30 de março de 2012

Entrevista revista Defesa da Fé: A importância e atualidade do Antigo Testamento (Danilo Moraes)




Defesa da Fé – Em homenagem à clássica obra de Gleason Archer Jr., começamos perguntando: merece confiança o Antigo Testamento?

Danilo Moraes – Sim, o Antigo Testamento merece confiança! A obra de G. Archer, Jr apesar de ter sido escrita em 1964 merece credibilidade ainda hoje. Da década de 60 até os dias atuais o campo de pesquisa veterotestamentário
não progrediu como o esperado pelos estudiosos críticos da época. No início da década de 70 já era notável no meio acadêmico certo mal estar, insatisfação e desnorteamento quanto a os resultados das pesquisas em torno do Pentateuco e do método histórico-crítico. O que se pode presenciar nas últimas décadas é a ênfase sobre o texto final,
tal como o temos em nossas bíblias. O interesse pelas fontes que deram origem aos textos bíblicos se mostraram infrutíferos. Os pressupostos críticos e liberais estão dando cada vez mais lugar a uma interpretação conservadora onde se busca o significado do texto dentro do próprio texto. A referida obra de G. Archer, Jr propõe responder as duras críticas que o A.T sofreu e vem sofrendo principalmente a partir do Iluminismo que teve seu início no começo do século XVII. Diante do cenário que temos particularmente no Brasil, onde se observa que grandes instituições teológicas estão se dobrando ante o liberalismo teológico que propõe um viés científico ao estudo bíblico – o que sorrateiramente passa uma áurea de superioridade intelectual aos seus alunos – ledo engano! O estudo do A.T sobreviveu ao criticismo e ao liberalismo, seus maiores algozes. A confiança que temos hoje esta muito mais alicerçada, o que poderia ser uma pergunta para muitos de nossos irmãos de décadas passadas, hoje já pode ser uma afirmativa: O Antigo Testamento merece confiança!

Defesa da Fé – Como os cristãos devem lidar com a revelação do Antigo Testamento? Em que consistiria essencialmente o valor teológico e prático dos livros da Antiga Aliança para os cristãos?
Danilo Moraes – Um dos pontos da teologia moderna é de que o A.T não é uma revelação, tal como compreendemos por toda a história da Igreja. O termo “revelação” tomou uma conotação primeiramente moral e secundariamente cultual. O conceito de que Deus se revela diretamente com o seu povo é descartada. O sobrenatural não tem lugar dentro de muitos círculos acadêmicos. Diante disso, para muitos o A.T é simplesmente um livro como qualquer outro livro. O valor teológico e pratico que temos dos livros da Antiga Aliança é o mesmo que Jesus atribui a estes livros. Ele interpretou a Lei, os Escritos e os Profetas como sendo históricos e dignos de confiabilidade. Contudo, o que quero dizer é que qualquer coisa no A.T que foi declarada por nosso Senhor como um fato, ou implicado como um fato, é, ou deveria ser, daí em diante encerrada para aqueles que sustentam que Jesus é infalível. Os apóstolos e os Pais da Igreja seguindo a interpretação dada pelo Mestre atribuíram ao A.T juntamente com o N.T o conjunto de fé e prática da Igreja.

Defesa da Fé – A teologia da prosperidade entre outras teologias explora bastante os textos veterotestamentários segundo sua conveniência. Até que ponto a igreja cristã pode se apropriar das histórias e biografias do Antigo Testamento para aplicá-las no cotidiano cristão? Seria uma apropriação sem limites?
Danilo Moraes – A teologia da prosperidade é um câncer que vem se alastrado em múltiplos órgãos da Igreja Brasileira. Quando observada a exegese e a base de sua hermenêutica, fica evidente a discrepância com que tratam os textos do A.T. É ignorado por parte da referida teologia o público alvo, a intenção do autor e principalmente o contexto que o texto foi escrito. Vejo que a Igreja pode se aproximar “sem medo” do A.T, desde que respeite algumas regras básicas da exegese e da hermenêutica. A interpretação que Jesus e os apóstolos deram do A.T é o melhor parâmetro. Pode-se dizer que o N.T é o manual de interpretação do A.T. A aplicação do A.T no contexto de nossas Igrejas e na vida cristã deve ser norteada pelo conceito da Nova Aliança a qual estamos sujeitos. Não se pode como é muito comum em alguns púlpitos impor leis, e conceitos veterotestamentários como se fossem dirigidos à Igreja.

Defesa da Fé – Os cristãos estão preparados para defender a legitimidade do Antigo Testamento? No âmbito apologético, quais são os tópicos do Antigo Testamento mais alvejados pelos opositores das Escrituras?
Danilo Moraes – Infelizmente são poucos os que se interessam pelo estudo sério do A.T. Mesmo em nossas Igrejas se prega muito pouco o A.T. Não nego o papel fundamental que o N.T exerce sobre nós cristãos, pois estamos debaixo da Nova Aliança e não da Antiga Aliança. A meu ver na pratica poucos estão preparados não só para defender a legitimidade do A.T, mas o despreparo esta no âmbito geral da fé cristã. O mercado editorial brasileiro vem buscado suprir esta necessidade nos últimos anos lançando livros de cunho apologético e teológico sadios. Nisso o ICP vem contribuindo muito bem, através da revista Defesa da Fé, Bíblia Apologética, cursos e palestras. Mas vejo que é de suma importância que as Igrejas se voltem cada vez mais para o ensino responsável das Escrituras.
Dentre os ataques da crítica destrutiva, e das teologias ditas “modernas” se verifica a forte rejeição ao sobrenaturalismo. Se o valor histórico das Escrituras é descartado e os milagres são impossíveis nada fica na Bíblia que mereça crédito. Para muitos críticos a simples presença de um elemento sobrenatural no texto, serve de evidência suficiente para que ele rejeite a sua historicidade. Quando os críticos negam a intervenção sobrenatural de Deus, eles negam baseados em suas pressuposições filosóficas e não devido análise das evidências históricas.

