16 de janeiro de 2010

Teologia do Antigo Testamento: Anotações de Milton Schwantes



1 - O Encaminhamento: problemas e pistas

O Antigo Testamento relata-nos um só e mesmo Deus.
A Teologia do Antigo Testamento se desenvolve, através de sua forma de literatura. Deve-se ressaltar que é um livro de história, assim a teologia que quiser estar de acorde deverá ser narrativa, e não conceitual. A separação religiosa entre o histórico e o religioso é inviável. O discurso da fé é iluminado por eventos históricos e, estes o iluminam.       
 Ao fazermos teologia do Antigo Testamento é importante que consideremos a situação, em que os textos testemunham de Deus, e quem fala.
Raras vezes possuímos as palavras dos personagens bíblicos, o que possuímos são as tradições por eles iniciados. Assim é importante localizar as informações do texto dentro de seu contexto e realidade social. Pode-se dizer que o Antigo Testamento, em algumas partes é texto de periferia de setores marginalizados na sociedade.
A maneira de se compreender antiga a redação do Antigo Testamento , deixa de ser satisfatória. Não só Gênesis mas todo o Antigo Testamento é, basicamente um compêndio de perícopes. Mas carecemos de modelos satisfatórios.
Esta forma de fazer hermenêutica, trata não só de uma nova caminhada que venha a acrescentar e somar ao já existente. Trata-se de uma outra caminhada.[1]


  1. A Teologia na Historiografia

1.1  Preâmbulo
Os primeiros livros da Bíblia enfocam a história de Israel e sua origem. O Pentateuco constitui-se uma porta de entrada, para a história de Israel, que tem continuidade nos demais livros.
Nos livros históricos não contém a história salvífica continuamente, pelo contrário, observamos a existência de certas fases, como humanidade, patriarcas, povo oprimido, deserto, Sinai/Horebe, e tomada da terra. Assim uma Teologia do Antigo Testamento deverá abordar estes assuntos se quiser ser relevante. Dentre todos os temas existentes no Pentateuco, o êxodo é seu ponto central.
2.1.1 (Teologia do Pentateuco a partir da teologia das fontes?)
Um dos motivos para não se fazer teologia do Pentateuco a partir das fontes (Javista -J-, eloísta -E-, deuteronomista -D-, Sacerdotal-S-) seria a falta de consenso entre os defensores dessa teoria quanto às interpretações das fontes.
2.1.2 (Teologia do Pentateuco como teologia da aliança?)
É evidente que nos textos Bíblicos desde Gênesis até Deuteronômio a aliança é de suma importância. Fica a pergunta: Não deveríamos partir do conceito da aliança na Teologia do Pentateuco?
2.1.3 (Impasses de uma teologia do Pentateuco que parte das fontes ou da aliança!)
Os dois modelos é pouco adequado, porque a teoria das fontes esta sendo seriamente questionada, mas também porque a teologia da aliança somente corresponde ao teologizar do 7º e 6º séculos.
2.1.4 (Por que o êxodo é o acesso teológico preferencial para o Pentateuco?)
Baseando-se em G. Von Rad, o autor sugere que a fé de Israel tem sua origem no êxodo, causado por Javé. A libertação do Egito, está relacionada com o Deus libertador de Israel.
O fato de Deus escolher revelar seu nome de modo especial no acontecimento do êxodo dá maior importância ao feito. O êxito é vital no credo israelita, o êxodo introduz o nome de Javé

1.2  Javé liberta escravos da opressão! (O Deus dos hebreus – teologia do êxodo)

É característica do êxodo não haver qualquer referência a uma teologia mítica ou cíclica. Se caracteriza com uma teologia histórica. Os textos do êxodo evidenciam de modo mais consistente em que sentido Javé é Deus da história.

