31 de março de 2012

A crítica bíblica e suas escolas: Uma avaliação de seus métodos e pressupostos


Por Danilo Moraes

Os membros de Igrejas habituados a compreender a Bíblia apenas em seu campo religioso, passam por um “verdadeiro parto” ao se depararem com concepções cientificas da Bíblia, e logo começam a questionar sua fé e valores, travando assim uma luta em suas mentes para adaptarem-se as novas descobertas no campo das pesquisas bíblicas. Isso ocorre praticamente em todos os casos. Afinal, a crítica “é por natureza inimiga da estabilidade” (KERR, 1956, p. 65). Mas, assim como as dores do parto são necessárias, também é necessário o cristão fiel passar por esta experiência afim de que, possa amadurecer e fortalecer sua fé.

Antes de passarmos adiante é importante termos em mente o que vem a ser o criticismo, vejamos uma das possíveis definições:
Em oposição ao dogmatismo, que pressupõe sem exame a validade de nosso conhecimento, especialmente do conhecimento metafísico, e ao ceticismo, para o qual a dúvida universal continua sendo a última palavra, o criticismo em geral é aquela atitude mental, que torna dependente de uma prévia investigação da capacidade e limites do nosso conhecimento o destino da filosofia especulativa, e principalmente o da metafísica. (BRUGGER, 1962, p. 142).

A palavra “crítica” vem da raiz grega, Krino “cortar”, em sua forma adjetiva kritikos “apto para julgar”. Com isso em seu sentido etimológico vemos que a crítica tem o sentido de juízo, julgamento e avaliação. “Crítica é a ciência ou arte de avaliação das qualidades de uma produção qualquer, literária ou artística.” (KERR, 1956, p.11).
A crítica bíblica emergiu graças ao racionalismo dos séculos XVII e XVIII. No século XIX ela se dividiu entre a “alta crítica”, isto é, o estudo da composição e história dos textos bíblicos, e a “baixa crítica”, a análise crítica dos textos visando estabelecer sua leitura correta ou original. Esses termos são praticamente deixados de lado atualmente, e a crítica contemporânea assistiu à emergência de novas perspectivas que se baseiam em abordagens literárias e sociológicas na busca do significado dos textos.
Segundo La Bruyère a crítica
Muitas vezes, não é uma ciência, escreve ele. É uma função em que mais saúde que espírito se torna necessária, mais trabalho que capacidade, hábito mais que gênero. Se proceder de um homem que possua menos discernimento que leitura e que por certos capítulos se exerça, corrompe os leitores e o escritor. (STEINMANN, 1960, p. 7).

Conforme Alfredo Loisy (1857-1940) crítico francês do século XIX, “a crítica é antes uma arte que ciência, supondo não somente conhecimentos suficientes do assunto a que se aplica, mas também a experiência das coisas que se trata de julgar.” (STEINMANN, 1960, p. 53).
A crítica bíblica é uma atividade necessária para aprofundamento de nosso conhecimento bíblico e teológico. As afirmações do texto bíblico são basicamente teológicas, devido a isso é impraticável ousar fazer uma análise exegética crítica sem levar em consideração o conteúdo teológico do texto.
Não devemos nos esquecer de que não pode haver uma boa teologia sem “crítica”, e nem uma boa “crítica” sem teologia. “Sem a teologia, o reconhecimento da verdade e valor da Bíblia como um todo não tem fundamento para nós, hoje.” (KNIERIM, 1990, p. 15). Muitas questões que a crítica levanta são legítimas e não podemos desprezá-las quando feitas em reverência a autoridade da Palavra de Deus e no intuito de encontrar a verdade.
Temos que ser cautelosos, pois “... alguns críticos partem da intenção de destruir a fé, por causa de alguma distorção psicológica que os leva a destruir em vez de edificar. Alguns deles parecem indignados diante da Igreja cristã e seus ensinos. Outros sentem-se insatisfeitos com o próprio cristianismo.” (CHAMPLIN, 2002, p. 994).
Alguns conservadores fazem parecer importante para a fé àquilo que, não tem importância. É necessário, pois um equilíbrio ao se fazer uma crítica no campo bíblico e teológico. A verdadeira crítica não parte do pressuposto de destruir a autoridade e ensinamento das Escrituras. Tanto os críticos radicais quanto os críticos conservadores precisam evitar cuidadosamente preconceitos teológicos.
A Bíblia definitivamente não é um livro de ciência, antes suas preocupações e enfoques são teológicos. Sua preocupação não esta no “como” e “quando”, mas no “quem” e “porque”. Consequentemente qualquer interprete que se aproxime das Escrituras não pode ignorar esse “fundamento” em seu processo interpretativo.
Segundo Geisler (2002, p.116) segue abaixo um quadro comparativo entre a Crítica positiva (evangélica), e a Crítica destrutiva (liberal):


