23 de novembro de 2010

A Hermenêutica de José Severino Croatto


1. BIOGRAFIA

José Severino Croatto, faleceu com 74 anos em uma segunda-feira, 26 de abril de 2004, em Buenos Aires capital da Argentina, e foi professor emérito do Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos (ISEDET). Um dos traços distintivos de Croatto foi sua sabedoria, acompanhada de amplo conhecimento e seu dom de ser humano. Era um excelente professor e um grande biblista.
Croatto nasceu no dia 19 de março de 1930. Estudou no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Universidade Hebraica de Jerusalém. Era professor de Antigo Testamento, hebraico e Fenomenologia da Religião no ISEDET.
Antes, foi professor de Antigo Testamento na Faculdade de Teologia do Colégio Máximo, São Miguel, Buenos Aires; e de Filosofia e História das Religiões na Universidade de Buenos Aires.
Entre os 19 livros que escreveu destacam-se História da Salvação, Fenomenologia da Religião: experiência do sagrado, Hermenêutica Bíblica, Libertação e liberdade, três volumes sobre Isaías e outros três sobre Gênesis e Tradições Contraculturais no Pentateuco.
Em 1975, organizou a Bibliografia Teológica Comentada, uma publicação anual do ISEDET. Em 2000, Severino Croatto foi homenageado por seus colegas, ex-alunos e amigos com a publicação do livro sobre As releituras criativas na Bíblia, pelos 70 anos de vida, 40 anos de docência e 25 anos de atividade no ISEDET.