Defesa da Fé – E o que dizer das seitas? Elas empregam o Antigo Testamento? Você poderia destacar alguns exemplos de grupos e respectivas doutrinas? Existiriam livros prediletos para esse ataque?
Danilo Moraes – O emprego que as Seitas pseudo-cristãs dão ao A.T difere do emprego dado pelas Religiões. As seitas pseudo-cristãs em sua grande maioria aceitam a historicidade dos textos do A.T, mas pecam muito na interpretação dos textos proféticos; se verifica um grande esforço para “ajustar” os textos proféticos a seus ensinamentos, principalmente as seitas que possuem uma forte tendência escatológica marcando datas para o fim do mundo. Um dos grupos que se destaca são as Testemunhas de Jeová que já marcaram a data para o fim do mundo em 1914, 1918, 1920, 1925, 1975 e, agora, 2034 (conforme revista A Sentinela, de 15.12.2003, página 15, parágrafos 6 e 7). Já as Religiões tendem a negar o valor histórico e religioso do A.T, ou a exemplo do Islamismo distorcer fatos históricos e teológicos para reivindicar legitimidade histórica. Nota-se um grande interesse por parte das seitas e religiões em reinterpretar doutrinas cristãs sólidas que se sustentam principalmente no livro de Gênesis para embasarem suas heresias. Dentre elas: criação ex-nihilo, historicidade de Adão e Eva, pecado original, revelação, etc.

Defesa da Fé – No contexto secular o Antigo Testamento é tomado por muitos como um compêndio de mitologia judaica. Se considerarmos o gênero mitologia, haveria mesmo semelhanças entre as narrativas mitológicas em geral e as histórias de Israel? O que caracteriza a supremacia do Antigo Testamento sobre as mitologias das diversas culturas?
Danilo Moraes – Infelizmente o mito quando aplicado à teologia religiosa se apresenta como forma de expressão da humanidade em sua fase infantil de desenvolvimento. Esse desenvolvimento estende-se desde o pensar infantil-mítico até o estágio supremo da religião cristã. Hermann Gunkel (1862-1932) demonstrava uma rejeição ao sobrenatural. Ele via os onze primeiros capítulos de Gênesis como mitos e lendas e as histórias dos patriarcas como lendas que fazem parte de uma tradição oral ou como poemas épicos. Ficções míticas e legendárias são incompatíveis não apenas com o caráter do Deus de toda a verdade, mas com a verdade, a confiabilidade e a absoluta autoridade da Palavra de Deus. O conceito de mito é, entretanto, motivado mais pela relutância e inabilidade dos intérpretes modernos em aceitar a realidade do mundo do Gênesis do que por uma compreensão clara da intenção do texto. O Antigo Testamento por adotar um caráter teológico e histórico não era propicio para a formação de mitos. Ocorre que, os autores veterotestamentários ocasionalmente podiam tomar emprestadas concepções míticas de povos vizinhos adaptando-as a sua própria fé. Existe afinidade entre as narrações bíblicas e a literatura mítica pelo simples fato de ambas fazerem parte do gênero literário narrativo. As semelhanças são numerosas no âmbito das técnicas narrativas, a diferença é evidente quando se comparam as respectivas finalidades. Nisso eu vejo a supremacia do A.T sobre as mitologias das diversas culturas: a finalidade das narrativas do A.T é expressar os acontecimentos históricos, já o mito, como bem definiu Fernando Pessoa: O mito é o nada que é tudo. O mito possui um forte caráter simbólico, despreocupado em expressar a realidade histórica.


Defesa da Fé – Há críticos que alegam haver contradições entre o Deus revelado no Antigo Testamento e o Deus revelado no Novo Testamento, confronto que seria expresso sob o binômio “Deus de ira” versus “Deus de amor”. Como responder a essa acusação?
Danilo Moraes – Márcion no segundo século d.C, foi o primeiro a declarar que o Deus do A.T era duro, severo e cruel, enquanto o Deus revelado em Jesus Cristo era carinhoso, calmo, bom e amoroso. Atualmente alguns grupos sectários comungam da mesma idéia, a exemplo temos o Espiritismo Kardecista.
Esta questão é muito delicada, pois vemos isso presente nas grandes indagações contra a fé cristã, o que confunde a grande maioria dos cristãos. Devemos primeiramente saber que a inspiração divina se dá por meio do arcabouço cultural e das limitações pessoais do escritor sagrado. Nesse sentido, uma das características da linguagem semita era o uso de hipérboles; dada a sua vivacidade, o israelita era muito propenso às expressões fortes, exageradas e contrastantes. Daí ocorrerem no A.T, principalmente nos Salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja mal àqueles que o angustiam. A acusação de que o Deus do A.T é mal e o do N.T é bom é falsa porque deriva de conceitos que, em geral, não têm nenhuma relação com a religião judaica, representando, tão somente, uma perspectiva culturalmente fechada. Deus se apresenta coerentemente por toda a Bíblia. Seu amor e compaixão, bem como seu julgamento, podem ser encontrados no Antigo Testamento, enquanto o julgamento do pecado, a compaixão de Deus e o seu amor são claramente evidenciados no Novo Testamento. É preciso entender que o N.T não é “complemento” do Antigo, mas seu ápice.

Defesa da Fé – Deixe uma mensagem extraída das páginas do Antigo Testamento para os nossos leitores.
Danilo Moraes – Aprecio muito a profissão de fé central do judaísmo: o Shemá. “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. (Dt. 6.4). Amém.