Crítica positiva
(construtiva)
Crítica negativa
(destrutiva)
Base
Sobrenaturalista
Naturalista
Regra
O texto é “inocente até que prove ser culpado”.
O texto é “culpado até que prove ser inocente”.
Resultado
A Bíblia é completamente verdadeira
A Bíblia é parcialmente verdadeira
Autoridade final
Palavra de Deus
Mente do homem
Papel da razão
Descobrir a verdade (racionalidade)
Determinar a verdade (racionalismo)

Ainda segundo Geisler
Quando um liberal afirma que pode julgar o sobrenatural, ele, na verdade, o traz para o plano natural e nega com isso, de antemão, sua realidade. A crítica ‘errou’ ao adotar o pressuposto contrário ao caráter potencial do objeto sob julgamento. (GEISLER, 2003, 115).

Dentre os críticos do século XVIII vemos Johann Salomo Semler (1725-1791), que foi um dos fundadores do criticismo histórico da Bíblia. Ele apregoava que:
A Palavra de Deus e as Sagradas Escrituras não eram a mesma coisa, sugerindo que nem toda a Bíblia é resultado da inspiração, sendo apenas um documento histórico, que devia ser examinado, como qualquer outro documento congênere, ou seja, através de método histórico-crítico. (COSTA, 2004, p. 304).

Semler também não aceitava o cânon bíblico; rejeitava a inspiração verbal das Escrituras; e segundo ele os ensinamentos bíblicos devem ser considerados apenas moralmente. Semler, Reimarus e Lessing, partiram do pressuposto de que não existe o sobrenatural, e tudo que entre em oposição a isso é racionalizado.
Outro crítico do século XVIII foi Hermann Samuel Reimarus (1694-1768), que postulava serem as evidências históricas insuficientes para a fé; Jesus teria sido um “Messias Político Judaico”; não havia o sobrenatural nos evangelhos, os milagres foram invenções dos apóstolos; e Jesus não ressuscitou. Acreditava também que a travessia do mar Vermelho foi uma grande mentira da parte de Moisés. Com isso Reimarus postulava a religião natural e rejeitava a religião revelada.
Ainda, Gotthold Efraim Lessing (1729-1781), apregoava que todas as religiões conciliam o homem com Deus; a revelação era uma etapa ultrapassada, e o seu conteúdo podia ser transformado em verdade racional; o que importa não é ter certeza, mas a busca da certeza.
No século dezenove a crítica bíblica teve maior aceitação e difusão, devido a vários fatores entre eles o “espírito da época”. E nesta mesma época o liberalismo teológico se propagou, tendo como seu território a prática da crítica bíblica.

Segue-se um breve resumo dos tipos de análises críticas:

a)           Crítica textual – Faz a seguinte pergunta: Quais palavras estavam no texto original? Seu objetivo é restaurar o texto a sua forma canônica original. Também chamada de “Baixa Crítica”. É necessário distinguir a tarefa da crítica textual daquela da crítica literária “Alta Crítica”. “A crítica textual procura estabelecer a expressão original dos livros bíblicos em sua fase conclusiva, enquanto que a crítica literária tenta determinar sua história pré-literária... até a forma que hoje conhecemos.” (WOLFF, 1978, p. 69).
b)   Crítica das fontes – Faz a seguinte pergunta: Quais as fontes que estão por traz do texto atual? Desde o século XV esporadicamente vem sendo utilizada, mas foi a partir do século XIX que passou a ser utilizada sistematicamente. Dentre seus objetivos estão, verificar se um determinado texto provém de um só autor, ou é material compósito. Ao detectar as fontes mediante diferenças de estilo procura-se reconstituí-las a sua forma original analisando uma a uma. O fator teológico também é usado para distinguir uma fonte da outra.
c)    Crítica linguística – Faz a seguinte pergunta ao texto: O que as palavras e frases significam? Há a necessidade de se recorrer à chamada crítica linguística a fim de que se possa recuperar o significado de uma determinada lexia no recorte sincrônico em que se pretende estudá-la.
          A crítica linguística, quando aplicada à Bíblia, consiste em estudar as línguas bíblicas em seu escopo mais amplo, de modo que o vocabulário, a gramática e o estilo dos escritos bíblicos possam ser compreendidos da maneira mais precisa não apenas pela comparação com outros escritos bíblicos, mas também com outros escritos na mesma língua ou em línguas afins.
d)       Crítica literária – Faz a seguinte pergunta ao texto: Quais são as circunstâncias da literatura? Autor, data, lugar, ouvintes, fontes, propósito; trata se assim de uma “crítica da constituição do texto”. A crítica literária foi possível graças ao estimulo do humanismo, e sua aplicação ao texto bíblico no tempo da Reforma, mas sua maturidade se deu no Iluminismo. A crítica literária engloba a crítica das fontes e a da redação, incluindo assim a análise da língua, estilo e vocabulário. A crítica literária também é conhecida por “alta crítica”.
O seu trabalho visa a descobrir e a destacar as fontes, a reconhecer e separar as elaborações, a classificar os estratos pela sua antiguidade e sucessão. Ela visa ainda a compreender o modo e os motivos de seu entrelaçamento com a obra literária em questão; procura, finalmente, determinar, no decurso da história cultural do AT, o lugar certo de cada trecho e das suas coleções. (SHREINER, 2004, p. 62).

e)          Crítica da forma – Faz a seguinte pergunta ao texto: Qual é o gênero literário – oral ou escrito – de cada parte? O que fez surgir esse gênero? – Sitz in Leben (situação vivencial – de origem ou sociocultural) e Sitz in der Literatur (situação do gênero literário). “A identificação do ambiente vital consiste em buscar o tipo de situação ou de experiência que deu origem a um gênero literário particular, ou que motivou sua utilização.” (MAINVILLE, 1999, p. 92).
Dentre seus objetivos o mais importante é buscar conhecer o quadro cultural do qual provem o texto, para com isso buscar compreender o sentido e propósito do texto.
Segundo Alt (apud SCHMIDT, 1994, pp. 61-62) a crítica da forma ou história das formas se baseia:
Na percepção de que em cada gênero literário, enquanto este tiver vida própria, determinados conteúdos se vinculam estreitamente a determinadas formas de expressão e na percepção de que estes vínculos característicos não foram sobrepostos ao material posteriormente e de modo arbitrário por autores; pelo contrário eles constituíam uma unidade essencial desde sempre, portanto também já no período de formação e transmissão oral popular, antes que se tornassem literatura, visto que correspondiam aos eventos e necessidades vitais recorrentes a partir dos quais cada um dos gêneros literários se desenvolveu.

f)         Crítica histórica – Faz a seguinte pergunta ao texto: Qual é o contexto histórico que gerou essa obra literária? Seu objetivo é reconstruir o contexto do texto bíblico. O crítico histórico busca reconstruir o que “verdadeiramente” aconteceu em determinada narrativa. Alguns críticos utilizam esse método crítico para dar uma explicação natural a algumas passagens bíblicas. Grande debate é travado entre “minimalistas” e “maximalistas”.
g)        Crítica da redação – Faz a seguinte pergunta ao texto: Como e para que finalidade a obra literária foi compilada? Qual a relação entre a historicidade do primeiro relato[1] escrito e o texto oral? Qual a cronologia das intervenções redacionais e do que se utilizaram?
“Geralmente, o crítico redacional trabalha com as fontes identificadas pelo crítico das fontes... o sucesso do método depende da integridade do trabalho com as fontes.” (HILL, 2006, p. 640). A crítica da redação valoriza a forma final do texto, e o redator passa a ter função de autor e teólogo. Cabe a crítica da redação ainda analisar o texto desde sua forma inicial até sua forma final, observando cada etapa do desenvolvimento textual.
h)             Crítica da tradição – Faz a seguinte pergunta ao texto: Quais são os estágios através dos quais a peça literária passou e se desenvolveu? Quais “os livros” que o autor leu para influenciar em sua mensagem? Quais as tradições culturais que os autores receberam, tanto bíblica como da cultura do Antigo Oriente? A tradição identificada faz parte de um conjunto de tradições? Modifica o autor do texto a tradição ou a corrige?
            Este método crítico tem seu maior interesse na pré-história do texto, que possivelmente estava na forma oral, até o momento em que foi registrado em forma escrita. Dentre suas contribuições para a crítica, demonstrou a antiguidade e importância das tradições da fé em Israel.
i)     Crítica canônica – Faz a seguinte pergunta ao texto: Qual função que a forma final da literatura canônica teve dentre da comunidade religiosa? O interesse principal da crítica canônica está no texto final, no seu estado acabado, e seus defensores estão interessados em saber como o texto foi desenvolvido e interpretado. Este método considera o cânon todo como contexto para análise.