2. INFLUÊNCIA E MÉTODO HERMÊNEUTICO

            O campo da interpretação bíblica sofreu mudanças dramáticas durante o século 20, e grande parte destas mudanças ocorreu devido a obras de eruditos como Karl Barth e Rudolf Bultmann e também ao desenvolvimento de outros campos de estudo, como a crítica literária, a filosofia e até mesmo a ciência. Em grande medida, essas mudanças assinalaram uma reação ao método histórico-crítico que floresceu no século 19. Esse método ressaltou de tal maneira o significado histórico da Bíblia que parecia excluir a sua relevância para o presente.
            O surgimento da chamada Nova Crítica deslocou a atenção para o entendimento de que os textos literários têm significados em si mesmos, ou seja, independente da intenção original do autor. Quando aplicada a Bíblia, essa abordagem minimiza a historicidade das narrativas. Alem disso, a crescente ênfase no papel do leitor tem injetado um forte elemento de subjetividade na interpretação. Embora possa ser verdadeiro que não devemos identificar o significado do texto total e exclusivamente com o que o autor conscientemente pretendeu comunicar, ainda assim é um sério erro dispensar o conceito da intenção autoral ou colocá-lo em uma posição secundária.
Em seu livro História da Salvação, Croatto projetou o fato histórico, particularmente em se tratando do Antigo Testamento, baseado pela crítica histórica mais exigente. Sua teologia como ele mesmo declara é uma “teologia baseada nas fontes[1]. O autor propõe neste livro baseado em Lucas apresentar a teologia da História em três tempos: o de Israel, o de Cristo e o da Igreja. Ao tratar sobre os livros do Antigo Testamento o autor buscou ambientá-los em seu meio histórico, social e religioso.
Croatto vê com bons olhos os estudos modernos da Bíblia, o que ele entende ser um serviço e não um perigo. Para ele “escandalizar-se com a orientação presente das investigações bíblicas significaria ter uma fé pobre, fraca, insegura”.[2] A exegese bíblica assim como outras ciências progride lado a lado.
A bíblia não estaria interessada em nos fornecer dados históricos e científicos, muito menos em nos apresentar um manual de história antiga. Sua finalidade reside na “mensagem”. Assim o cerne de seu livro é: “Mensagem da Salvação encarnada em uma história humana”.[3] A história assim fica em segundo plano, por exemplo a narração do dilúvio apresenta um núcleo histórico (uma inundação na Mesopotâmia), em contrapartida este elemento original foi revestido de um estrato folclórico. Para ele essa narração só foi incorporada na Bíblia porque passou a ser “querigmática”.
Croatto é um exemplo especialmente interessante, uma vez que os seus escritos, surgidos no contexto da teologia latino-americana da libertação, tornaram-se populares no mundo da língua inglesa. De acordo com Croatto, a Bíblia não deve ser vista como um depósito fixo que já disse tudo, e não é tanto o que a Bíblia “disse”, mas o que ela “diz”. Ao colocar a mensagem em forma escrita, os autores bíblicos desapareceram, mas a sua ausência significa uma riqueza semântica. O “fechamento” do significado do autor resulta na “abertura” para um novo significado. Croatto chega a nos dizer que a responsabilidade dos leitores não é a exegese – extrair um sentido puro como se alguém estivesse tirando um objeto valioso de um cofre – mas propriamente uma “eisegese”, isto é, que devemos “entrar” no texto com novos questionamentos para produzir um novo significado.
Em seu outro livro  Êxodo, uma hermenêutica da liberdade Croatto destaca mais o modo como o tema é abordado no interior da Bíblia, o querigma da libertação, adotando-o como modelo do processo hermenêutico. Para Croatto o que importa não é o cativeiro, mas a libertação do mesmo. A teologia do êxodo não é simplesmente um ‘depois’ do acontecimento salvífico – quanto mais distante está sua leitura do acontecimento, tanto menor o seu próprio sentido.[4] A teologia da libertação seria então uma teologia do processo de libertação e não da liberdade adquirida. E também a teologia a partir da práxis não é uma novidade latino-americana, mas o ponto de partida da própria teologia bíblica.[5]
Croatto propõe estabelecer uma perspectiva hermenêutica, tendo em vista uma “releitura” da mensagem bíblica de libertação a partir de nossa experiência de povos ou de homens oprimidos. A mensagem bíblica deve ser relida a partir de nós. “A hermenêutica é a ciência da compreensão do sentido, que o homem traz para a sua vida prática, interpretando a mesma através da palavra, de um texto ou de outras práticas.”[6]Mas somente haverá uma leitura hermenêutica da mensagem bíblica, quando ela sobrepujar o primeiro sentido contextual (não só do autor, como também dos seus primeiros leitores) mediante a desimplicação de um excesso de sentido manifestado a partir de uma pergunta nova dirigida ao texto.”[7]