1.2.1 (O milagre) Os milagres de Deus para com seu povo são caracterizados pelo fato de Israel ser na maioria das vezes inferior aos outros povos e Deus agir milagrosamente em seu favor. A intervenção de Javé se dá pelo milagre no campo de batalha.
O nosso mundo atual não requer e nem suporta milagres; o trabalhador crê em milagres e o celebra.
1.2.2  (O milagre é para escravos!) O êxodo esta intimamente relacionado com os sofredores, escravos e oprimidos. A ação de Deus e o clamor dos oprimidos não são separáveis. É de caráter elementar identificar no êxodo a relação de Deus com os escravos hebreus.
2.2.2.1 (Um compêndio de teologia da libertação em Ex 3; 4; 6) Estes textos são diálogos, e reflexões sobre Deus. Supostamente os capítulos 3-4 vem de círculos proféticos, e o capítulo 6 de círculos sacerdotais.
O autor defende a tese de que “hebreu” não é raça, para partir dizendo que então Deus se mostra universal, e não somente de um povo.[2] Creio que se pode usar textos apropriados para se chegar a esta conclusão, e não forçar o termo “hebreu” para apoiar sua ideologia com caráter apropriado para a “Teologia da Libertação”.

1.3  Javé age pessoalmente! (O Deus dos Pais – teologia dos patriarcas)
Nos patriarcas vemos Deus nos fenômenos de vida o semi-nomadismo. O Deus dos patriarcas se revela como Deus pessoal. O agir de Deus não se da com um individuo, mas a partir dele com todo o grupo.
Deus se mostra presente com o povo em suas peregrinações.
Deus concede promessas aos patriarcas geralmente relacionadas as terras. Em gênesis 12 vemos que as promessas visam abençoar as famílias agrárias e trabalhadoras, em gênesis 22 essa promessa passa a ter a condição de obediência.
Em gênesis 3;4;6 incorporasse a teologia dos patriarcas na teologia do êxodo.

1.4  Javé cria e mantém tudo e todos (O Deus de Abel – teologia da proto-história)
A teologia do Antigo Testamento é influenciada pelos textos de Gn 1-11. E a relação entre ciência e fé é determinante para a compreensão.

1.4.1        (Hermenêutica)
Segundo o autor em Gn 1-11 os fatos ali narrados foram acrescidos de sentido ao serem narrados oralmente, então era visto o presente para dentro do passado; de maneira inversa em Gn 12ss e Ex 1ss se lê o passado para dentro do presente.
Gn 1-11 evidentemente transcende o mundo histórico. Ou seja, não é histórico, céus e terra não foram criados em seis dias, os homens antes da queda jamais existiram, o dilúvio não é um fato histórico, a existência de uma só língua jamais foi uma experiência.[3],[4].

1.4.2        (Teologia)
O autor faz um paralelo do dilúvio com o  êxodo, enfocando que ambos tiveram caráter libertador.
Ao criar a luz em Gn1 o autor propõe que o este texto foi formado no exílio com a finalidade de mostrar que quem criou os astros, ou luzeiros foram Deus e não divindades babilônicas. E declara “a primeira página da Bíblia transpira libertação político-social e teológico-espiritual”.[5]

1.4.3        (Tarefas)
Gn 1-11 contam a história da benção ou do pecado ou de que modo ambos se relacionam nestas passagens?