A Baixa Crítica
Também chamada de crítica textual ou crítica inferior, denomina-se “baixa” para se contrastar com a “alta” e não por ser inferior. Enquadra-se na crítica que visa à natureza verbal e histórica sobre os vocábulos do texto. Com isso a baixa crítica busca restaurar o texto original comparando-o com os textos existentes. Seu foco principal é com os manuscritos e com a transmissão textual, tendo como objetivo recuperar a redação original do texto, localizando todas as variantes possíveis.
Esta reconstrução do texto bíblico pode ser interna (literária) ou externa (histórica). A crítica textual também tem a finalidade de determinar a história da transmissão e do desenvolvimento de texto que temos hoje.
O papel tanto da “baixa” quanto da “alta” crítica é fazer perguntas, questionar. O que diferencia de uma para a outra principalmente esta no tipo de pergunta que é feita ao texto, e qual a intenção ao se perguntar. Em geral, o trabalho desses críticos é construtivo, e sua atitude básica, positiva.


A Alta Crítica
Quando se aplica o julgamento dos estudiosos à autenticidade do texto bíblico, esse julgamento se chama alta crítica. O assunto desse tipo de julgamento dos especialistas diz respeito à data do texto, seu estilo literário, sua estrutura, sua historicidade, sua autoria, problemas linguísticos, unidade literária, etc.
Karen Armstrong relata o motivo que tornou a alta crítica acessível ao leitor comum:
Houve um clamor muito grande quando sete clérigos anglicanos publicaram Essays and Reviews (1860) que tornava a Crítica Superior acessível ao leitor comum. O público foi agora informado de que Moisés não havia escrito o Pentateuco, nem Davi escrito os Salmos. Os milagres bíblicos eram simplesmente tropos literários e não deviam ser compreendidos literalmente, e, em sua maior parte, os eventos descritos na Bíblia claramente não eram históricos. (ARMSTRONG, 2007, p. 192-193).

Segundo Strong
Como a Baixa Crítica, a Alta é uma crítica de estrutura. Um ilustre francês descreveu a crítica literária como alguém que destrói uma boneca para obter a serragem que esta dentro dela. Isto pode ser feito com espírito cético ou hostil e pode haver pouca dúvida de que algumas das mais elevadas críticas do A.T. tenham iniciado os seus estudos com predisposição contra o sobrenatural, o que tem viciado suas conclusões. (STRONG, 2002, p. 256).

Esta forma de crítica e seus resultados não prestam benefícios ao estudo bíblico, mas a alta crítica em sua forma como descrita acima, além de ser comparada a alguém que destrói uma boneca por uma “cirurgia crítica” para obter a serragem que esta dentro dela, pode-se dizer também que ela deixa a boneca toda aberta não voltando a fechá-la. Assim, este papel de “desentranhar” o texto bíblico de forma crítica deve ter suas precauções.
James Orr (1844-1913) (apud TORREY, 2005, p. 39) nos orienta acerca da crítica bíblica:
Se uma ciência reverente tem luz a lançar sobre a composição ou autoridade ou época desses livros [bíblicos] que sua voz seja ouvida. Por outro lado, não temos de aceitar toda teoria crítica ardorosa que qualquer crítico deseje apresentar como a palavra final sobre essa questão... Hoje, essa é minha queixa contra muitas das correntes críticas da Bíblia... não por ser crítica, mas por partir de bases equivocadas, por proceder de métodos arbitrários, crítica essa que chega a resultados, conforme creio, que são visivelmente falsos.

Podemos distinguir mediante a colocação acima entre “Alta Crítica Destrutiva”, e “Alta Crítica Construtiva”, ou ainda “uma crítica da dúvida que destrói” (duvidalismo) e “uma crítica da fé que constrói.” A crítica negativa pode ser descrita por negar grande parte da autenticidade do texto bíblico, e por possuir pressuposições anti-sobrenaturais. E também por colocar o texto Bíblico como “culpado até que se prove inocente
James Orr (apud TORREY, 2005, p. 43) se posicionou da seguinte forma concernente à alta crítica:
Não estou rejeitando esse tipo de teoria crítica porque ela vai contra meus preceitos e tradições; rejeito-a simplesmente porque me parece que a evidência não a sustenta, e que a evidência mais forte é contra ela.