Croatto adota os pressupostos do método histórico-crítico, e mantém o mesmo ceticismo quanto à historicidade (veracidade) dos relatos sobre a saída de Israel do Egito, como contidos no livro de Êxodo. Ele sugere que o relato do Êxodo como o temos na Bíblia, particularmente a vocação de Moisés, as pragas do Egito, a páscoa apressada e a travessia do mar "não são episódios do acontecimento da libertação, mas expressões de seu sentido, como projeto e atuação de Deus ou como memória festiva." Insiste em que não se deve ler os fatos narrados nos textos bíblicos "como se tivessem acontecido na forma em que estão contados." Numa postura típica de teólogos liberacionistas, adere ainda a um conceito de cânon onde a inspiração é entendida como um fenômeno textual apenas, resultado da tentativa da igreja cristã de "fechar" o sentido, e o conceito de revelação é reinterpretado para significar toda manifestação de Deus na história. "A Bíblia é a leitura da fé dos eventos paradigmáticos da história salvífica, a leitura paradigmática de uma história de salvação que ainda não terminou," afirma. Ele afirma ainda que o fenômeno da revelação e sua interpretação é um ciclo que se repete na história da igreja. Entretanto, ele deixa sem resposta a questão se uma leitura paradigmática moderna de eventos supostamente pertencentes à história da salvação hoje, deveria ser recebida pela igreja como Escritura.
A concepção das Escrituras por parte de teólogos da libertação que se utilizam do método histórico-crítico é geralmente a mesma: não reconhecem atributos das Escrituras tais como inspiração, inerrância, autoridade e suficiência.
Os críticos em geral têm reconhecido que os teólogos da libertação se utilizam de várias e diferentes fontes de análise e conhecimento. A sua abordagem é mais "eclética." Eles normalmente se utilizam de diferentes métodos, com pequena preocupação quanto a um sistema total coerente.
Essa inconsistência é típica de teólogos liberacionistas que insistem na contextualização da hermenêutica latina, mas que defendem suas idéias usando ferramentas trazidas da academia européia. A tese de Croatto, por exemplo, de que cada leitura traz a produção de um novo significado é ardorosamente defendida a partir do estruturalismo de Ferdinand de Saussure (suíço), da filosofia hermenêutica de Paul Ricoeur (francês) e da hermenêutica reader-response de Hans-Georg Gadamer (alemão). O que esses europeus produziram, sendo o resultado de suas próprias leituras, serviria como base para uma hermenêutica latino-americana? Para uma resposta positiva, é preciso admitir que haja leituras e sentidos produzidos numa cultura que são válidos para outras, e que não precisam passar por uma releitura – conceito que vai de encontro à tese de Croatto e de outros estudiosos liberacionistas que se utilizam das mesmas fontes.
A utilização da práxis como chave hermenêutica é defendida igualmente por Croatto. Ele sustenta que entre os diversos eixos semânticos da Bíblia há o tema da liberdade, que se constitui num horizonte de compreensão para uma releitura do Êxodo como conteúdo libertador pelas comunidades eclesiais de base. A posição metodológica de Croatto com respeito à reserva-de-sentidos de um texto deveria pressupor que pode haver uma pluralidade de possíveis leituras e interpretações de qualquer texto bíblico. Entretanto, ele privilegia uma leitura feita a partir da situação do pobre, da perspectiva do oprimido. Para ele, uma leitura apropriada das Escrituras só é possível a partir da situação do oprimido. Nesse caso, a mensagem da Bíblia se torna inacessível a quem não for pobre? Já que "liberdade" como tema ou eixo semântico da Bíblia tem seu conteúdo determinado pela perspectiva de quem lê, como defende Croatto, não tornaríamos a Bíblia, ao fim, em depositária de mensagens para qualquer ideologia? 
Lendo-se a obra de Croatto, fica-se com a nítida impressão de que sua hermenêutica é conscientemente desenvolvida visando legitimar a causa dos pobres e oprimidos. Já que supostamente Deus está engajado na luta em favor dos oprimidos, a Bíblia deve ser lida dessa perspectiva. Apesar de afirmar que o texto é polissêmico (comporta um número ilimitado de sentidos), afirma também que a leitura mais apropriada da Bíblia é aquela feita a partir da situação de opressão e pobreza. Tal ênfase, desprezando o sentido histórico e gramatical, acaba por achar sentidos no texto bíblico que absolutamente não faziam parte do que era pretendido pelo autor.
A tese principal de sua obra Hermenêutica Bíblica é que a Bíblia não deve ser vista como um depósito fixo que já disse tudo — o que realmente importa não é o que ela disse, mas o que ela diz. No ato de escrever sua mensagem, os autores bíblicos desapareceram. Sua morte, entretanto, traz riqueza semântica.
A atuação iluminadora do Espírito de Deus na leitura e compreensão das Escrituras é uma dimensão freqüentemente ignorada por estudiosos comprometidos com o método histórico-crítico e com seus pressupostos. Para eles, não há qualquer interferência ou participação de Deus no processo de compreensão. A exegese é um processo absolutamente mecânico, uma simples aplicação de métodos supostamente científicos.
Para Croatto, a única diferença entre a Bíblia e outros livros é que ela é um texto antigo que tem um conceito peculiar de história.


