12 de janeiro de 2010

História de Israel - John Bright (Resenha)


(7ª edição, revista e ampliada a partir da 4ª edição original –

Bright, John. História de Israel. São Paulo: Paulus, 2003)

Por: Danilo Moraes

A formação de Bright se deu no Union Theological Seminary, local onde atuou posteriormente como professor ensinando línguas bíblicas. Bright cresceu na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, e bacharelou-se em 1931. Em seguida Bright foi convidado para participar em uma expedição arqueológica em Tell Beit Mirsim, liderada por William Foxwell Albright, e a partir de então Bright passou a ser fortemente influenciado por Albright.

Entre 1931-1935 Bright fez seu mestrado e em 1935 de início ao seu doutorado na Universidade de John Hopkins, onde estudou sob orientação de Albright.
Seu doutorado foi concluído somente em 1940, após um período em que Bright precisou se afastar dos estudos por motivos financeiros. Tendo seu doutorado concluído assumiu a cadeira no Union Theological Seminary, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1975. Bright faleceu em 26 de março de 1995.

A primeira edição da História de Israel, de John Bright foi publicada em 1959, praticamente no meio de sua carreira. A segunda edição saiu treze anos depois em 1972, e a terceira edição saiu em menos de dez anos depois da segunda edição em 1981. Apesar das novas descobertas e pesquisas sobre a história de Israel Bright não abriu mão de suas principais pressuposições, mas abriu concessões em alguns casos.

Sua obra é marcada pela consideração de que a fé de Israel foi um fator determinante em sua identidade. Sua obra reflete a marca de Albright, mas se distingui pelo interesse claro de Bright pela teologia Bíblica.

Para ele a História de Israel de Martin Noth, aderia radicalmente a história política e institucional de Israel, desconsiderando a fé de Israel, e isso para ele era algo contraditório, pois a fé segundo ele era a força motriz da história e política de Israel.

Segundo Bright para uma compreensão satisfatória da História de Israel, é necessário ter uma boa argumentação, familiaridade com a cultura e material do antigo Oriente Próximo e sensibilidade teológica. Para Bright a pesquisa arqueológica tem prioridade sobre a pesquisa histórica. Mas, devemos esperar pouco da arqueologia, pois o que ela tem a nos oferecer são apenas evidências circunstanciais, e testemunhos indiretos. Entretanto a arqueologia aumenta as “probabilidades”. Seu método tem uma marca própria, que é uma combinação de história e teologia.

Desde sua primeira edição em 1959, sua História de Israel sofre diversas mudanças, devido aos avanços nas descobertas arqueológicas e métodos de pesquisas.

A religião e a história de Israel estão amarradas a cultura do antigo Oriente Próximo. Antes de entrar na história de Israel propriamente dita Bright apresenta um “prólogo” com o título “Antigo Oriente antes do ano 2000 a.C., aproximadamente”. Este prólogo é essencial para compreensão de seus argumentos ao tratar sobre a primeira parte “Antecedentes e Primórdios – A Idade dos Patriarcas”. Outro ponto marcante de sua obra é a maneira como ele introduz o leitor em cada capítulo. Ele começa apresentando a situação do mundo ou o contexto do antigo Oriente Próximo relativo a cada período que ele vai abordar.

Para Bright os Patriarcas se encaixam melhor no período da Idade do Bronze Média. Os nomes dos patriarcas são de natureza norte-semita, segundo os textos de Mari, e os costumes segundo os textos de Nuzi. Abraão e Ló teriam sido cabeças de grandes clãs buscando por segurança em Canaã, ao invés de famílias isoladas vagando por terra hostil. Os textos de Nuzi apresentam evidencias indiretas à antiguidade dos patriarcas. Com o uso dos textos de Ebla para reconstruir a pré-história de Israel Bright abriu a possibilidade de datar Abraão antes do terceiro milênio.

Diante das críticas de Thompson e John Van Seters quanto ao uso dos textos de Nuzi para datar os patriarcas, Bright passou a confiar mais na evidencia interna do que na externa. Pois segundo ele, a ausência de semelhança entre a lei israelita mais recente e os costumes patriarcais no material bíblico é suficiente para estabelecer a “tenacidade da memória histórica”.