Atentemos para a seguinte colocação de Geisler:
Se, porém, um defensor da alta crítica negativa subir a um púlpito, for designado para ensinar em sala de aula, para ocupar a chefia de uma editora cristã ou integrar uma diretoria qualquer em que um cristão professo tenha direito à voz ou voto pela graça de Deus, é de suma importância que ele se pronuncie com ousadia e determinação contra toda tentativa de fazer das Escrituras algo menos do que a Palavra inerrante de Deus. (GEISLER, 2003, p. 140).

C.S Lewis sem dúvida o apologista cristão mais influente do século XX, em seu artigo A Teologia Moderna e a Crítica da Bíblia tece alguns comentários que transcrevo a seguir:
Em primeiro lugar, o que quer que esses homens possam ser como críticos da Bíblia, desconfio deles como críticos. Se tal homem chega e diz que alguma coisa, em um dos evangelhos, é lendária ou romântica, então quero saber quantas lendas e romances ele já leu, o quanto está desenvolvido o seu gosto literário para poder detectar lendas e romances, e não quantos anos ele já passou estudando aquele evangelho. Esses homens pedem-me que eu acredite que eles podem ler entre as linhas dos textos antigos; mas todas as evidências levam-me a notar a óbvia incapacidade deles de lerem (em qualquer sentido digno de discussão) as próprias linhas. Eles afirmam poder ver coisinhas minúsculas, mas não podem ver um elefante a dez metros de distância, em plena luz do dia. (Lewis, apud McDOWELL, 1997, p. 522).

O Método Histórico-Crítico
Quando se fala de “método histórico-crítico” ou “historicismo”, vale salientar que não se trata de um método, más de vários métodos de análises textuais. Este método de análise de texto surgiu em função do desenvolvimento da ciência e cultura da época, e buscou tornar os estudos bíblicos ajustados com o campo acadêmico em vigor, buscando explicar personagens e acontecimentos dos quais não temos uma correspondência direta. Para isso, utiliza-se das ferramentas da história, literatura, arqueologia, religião e teologia. Ao surgir juntamente com o Iluminismo adotou pressupostos racionalistas, que culminou no abandono do aspecto divino e sobrenatural das Escrituras.
Podemos encontrar raízes do método histórico-crítico no final do século XVII, seu desenvolvimento se deu no Iluminismo e no deísmo no século XVIII e XIX, e perdeu suas forças no final do século XX. Isso não significa que ele foi extinto. Porém, “uma boa parte dos supostos resultados ‘infalíveis’ desse método continua ainda hoje a influenciar os estudos acadêmicos da Bíblia, como fatos provados, em vez do que são na realidade: meras hipóteses.” (LOPES, 2004, p. 189).
Kaiser (2002, p. 30) teceu considerações a esse respeito:
Este modelo enfatiza sua lealdade mais a teorias contemporâneas sobre a formação de textos e a supostas fontes orientais e clássicas que estão por trás delas do que a uma consideração daquilo que o texto, tanto em suas partes quanto em sua totalidade, tinha a dizer.

Devemos ter a precaução de não jogar a “água da bacia com a criança junta”, pois a crítica, aplicada de maneira consciente orienta o estudioso a obter uma compreensão mais exata da Bíblia, e o auxilia a encontrar o sentido literal dos textos e a intenção original do autor. Embora muitas vezes o método histórico-crítico, alegue ser o único método capaz de interpretar a Bíblia corretamente, ele acaba caindo no mesmo erro de dogmatismo hermenêutico o qual ele censura. O pesquisador deve ter sempre em mente que este método deve ser empregado como um meio, e não como um fim em si mesmo.
Devemos nos precaver dos resultados que este método tem causado, conforme Gerhard Maier (apud, FEE, 1997, p. 262) expôs em sua obra “O Fim do Método Histórico-Crítico”:
Não importa quão certo seja para o método histórico continuar sendo a melhor maneira de aprender realidades históricas... Não obstante, não deveríamos tentar ocultar as consequências negativas da crítica radical protestante no que refere à Bíblia, e encobrir este fato ou fazê-lo parecer inofensivo... A crítica bíblica, por 200 anos tem provado ser um fardo intolerável às congregações, e não só na Alemanha... Hoje como no passado ela continua jogando um balde de água fria no entusiasmo missionário dos jovens estudantes de teologia.