3. ANÁLISE DE SUA OBRA: Hermenêutica Bíblica

Logo no prólogo de sua obra o autor deixa-nos claro a sua tese: a de que a Bíblia não é um depósito fechado que já “disse” tudo. Isto é, procura deixar claro que o seu significado não se encerra no texto em si, mas está para além dele, se encontrando justamente na leitura de cada leitor, tendo em vista o fato de que o autor já morreu e a distância entre o texto e o seu leitor é enorme. Este abismo que separa o leitor do texto, e o fato do autor já não falar pelo texto, faz com que o significado não seja estabelecido pelo texto e nem pelo seu autor.
Desta forma, o significante (a Bíblia no caso) passará a ter vários sentidos (interpretações, significados), e não apenas um, ou seja, o pretendido pelo autor, mas sim, o entendido pelo leitor.
A partir desta idéia da “Nova Hermenêutica” iniciando com Ferdinand Saussure (estruturalismo), passando principalmente por Gadamer (a fusão dos horizontes) e Derrida (o desconstrucionismo), seu propósito é um só, aplicar esta hermenêutica à leitura Bíblica.


3.1 SUA HERMENÊUTICA

Sua linha hermenêutica é clara. Ele se vale da ferramenta usada pelos teólogos da libertação. Ele usa a Nova Hermenêutica, aplicada à política e à teologia. Como já dissemos acima, esta forma de interpretar inicia-se com F. Saussure, é retrabalhada por P. Ricoeur, passa por Gadamer e Derrida.
Como Derrida, Croatto explora bem a questão do descontrucionismo, onde as intenções do autor do texto passam a ser irrelevantes para a interpretação do próprio texto. O texto é polissêmico e sem sentido unívoco.
A Nova Hermenêutica, característica marcante do pós-modernismo deslocou qualquer sentido unívoco, denotativo, absoluto, objetivo e verdadeiro de qualquer texto em si. Deslocou seu significado do sentido pretendido pelo autor para o entendido (interpretado) por cada leitor. Assim cada leitura terá, por conseguinte, um significado singular e único. O texto pode ter vários sentidos e ser absolutamente relativo.
Sua linha é a linha da “releitura” - palavra esta que os teólogos da libertação gostam demais – da leitura feita com os “óculos” da moda; é a leitura do imanentismo, do relativismo, do subjetivismo, do individualismo, do imediatismo. Lê-se o texto novamente, não com os óculos do autor, mas com o ideário do leitor, e a partir daí tudo é possível. Sua premissa passa a ser então, a de que uma leitura do texto nunca é repetição (visto que não se obtém com esta leitura o sentido pretendido pelo autor) e sim uma nova produção de sentido.
Croatto esclarece três aspectos inevitáveis da hermenêutica da Teologia da Libertação para o interprete hoje: (a) o lugar privilegiado da operação hermenêutica é a interpretação dos textos; (b) supõe-se que o intérprete condiciona sua leitura por uma espécie de pré-compreensão, que surge do seu próprio contexto vital; e (c) o ato hermenêutico faz crescer o sentido do texto que se interpreta.