Ele entende que o Êxodo e o Sinai constituem os dois pilares da identidade de Israel, juntamente com a eleição e a aliança. Em Canaã Israel herdou o alfabeto linear e formas da religião pagã. A data para a entrada em Canaã segundo Bright é uma questão complicada, mas sugere que tenha sido na primeira metade do século XIII.

Foi somente com Moisés que a fé e a história de Israel tem início. No capítulo 4 “A constituição e a Religião de Israel Primitivo” Bright dicute sobre as complexidades históricas que envolvem o êxodo e a ocupação da terra. Para ele a anfictionia não criou a fé de (Israel), ao contrário, a fé era constitutiva da anfictionia.

Tendo como base o livro dos Juízes e o trabalho de Noth, Bright descreve a estrutura da liga tribal de Israel centrada em torno de um santuário comum, “o trono invisível de Javé” em Silo, um precursor da “tenda santuário de Davi”. Bright demonstra que a ordem tribal de Israel reflete o ethos da tradição da aliança registrado de maneira indelével em Josué 24. Bright ao admitir a antiguidade da aliança mosaica, vai contra uma grande quantidade de pesquisadores alemães que sustentam ser a aliança mosaica uma invenção tardia.

Brigth viu em Samuel a figura que lutou para manter viva a antiga tradição. Sob a monarquia de Davi, Israel deixa de ser uma mera nação de “pequenos fazendeiros”, mas passa a ser um império organizado sob a coroa. Na monarquia ocorreu a união da comunidade secular e a religiosa sob a coroa. O império de Davi e Salomão transformou a sociedade de aliança tribal baseadas em laços de parentescos num poder político centralizado. Para Bright a aliança davídica e sinaítica se choca. A unidade histórica de Israel segundo Bright se deve a sua fé, e não em sua etnicidade.

Os profetas clássicos do século VIII é visto por Bright como reformadores, que tinham como missão despertar a memória da aliança sinaítica largamente esquecida. Os profetas apontavam para uma nova visão de vida, diante de Deus, que Israel e Judá não puderam sustentar com a monarquia.

Com Esdras e Neemias, a ordem civil teve de ser estabelecida primeiro diante de Esdras, que, com uma cópia da lei, pode revigorar a comunidade religiosa. Esdras foi um, Moisés redivivus. A Torá ajudou a formar nova comunidade a partir das cinzas da humilhação e da derrota nacional.

Em seu epílogo “Em direção a plenitude dos tempos” Bright introduz suas observações finais, e reconhece que tanto judeu quanto cristãos figuram de modo decisivo no drama da redenção que começa com a história de Israel.

Ao ler a História de Israel, de John Bright o leitor tem a certeza que leu muito mais que uma história de Israel, leu também uma teologia da história de Israel. Por isso foi duramente criticado. Mas quando ele nos diz que a história de Israel é marcada por sua fé (e isso envolve conceitos teológicos), ele tem razão. Como separar a história de Israel de sua fé? O que distingue Israel das outras nações não é justamente a sua religião, e como ela se relaciona com seu povo? Entendo que Bright nesse ponto conseguiu dar um passo a frente em relação às outras obras sobre a história de Israel. E por isso merece ser louvado e não criticado.

Buscando manter equilíbrio entre a erudição cientifica e a autoridade bíblica Bright não pode ser “taxado” de liberal e muito menos de conservador, mas se encaixa em algum ponto entre estes dois extremos. O pêndulo neste caso vai pender mais para o lado que o leitor achar conveniente, pois em determinados pontos se nota uma insistência por parte do autor em segurar as rédeas, e em outros não faz a mínimo esforço em segurar. Entendo ser este o motiva que Bright é criticado por alguns e louvado por outros.

A leitura de sua História de Israel é leitura obrigatória para os leitores da língua portuguesa interessados no assunto, pois ela se destaca pela erudição do autor e sua metodologia.