Este método não deve deixar de ser crítico para com os seus próprios instrumentos. Gottwald (1988, p. 33) ao escrever sobre os limites do método histórico-crítico, comparou-o com os métodos confessionais, vejamos:
Exatamente como a aproximação religiosa confessional mais antiga perdeu poder explicativo quando deu respostas dogmáticas a perguntas históricas, assim o método histórico-crítico revelou seus limites quando pôde só responder adequadamente a algumas perguntas históricas e quando se percebeu que novas perguntas a respeito da forma literária da Bíblia e do ambiente social do antigo Israel se achavam além da sua competência.

Childs (apud, HASEL, 1992, p. 97) considera o método histórico-crítico impróprio para se estudar a Bíblia, vejamos:
O método histórico-crítico é impróprio para se estudar a Bíblia como as Escrituras da Igreja, porque não parte do contexto exigido... Quando encaradas no contexto do cânon, as questões de que o texto denotava e o que denota ficam inseparavelmente ligadas e são objeto da interpretação como Escritura. Na medida em que o emprego do método crítico ergue uma cortina de ferro entre o passado e o presente, ele é impróprio para se estudar a Bíblia como Escritura da Igreja.

No Brasil o método histórico-crítico tem se mostrado favorável em alguns seminários e meios acadêmicos. O grande desafio é saber usar as ferramentas proporcionadas pelo método, desvinculando-as de seus pressupostos que muitas vezes são contrários a uma postura teológica bíblica. Com isso, conforme Lopes (2004, p. 242) ao analisar sobre usar ou não este método ele responde: “nossa resposta a essa questão é um ‘sim’ cauteloso”.


Bibliografia

ARMSTRONG, Karen. A Bíblia uma biografia. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2007.
BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. São Paulo : Herder, 1962.
CHAMPLIN, Russel Norman Champlin. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. 6º ed. São Paulo : Hagnos, 2002.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. Raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo : Cultura Cristã, 2004.
FEE, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes o que lês?. 2º ed. São Paulo : Vida Nova, 1997.
GEISLER, Norman L. Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã. São Paulo : Vida, 2002.
________ (Org). A Inerrância da Bíblia. São Paulo : Vida, 2003.
GOTTWALD, Norman. K. Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica.  2º ed. São Paulo : Paulus, 1988.
HASEL, Gerhard F. Teologia do Antigo Testamento: questões fundamentais no debate atual. 2º edição. Rio de Janeiro: JUERP, 1992.
HILL, Andrew E; WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo : Vida, 2006.
KAISER, Walter.; MOISÉS, Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
KERR, Guilherme. Alta Crítica, avanços e recuos. 2º ed. Rio de Janeiro : Casa Publicadora Batista, 1956.
KNIERIM, Rolf P. A interpretação do Antigo Testamento. São Bernardo do Campo : EDITEO, 1990.
LOPES, Augustus Nicodemos. A Bíblia e seus Intérpretes – uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
MAINVILLE, Odette. A Bíblia à Luz da História, um guia de exegese histórico-crítica. São Paulo : Paulinas, 1999.
MCDOWELL, Josh. Evidência que Exige um Veredito. São Paulo : Candeia, 1997. (v. 1 e 2).
SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. 3º ed. São Leopoldo : Sinodal, 1994.
SHREINER. J. Palavra e Mensagem do Antigo Testamento. 2º ed. São Paulo : Teológica, 2004.
STEINMANN, Jean. A Crítica em Face da Bíblia. São Paulo : Flamboyant, 1960.
STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. São Paulo : Teológica, 2002. (v.1).
TORREY, R. A. (ed.), Os Fundamentos: A famosa coletânea de textos das verdades bíblicas fundamentais. São Paulo : Hagnos, 2005.
WOLFF, H. W. Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo : Paulinas, 1978.




[1] A grande maioria dos estudiosos da Hipótese Documental, e interpretes que desvaloriza o conceito de “historicidade” dos textos bíblicos preferem usar o termo “relato” ao invés de “história”, sugerindo com isso que o texto bíblico não se trata de uma “história”, mas que é apenas “como história”.