3.2 RESUMO DO LIVRO

No prólogo, Croatto estabelece sua tese, onde afirma que a Bíblia não é um livro fechado de um único sentido, mas aberto para tantos sentidos quantos leitores houver. Desta forma também ele fecha seu livro.
Em seguida na sua introdução faz um retrospecto relâmpago sobre a gênese da Nova Hermenêutica, traçando sua história desde o romântico Schleiermacher até o contemporâneo Ricoeur. Posteriormente faz uma análise das várias abordagens “hermenêuticas” que têm sido feitas da Bíblia:
1. A Bíblia é um texto secundário e desatualizado diante da realidade;
2. Critica a leitura concordista;
3. Critica a abordagem da Moderna Crítica Bíblica, com sua ênfase centralizada na história (no então) em detrimento do presente (onde estaria sua maior relevância);
4. Critica por fim a Nova Hermenêutica de Fuchs, Ebeling e seus continuadores.
Num certo sentido ele concorda, em parte, com todas elas menos com a número 2 a concordista.
No capítulo 3 o autor discorre os pressupostos da semiótica[8] e da hermenêutica tecendo assim, a partir destas considerações, as bases para a leitura bíblica a partir desta visão, onde o sentido é polissêmico, o autor morre desaparecendo com ele o sentido original do texto, e cada leitor dá um novo significado ao texto, um novo sentido, uma nova produção a partir do ideário individual de cada um que vai ao texto. Com isto, Croatto desloca o significado do “atrás” para o “adiante” do texto.
No último capítulo (4): Hermenêutica Bíblica, o autor procura aplicar seu método hermenêutico à leitura bíblica sempre dentro das tradicionais abordagens da Teologia da Libertação, ou seja, aquela que parte do social, do concreto, da situação de miséria (princípio arquitetônico) e opressão (econômica e estrutural – política). Desta forma é esta situação (extra-muros) que vai definir o significado do texto por parte do leitor que o ler. Rejeita assim, a idéia de um sentido fechado e único, afirmando a existência de várias situações (experiências) que definem significados diferentes para um mesmo texto lido por leitores diferentes. O sentido do texto é então sempre é aberto, nunca fechado.


3.3 AVALIAÇÃO POSITIVA DO LIVRO

Sua leitura nos coloca no centro do debate hermenêutico moderno. Na verdade Croatto é fruto do pós-modernismo, da hermenêutica desconstrutivista e polissêmica (mais de um significado). Pela sua modernidade e expressão da ideologia de uma época, sua leitura é extremamente positiva para quem quer ser relevante para o seu tempo.
É positiva também, porque mais uma vez, reconhece a distância entre nós e o texto, portanto o que fazer? Faz-se necessário algo para que o texto chegue até nós. Infelizmente, para isso, ele mata o autor, e junto com ele o sentido pretendido pelo autor. Mas não tira o mérito de sua análise e reconhecimento desta problemática.
É positiva também na medida em que reconhece os erros de outras abordagens hermenêuticas, como aquelas que enfatizam tanto a história que o texto acaba perdendo sua relevância para o presente, ou a concordista que tenta estabelecer para todos os acontecimentos de então um paralelo para o aqui e agora.
É positiva porque nos mostra que o leitor tem um papel fundamental no entendimento de um texto, visto que ninguém vai ao texto de forma inocente, mas sempre se aproxima dele levando consigo todo um ideário e bagagem cultural. Neste sentido Gadamer tem seu mérito em relação à fusão dos dois horizontes.
Acima de tudo é positiva porque, conforme nos ensina a história, era a heresia que sempre fortalecia a ortodoxia, as bases da fé cristã. Graças às heresias nossos credos foram tecidos e fortalecidos. Portanto, creio que o livro é positivo porque proporciona nos fortalecermos em nossas bases doutrinárias e reafirmarmos ainda mais nossos credos. Faz com que nossa hermenêutica seja reavaliada, reafirmada, fortalecida e incrementada.