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O Dr Milton Schwantes, se utilizou como pode ser observado em seu trabalho, das “fontes”, ou seja, Teoria das Fontes para sua Teologia do Antigo Testamento – Anotações. Segue abaixo algumas considerações:[6]
a)                Trata-se de uma tese que, uma vez desnudada de suas máscaras, literária, histórica ou análise socióloga, revela a sua identidade – uma tese filosófica.
b)                Nunca se deve preferir a mera ortodoxia, às custas da verdade, será uma perversão negar que pontos de vistas ortodoxos podem estar com toda a razão.
c)                A teoria sempre deve ceder lugar aos fatos.
d)               O pano de fundo desta teoria, como sua própria origem e contexto esclarecem é o anti-sobrenatulismo.
e)                O que tem se mostrado é que a maior parte dos importantes novos resultados obtidos pelos estudos históricos pouco têm tido a ver com a análise literária.
f)                 Em cada época, a exegese tem se moldado às maneiras de pensar dominantes; e, na metade final do século 19, o pensamento humano era dominado pelo método científico e pela perspectiva evolucionária da história.
g)                As conclusões que se chega com esta teoria, é que Deus não agiu realmente na história de Israel; os hebreus tão somente pensaram que ele o tivesse feito.
h)                Não há qualquer prova objetiva da existência dos documentos J.E.D.S.
i)                  Este método impõe um moderno ponto de vista ocidental à antiga literatura oriental; se sente competente para descartar ou refazer frases ou mesmo versículos inteiros, sempre que são ofendidos os seus conceitos de coerência e estilo.
j)                  Este método é especialista em fabricar problemas que geralmente não estão presentes.
k)                Comete um erro lógico, quando procura desesperadamente argumentar a aceitação de seu método como se fosse uma questão provada, e sem erros.
l)                  O famoso estudioso judeu, Cyrus Gordon, fala da adesão quase cega de muitos críticos à teoria documentária:
Quando falo sobre a “fidelidade” a JEDS aponto para o sentido mais profundo do termo. Tenho ouvido professores do Antigo Testamento referirem-se à integridade das fontes JEDS como a “convicção” deles. Estão dispostos a tolerar modificações quanto aos detalhes. Permitem a subdivisão de fontes (D1, D2, D3 e assim por diante), a combinação de fontes (JE), ou a adição de algum novo documento, designado por outra letra maiúscula qualquer; mas não admitem qualquer dúvida quanto á estrutura básica, os supostos documentos, JEDS.

 [1] O autor corajosamente assume a postura de que esta hermenêutica é “outra”.
[2] ‘brî (hebreu) é empregado no AT em referência a um grupo étnico específico. No AT quem faz uso do vocábulo são, na maioria das vezes, não israelitas e o termo pode, então, ter a conotação de alguém que não é natural da terra. Pode-se sugerir o fato de que o vocábulo deriva de ‘­abar e tem o sentido de “que vem dalém”, “alguém que vem do outro lado”.
O registro bíblico registra com bastante clareza que ‘ibrî deriva de Éber, nome de um dos filhos de Sem (Gn 10.21; 1.14,16). Este se tornou o nome pelo qual o povo da aliança foi designado, em contraste com os egípcios e filisteus. Quando outros povos usavam este termo a Israel, era de forma depreciativa, ou seja, de imigrantes, estrangeiros, aqueles que vêm dalém.
Pode o vocábulo abranger um grupo maior de pessoas que se encontravam na mesma situação. Mas se tratando no contexto bíblico em que o termo é usado dificilmente se referia a algum povo que não fosse Israel, isto fica claro ao analisarmos o contexto onde o termos é empregado.
[3] Parece-me que a presença do elemento miraculoso ou sobrenatural serve de evidência suficiente para que ele rejeite a historicidade de Gn 1-11, ou, pelo menos, serve de razão suficiente para rejeitar a credibilidade das testemunhas que vemos por toda a bíblia se referir a Gn 1-11 como histórico.
[4] O autor na pg 47 faz a seguinte citação “Sim, nenhum sentido faz a discussão sobre o paradeiro da água do dilúvio” e coloca como fonte ARCHER, Gleason. Merece confiança o Antigo Testamento? Ocorre no referido livro conforme li não encontra expressa esta idéia, ao contrário Archer postula uma pesquisa histórica e arqueológica ar tratar do tema.
[5] Mais uma vez para justificar sua tese de que Gn 1-11 deve ser entendido a partir de Ex 1ss, o autor força o texto e deixa transparecer sua ideologia favorável a “      Teologia da Libertação”.
[6] Estas considerações tiveram como base o livro: Evidência que exige um veredito; Vl 2, Josh McDowell; Ed Candeia.