para o autor. Isso implica que os intérpretes não podem entender o que o escritor quis dizer a não ser por aquilo que ele escreveu. Perspectiva orientada para o leitor. A hermenêutica orientada para o leitor, enfatiza a distância que separa o autor do intérprete, e seu objetiva é encontrar um entendimento comum sobre algo de seu interesse e do interesse do autor. Perspectiva orientada para o texto. Na hermenêutica voltada para o texto, esta em descobrir a intenção do autor.
Para uma síntese hermenêutica
Marcas de texto e contexto. O próprio texto nos fornece diretrizes na interpretação. Contexto canônico.  Nesta abordagem hermenêutica se busca o significado avaliando o próprio texto e como a tradição interpretou o mesmo texto. Cânon normativo. Nesta abordagem o texto bíblico e seu significado pode sofrer uma contextualização para que possa atender as necessidades do século XXI. Iluminação. Esta abordagem ressalta a importância de se crer na capacitação do Espírito Santo para a interretação.

Observações Pessoais

A presente obra Hermenêutica Contemporânea à luz da igreja primitiva, creio ter cumprido seu objetivo, que era expor as hermenêuticas da igreja primitiva; mas conforme o título da obra diz “Hermenêutica Contemporânea...” esperava-se uma comparação entre a hermenêutica primitiva “x” hermenêutica contemporânea ou uma explanação de peso sobre a hermenêutica contemporânea, o que foi tratado muito superficialmente no último capítulo. No que compete à análise hermenêutica dos primeiros séculos da era cristã, Dockery expôs com competência.
O que salta aos olhos do leitor durante todo o livro, é que tanto a hermenêutica alegórica (Alexandria), quanto a literal (Antioquia), através dos séculos predominaram. E as disputas no campo da interpretação bíblica giravam em torno do quanto o interprete adotava os métodos alegóricos e literais, ou a primazia que um método tinha sobre o outro (o que determinava o resultado da interpretação).
No mundo pós-moderno em que vivemos esta história hermenêutica dos primeiros séculos nos auxilia  a entendermos as hermenêuticas contemporâneas. Podemos assim com essas informações evitar alguns erros cometidos durante a história.