3.4 AVALIAÇÃO NEGATIVA DO LIVRO

No afã de fazer a Bíblia relevante para o seu tempo, acaba agradando de fato à sua época, mas em prejuízo ao próprio texto. Neste caso os meios jamais justificam seus fins. A intenção é boa e certa, mas a ferramenta foi equivocada, por conseguinte, seus resultados foram danosos.
É infeliz sua afirmação de que a Bíblia é um texto secundário e desatualizado ante a realidade. Croatto nos diz que quando uma pessoa lê um texto, ela não lê o seu autor. Para nós, a maior riqueza da mensagem cristã é a encarnação da palavra por Jesus Cristo, exemplo deixado para seguirmos e já exemplificado pelo profeta Ezequiel ao comer a mensagem que iria entregar ao povo. A verdade é que a mensagem encarnada ainda é a única forma do mundo nos ouvir e de nos fazermos relevantes para nossa época.  Contrariando a estas posições, Croatto quer afirmar o contrário em nome da polissemia. Obviamente, para quem não precisa convencer ninguém de verdades absolutas, esta abordagem é politicamente correta.
O autor em questão peca também pela sua forma de fazer teologia, ou seja, ao invés de partir da revelação e daí para a hermenêutica, ele parte da situação social, da miséria econômica, da opressão política, da experiência – este é seu princípio arquitetônico – para daí partir para a hermenêutica, usando a Bíblia simplesmente como meio de validar seus pressupostos hermenêuticos a fim de que, os menos favorecidos (prostitutas, homossexuais, negros, pobres, etc...) sejam justiçados. Se a Bíblia não é meu referencial maior, primeiro e último, e sim a experiência, a práxis - como os teólogos da libertação gostam de dizer tudo é possível.
Outro ponto que fere não só a fé reformada como a própria palavra em si (A Escritura explica a Escritura – Lutero), é o fato de o texto ter tantos significados quantos sejam seus leitores.
Cremos que o texto tem apenas um significado, aquele pretendido pelo seu autor. Para nós ele não morreu, mas está vivo em suas palavras, e ainda fala alto o suficiente para ouvirmos o que ele queria nos dizer através do Espírito Santo de Deus.
As demais críticas são gerais, isto é, à “hermenêutica pós-modernista”. Seriam elas: a ausência da verdade objetiva, cada leitor teria sua verdade e não procuraria convencer ninguém de suas crenças, pois isto não seria politicamente correto; por conseguinte teríamos a ausência dos absolutos, a Bíblia é vista como um livro comum sujeita a todas as provas da lingüística sem levar em conta seu caráter espiritual e revelatório. Para esta hermenêutica a verdade absoluta deixa de existir, pois não podemos falar de tal verdade, visto que toda verdade é mutável historicamente e por conseguinte relativa. O significante deixa de ter um sentido denotativo (o que seria abstraído do próprio texto, a partir do sentido pretendido pelo autor) e passa a ter um sentido conotativo a partir da visão e leitura do leitor.
Resultado desta situação de absolutos ausentes, verdade relativizada, é o imanentismo; todo o fator sobrenatural e espiritual é descartado. O homem torna-se o seu próprio referencial, tornando-se assim, a velha “medida de todas as coisas”. Vemos em Croatto aquele homem que tem muita facilidade em ir ao texto, mas muita dificuldade de trazer o texto até ele. Pois no caso dele, quem define as regras do jogo é ele e não o texto.
No nosso caso, procuramos sempre fazer o contrário, o texto define nossa conduta, somos dependentes e submissos a ele, ou pelo menos, deveríamos assim fazer.
No livro A Bíblia e seus intérpretes de Augustus Nicodemos nos informa que Severino Croatto mantém ceticismo explícito quanto à historicidade (veracidade) dos relatos sobre a saída de Israel do Egito, como contido no livro de Êxodo. Ele sugere que o relato do êxodo como o temos na Bíblia, particularmente a vocação de Moisés, as pragas do Egito, a páscoa apressada e a travessia do mar “não são episódios do acontecimento da libertação, mas expressões de seu sentido, como projeto e atuação de Deus ou como memória festiva.”[9]




4. CONSIDERAÇÕES SOBRE A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

            A teologia da libertação teve sua origem na tentativa auto consciente dos cristãos latino-americanos de aplicar o evangelho à sua situação de pobreza. A partir desse tipo de dilema, tem surgido uma escola de interpretação na qual a “realidade é o texto principal” – ou seja: a situação política e econômica da pessoa é reconhecida como o horizonte necessário para entender as escrituras.
            Entretanto, o reconhecimento de que o alicerce da interpretação é a práxis, e não a teoria abre a porta através da qual uma multidão de teólogos da libertação, tem entrado.
            Para os teólogos da libertação, o cristianismo tradicional é uma grande barreira para o movimento liberacionalista. Uma religião que compreende a fé como adesão às verdades reveladas da Escritura é uma religião vulgarizada e antiquada. No fim, a base da Teologia da Libertação é dupla: uma exegese crítica e liberal das Escrituras e uma análise marxista das condições sócio econômico política do contexto atual.
           

5. CONCLUSÃO

Croatto não se deu a tarefa de fazer uma análise exegética dos textos bíblicos, no sentido normativo da palavra. Ele utilizou alguns dos resultados dos estudos exegéticos contemporâneos. Portanto, ele usou estes resultados mais como uma “plataforma de lançamento” do que como uma ferramenta criativa e consciente. Consequentemente, não buscou verificar exegeticamente a certeza de seu método nem do seu uso do texto. O fator determinante, então, do seu entendimento do texto não é uma só metodologia exegética, que pode ser discutida, mas as exigências de certa situação para as quais o texto deve ser usado.















BIBLIOGRAFIA




CARSON, D. A. A exegese e suas Falácias, perigos na interpretação bíblica. Edições Vida Nova. 1992.

CROATTO, Severino. Hermenêutica bíblica: para uma teoria da leitura como produção de significado. São Paulo: Paulinas; Porto Alegre: Sinodal. 1986.

CROATTO, Severino. ISAÍAS - A palavra profética e sua releitura hermenêutica - A utopia da Nova Criação .Vozes. 2002.

CROATTO, Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da religião. São Paulo, Edições Paulinas. 2001.

CROATTO, Severino. História da Salvação. Edições Paulinas, 2º edição. 1968.

CROATTO, Severino. Êxodo Uma Hermenêutica da Liberdade. Edições Paulinas. 1981.

DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à luz da igreja primitiva. Editora Vida. 2005.

DYCK, Elmer. ed. Ouvindo a Deus: uma abordagem multidisciplinar da leitura bíblica. Edições Shedd, 2001.

FEE, Gordon, D. & STUART, Douglas. Entendes o que lês? Edições Vida Nova. 2º edição. 2004.

HORRELL, John Scott. A Teologia da Libertação Uma Avaliação. Apostila. FTBSP/SBPV – 1989-1990.

KAISER, Walter C. Jr, e SILVA, Moisés. Introdução a Hermenêutica Bíblica. Editora Cultura Cristã. 2002.

LOPES, Augustus Nicodemos. A Bíblia e seus intérpretes. Editora Cultura Cristã. 2004.

MACKINTOSH, H. R. Teologia Moderna de Schleiermacher a Bultmann. Editora Novo Século. 2002.

Pontifica Comissão Bíblica. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Paulinas. 5º edição. 2002.

Por Danilo Moraes
Mestre em Teologia pela FTBSP


[1] CROATTO, Severino. História da Salvação. Edições Paulinas, 2º edição, 1968. pg. 7.
[2] Ibidem. pg. 18.
[3] Ibidem. pg. 19.
[4] CROATTO, J. Severino. Êxodo, Uma Hermenêutica da Liberdade. 1981: Edições Paulinas. pg. 7.
[5] Ibidem. pg. 9.
[6] Ibidem. pg. 11.
[7] Ididem. pg. 16.
[8] Ciência geral dos signos, segundo Ferdinand de Saussure (v. saussuriano), que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas de signos, i. e., sistemas de significação. Em oposição à lingüística, que se restringe ao estudo dos signos lingüísticos, ou seja, da linguagem, a semiologia tem por objeto qualquer sistema de signos (imagens, gestos, vestuários, ritos, etc.).
[9] LOPES, Augustus Nicodemos. A Bíblia e seus intérpretes. Editora Cultura Cristã. 2004. pg. 202.